Assim como veio- Henry James

O conto “The Way it came” foi publicado pela primeira vez na revista inglesa Chapman’s Magazine of Fiction. Quando a história foi publicada novamente na coletânea de 24 volumes “The New York Edition of Henry James” , o autor mudou o título para “The friends of the friends” (“Os amigos dos amigos”), pois achou que o título original era “sem graça”. Esta tradução é baseada na versão original de 1896.

“The Way it came” inspirou o episódio 4 (“Perdas e Culpa”, título original: “The way it came”) da série da Netflix “A Maldição da Mansão Bly”. Para saber mais sobre as obras de Henry James que inspiraram a série, dê uma olhada no especial “Lendo a Mansão Bly”: PARTE 1 & PARTE 2

Vejo que, como você previu, há muito material interessante, mas pouco que ajude a responder à pergunta mais delicada: se vale a pena publicar. Os diários dela são menos organizados do que eu esperava; ela só tinha o bendito hábito de narrar e anotar. Ela resumiu e registrou, mas parece que raramente terminava as histórias mais interessantes que começava. Me refiro naturalmente não tanto às coisas que ouviu mas as coisas que ela viu e fez. Às vezes ela escreve sobre si mesma, às vezes sobre outras pessoas, e às vezes sobre os dois. É nesse último tópico que sua escrita é mais vívida. Mas você entende que os trechos mais vívidos não são necessariamente os mais publicáveis. Para dizer à verdade, ela é assustadoramente indiscreta, ou pelo menos seu material me faria parecer indiscreto se eu o publicasse. Veja por exemplo este fragmento que estou lhe enviando, que dividi para sua conveniência em diversos capítulos pequenos. É o conteúdo de um caderno pequeno que eu mandei copiar, pois tem o mérito de ser quase um texto completo, uma narrativa inteligível. Estas páginas datam, evidentemente, de anos atrás. Eu as li com o mais vívido interesse no que elas descrevem de forma tão circunstancial e tentei ao máximo engolir o fenômeno que elas parecem sugerir. Seria impressionante para qualquer leitor, não? Mas imagine por um momento que eu publique tal documento para o mundo inteiro sem os nomes nem iniciais dos amigos, que ela omitiu como se pretendesse que o texto fosse publicado. Você tem alguma ideia da identidade destas pessoas? A partir daqui, deixarei que ela mesma fale.

I

Eu sei perfeitamente, é claro, que é tudo culpa minha; mas isso não melhora as coisas em nada. Fui eu quem falou dela primeiro, ele nunca tinha ouvido falar dela antes. Mesmo que eu não tivesse falado dela, outra pessoa falaria. Era o que eu pensava, para me consolar. Mas o consolo de nossos pensamentos é frágil: o único conforto que importa na vida não é ter sido tolo. É uma alegria que eu, com certeza, nunca terei. “Ora, você devia se encontrar com ela e falar sobre isso” foi o que eu disse, imediatamente. “São vinho da mesma pipa” Eu contei para ele quem ela era e disse que os dois eram parecidos porque quando era jovem, ele passou por um tipo de experiência estranha pela qual ela também tinha passado. Todos os amigos dela sabiam, as pessoas sempre pediam que ela contasse a história. Ela era encantadora, inteligente, bonita e infeliz; mas sua reputação inteira se devia àquele acontecimento.

