Lendo “A Maldição da Mansão Bly”: Obras de Henry James que inspiraram a série da Netflix. (Parte 2)

Atenção, esse artigo contém spoilers para “A Maldição da Mansão Bly”. Tentei evitar spoilers das obras literárias discutidas.

Leia a Parte 1 AQUI

Saudações, leitor noturno!

Neste post. vamos continuar explorando os contos de Henry James que inspiraram “A Maldição da Mansão Bly”. Pelo que vimos dos episódios 1, 2, 3/7 e 4 já deu para perceber que Mike Flanagan e os demais roteiristas da série não tinham o objetivo de “adaptar” nenhuma das histórias de Henry James, pelo menos não no sentido que geralmente damos à palavra “adaptação”. O mote da série é usar os temas principais das histórias de Henry James e para criar novos personagens e narrativas. Nos primeiros episódios da série os “empréstimos” dos textos originais são bem sutis, mas conforme a história avança, os próximos episódios tem muito mais em comum com o material no qual foram inspirados, e pelo menos um deles (“Roupas e joias”) pode ser considerado uma “adaptação” propriamente dita.

Então, vamos explorar mais da obra de Henry James e ver como ela inspirou a reta final de “Mansão Bly”

Episódio 5:

“The Altar of the Dead”/ “O Altar dos Mortos”

Inspirado em: “The Altar of the Dead”

O episódio 5 é uma narrativa não-linear dos acontecimentos sob o ponto de vista de Hannah Grose. Nos quatro primeiros episódios, Hannah parece sempre um pouco desorientada, distraída e às vezes até nervosa. Ao contrário dos demais empregados da mansão Bly, ela é a única que nunca deixa a propriedade e também não a vemos consumir nenhuma comida. Nesse episódio descobrimos a razão. Hannah passa o episódio inteiro “pulando” de memória em memória: o abandono do marido, a relação de desconfiança com Peter, suas tentativas de fazer Rebecca enxergar que Peter é perigoso e a amizade com Charlotte, a mãe de Miles e Flora. Mas a memória a qual ela sempre volta é a entrevista que ela fez com Owen, quando o contratou para ser o cozinheiro da mansão. Através das memórias de Hannah descobrimos que Peter foi morto pela senhora do lago, um fantasma misterioso que à vezes sai do lago para vagar pela casa. Também é revelada a razão do comportamento estranho de Hannah.

O conto The Altar of the Dead foi publicado na coletânea “Terminations” de 1895. Assim como e episódio 5, é uma história que fala sobre a morte e a memória.

George Stransom está envelhecendo, e guarda consigo a lembrança do amor de sua vida, Mary Antrim, que morreu antes que os dois pudessem se casar. Um dia, George recebe a notícia da morte de Acton Hague. Hague e Stransom tinham sido amigos, até que Hague fez algo que Stransom nunca conseguiu perdoar. Stransom, que com o passar dos anos perdeu muitos amigos e conhecidos, tem o hábito de acender velas no altar lateral da igreja: uma para cada amigo ou conhecido, exceto Hague.

Um dia, ele nota uma mulher que também visita a igreja regularmente. Ele percebe que assim como ele, ela está visitando o altar para honrar a memória de alguém falecido, pois sempre acende uma vela. Os dois se aproximam e se tornam amigos. A amizade deles fica ameaçada quando Stransom descobre para quem ela acende sua vela: Acton Hague.

