O romance de uns certos vestidos velhos – Henry James

(The Romance of Certain Old Clothes)

Henry james

“The Romance of certain old clothes” foi escrito em Fevereiro de 1868 e publicado na revista americana The Atlantic Monthly. Em publicações posteriores autor fez diversas revisões, que incluíram a mudança do sobrenome da família (de Wingrave para Willoughby) e também do nome da irmã mais velha (que, originalmente, se chamava Rosalind). Para esta tradução usei a versão encontrada na Coletânea “The Passionate Pilgrim and other tales” de 1875, publicada em Boston e já revisada por Henry James.

Este conto inspirou o episódio 8, “The Romance of Certain Old Clothes” (“Roupas e Joias” em português). da série da Netflix “A Maldição da Mansão Bly” mas com algumas adaptações, como a inversão dos papéis das irmãs, e também a mudança do local e época em que se passa a história, dos EUA do século XVIII (antes da Revolução Americana e da Independência) para a Inglaterra do século XVII. O sobrenome original das protagonistas (Wingrave) também foi usado como sobrenome para alguns personagens da série.

Por volta de meados do século XVIII, vivia na província de Massachusetts uma dama viúva, mãe de três filhos. Seu nome não importa: tomarei a liberdade de chamá-la de Sra. Willoughby, um sobrenome, como o dela, altamente respeitável. Ela ficara viúva após uns seis anos de casamento, e se dedicou inteiramente a cuidar dos filhos. Os jovens cresceram e se tornaram a recompensa de seu zelo e realização de suas mais amorosas esperanças.

O primeiro foi um menino, a quem ela deu o nome de Bernard, em homenagem ao pai. Depois vieram as meninas, nascidas com um intervalo de três anos. A beleza era um traço comum da família, e o jovem trio não deixou de fazer honra à tradição. O rapaz tinha a pele clara e bem corada, e a disposição atlética que na época (e até hoje) indicavam um genuíno sangue inglês. Era um jovem sincero e carinhoso, filho zeloso, irmão protetor e amigo leal. Não era, porém, muito inteligente; a esperteza da família fora dividia em maiores porções entre suas irmãs. O falecido Sr. Willoughby tinha sido um grande leitor de Shakespeare, numa época em que essa preferência era um sinal de um gosto mais progressista que nos dias de hoje, e em uma comunidade na qual era preciso muita coragem para apreciar o teatro mesmo que discretamente. Ele fizera questão de registrar sua admiração pelo grande bardo batizando suas filhas com nomes tirados de suas peças favoritas. À mais velha ele dera o nome romântico da Viola; e à caçula dera o nome mais sério de Perdita, em memória de uma filha que nascera entre as duas, mas que vivera apenas algumas semanas.i

Quando Bernard Willoughby completou dezesseis anos, sua mãe tomou coragem e preparou-se para realizar o último desejo do marido. Ele lhe pedira com veemência que, ao chegar à idade apropriada, o filho fosse mandado para a Inglaterra a fim de completar sua educação na Universidade de Oxford, onde ele próprio estudara. A Sra. Willoughby acreditava que nada em nenhum dos hemisférios do planeta estava à altura ao filho, mas também era apegada àquela antiga tradição da submissão matrimonial feminina. Então engoliu os soluços, arrumou o baú do rapaz, separou seu seu traje provinciano simples e o mandou para o outro lado do mar. Bernard ingressou na mesma universidade de seu pai, e passou cinco anos na Inglaterra, sem receber grandes honras, na verdade, mas com muito contentamento e sem nenhuma desonra. Ao deixar a universidade, fez uma viagem para a França. Com vinte e três anos de idade, embarcou de volta para casa, preparado para encontrar na pobre Nova Inglaterra (que era muito pequena naquela época) um lugar absolutamente intolerável para se viver.

No entanto, muito havia mudado em casa, assim como nas opiniões do Sr. Bernard. Ele achou a casa de sua mãe bastante habitável, e suas irmãs haviam crescido e se tornado duas jovens senhoritas muito encantadoras, com qualidades e graças à altura das moças da Grã-Bretanha, e uma certa gentil brusquerie e petulância que, se não chegavam exatamente a ser qualidades, eram, por certo, um encanto a mais. Em uma conversa particular, Bernard garantiu à mãe que suas irmãs não ficavam a dever à qualquer das jovens aristocratas da Inglaterra. Ao ouvir isso, a Sra. Willoughby, obviamente, disse às filhas que deveriam se orgulhar.

Essa era a opinião de Bernard e, em grau dez vezes maior, era também a opinião do Sr. Arthur Lloyd. Este cavalheiro, apresso-me a acrescentar, era colega de faculdade do Sr. Bernard. Era um jovem de família respeitável, de boa índole e bela herança; a mais recente parcela da qual ele pretendia investir no comércio na colônia americana. Arthur e Bernard eram amigos íntimos; haviam cruzado o oceano juntos, e o jovem americano não perdeu tempo para apresentá-lo em casa de sua mãe, onde ele causou uma impressão tão boa quanto a que recebera, como acabo de mencionar.

Nesta época, as duas irmãs tinham todo o frescor da flor da juventude; e cada uma usava esse brilho natural da maneira que melhor lhe caía, claro. As duas eram igualmente diferentes em aparência e caráter. Viola, a mais velha, —então com vinte e dois anos— era alta e alva, com calmos olhos cinzentos e madeixas ruivas; tinha uma semelhança muito tênue com a Viola da comédia de Shakespeare, que imagino ser uma morena (se o leitor me permite), mas era igualmente uma criatura esguia e etérea, cheia das emoções mais suaves e delicadas. A Srta. Willoughby, com sua pele cândida, seus braços bem feitos, sua altura majestosa e fala tranquila, não fora feita para aventuras. Ela nunca vestiria uma jaqueta e calças de homem; e, de fato, sendo uma beldade bem curvilínea, talvez fosse melhor que não tentasse. Perdita também poderia muito bem ter trocado a doce melancolia de seu nome por algo mais em consonância com seu aspecto e personalidade. Era uma morena bem-disposta, de estatura baixa, pés ligeiros e olhos castanho-escuros e vívidos. Fora desde a infância uma criatura cheia de sorrisos e de alegria; e, ao conversar, longe de fazer seu interlocutor esperar uma resposta, como sua bela irmã costumava fazer (enquanto mirava com seus frios olhos cinzentos), Perdita oferecia-lhe uma variedade de meia dúzia de respostas, em sucessivas sugestões, antes mesmo que se tivesse terminado pergunta.