Quando ela tinha dezoito anos, estava viajando no exterior com uma tia quando teve uma visão do pai, na hora exata em que ele morreu. O pai estava na Inglaterra, a centenas das quilômetros de distância, tão longe que ela não teria como saber que ele estava morrendo ou que tinha morrido. Aconteceu durante o dia, quando ela estava visitando um museu em uma grande metrópole. Ela tinha passado na frente das pessoas que a acompanhavam e entrado em uma sala pequena onde ficava algum quadro muito famoso, havia mais duas pessoas lá. Uma dessas pessoas era um guarda idoso do museu, a outra, pensou ela, parecia um turista meio estranho. Ela nem prestou muita atenção no homem sem chapéu, sentado em um banco. Mas no momento em que olhou para ele com mais atenção, no entanto, ela percebeu que era seu pai. Ele olhou para ela com uma expressão agoniada, como se estive esperando por ela há muito tempo, com uma impaciência que beirava a irritação. Ela correu para ele, confusa e perguntou “Papai, o que houve?” Seu espanto aumentou ainda mais quando, assim que se aproximou, ele simplesmente desapareceu, deixando que o guarda e seus amigos a socorressem em sua aflição. Essas pessoas, o funcionário, a tia e os primos foram então, de certa forma testemunhas do evento, ou pelo menos do efeito que o evento teve nela. Havia ainda o testemunho de um médico que estava no local, e que foi chamado imediatamente. Ele deu a ela um remédio para histeria, mas disse à tia em particular: “Espere e veja se algo não aconteceu em casa.” Algo tinha acontecido: seu pobre pai teve um ataque repentino e violento, e morrera naquela manhã. A tia, que era irmã da mãe, recebeu um telegrama antes do fim do dia informando da morte e pedindo que preparasse a sobrinha para a notícia. Mas a sobrinha já estava preparada, e a percepção da garota quanto àquela visita permaneceu inalterada. Todos nós, como seus amigos fomos informados da história, e a discutimos entre nós, apavorados. Doze anos se passaram e ela se tornou interessante por outras razões, por ter um casamento infeliz e viver separada do marido. Mas uma vez que o sobrenome que ela agora usava era bastante comum, e como, além disso, sua separação judicial, no andar que iam as coisas, dificilmente poderia ser considerada uma distinção, era comum qualificá-la como “aquela, você sabe, que viu o fantasma do pai.”

Já ele, coitado, tinha visto o de sua mãe. Eu nunca tinha ouvido falar disso até o momento em que nossa amizade ficou mais íntima e agradável, o que o levou, nos meandros de nossas conversas a mencionar esse acontecimento. Isso me inspirou, e fez com que eu cedesse ao impulso de contar que conhecia alguém que tinha uma experiência comparável à dele. Mais tarde, sua história tornou-se para ele também um conveniente rótulo, talvez de tanto eu a ter repetido indevidamente, mas tinha sido a razão pela qual ele me fora apresentado, menos de um ano antes. Ele, o pobre, assim como ela, tinha outros atributos. E posso dizer honestamente que eu estava bastante ciente deles desde o início – os descobri antes que ele descobrisse os meus. Lembro-me de como me ocorreu, mesmo na época, que sua percepção do meus atrativos foi acelerada por eu ter sido capaz de igualar, embora não diretamente por experiência própria, sua curiosa anedota. Datava, esta anedota, como a dela, de cerca de uma dúzia de anos antes – um ano em que, em Oxford, ele, por algum motivo próprio, ficou na universidade durante as férias de verão. Ele tinha passado uma tarde de agosto junto ao rio. Voltando para seu quarto enquanto ainda estava dia claro, ele encontrou sua mãe parada ali com os olhos fixos na porta. Ele tinha recebido uma carta dela naquela manhã, de Gales, onde ela estava passando uns dias com o pai. Ao vê-lo, ela sorriu com extraordinária alegria e estendeu os braços para ele; então, quando ele abriu os seus e se aproximou, ela desapareceu. Ele escreveu para ela naquela noite, contando o que havia acontecido; a carta foi cuidadosamente preservada. Na manhã seguinte, ele foi informado de sua morte. Ele ficou extremamente impressionado com a coincidência de nossa conversa, e com o pequeno prodígio que fui capaz de apresentar para ele. Ele nunca havia encontrado outro caso. Certamente eles tinham se encontrar, minha amiga e ele; certamente eles teriam algo em comum. Eu arranjaria isso, não é? – se ela não se importasse; pois para ele não havia problema algum. Eu havia prometido falar com ela sobre o assunto o mais rápido possível, e em uma semana pude fazê-lo. Ela “se importava” tão pouco quanto ele; estava perfeitamente disposta a vê-lo. E, ainda assim, os dois nunca se encontrariam- pelo menos não no sentido em que um encontro costuma ser entendido.

II.