O que a série pegou emprestado do texto: Tanto Hannah quanto George Stransom tem o costume de acender velas para os seus mortos. Sempre que pode, Hannah vai para a capela da propriedade e acende velas em memória de Domic, Charlotte e Rebecca. Estranhamente, ela sempre acende uma quarta vela, e não é revelado quem ela representa. O simbolismo das velas como forma de representar os mortos fica claro no flashback no qual descobrimos que o marido de Hannah, Sam, a deixou por outra mulher. Charlotte então convida Hannah para morar permanentemente em Bly e acende uma vela para Sam. Segundo Charlotte já, que Sam “se foi”, Hannah tem que tratá-lo dessa maneira, como se ele tivesse morrido para ela. É o oposto do que George Stransom faz: ele se recusa a acender uma vela para Acton Hague. Tanto Hannah quanto Stransom foram prejudicados por Sam e Hague, mas enquanto Hannah e Charlotte acendem uma vela para Sam para que Hannah possa se desapegar de seu amor por ele, Stramsom se recusa a acender uma vela para Hague e não consegue se desapegar do ressentimento.

Tanto o conto original quanto o episódio 5 têm a memória como tema central. Hannah está presa em suas memórias assim como George Stransom, mas por razões muito diferentes. George está envelhecendo, e não consegue parar de remoer seus ressentimentos e pensar no que perdeu. Ele está tão preso em suas lembranças que quando surge uma pessoa em sua vida que lhe oferece amizade e carinho, ainda assim ele não consegue se desapegar do passado, mesmo que isso possa lhe custar esse novo relacionamento. Já Hannah se apega as suas memórias e permanece em Bly não por ressentimento ou egoísmo, mas por amor. Hannah ama Miles e Flora e, desde a morte dos pais deles, faz de tudo para cuidar dos dois. O episódio nos mostra a amizade entre Hannah e Charlotte para ilustrar o fato de que, para Hannah, os filhos de Charlotte são como sua própria família. Hannah se recusa a deixar Bly enquanto sente que as crianças precisam de ajuda, mesmo que não saiba exatamente como pode ajudá-las.

Outro tema em comum entre o material original e a série, é aquele de um romance “perdido” ou não vivido. George Stransom vive de luto por Mary Antrim, a mulher com quem quase se casou. Após a morte dela, ele nunca se interessou por mais ninguém, nem considerou a ideia de um novo romance. O marido de Hannah a abandona, e vemos sua dificuldade de lidar com isso, mas ao contrário de George Stransom, ela se apaixona novamente: por Owen, o cozinheiro da mansão, que a corresponde. Porém, tanto Hannah como Owen tem obrigações que os impedem de viver esse amor: Owen precisa cuidar da mãe doente e Hannah tem que cuidar de Bly e das crianças. Assim como George Stransom, Owen e Hannah são impedidos de viver suas vidas plenamente por não conseguirem se desapegar de laços que de alguma forma os ligam à morte. A mãe de Owen, ainda que esteja fisicamente viva, está muito doente, e já perdeu a consciência de sua própria identidade. Quando ela morre (de uma certa forma ”liberando” o filho para viver a própria vida) já é tarde demais para que Owen seja feliz com a mulher que ama. Aliás é bem provável que o nome “Owen” seja uma homenagem a outro conto de Henry James, “Owen Wingrave”, cujo protagonista também é um homem que se sente pressionado por seus deveres para com a família. Já Hannah se sente responsável por Miles e Flora devido a morte dos pais deles, principalmente de Charlotte. A morte acaba prendendo Hannah à Bly ainda mais, quando ela se recusa a perceber sua própria morte e continua cuidando das crianças.

É interessante notar que no último episódio Owen começa a se parecer um pouco com George Stransom. Ele não se torna um homem ressentido como George (pelo contrário, continua a ser gentil e alegre), mas Owen também não consegue esquecer a mulher que amou e com quem não teve a chance de ser feliz. E assim como George, Owen acende uma vela em sua memória no altar dos mortos.