As moças ficaram muito felizes em rever o irmão; e logo descobriram que podiam manter uma reserva de boa vontade para com o amigo dele. Entre seus jovens amigos e vizinhos, a belle jeunesse da colônia, havia muitas companhias excelentes, vários rapazes juravam-lhes devoção e outros tinham a reputação universal de encantadores e conquistadores. Mas as bem cultivadas artes da galanteria um tanto turbulenta daqueles jovens e honestos colonos foram completamente eclipsadas pela boa aparência, as roupas finas, a cortesia meticulosa, a elegância perfeita e a imensa educação do Sr. Arthur Lloyd. Ele era, de fato, incomparável; um jovem honesto, resoluto, inteligente, rico em libras esterlinas, saúde e perspectivas confortáveis, e que também tinha um modesto capital de afetos não investidos. Era um cavalheiro, tinha um rosto bonito, era bem estudado e bem viajado; falava francês, tocava flauta, e recitava versos com muito bom gosto.

Havia uma dúzia de motivos pelos quais a Srta. Willoughby e sua irmã teriam toda a razão de ser exigentes na escolha de suas companhias masculinas. A imaginação da mulher é especialmente adaptada às várias pequenas convenções e mistérios de uma sociedade refinada. Pelas conversas do Sr. Lloyd, nossas donzelas da Nova Inglaterra descobriram muito mais sobre os costumes, modos e modas nas capitais europeias do que ele poderia imaginar. Era maravilhoso sentar e ouvir Arthur e Bernard falando sobre as pessoas elegantes e coisas refinadas que tinham visto. Todos se reuniam em volta da lareira após o chá, na pequena sala decorada com lambris de madeira, –bastante inocentes, então, de qualquer intenção que não fosse, de fato, economizar papel de correspondência e envios de tapeçarias– para que os dois rapazes pudessem rememorar suas aventuras, cada qual sentado junto a uma ponta do tapete. Muitas vezes, Viola e Perdita queriam saber exatamente de que aventura eles falavam, onde acontecera, quem estava lá, e o que as damas vestiam; mas naqueles dias não era permitido que uma jovem bem-educada interrompesse uma conversa ou fizesse muitas perguntas. Assim, as pobres meninas tinham que ficar ali sentadas, vibrando de curiosidade, e se contentar com as perguntas mais sutis e discretas da mãe.

Arthur Lloyd não demorou a descobrir que ambas eram boas moças, mas levou algum tempo para decidir qual delas tinha mais encantos. Ele tinha uma forte intuição —uma emoção de natureza alegre demais para ser chamada de pressentimento— de que estava destinado a se casar com uma das duas; no entanto, não conseguia decidir qual era sua preferência, e para tal objetivo uma preferência era certamente algo indispensável, uma vez que Lloyd era um homem galante demais para deixar escolha ao acaso e perder o celestial prazer de se apaixonar. Ele resolveu levar as coisas com calma e deixar o coração falar. Enquanto isso, estava em uma situação muito agradável. A Sra. Willoughby mostrava uma indiferença digna às suas “intenções”: não descuidava da honra das filhas, nem apresentava aquela ânsia odiosa de obrigá-lo a se comprometer. Um afã que, em sua qualidade de jovem de posses, Lloyd tinha encontrado frequentemente nas veneráveis senhoras de sua terra natal. Quanto a Bernard, tudo o que ele esperava do amigo era que respeitasse as moças como se fossem suas irmãs; e das meninas que, por mais que cada uma desejasse secretamente o monopólio das atenções do Sr. Lloyd, mantivessem um comportamento decente, modesto e agradável.

Em relação uma à outra, entretanto, as irmãs estavam um pouco mais na ofensiva. Eram boas amigas, mas não demoraria para que as sementes do ciúme germinassem e dessem frutos. As moças pressentiram que tais sementes haviam sido plantadas no dia em que o Sr. Lloyd pisou em sua casa. Cada qual decidiu que, se fosse desprezada, suportaria sua dor em silêncio, e ninguém saberia de nada; pois, por mais apaixonadas que estivessem, também tinham seu orgulho. Em segredo, no entanto, cada irmã rezava para que a honra recaísse sobre si. Precisaram de muita paciência, autocontrole e dissimulação. Naquela época, uma jovem de linhagem decente não podia fazer nenhum avanço, e devia evitar responder aos avanços que lhe fossem feitos. Esperava-se que ela ficasse quieta em sua cadeira com os olhos no tapete, observando o local onde o lenço místico deveria cair. O pobre Arthur Lloyd foi obrigado a fazer a corte na pequena sala de lambris, diante dos olhos da Sra. Willoughby, de Bernard e daquela que seria sua futura cunhada. Mas a juventude e o amor são tão astutos que uma centena de sinais e mensagens podiam viajar de um lado para outro do aposento sem que nenhum dos três pares de olhos vigilantes os detectasse.

As irmãs dividiam um quarto e uma cama e, nas longas horas que passavam juntas, vigiavam uma à outra. O fato de saberem que estavam sendo observadas, entretanto, não fazia a menor diferença nas pequenas ocupações individuais de cada uma, nem nas várias tarefas domésticas que desempenhavam juntas. Nenhuma das duas estremecia nem se abalava com o ataque silencioso do olhar da outra. A única mudança aparente em seus hábitos era que conversavam menos. Era impossível conversar sobre o Sr. Lloyd, e seria ridículo falar sobre qualquer outra coisa. Por acordo tácito, começaram a usar todos os seus melhores vestidos e a criar pequenos acessórios e expedientes de vaidade, na forma de fitas, penteados e tecidos plissados, sempre de acordo com seu indubitável recato. Da mesma maneira silenciosa, chegaram a um pacto de sinceridade sobre esses assuntos delicados.