Essa é apenas metade da minha história – a maneira extraordinária como foi prejudicada. Isso foi culpa de uma série de acasos; mas os acasos continuaram por anos e se tornaram, para mim e para outras pessoas, um assunto hilariante. Era bem engraçado no início; depois se tornou um tanto enfadonho. O curioso é que ambas as partes eram receptivas: não se tratava de indiferença, muito menos de indisposição. Foi um dos caprichos do acaso, ajudado, suponho, por alguma oposição de seus interesses e hábitos. Os interesses dele centravam-se no seu escritório, em seu eterno cargo de inspetoria, que lhe deixava pouco tempo livre, chamando-o ao dever constantemente e obrigando-o a romper compromissos. Ele gostava socializar, e aproveitava a chance sempre que podia. Eu não sabia onde ele estava a qualquer momento do dia, e havia momentos em, em meses juntos, eu nunca o via. Já ela, por sua vez, era muito “suburbana”: morava em Richmond e nunca “saía”. Era uma mulher distinta, mas não era apegada à moda, e sentia, como as pessoas diziam, sua situação. Decididamente orgulhosa e bastante excêntrica, ela viveu sua vida como queria. Havia atividades que se podia fazer com ela, mas era impossível obrigá-la ir a uma festa. O único evento que parecia agradá-la era tomar chá com uma prima, apreciando uma bela vista da janela. O chá era bom; mas a vista era familiar demais, embora talvez não tanto quanto a prima – uma solteirona desagradável que fizera parte do grupo do museu e com quem ela agora vivia. Desagradavelmente familiar. Essa ligação com uma parente de status inferior, que tinha em parte um motivo econômico, – ela proclamava que a companheira de moradia gerenciava as finanças maravilhosamente – era uma das pequenas perversidades pelas que tínhamos de perdoá-la. Outra foi sua estimativa das propriedades geradas por sua ruptura com o marido. Isso foi extremo – muitas pessoas acharam até mórbido. Ela não fez nenhum avanço; cultivou escrúpulos; suspeitava, ou talvez eu deva dizer, se lembrava de cada ofensa. Foi uma das poucas mulheres que conheci a quem aquela situação específica tornara mais modesta que ousada. Tão querida! Ela tinha uma certa delicadeza. Especialmente marcantes eram os limites que ela havia estabelecido às possíveis atenções dos homens: sempre pensou que o marido estava esperando para atacá-la. Ela desencorajou, e até proibiu as visitas de cavalheiros que já não fossem senis. Dizia que nunca podia ser cuidadosa demais.

Quando eu mencionei a ela que tinha um amigo que o destino havia distinguido da mesma maneira estranha que ela, eu a deixei totalmente livre para dizer “Oh, traga-o para me ver!” Eu provavelmente deveria ter sido capaz de trazê-lo, e uma situação perfeitamente inocente ou pelo menos comparativamente simples teria sido criada. Mas ela não pronunciou tais palavras; apenas disse: “Eu devo conhecê-lo certamente; vou prestar atenção caso o encontre! ” Isso causou o primeiro atraso e, entretanto, várias coisas aconteceram. Uma delas era que com o passar do tempo ela fazia mais e mais amigos, charmosa como era, e regularmente acontecia que esses amigos, por coincidência, também eram amigos dele o suficiente para mencioná-lo em alguma conversa. Era estranho que, sem pertencer, por assim dizer, ao mesmo mundo ou, de acordo com o termo horrível, ao mesmo ‘círculo’, meu par perplexo tivesse encontrado as mesmas pessoas em tantas ocasiões, e que elas tenham feito o mesmo, curioso, comentário. Ela tinha amigos que não se conheciam, mas que inevitavelmente e pontualmente falavam dele. Ela tinha também o tipo de originalidade, um interesse intrínseco que a levava cada um de nós a conservá-la como uma espécie de recurso privado, cultivado com ciúme, mais ou menos em segredo, como uma pessoa que não se encontrava em eventos sociais, que não era inclinada a deixar qualquer um se aproximar— ao menos não pessoas vulgares. Alguém com quem o relacionamento era, portanto, particularmente difícil e muito precioso. Nós a víamos separadamente, com hora marcada e condições, e descobrimos que, de modo geral, para manter a harmonia, era melhor não contar nada um para o outro. Alguém sempre recebia um bilhete dela ainda mais tarde do que outra pessoa. Havia uma mulher boba que por muito tempo, entre os desprivilegiados, usou as três míseras visitas que fez Richmond, como desculpa para inventar a reputação de ser íntima de “muitas pessoas reservadas e terrivelmente inteligentes”.