Episódio 6:

“The Jolly Corner”/ “Cantos secretos”

Inspirado em: “The Jolly Corner”

O episódio 6 é dedicado principalmente à explorar o passado de Henry Wingrave e as razões pelas quais ele se mantém distante de Bly e dos sobrinhos. Também vemos como Flora lida com as aparições fantasmagóricas de Bly. Assim como Dani, Henry também tem sua assombração particular, mas no caso dele essa aparição é um sósia de si mesmo. O outro Henry é frio, cruel, e parece existir com o único propósito de torturar Henry com a constante lembrança de seus erros e das consequências deles, fazendo com que ele se afunde no remorso e no alcoolismo. A aparição é a manifestação da culpa de Henry, pois ele acredita que suas ações levaram à morte do irmão Dominic e da cunhada Charlotte. Os dois morreram durante uma viagem de segunda lua-de-mel, numa tentativa de salvar o casamento depois que Domic descobre que Henry vinha tendo um caso com Charlotte. Nesse episódio também descobrimos que Flora, assim como Hannah, tem “viajado” através de suas memórias, mas por outra razão.

“The Jolly Corner” foi publicado pela primeira vez na revista The English Review em 1908, e seu protagonista também é um homem assombrado por seu sósia.

Spencer Brydon volta a Nova York depois de passar anos no exterior. Ele voltou para cuidar de suas propriedades: dois prédios, um dos quais é apelidado de “the jolly corner” (“o recanto feliz”), onde ele passou sua infância. O maior dos prédios está para ser reformado e dividido em apartamentos. As propriedades tem sido sua fonte de renda desde a morte de seus familiares, e Spencer gerencia as reformas das propriedades muito bem, apesar de não ter experiência em construção nem administração. Ele também reencontra uma velha amiga, Alice Staverton e os dois se reaproximam.

A descoberta de seu talento para negócios e a reaproximação com Alice fazem Spencer começar a se perguntar como sua vida teria sido se ele tivesse ficado nos Estados Unidos. Ele conversa com Alice sobre o assunto e chega a conclusão de que poderia ter sido um homem de negócios de sucesso se tivesse ficado e levado a vida mais a sério, em vez de ter saído do país para se divertir e viver da renda das propriedades da família.

A história toma um rumo sobrenatural quando, ao andar pela casa à noite. Spencer começa a ver um homem idêntico a ele mesmo, seu alter ego. Ele fica convencido de que a aparição é o fantasma do homem que ele poderia ter sido, e que está assombrando sua casa de infância, e decide confrontá-lo.

O que a série pegou emprestado do texto: Tanto Henry Wingrave quando Spencer Brydon são assombrados por versões de si mesmos criadas pelos seus arrependimentos. . Henry teve um caso com Charlotte, a mulher de seu irmão Dominic. Quando descobre tudo, Dominic perdoa a mulher, mas não perdoa o irmão. Ele corta relações com Henry, dizendo que dali por diante, Henry terá que conviver com o seu verdadeiro eu, que Dominic descreve como um ser perverso e mesquinho. Esse monstro se manifesta na noite em que Henry recebe a notícia da morte de Domic e Charlotte. Daí em diante, o alter ego cruel passa a atormentar Henry, lembrando-lhe o tempo todo que foram suas ações que provocaram a morte do irmão e da cunhada. A culpa o impede até de cuidar de Miles e Flora, que precisam dele mais do que nunca depois da morte dos pais.

Os arrependimentos de Spencer Brydon não são tão trágicos, mas também são profundos: Spencer não tem família, e usou sua herança para viver uma vida inteira de renda, no exterior, uma vida que ele mesmo admite ter sido um desperdício de seu potencial. Ele volta aos EUA e reencontra Alice, que passou anos esperando seu retorno: ela não se casou nem construiu uma carreira. Agora tudo o que Spencer tem é uma vida não vivida e duas casas vazias. Spencer vai, aos poucos, ficando obcecado com a ideia de como sua vida (e a de Alice) poderia ter sido se ele tivesse ficado nos EUA e levado uma existência mais feliz e produtiva do que a vida vazia que levou no exterior. Esse arrependimento acaba se manifestando em um alter ego que, assim como o de Henry Wingrave, existe apenas para ser um constante lembrete de tudo o que Spencer fez de errado e tudo o que perdeu.