“Fica melhor assim?” Viola perguntava, amarrando um arranjo de fitas no decote e virando-se do espelho para a irmã. Perdita erguia os olhos de seus trabalhos e examinava com seriedade a decoração. “Acho melhor dar mais uma volta”, dizia então, com grande solenidade, olhando fixamente para a irmã com olhos que acrescentavam, “juro pela minha honra!” Portanto, estavam sempre costurando e aparando suas anáguas, passando suas musselinas e planejando toiletes, pomadas e cosméticos, como as damas da casa de Vigário de Wakefield.ii

Passaram-se uns três ou quatro meses. Já era solstício de inverno, e Viola sabia que, se Perdita não tinha mais razões para se gabar que ela, também não oferecia muito a temer como rival. Porém, àquela altura, Perdita, a encantadora Perdita, sabia que seu segredo havia se tornado dez vezes mais precioso que o da irmã.

Uma certa tarde, a Srta. Willoughby estava sentada sozinha diante do espelho, penteando os longos cabelos. Estava ficando escuro demais para ver; então ela acendeu as duas velas dos encaixes na moldura do espelho e, em seguida, foi até a janela para fechar as cortinas. Era uma tarde cinzenta de Dezembro; a paisagem estava nua e desolada, e o céu carregado de nuvens que pressagiavam neve. Nos fundos do comprido jardim sobre o qual sua janela se abria, havia uma parede com uma pequena porta traseira que dava para um beco. Viola podia ver, vagamente, na escuridão que se aprofundava, que a porta estava entreaberta, movendo-se para lá e para cá como fosse sacudida por alguém na rua. Sem dúvida era uma das criadas. Mas, quando estava prestes a soltar a cortina, Viola viu a irmã entrar no jardim e se caminhar apressada pelo caminho em direção à casa. Fechou a cortina, exceto por uma pequena abertura por onde podia olhar. Perdita parecia estar examinando algo em sua mão, segurando-o perto dos olhos enquanto andava. Ao chegar perto de casa, ela parou por um momento, olhou fixamente para o objeto e o pressionou contra os lábios.

A pobre Viola voltou lentamente para a sua cadeira e sentou-se diante do espelho, no qual, se o tivesse olhado com menos abstração, teria visto suas belas feições tristemente desfiguradas pelo ciúme. Um momento depois, a porta se abriu atrás dela, e a irmã entrou, sem fôlego, com as bochechas enrubescidas pelo ar frio.

Perdita levou um susto.

—Ah, pensei que estava com mamãe. —As senhoras iam a um chá, e nessas ocasiões era costume uma das meninas ajudar a mãe a se arrumar. Em vez de entrar, Perdita ficou parada à porta.

—Entre, entre. Ainda temos mais de uma hora. Eu queria muito que você me ajudasse com meu cabelo.—Viola sabia que a irmã queria se retirar e podia ver no espelho todos os seus movimentos.

—Só me ajude com meu cabelo— insistiu —que depois eu vou ajudar a mamãe.

Perdita se aproximou com relutância e pegou a escova. Viu os olhos da irmã, no espelho, seguindo fixamente suas mãos. Ela não tinha passado a escova nem três vezes, quando Viola bateu em sua mão esquerda e saltou da cadeira.

—De quem é esse anel?—Viola vociferou, puxando a mão da irmã para perto da luz.

No terceiro dedo da jovem brilhava um anel de ouro, adornado com um par de pequenos rubis. Perdita sentiu que não precisava mais guardar segredo, que devia ser corajosa em sua confissão.

—É meu—disse com orgulho.

—Quem te deu?— berrou a outra.

Perdita hesitou por um momento.

—Foi o Sr. Lloyd.

—E o Sr. Lloyd ficou generoso, assim de repente?

—Ah, não— falou Perdita com determinação —não foi de repente. Ele me ofereceu esse anel há um mês.

—E você precisou de um mês para aceitar isso?— disse Viola olhando a pequena ninharia; que na verdade não era particularmente elegante, embora fosse o melhor que o joalheiro da Província podia fazer. —Se fosse eu, não aceitaria em menos de dois.

—Não é o anel,— disse Perdita, —é o que ele significa!

—Ele significa você não é uma moça direita!— ralhou Viola. —Diga, a mamãe sabe de sua conduta? E Bernard?

—Minha mãe aprovou minha ‘conduta’, como você diz. O Sr. Lloyd pediu minha mão e mamãe concedeu. Você preferiria que ele tivesse pedido a sua, irmã?

Viola olhou longamente para a irmã, cheia de tristeza e de uma inveja ardente. Então baixou os cílios sobre as bochechas pálidas e se virou. Perdita sabia que aquela não tinha sido uma cena bonita; mas era tudo culpa da irmã. Porém, a mais velha deixou seu orgulho de lado e se voltou para ela novamente.

—Você tem meus melhores votos.— disse, com uma pequena reverência. —Desejo-lhe toda a felicidade e uma vida muito longa.

Perdita deu uma risada amarga.

—Não fale assim.— respondeu —Prefiro que me amaldiçoe. Ora, irmã, ele não poderia se casar as duas.

—Desejo-lhe muitas alegrias,— continuou Viola mecanicamente, voltando a sentar-se em frente ao espelho — uma vida muito longa e muitos filhos.

Havia algo no tom daquelas palavras que não agradou a Perdita.

—Pode me dar um ano, pelo menos? —disse ela. —Em um ano eu posso ter um menino, ou pelo menos uma menina. Me passe sua escova de novo que eu faço o seu cabelo.

—Obrigada,— disse Viola. — mas é melhor que você vá ajudar a mamãe. Não é apropriado que uma jovem com um noivo prometido sirva uma moça sem nenhum.

—Não,— disse Perdita, bem-humorada, —eu tenho Arthur para me servir. Você precisa do meus serviços mais do que eu preciso dos seus.

Mas Viola fez um sinal para que ela se afastasse e Perdita saiu do quarto.

