A premonição de “O condutor” em adaptação: “No silêncio da noite” e “Vinte e dois”

(Não leia este post se ainda não tiver lido “O condutor”, contém spoilers)

Edward Frederic Benson, mais conhecido com E.F. Benson, foi um romancista, biógrafo, memorialista e escritor de contos nascido em Berkshire, na Inglaterra. É lembrado principalmente por suas histórias de fantasma, e por uma em particular: “The Bus driver” (“O Condutor”).

No conto de 1906, o protagonista Hugh Grainger conta para o narrador que, em uma noite abafada de verão, viu uma carruagem fúnebre parada sob a janela do quarto onde estava passando a noite. Ela era conduzida por um homem vestido como condutor de diligência (antes do surgimento do ônibus motorizado essas carruagens, chamadas em inglês de bus ou horse-bus, faziam o mesmo serviço do ônibus atual, pegando e deixando passageiros em paradas estabelecidas). O condutor do veículo fantasma olha para Hugh e, apontando para o carro fúnebre vazio, lhe diz que tem lugar para mais um. Algum tempo depois, ao visitar o amigo, Hugh decide pegar uma diligência, e qual não é a sua surpresa ao ver que o condutor é exatamente o mesmo home de sua visão, que se aproxima dele e diz que “tem lugar para mais um.” Apavorado, Hugh se recusa a subir no veículo. Antes mesmo de chegar ao fim da rua, a diligência é atingida por um veículo motorizado que a destrói completamente.

O tema central da história de Benson aparece na coletânea “Famous Ghost Stories” (1944) de Bennett Cerf. Aqui a protagonista é uma jovem que tem a visão de um carro fúnebre parado na porta da casa onde está hospedada. O motorista lhe diz, como no conto de Benson, que tem lugar para mais um. Algum tempo depois, a jovem está fazendo compras em uma loja de departamentos, e decide entrar no elevador para descer até o térreo. O elevador está cheio, mas ascensorista diz que “tem lugar para mais um”. Ao perceber que o ascensorista tem o mesmo rosto do motorista do carro fúnebre de sua visão, a moça decide não entrar no elevador e descer pelas escadas. Assim que ela se afasta o elevador sofre uma pane e cai no fosso, matando todos os ocupantes.

A narrativa do “aviso do condutor/motorista” já ganhou um certo status de lenda, e chegou até a aparecer no site snopes.com, especializado em apurar a veracidade de lendas urbanas e boatos. Não é de se admirar, já que o tema da premonição fascina a maioria das pessoas. A ideia de que um pressentimento, uma visão ou um sonho podem revelar o futuro e até evitar uma tragédia nos oferece um certo conforto, a crença de que existe um “plano” (seja do universo ou de Deus) para nós, e que as coisas acontecem por uma razão. Por isso somos fascinados com previsões, sinais e presságios. Um universo no qual as coisas acontecem por acontecer, sem nenhum sentido ou objetivo, de certo modo, é mais assustador para nós do que visões do sobrenatural.

Por isso “O condutor” continua a ser um conto fascinante, tanto que volta e meia algum filme, livro ou programa de tv acaba revisitando seu tema central. No entanto, não houveram tantas adaptações dele para a telinha ou a telona. Das que existem, as mais famosas são o filme britânico “Na Solidão da Noite” (Dead of Night) de 1945 e o episódio da segunda temporada série de televisão norte-americana “Além da Imaginação” de 1961, intitulado “Vinte e dois”

“Na Solidão da Noite”, é uma antologia de terror, produzida em 1945 pelo estúdio Ealing (que produziu filmes como “Todo Mundo mundo quase morto”. “O Jogo da Imitação” e “A teoria de tudo”) e digirida por Alberto Cavalcanti, Charles Crichton, Basil Dearden e Robert Hamer. “Na solidão da noite” foi feito em uma época na qual a produção de filmes de terror no Reino Unido estava proibida por causa da guerra, o que fez com que o filme se tornasse uma referência do gênero e uma influência sobre os todos filmes de terror britânicos que vieram depois.