Assim como Henry, Spencer é assombrado por um desejo de se reconectar com o que perdeu: sua família, suas lembranças de infância, a possibilidade de viver um amor, e tanto para Henry quanto para Spencer o próprio arrependimento se torna, paradoxalmente, um empecilho para retomar essa conexão. Henry sente tanta culpa pela morte de Dominic e Charlotte que não consegue se aproximar de Miles e Flora que são a única família que lhe resta, já Spencer fica tão obcecado com o que sua vida poderia ter sido que ele não consegue deixar o passado para trás e construir uma vida nova com Alice.

O conto também apresenta um conceito que Mike Flanagan parece gostar muito: o assombrado como assombração. Tanto em “Residência Hill” quanto em “Mansão Bly” vemos personagens que são assombrados por si mesmos de alguma forma: Nell em “Residência Hill” e Hannah e Henry em “Bly Manor”. Algumas leituras de “The Jolly Corner”indicam que Spencer morre no final, e que durante todo o tempo em que foi assombrado por seu alter ego, na verdade estivesse sendo assombrado pela manifestação de sua própria morte. Hannah, no episódio 5 passa por diferentes memórias e vai aos poucos perdendo sua própria identidade (o episódio termina como o mantra “Você é Hannah Grose” a fórmula que a personagem usa para não perder a consciência de si mesma) até descobrir que está morta, enquanto em “Residência Hill”, a assombração que segue Nell por todo lugar acaba transformando a sua morte em uma profecia. Henry Wingrave, no entanto, termina o episódio 6 abraçando a possibilidade de deixar sua culpa e a assombração que o atormenta para trás quando decide ir até Bly e finalmente cuidar dos sobrinhos. Ao contrário de Spencer, Henry ainda tem uma chance de reconstruir sua vida e não mais ser assombrado por si mesmo.

Episódio 8:

“The Romance of certain Old Clothes” / “Roupas e joias”

Inspirado em: “The Romance of certain Old Clothes”

Neste episódio, a trama principal é suspensa temporariamente e a narrativa nos leva de volta ao século XVII para revelar a origem da “maldição” que assombra a Mansão Bly. A propriedade pertencia à família Willoughby: o pai viúvo e duas filhas. Quando o pai faleceu, as filhas, Viola e Perdita, herdaram a propriedade. Viola, tendo mais talento para negócios, assumiu a administração dos bens da família. Ambas decidiram, no entanto, que uma das duas deveria se casar, de modo a que a herança continuasse na família. O escolhido é Arthur Lloyd, um primo. Viola e Arthur se casam, e ela continua a cuidar da propriedade e dos negócios com a ajuda dele. Tudo parece ir bem, até que Viola fica gravemente doente. A doença, que deveria pelas estimativas dos médicos, lavar à uma morte rápida, acaba se estendendo devido à recusa de Viola de se deixar morrer. Enquanto Viola definha aos poucos, Arthur e Perdita começam a se aproximar.

“The Romance of certain old clothes” foi publicado em 1868 na revista The Atlantic Monthly. Em publicações posteriores (1875 e 1885) autor fez diversas revisões, que incluíram a mudança do sobrenome da família (de Wingrave para Willoughby) e também do nome da irmã mais velha (que, originalmente, se chamava Rosalind). A narrativa parece um romance de época convencional, com direito a rivalidade entre irmãs que disputam o amor do mesmo homem, mas Henry James sutilmente entrelaça na narrativa romântica os elementos de uma história de terror.

Em meados do século XVIII, nos Estados Unidos da época colonial vive a Sra. Willoghby. Ela tem três filhos: o mais velho Bernard e as filhas Viola e Perdita. Bernard é enviado para estudar na Inglaterra segundo os desejos do falecido Sr. Willoghby, e volta acompanhado de um amigo: o cavalheiro inglês Arthur Lloyd, que pretende se estabelecer na colônia. Tanto Viola quanto Perdita ficam interessadas em Arthur, e logo começa uma disputa silenciosa entre as irmãs para ver quem vai conquistá-lo. Quando Arthur pede Perdita, a mais nova, em casamento, Viola cai em depressão. Passa-se um ano, Viola se recupera, e Perdita está esperando seu primeiro filho. Tudo parece ir bem, mas quando Bernard se casa e Perdita não pode ir à cerimônia por causa da gravidez avançada, Viola e Arthur se reencontram.