Depois que ela se foi, a pobre Viola caiu de joelhos diante da penteadeira, enterrou a cabeça nos braços e derramou uma torrente de lágrimas e soluços. Ela se sentiu muito melhor depois de extravasar sua tristeza. Quando a Perdita voltou, Viola insistiu em ajudá-la a se arrumar e a convenceu a vestir o que tinha de mais bonito. Ofereceu-lhe seu melhor corte de renda, e não aceitou não como resposta, dizendo que, agora que iria ela se casar, deveria fazer o melhor para se mostrar digna de ser a escolhida de seu amado. Viola cumpriu esses encargos em severo silêncio; em si, tais gestos eram como o cumprimento de um dever, como um pedido de desculpas e uma expiação; depois deles ela nunca mais fez nenhum outro.

Assim que Lloyd foi recebido pela família como um pretendente aceito, só faltava escolher o dia do casamento. Decidiram pelo mês de abril seguinte, e durante os meses até a data foram feitos os preparativos. Lloyd, por sua vez, estava ocupado com seus acordos comerciais e com o estabelecimento de correspondência com a grande casa mercantil à qual se vinculara na Inglaterra. Ele não era, portanto, um visitante tão frequente na casa da Sra. Willoughby como tinha sido durante os meses de timidez e indecisão, assim a pobre Viola sofreu menos do que esperava ao ver o carinho mútuo dos dois apaixonados. No que tangia à sua futura cunhada, Lloyd tinha a consciência perfeitamente limpa. Nunca houvera uma partícula sequer de sentimento entre eles, e ele não tinha a menor suspeita de que ela cobiçasse qualquer coisa além de seu respeito fraternal. Ele estava bastante à vontade; a vida tão bem prometida, tanto doméstica quanto financeiramente. As nuvens sombrias da Revoluçãoiii estavam ainda vinte anos além do horizonte, e a ideia de que sua felicidade conjugal poderia um dia tomar um rumo trágico era absurda, uma blasfêmia digna de repreensão.

Enquanto isso, na casa da Sra. Willoughby, havia mais farfalhar de sedas, estalar de tesouras e correr de agulhas do que nunca antes. A Sra. Willoughby havia decidido que sua filha ia levar de casa os trajes mais elegantes que seu dinheiro pudesse comprar e que a Colônia pudesse fornecer. Todas as mulheres respeitáveis do condado foram convocadas para que seu bom gosto combinado julgasse o guarda-roupa de Perdita. A situação de Viola, naquele momento, certamente não era invejada. A pobre moça tinha um amor exagerado por roupas e o melhor gosto do mundo, como sua irmã bem sabia. Viola era alta, imponente e arrebatadora, mas foi obrigada a ajudar carregar os cortes de brocado engomado e pilhas de rendas pesadas do enxoval da futura esposa de um homem rico. Viola sentou-se indiferente, com os belos braços cruzados e a cabeça virada para o lado, enquanto a mãe, a irmã e as veneráveis mulheres já mencionadas se preocupavam e se maravilhavam com os tecidos, oprimidas pela variedade de opções. Um dia, chegou uma linda peça de seda branca, brocada de azul celeste e prata, enviada pelo próprio noivo, —não se achava estranho naquela época que o marido eleito contribuísse para o enxoval da noiva. Perdita não conseguia imaginar um destino que honrasse suficientemente o esplendor do material.

—Azul é a sua cor, irmã, não a minha—disse ela, com olhos suplicantes. —É uma pena que não seja para você. Você saberia o que fazer com ele.

Viola levantou-se de seu lugar e olhou para o grande tecido brilhante estendido nas costas de uma cadeira. Então ela o pegou nas mãos e o sentiu — com amor, como Perdita percebeu— e se virou para o espelho com ele. Ela o deixou rolar até seus pés e jogou a outra ponta sobre o ombro, prendendo-o em volta da cintura com o braço branco nu até o cotovelo. Jogou a cabeça para trás pata olhar sua própria imagem, e uma mecha pendente de seu cabelo ruivo caiu sobre a linda superfície da seda. Era uma imagem deslumbrante. As mulheres que as rodeavam murmuraram um pequeno “Ah!” de admiração.

—Sim, é verdade.— disse Viola baixinho — Azul é a minha cor.

Perdita percebeu que imaginação da irmã fora estimulada e que agora ela iria começar a ajudar e a resolver todos os seus enigmas de seda. E, de fato, Viola se comportou muito bem, como Perdita, sabedora do amor insaciável da irmã por modismos, podia confirmar. Inúmeros metros de seda brilhante e cetim, de musselina, veludo e renda, passaram por suas mãos astutas, sem que uma palavra de inveja saísse de seus lábios. Graças à sua diligência, quando chegou o dia do casamento, Perdita estava mais preparada para abraçar as vaidades da vida do que qualquer outra jovem e trêmula noiva a receber a bênção sacramental de um sacerdote da Nova Inglaterra.

Fora combinado que o jovem casal deveria viajar e passar os primeiros dias de sua vida conjugal na casa de campo de um cavalheiro inglês —um homem de alta posição e amigo muito gentil de Lloyd. Como era solteiro, ele se declarou encantado em se retirar da residência e deixá-los por uma semana com seus assuntos e seus arrulhares. Depois da cerimônia na igreja — realizada por um pároco inglês —a jovem Sra. Lloyd voltou correndo para a casa de sua mãe para trocar seu traje de casamento por um vestido de montaria. Viola a ajudou a se trocar, no velho quartinho onde haviam convivido como irmãs amorosas. Perdita, então, correu para se despedir da mãe, deixando Viola para trás. A separação foi curta; os cavalos já estavam à porta e Artur impaciente para partir. Mas Viola não a seguiu e Perdita voltou para o quarto, abrindo a porta abruptamente.

Viola, como sempre, estava diante do espelho, mas o que ela estava fazendo deixou a irmã paralizada, pasma. Ela tinha colocado o véu e a grinalda de casamento de Perdita, e pendurara no pescoço o pesado colar de pérolas que ela recebera de seu marido como presente de casamento. Os objetos tinham sido guardados às pressas, para esperar a o retorno da dona de sua viagem ao campo. Paramentada com aqueles adereços exagerados, Viola estava parada em frente ao espelho, mergulhando um longo olhar em suas profundezas, e só Deus sabia que visões ousadas seus olhos contemplavam. Perdita ficou horrorizada. Era a imagem horrível da antiga rivalidade voltando à vida. Ela deu um passo em direção à irmã, como se fosse tirar dela o véu e as flores. Mas ao ver seus olhos no espelho, parou.