A história começa quando Walter Craig chega na casa de campo de Elliot Folley. Craig é um arquiteto que foi chamado por Folley para avaliar a possibilidade de fazer uma renovação no imóvel. Ao chegar, para a sua surpresa, ele encontra um grupo de convidados. Folley, então, revela que não conhece nenhum dos presentes, mas que já viu todos em um sonho recorrente. Craig. que tem o dom de pressentir coisas, acredita que algo horrível está para acontecer. O outros convidados tentam acalmá-lo enquanto se divertem contando histórias assustadoras ou estranhas que aconteceram com eles ou das quais ouviram falar. Cada história corresponde a um segmento do filme. A primeira é uma adaptação quase direta de “O condutor”, só que com uma mudança de época e cenário. Hugh Grainger agora é um piloto de corridas que tem uma visão de uma carruagem fúnebre parada em baixo da janela de um hospital.

“Dead of night” é um terror daqueles “classicões”, que apostam mais no clima e ambientação do que em sustos escancarados. Ele dá a sensação de estar em um grupo de amigos ouvindo histórias de fantasma no meio da noite. Cada segmento tem seu próprio sabor, e um conceito diferente, o que não significa que o todo não seja coeso e bem amarrado. O segmento de Hugh Grainger é, provavelmente, o mais próximo que existe de uma adaptação para cinema de “O Condutor”, e faz jus ao material.

Mas tenho que admitir que minha adaptação favorita do conto de Benson vem da clássica série americana “Além da Imaginação” (“The Twilight Zone”) de 1961. É o episódio 17 da segunda temporada, intitulado “Vinte e dois” (“Twenty-Two”).

Não dá para dizer que “Vinte e dois” é uma adaptação direta de “O Condutor”, pois Rod Serling, que criou a série e escreveu muitos episódios, se inspirou na da anedota da moça e do elevador de “Famous Ghost stories”. No entanto, o resultado final foi uma narrativa própria. “Vinte e dois” não muda radicalmente a estrutura do relato original, mas acrescenta elementos novos suficientes para que deixar apreensivos até aqueles que já leram o conto de Benson e sabem o que esperar do desfecho.

Em “Vinte e dois”, a dançarina Liz Powell está internada para se tratar de um quadro de estafa devido ao excesso de trabalho e estresse. Durante a sua estada no hospital, ela tem um pesadelo recorrente: Ela acorda em sua cama de hospital ouvindo o tique-taque do relógio. Ao levantar, derruba um copo d’água da mesinha de cabeceira, e ouve passos no corredor. Ela sai do quarto e segue os passos até o subsolo e acaba encontrando o necrotério, na sala 22. Uma enfermeira aparece e diz “Tem lugar para mais um, querida”. Liz grita, corre para o elevador e o sonho acaba.

Rod Serling acerta em cheio ao aprofundar a narrativa, explorando o medo da protagonista, e suas tentativas de convencer Barney, seu agente, e o médico de que os pesadelos são reais. Ela até tenta mudar os elementos do sonho para ver ser consegue quebrar o ciclo de repetições e evitar que algo de ruim aconteça. O pânico crescente de Liz, os pequenos elementos visuais e os diálogos dão ao espectador uma sensação de angústia, como se soubéssemos, assim como Liz, que um evento trágico é iminente, mas não sabemos exatamente qual. Os fãs dos slashers dos anos 90 provavelmente sentirão um certo déjà-vu ao assistir “Vinte e dois”. O final do episódio com certeza vai lembrar bastante o filme “Premonição”(que, aliás, também pegou alguma coisa de emprestado do conto de E.F. Benson).

Aliás o sucesso de “Premonição”, e a quantidade de sequencias que ele gerou, em uma época que ainda não se falava em franquias cinematográficas, é uma prova de que o tema da premonição segue fascinante. Desde as profecias de Nostradamus, que voltam a ser discutidas sempre que algum evento trágico ou historicamente relevante acontece, até o nosso horóscopo de cada dia, o ser humano continua tentando prever o futuro na esperança de evitar alguma catástrofe ou até mesmo a própria morte.

E.F. Benson conseguiu, nas poucas páginas de seu conto, destilar essa ansiedade e medo da morte e do desconhecido, e esta necessidade de acreditar que o futuro poder ser vislumbrado de um maneira muito eficaz. A narrativa de Hugh Grainger é simples e quase prosaica, mas segue sendo muito universal. Afinal todos nós conhecemos alguém ou já ouvimos falar sobre alguém que escapou da morte graças a um pressentimento.

Quem sabe, caro leitor, isso já não aconteceu com você mesmo?

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