O que a série pegou emprestado do texto: O episódio 8 é o mais próximo de uma verdadeira adaptação do texto original, já que tanto a história principal quanto as personagens são os mesmos (ainda que as irmãs troquem de papel). Este episódio é uma narrativa completamente separada do resto da série, o que é assinalado não apenas pela mudança de época e elenco (nenhum dos atores do episódio 8 aparece nos outros episódios), mas também pela mudança do estilo em que foi filmado: inteiramente em preto e branco e com uma fotografia e iluminação que lembram mais um filme de época antigo do que um série original da Netflix.

Ainda assim, a série faz mudanças significativas no original. Os papéis das irmãs são invertidos, o irmão mais velho não existe, e a família Willoughby deixa de ser uma família Norte-Americana do século XVIII e vira uma família da nobreza Britânica do século XVII. No conto, o pai das irmãs já morreu há muito tempo, a mãe está viva, e família não parece ser dona de terras. Já na série as irmãs herdam uma mansão e muitas terras quando o pai, já viúvo, morre. Porém, a mudança mais importante é que, de uma certa forma, a série torna o material original mais interessante ao dar personalidades mais complexas para as irmãs. Enquanto no conto Viola e Perdita passam a maior parte do tempo se preocupando com roupas e adereços (como seria de se esperar de duas jovens do século XVIII cuja família tem um filho homem que cuida dos negócios), na série Viola é quem cuida dos negócios e propriedades. No conto, quando Perdita se casa com Arthur ela o faz por amor, já Viola (que na série cumpre o papel de Perdita no conto, devido à troca dos papéis das irmãs) casa com Arthur para manter a estabilidade econômica e controle das posses da família. O relacionamento das irmãs também é muito mais complexo: o conto narra uma rivalidade pelo amor de um homem (um cliché bem comum em histórias românticas), já na série as irmãs tem uma conexão muito mais forte, e Perdita, por mais interessada que esteja interessada em Arthur, não se apresenta como rival da irmã até que a doença de Viola perturbe o equilíbrio da família e as coloque em conflito.

Mesmo com todas essas diferenças, o episódio 8 ainda pode ser considerado uma adaptação porque mantém exatamente a mesma a narrativa principal: duas irmãs se interessam pelo mesmo homem, uma delas se casa e tem uma filha com ele. A irmã casada, antes de morrer deixa um baú cheio de roupas e joias de herança para a filha. A outra irmã cobiça tanto o marido quanto o baú, o que leva a história um final trágico. Com essa narrativa principal intacta, a série cria um conflito mais profundo: as irmãs começam a história unidas, mas a doença de Viola vai minando seu relacionamento até que só resta ressentimento entre as duas, e deste ressentimento é que surge a “maldição” que torna a mansão Bly um verdadeiro buraco negro que engole tudo que nela entra (ou melhor, todos que nela morrem). No conto, as dificuldades econômicas que servem de desculpa para abrir o baú de vestidos são fruto do acaso, uma mera falta de sorte. Na série, a implicação é que Viola é a única capaz de cuidar dos negócios da família, e que sem a competência dela o marido não consegue manter a fortuna intacta, ou seja a figura de Viola é que estabiliza e desestabiliza a família. Viola é uma figura tão dominante na narrativa, que tudo o que ela faz, desde sua recusa em morrer até o seu desejo de reencontrar a filha, determina os acontecimentos que se abatem sobre os demais personagens, mesmo séculos após a morte dela.