—Adeus, Viola.— disse ela.—Você poderia pelo menos ter esperado até que eu saísse de casa.

E saiu correndo do quarto.

O Sr. Lloyd comprou uma casa em Boston que, para o gosto da época, era considerada uma maravilha de elegância e conforto; e logo se estabeleceu com sua jovem esposa. Estava, portanto, separado por uma distância de uns trinta quilômetros da residência de sua sogra. Naquela época de estradas e meios de transporte primitivos, trinta quilômetros eram quase como 150 quilômetros nos dias de hoje, então a Sra. Willoughby pouco viu a filha durante os primeiros doze meses de casamento. A mãe sofreu muito com a ausência; e sua aflição só aumentou pelo fato de Viola ter caído em um estado de espírito terrivelmente deprimido, tão intenso que ela não se animaria senão com uma completa mudança de ares e circunstâncias.

O leitor já deve suspeitar a verdadeira causa do desânimo da jovem. A Sra. Willoughby com seus mexericos, entretanto, acreditava que tais queixumes eram coisa puramente física e não duvidava que Viola obteria alívio com a mudança de ares que acabamos de mencionar. Consequentemente, a mãe propôs, em nome da filha, uma visita a certos parentes do lado paterno, estabelecidos em Nova York, que há muito se queixavam de que viam tão pouco seus primos da Nova Inglaterra. Viola foi despachada para morar aquelas pessoas bondosas sob uma escolta adequada, e permaneceu com eles por vários meses. Nesse meio tempo, o irmão, Bernard, que havia começado a praticar a advocacia, decidiu casar-se. Viola voltou para o casamento, aparentemente curada de seu coração partido, com as bochechas coradas como rosas sobre a pele branca como lírios e um sorriso orgulhoso nos lábios. Arthur Lloyd veio de Boston para o casamento do cunhado, mas sem sua esposa, que esperava em breve dar à luz a um herdeiro.

Fazia quase um ano que Viola não o via. Ela estava feliz — mal sabia por quê — que Perdita tivesse ficado em casa. Arthur parecia feliz, mas estava mais sério e solene do que antes do casamento. Ela achou que ele parecia mais “interessante” — pois, embora a palavra em seu sentido moderno não tivesse sido inventada, podemos ter certeza de que a ideia já existia. A verdade é que ele estava simplesmente preocupado com a condição da esposa. No entanto, de forma alguma ele deixou de observar a beleza e o esplendor de Viola, e como ela ofuscou a pobre noivinha. A mesada que Perdita recebia para comprar vestidos fora transferida para a irmã, e se somara à dela transformando-se em uma conta prodigiosa.

Na manhã seguinte ao casamento, Lloyd mandou colocar uma sela de senhora no cavalo do criado que o acompanhara e saiu com a jovem para um passeio. Era uma manhã clara e limpa de janeiro; o solo estava seco e duro, e os cavalos em boas condições — para não falar de Viola, encantadora com seu chapéu de pluma e seu casaco de montaria azul escuro, com detalhes em pele. Cavalgaram toda a manhã, perderam-se e foram obrigados a parar para comer em uma fazenda. O crepúsculo precoce do inverno já havia caído quando voltaram para casa. A Sra. Willoughby os recebeu com uma expressão carrancuda. Um mensageiro tinha chegado ao meio-dia, enviado pela Sra. Lloyd que estava começando a sentir as dores e desejava o retorno imediato do marido. O jovem, ao pensar que havia perdido várias horas e que, pelo tanto que cavalgara já poderia estar com sua esposa, proferiu um juramento veemente. Sem nem consentir em ficar para o jantar, ele montou no cavalo do mensageiro, e partiu a galope.

Chegou em casa à meia-noite. Sua esposa havia dado à luz uma menina.

—Ah, por que você não estava comigo?— ela perguntou quando ele veio para o lado dela.

—Eu estava fora de casa quando o mensageiro chegou. Estava com Viola.— disse Lloyd, inocentemente.

A Sra. Lloyd soltou um pequeno gemido e se virou. Mas ela continuou a se recuperar e, por uma semana, sua melhora foi contínua. Finalmente, porém, por alguma indiscrição em sua dieta ou por ter se exposto a algo, percebeu-se que a pobre dama começou a piorar rapidamente. Lloyd estava desesperado.

Logo, ficou evidente que ela estava para dar seu último suspiro. A Sra. Lloyd percebeu que seu fim se aproximava e declarou que estava em paz com a morte. No terceiro dia de piora, disse ao marido que sentia que não passaria daquela noite. Dispensou seus servos e também pediu que sua mãe—a sra. Willoughby tinha chegado no dia anterior— se retirasse. Colocou a filhinha na cama junto de si, e se deitou de lado, com a criança aninhada contra o peito, segurando a mão do marido. A lamparina estava escondida atrás das cortinas pesadas da cama, mas o quarto estava iluminado com o brilho vermelho da lenha queimando na imensa lareira.

—Parece estranho morrer junto ao fogo, assim.— disse a jovem, tentando sorrir debilmente.—Se eu tivesse um pouco desse fogo em minhas veias! Mas eu dei tudo para acender esta pequena centelha de mortalidade.—E seu olhar caiu sobre a filha.

Em seguida, ela lançou ao marido um olhar longo e penetrante. O último sentimento que persistia em seu coração era a desconfiança. Ela ainda não se recuperara do choque que Arthur lhe causara ao lhe dizer que na hora de sua agonia ele estivera com Viola. Ela confiava em seu marido quase tanto quanto o amava; mas agora que estava prestes a ir-se para sempre, sentia um horror frio ao pensar na irmã. Sentia na alma que Viola nunca deixara de invejar sua boa sorte; e um ano de feliz tranquilidade não havia apagado de sua memória a imagem dela usando com suas vestes nupciais e sorrindo com cobiçado triunfo.

Agora que Arthur ia ficar sozinho, o que Viola não faria? Ela era linda, era envolvente; que artes ela não poderia usar, que impressão não poderia causar no coração melancólico do jovem? A Sra. Lloyd olhou para o marido em silêncio. Afinal, parecia difícil duvidar de sua lealdade. Seus belos olhos estavam cheios de lágrimas; seu rosto estava convulsionado pelo choro; o aperto de suas mãos era quente e apaixonado. Quão nobre ele parecia, quão terno, quão fiel e devotado! “Não”, pensou Perdita, “ele não é para Viola. Ele nunca vai me esquecer. Nem Viola gosta dele de verdade; ela se preocupa apenas com vaidades, adornos e joias.” E ela baixou os olhos para as mãos brancas, que a generosidade do marido havia coberto com anéis, e para os babados de renda que enfeitavam a orla de sua camisola. “Ela cobiça meus anéis e minhas rendas mais do que cobiça meu marido.”

Neste momento, o pensamento da ganância da irmã parecia lançar uma sombra escura entre ela e a figura indefesa de sua filha.

—Arthur,— disse ela—você deve tirar meus anéis. Não serei enterrada com eles. Um dia, minha filha vai usá-los. Meus anéis, minhas rendas e sedas. Hoje mandei trazer todos para vê-los. É um ótimo guarda-roupa; não existe outro igual na província. Posso dizer isso sem vaidade, agora que a vaidade já não me importa. Será uma bela herança para minha filha, quando ela crescer e se tornar moça. Há coisas nele que um homem não compra duas vezes, e se elas forem perdidas, você nunca mais encontrará iguais. Então, você as guardará bem. Algumas coisas eu deixei para Viola. As coloquei em nome de minha mãe. Eu dei a ela aquele tecido azul e prata; foi feito para ela. Usei-o apenas uma vez, e me deixou com aparência de doente. Mas o resto deve ser guardado de forma sagrada para esta pequena inocente. É uma sorte que ela pareça comigo; ela ficará bem em meus vestidos; tem os olhos da mãe. Você sabe que as modas voltam a cada vinte anos. Ela pode usar meus vestidos como estão. Eles ficarão ali quietos, esperando até que ela cresça o bastante para caber neles. Embrulhados em cânfora e pétalas de rosa eles vão manter suas cores na escuridão perfumada. Ela terá cabelo preto, então ela usará meu cetim vermelho. Você me promete, Arthur?

—Prometer o quê, querida?

—Prometa-me que vai guardar os vestidos velhos de sua pobre esposa.

—Você tem medo de que eu os venda?

—Não, mas tenho medo que se percam. Minha mãe os embrulhará adequadamente e você os colocará em um baú sob uma fechadura dupla. Lembra do baú grande no sótão, com as faixas de ferro? Cabe um sem fim de coisas nele. Você pode colocar tudo lá. Minha mãe e a governanta farão isso e lhe darão a chave. E você guardará a chave na sua escrivaninha e nunca a dará a ninguém além da sua filha. Você me promete?

—Ah, sim, eu prometo— disse Lloyd, intrigado com a intensidade com que sua esposa parecia se agarrar a essa ideia.

—Jura?— repetiu Perdita.

—Sim, eu juro.

—Bem, eu confio em você, eu confio em você.— disse a pobre dama, olhando-o com olhos nos quais, se ele suspeitasse de suas apreensões, Arthur poderia ter visto um apelo tanto quanto uma jura.

Lloyd suportou seu luto sóbria e honradamente. Um mês após a morte da esposa, certas circunstâncias de trabalho lhe ofereceram a oportunidade de viajar para a Inglaterra. Ele recebeu o ensejo como uma forma de se distrair de seus pensamentos tristonhos. Ficou fora quase um ano, durante o qual sua filha foi ternamente cuidada e amada pela avó. Ao retornar, ele abriu a casa novamente, e anunciou sua intenção de manter tudo do jeito que era quando a esposa estava viva. Logo, todos previram que ele casaria de novo, e houve pelo menos uma dúzia de candidatas. Não era, claro, culpa de nenhuma delas que seis meses se passassem sem que a previsão de casamento se cumprisse.

Durante esse tempo, ele ainda deixou sua filhinha aos cuidados da Sra. Willoughby, que o convencera que uma mudança súbita de residência em uma idade tão tenra seria perigosa para a saúde da pequena. Finalmente, porém, ele declarou que seu coração ansiava pela presença da filha e que ela deveria ser trazida para a cidade. Enviou seu cocheiro e a governanta para buscá-la. A Sra. Willoughby estava apavorada, com medo de que algo acontecesse com a menina na estrada; e para apaziguar sua preocupação, Viola se ofereceu para acompanhá-la. Voltaria no dia seguinte. Então Viola foi com sua sobrinha, e o Sr. Lloyd a encontrou na soleira de sua casa, emocionado e agradecido pela sua bondade. Em vez de voltar no dia seguinte, Viola passou a semana fora; e quando ela finalmente voltou, foi apenas para buscar suas roupas. Nem Arthur nem a filha queriam que ela fosse embora. A menina chorava e se queixava se Viola a deixasse; e ao ver a dor da filha, Arthur perdeu o juízo e jurou que ela poderia até morrer. Enfim, nada lhes convinha senão que Viola ficasse até que a pobre criança se acostumasse com tantos rostos estranhos.

Ela levou dois meses para se adaptar; e só depois de decorrido esse período Viola se despediu do cunhado. A Sra. Willoughby não aprovou a estada da filha; dizia que aquilo não estava direito, e que toda a cidade estava comentando. Se conformou só porque, durante a ausência da jovem, sua casa desfrutou de um período incomum de paz. Bernard Willoughby trouxera sua esposa para morar na casa da mãe, e havia uma hostilidade amarga entre as cunhadas. Viola talvez não fosse um anjo; mas na prática cotidiana da vida era uma moça bastante bem-humorada, e se ela brigava com a esposa de Bernard, não era sem provocação. Mas ela respondia às provocações, o que não apenas irritava sua antagonista, mas também aos espectadores das constantes desavenças. Sua permanência na casa do cunhado foi, portanto, maravilhosa, por nenhuma outra razão senão porque a tirou do contato com o alvo de sua antipatia em casa.