Alguns espectadores ficaram insatisfeitos com o episódio porque ele parece “quebrar” o fluxo da narrativa, sem nenhuma razão aparente. Na verdade, o episódio “perturba” a narrativa, e quebra o fluxo dos acontecimentos justamente porque Viola, ou melhor seu espírito, é a força que perturba o fluxo natural da vida dos moradores de Bly. Por mais que Peter seja um antagonista, e que suas ações prejudiquem as pessoas ao seu redor, é Viola quem cria a verdadeira tragédia de Bly. Ou seja a série toma a narrativa do conto e amplifica suas proporções. O conto narra um romance familiar com repercussões trágicas e um toque de sobrenatural, a série narra uma tragédia de grandes proporções na qual o sobrenatural é o tema central

(Eu já traduzi “The Romance of some old clothes” aqui no blog. Leia AQUI )

Episódio 9:

“The Beast in the Jungle” / “A Fera na Selva”

Inspirado em: “The Beast in the jungle”

No episódio final todos os personagens parecem irremediavelmente presos no buraco negro criado por Viola/a senhora do lago. Peter tem seu plano de possuir as crianças atrapalhado por Rebecca que ajuda Dani a fugir com Flora. No meio do caminho, Dani acaba sendo atacada por Viola. Hannah finalmente quebra o ciclo de memórias para tentar salvar Dani, sem sucesso. Flora, ao tentar ajudar Dani é levada por Viola para dentro do lago. Henry, Jamie e Owen estão a caminho de Bly, mas nenhum deles parece ser capaz de salvar Flora. Quando tudo parece perdido, Dani tem uma ideia. Mas salvar a vida de Flora tem um preço muito alto.

“The Beast in the Jungle” é uma novela publicada em 1903 na coleção “The Better Sort”. A narrativa explora os temas da solidão, amor, destino e morte.

John Marcher reencontra May Bartram, que ele conheceu uma década antes, quando os dois viviam no sul da Itália. John tem uma estranha obsessão: ele acredita piamente que uma grande tragédia acontecerá com ele um dia, e esse evento catastrófico espera por ele como “uma fera escondida na selva”. Mary, que acabou de comprar uma casa em Londres com o dinheiro que herdou de uma tia, decide que quer passar o resto da vida com Mercher, esperando com ele por esse evento trágico, sua “fera na selva”, mas Mercher não quer submetê-la a esse destino.

Mercher não permite que May se aproxime dele de verdade. Os dois tem um relacionamento incompleto: passam tempo juntos, se encontram, saem para jantar, mas nunca se comprometem, e não constroem um relacionamento sólido. Enquanto Mercher espera pela “fera na selva”, os anos passam inexoravelmente, sem que ele se permita viver plenamente seu amor com May.

O que a série pegou emprestado do texto: No episódio final da “A maldição de Bly Manor” Dani faz um enorme sacrifício para salvar Flora. Ela consegue não apenas salvar a vida da menina, mas também livra Miles da influência do fantasma de Peter e liberta todos os espíritos que assombram Bly. O preço, porém, é muito alto: Dani terá que viver com o espírito de Viola dentro de si, e com a certeza de que um dia ela vai tomar conta dela completamente.

Dani descreve essa certeza com a mesma expressão usada por John Mercher: “uma fera na selva”, esperando para atacar. No caso de Dani, essa sensação de tragédia iminente tem uma razão de ser: no universo de “A maldição da mansão Bly” todos os elementos sobrenaturais são reais, então o medo de Dani é completamente justificado. John Mercher, pelo contrário, está obcecado com uma ideia que não tem nenhuma base na realidade. Ele está convencido que está destinado a sofrer um evento trágico, mas nada na narrativa serve como indício que essa certeza tem alguma razão de ser, além da imaginação de Mercher. Mas ainda que o destino trágico de Dani seja real e o de Mercher seja imaginado, os dois personagens sofrem de uma mesma paranoia que domina suas vidas e tem consequências reais em seus relacionamentos.