Foi duplamente, dez vezes mais maravilhosa, na medida em que a manteve perto do objeto de sua antiga paixão. A intensa desconfiança da finada Sra. Lloyd estava muito aquém da realidade. O sentimento de Viola fora uma paixão a princípio, e uma paixão continuou a ser — uma paixão cujo calor radiante o Sr. Lloyd, dado o delicado estado de seus sentimentos, logo sentiu. Lloyd, como já indiquei, não era um Petrarca moderno; não era de sua natureza praticar uma lealdade ideal. Ele não precisou passar muitos dias com a cunhada em casa antes de começar a ver que ela era, na linguagem da época, uma mulher “diabolicamente boa”. Se Viola realmente praticava aquelas artes insidiosas que sua irmã se sentira tentada a imputar a ela, é desnecessário perguntar. É suficiente dizer que ela encontrou meios para se apresentar da melhor maneira possível.

Ela costumava sentar-se todas as manhãs diante da grande lareira da sala de jantar, trabalhando em um pedaço de tapeçaria, com sua sobrinha se divertindo no tapete a seus pés, ou sentada na cauda de seu vestido, brincando com os novelos de lã. Lloyd teria sido um sujeito muito estúpido se tivesse permanecido insensível às ricas sugestões daquele quadro encantador. Ele amava muito sua filhinha e nunca se cansava de tomá-la nos braços e jogá-la para cima e para baixo para fazê-la gargalhar de alegria. Muitas vezes, entretanto, ele exagerava na brincadeira mais do que a pequena estava preparada, e ela de repente vociferava seu desagrado. Viola então largava a tapeçaria e estendia as belas mãos com o sorriso de uma jovem cuja inocente imaginação já tinha ensaiado todas as artes da maternidade. Lloyd lhe entregava a criança, e seus olhos se encontravam, suas mãos se tocavam e Viola consolava os soluços da menina nas dobras nevadas do lenço que que levava atado ao peito.

Sua dignidade era perfeita e nada poderia ser mais discreto do que a maneira como ela aceitou a hospitalidade do cunhado. Podia se dizer, talvez, que havia até uma certa rigidez em sua reserva. Lloyd teve a sensação provocante de que ela estava na casa, mas que ainda assim era inacessível. Meia hora depois do jantar, quando começaram as longas noites de inverno, ela acendia sua vela, fazia ao jovem uma reverência respeitosa e ia para a cama. Se aquilo fosse arte, Viola seria uma grande artista. O efeito foi suave, gradual, calculado para trabalhar nas fantasias do jovem viúvo com um crescendo tão bem sombreado que, como o leitor já dever ter percebido, várias semanas se passaram antes que Viola começasse a ter certeza de que o retorno compensaria o investimento. Quando lhe pareceu moralmente adequado, ela fez as malas e voltou para a casa da mãe. Esperou três dias; no quarto dia, o Sr. Lloyd apareceu — um pretendente respeitoso, mas apaixonado. Viola o ouviu com grande humildade e o aceitou com infinita modéstia. É difícil imaginar que a finada Sra. Lloyd teria perdoado seu marido; mas se algo poderia ter desarmado seu ressentimento, seria a continência cerimoniosa daquele encontro. Viola impôs ao amado apenas um curto período condicional. Casaram-se, como era apropriado, com grande privacidade — quase em segredo — talvez na esperança de que a falecida Sra. Lloyd não percebesse, era o que o povo comentava com sarcasmo.

O casamento foi aparentemente feliz, e cada parte obteve dele o que desejava. Lloyd conseguiu “uma mulher diabolicamente boa” e Viola —bem, os desejos de Viola, como o leitor deve ter observado, continuaram envolvidos em algum mistério. Havia, de fato, duas manchas em sua felicidade; mas o tempo, quiçá, as apagasse. Durante os primeiros três anos da união, a Sra. Lloyd não se tornou mãe, e quanto ao seu marido, ele sofreu perdas pesadas do dinheiro. Esta última circunstância o obrigou a fazer contenção de despesas, o que significava que Viola era, forçosamente, uma dama de menor brilho do que fora sua irmã. Ela conseguiu, no entanto, sustentar com uma consistência inquebrantável o papel de mulher elegante, embora tenhamos que admitir que isso exigia o exercício de mais engenhosidade do que de ócio aristocrático.

Há muito ela havia descoberto que o imenso guarda-roupa de sua irmã fora confiscado e guardado para o benefício da filha e que estava definhando na escuridão ingrata do sótão empoeirado. Era revoltante pensar que aqueles tecidos requintados aguardavam as vontades de uma menina que ainda se sentava em um cadeirão e comia mingau de pão com uma colher de pau. Viola teve o bom senso, porém, de não dizer nada sobre o assunto antes de decorridos vários meses. Então, por fim, ela timidamente abordou o assunto com o marido. Não era uma pena perder um enxoval tão fino? Pois ele seria perdido, quando as cores desbotassem, as traças comessem tudo ou a moda mudasse. Mas Lloyd deu uma negativa tão abrupta e peremptória à sua indagação, que ela percebeu que, naquele momento ao menos, sua tentativa seria em vão.

Seis meses se passaram, porém, e trouxeram com eles novas necessidades e novas ideias. Os pensamentos de Viola pairavam amorosamente sobre as relíquias da irmã. Ela subiu e olhou para o baú no qual elas estavam aprisionadas. Havia um desafio silencioso naqueles três grandes cadeados e faixas de ferro que apenas despertava os desejos dela. Havia algo de exasperante naquela imobilidade incorruptível. Era como um velho criado da casa, sombrio e grisalho, que guardava um segredo de família nos lábios cerrados. Havia um ar de poder em sua vasta extensão Ele soou denso e cheio quando Viola bateu na lateral com a ponta do seu sapatinho, o que a fez enrubescer de desejo perplexo. “É um absurdo”, queixou-se; “é impróprio, é perverso”; e imediatamente resolveu lançar um novo ataque ao marido. No dia seguinte, depois do jantar, quando ele já tomara seu vinho, ela corajosamente começou. Mas ele a interrompeu com rispidez.

—De uma vez por todas, Viola, — respondeu ele —isso está fora de questão. Ficarei gravemente descontente se você voltar ao assunto.

—Muito bem— ela ralhou —Fico feliz em saber o valor que tenho. Deus do céu! Eu sou uma mulher feliz. É muito agradável sentir-se sacrificada por um capricho! — E seus olhos se encheram com lágrimas de raiva e decepção.

Lloyd era um homem homem de boa natureza, que tinha horror de ver uma mulher chorar e tentou explicar; posso dizer que foi até bastante tolerante.

—Não é um capricho, querida, é uma promessa,— disse —um juramento.

—Um juramento? Mas que bela coisa para se jurar! E para quem, posso saber?

—Para Perdita.— disse ele, erguendo os olhos por um instante, mas imediatamente desviando o olhar.

—Perdita, ah, Perdita!— as lágrimas de Viola caíram. Seu peito se agitava com soluços tempestuosos, soluços que eram a contraparte há muito adiada do violento acesso de choro a que se entregara na noite em que descobrira o noivado de sua irmã. Ela tivera esperanças, em épocas mais tranquilas, de que seu ciúme tivesse passado; mas sua irritação, naquele momento, havia se tornado incontrolável.

—Diga, por favor, que direito— protestou—Perdita tinha de se livrar do meu futuro? Que direito ela tinha de amarrá-lo à mesquinhez e à crueldade? Ah, eu ocupo um lugar digno e faço uma figura muito bonita! Tenho direito ao que Perdita deixou! E o que ela deixou? Nunca soube até agora quão pouco! Nada, nada, nada.

Era uma lógica muito pobre, mas a emoção era convincente. Lloyd passou o braço pela cintura da esposa e tentou beijá-la, mas ela o afastou com magnífico desprezo. Pobre rapaz! Ele tinha cobiçado uma mulher “diabolicamente boa”, e conseguira uma. O desprezo dela era intolerável. Ele se afastou com os ouvidos formigando — irresoluto, distraído. Diante dele estava sua escrivaninha, e nela a chave sagrada que com suas próprias mãos ele tinha usado para trancar a tripla fechadura. Ele se aproximou, abriu-a e, de uma gaveta secreta, tirou a chave embrulhada em um pequeno pacote que ele havia lacrado com seu próprio, honesto brasão. Teneo, dizia o lema, — “Eu guardo.” Mas ele tinha vergonha de colocá-la de volta. A jogou sobre a mesa ao lado de sua esposa.

—Fique com ela!— ela gritou. —Eu não quero. Eu a odeio.

—Eu lavo minhas mãos.— proclamou o marido. —Que Deus me perdoe!

A Sra. Lloyd deu de ombros com indignação e saiu da sala, enquanto o marido se retirava por outra porta. Dez minutos depois, ela voltou e encontrou o quarto ocupado por sua enteada com a ama. A chave não estava sobre a mesa. Ela olhou para a criança. A menina estava empoleirada em uma cadeira com o pacote nas mãos. Ela havia quebrado o selo com seus próprios dedinhos. A Sra. Lloyd rapidamente tomou posse da chave.

Na hora habitual do jantar, Arthur Lloyd voltou de seu escritório de contabilidade. Era o mês de junho e o jantar foi servido ainda à luz do dia. A refeição foi posta na mesa, mas a Sra. Lloyd não apareceu. O criado que o patrão mandou para chamá-la voltou garantindo que o quarto dela estava vazio e de que as empregadas o informaram de que não viam a senhora desde desde a última refeição. Na verdade, elas haviam observado que ela estava chorando e, supondo que ela estivesse trancada em seu quarto, tinham decidido não perturbá-la.

O marido a procurou em várias partes da casa, chamando seu nome sem resposta. Por fim, ocorreu-lhe que poderia encontrá-la se subisse até o sótão. O pensamento deu-lhe uma estranha sensação de desconforto, e ele ordenou que seus servos não o acompanhassem, pois não desejava testemunhas para sua busca. Chegou ao pé da escada que levava ao andar mais alto e segurou no corrimão, chamando o nome da esposa. Sua voz tremeu. Ele chamou novamente, mais alto e com mais firmeza. O único som que quebrou o silêncio absoluto foi o eco fraco de seus próprios chamados, repetindo suas palavras sob os grandes beirais. Mesmo assim, ele se sentiu irresistivelmente instigado a subir. A escada dava para um amplo corredor, cheio de armários de madeira no fim do qual havia uma janela virada para o oeste, que deixava entrar os últimos raios de sol do dia.

Junto da janela estava o grande baú. Diante dele, o rapaz viu com espanto e horror a figura de sua esposa, de joelhos. Em um instante, ele foi até onde ela estava, incapaz de pronunciar palavra. A tampa do baú estava aberta, expondo, em meio aos embrulhos perfumados, o tesouro de roupas e joias. Viola tinha caído para trás de uma postura ajoelhada, com uma mão apoiando-a no chão e a outra pressionada contra o coração. Em seus membros, estava a rigidez da morte, e em seu rosto, iluminado pela luz fraca do sol, o terror de algo mais que a morte. Seus lábios estavam abertos em súplica, consternação, agonia; e em sua testa e bochechas dessangradas brilhavam as marcas de dez feridas horrendas, rasgadas por vingativas mãos fantasmagóricas.

iViola é o nome da protagonista da comédia “Noite de Reis” (“Twelfth Night”), já Perdita é uma das heroínas da comédia “Conto de Inverno” (“The Winter’s tale”) -nota da tradutora.

ii“O vigário de Wakefield” de Oliver Goldsmith é um romance do século XVIII, que ficou muito popular na época Vitoriana. Narra a história da família do Dr. Charles Primrose, um pastor que perde todo o seu patrimônio às vésperas do casamento do filho mais velho.-nota da tradutora.

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