Além dessa espécie de “premonição” Dani e Mercher também tem outra coisa em comum: os dois tem um grande amor, alguém que os ama e que está disposta a esperar “a fera” a seu lado. No conto essa pessoa é May Bartram, que usa sua herança para comprar uma casa onde ela e Mercher poderiam viver juntos, e que passa anos ao lado dele, sem que ele nunca crie coragem de se comprometer verdadeiramente com ela. Já na série, é Jamie que decide ficar ao lado de Dani e construir uma vida juntas, mesmo sabendo que um dia vai perdê-la. Tanto May quanto Jamie amam profundamente, e estão dispostas a ficar ao lado da pessoa que amam, mesmo que isso signifique sofrimento ou uma vida vivida pela metade.

O que diferencia as duas histórias, no entanto, é a forma como o protagonista encara sua “maldição” e como escolhe viver enquanto espera que ela se cumpra. John Mercher se deixa levar completamente por sua paranoia infundada. Ele se recusa a viver a vida e a construir um relacionamento completo e feliz com May. Ele apenas espera a “fera” se manifestar, e deixa a vida e a felicidade escaparem enquanto se entrega à sua obsessão. Ao fazer isso ele também acaba impedindo que May viva sua própria vida de maneira plena: ele nem deixa que ela se aproxime dele completamente, e nem deixa que ela se liberte dele. Dessa forma, Mercher condena os dois a uma existência frustrada. Dani, ao contrário, decide viver sua vida plenamente apesar de saber que uma tragédia a aguarda. Ela resolve aproveitar o tempo que ainda tem e ser feliz ao lado de Jamie. As duas vivem um relacionamento pleno, trabalham juntas, viajam, constroem um lar. Dani não permite que a certeza de seu destino se torne uma obsessão que a impeça de viver e amar, e Jamie não só lhe oferece seu amor, mas também se torna seu apoio emocional.

A grande diferença entre Dani e Mercher está na generosidade dela e no egoísmo dele: a postura de Mercher condena a si mesmo e à mulher que ele ama à infelicidade, tudo por uma ideia fantasiosa. Já Dani vive seu amor apesar de uma ameaça real, e quando surgem os primeiros sinais de que o momento final se aproxima, ela mesma se entrega para proteger Jamie. Essa mudança do material original representa um tema recorrente no trabalho de Mike Flanagan, tanto em “Residência Hill” quanto em “Mansão Bly”, a ideia de que laços de amor e generosidade podem ser mais fortes que os terrores a que os personagens estão sujeitos.

“A Maldição da Mansão Bly” começa com a frase “Amar verdadeiramente uma pessoa, é aceitar que a dedicação em amá-la vale a dor de perdê-la”. Ao decidir ser feliz com Dani, Jamie aceita que vai perdê-la. A felicidade das duas existe apesar da certeza da morte. Em “A Maldição da Residência Hill” Nell diz aos irmãos que os amou completamente e que eles a amaram da mesma forma e que “o resto é confete”, ou seja que todas as tragédia que a família sofreu são menores que o amor que tem um pelo outro. Isso permite que a família lide com a perda e siga em frente. No universo criado por Mike Flanagan, o amor, seja ele romântico ou não, é mostrado como uma força que pode aliviar a dor da perda, ainda que não possa evitá-la.

O terror dos contos de Henry James reside justamente no oposto. Seus protagonistas tem a tendência a se entregar à suas obsessões e dores. Muitos deles rejeitam o amor, a amizade e a vida, e acabam se tornando vítimas de terrores imaginados ou não. Já os protagonistas de Flanagan, tanto em “Residência Hill” quanto em “Bly Manor”, passam por grandes sofrimentos e são atormentados por fantasmas (e como diz Steven, um fantasma pode ser muitas coisas, uma memória, um arrependimento, um desejo) mas o amor, a amizade, o desejo de viver lhes permitem seguir em frente.

A mensagem de Flanagan parece ser que o mundo está cheio de terrores, mas a coragem de amar é a única coisa que pode, de alguma forma, nos proteger.

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