Todos já tivemos amigos que achamos por bem apresentar um ao outro, e todos também lembramos de ocasiões em que essa ideia tão agradável não resultou em nenhum grande sucesso. Mas duvido que tenha havido um caso em que o fracaso foi em proporção tão direta com a intensidade da influência exercida. É talvez aqui a influência que foi mais notável. Minha dama e meu cavalheiro declararam para mim e para outros que era como o tema de uma farsa estrondosa. Com o tempo, a motivação apresentada no início sumiu de vista e cinquenta melhores surgiram depois dela. Eles eram tão parecidos: tinham as mesmas ideias, cacoetes e gostos, os mesmos preconceitos, superstições e heresias; eles diziam as mesmas coisas e às vezes faziam as mesmas coisas; gostavam e não gostavam das mesmas pessoas e lugares, dos mesmos livros, autores e estilos; qualquer um podia ver uma certa similaridade até em sua aparência e em suas feições. Isso estabeleceu muito de uma percepção que eles eram, em linguagem comum, igualmente “agradáveis” e quase igualmente bonitos. Mas a grande similaridade, o que causava mais espanto e fofocas, era sua rara relutância em relação a serem fotografados. Eles foram as únicas pessoas de quem se ouviu falar que nunca foram fotografadas e tinham uma objeção veemente à ideia. Eles simplesmente não queriam, não importava o que as pessoas dissessem. Eu já tinha reclamado muito disso; com ele, em particular. Eu desejara tão em vão poder exibir uma foto sua sobre lareira de minha sala de estar, em uma moldura comprada na Bond Street. De qualquer forma, essa era a maior de todas as razões pelas quais eles deveriam se conhecer — todas as melhores razões reduzidas a nada pela estranha lei que os fizera bater tantas portas na cara um do outro, separados como como baldes em um poço, as duas pontas da gangorra, os dois partidos no governo, de modo que quando um estava em cima a outra estava em baixo, quando um estava fora a outra estava dentro; quando ume entrava em algum lugar o outro saía, ssem saber da proximidade um do outro. Os dois só chegavam em algum lugar quando já não eram esperados, o que era precisamente no momento em que o outro já havia partido. Eles eram, enfim, alternados e incompatíveis; se desencontravam com uma frequência tal que só fazia sentido se fosse de propósito. No entanto, estava tão longe de ser de propósito que acabou- literalmente depois de vários anos- por desapontá-los e irritá-los. Não creio que estivessem curiosos para se conhecer até que ficou claro que não conseguiam se encontrar. Muito foi feito para ajudá-los, é claro, mas tais tentativas apenas colocaram fios para que eles tropeçassem. Eu deveria ter anotados para dar exemplos, mas me lembro que nenhum dos dois jamais fora capaz de jantar na ocasião certa. A ocasião certa para um seria errada para o outro. Nas ocasiões erradas, eram mais pontuais, e só havia ocasiões erradas. Os próprios elementos conspiraram e a ação do homem os reforçou. Um resfriado, uma dor de cabeça, um luto, uma tempestade, uma névoa, um terremoto, um cataclismo infalivelmente intervia. Aquilo já tinha deixado de ser uma piada.

Ainda assim, por mais que continuássemos a interpretar tudo como algo engraçado, era impossível deixar de sentir que a brincadeira tornara grave a situação, e que havia produzido em cada um uma consciência, um constrangimento, um verdadeiro pavor do último acaso, o único, o incidente que seria diferente, que os deixaria, finalmente, cara a cara. O efeito final de todos os outros acasos foi acender esse instinto. Eles estavam bastante embaraçados- talvez até um pouco um do outro. Tanta preparação, tanta frustração: o que poderia ser bom o suficiente para justificar tanta apreensão? Um mero encontro seria decepcionante. Me perguntavam se, ao cabo de tantos anos, eu os imaginava se encontrando de alguma forma boba. Se eles estivessem entediados com os desencontros, poderiam ficar ainda mais entediados de se encontrarem. Eles se perguntavam o mesmo e, de alguma forma, cada um certamente sabia o que o outro achava.

Realmente acho que foi essa desconfiança peculiar que finalmente controlou a situação. Quero dizer que, se eles não se encontraram no primeiro ou nos dois primeiros anos porque não conseguiram evitar se desencontrar, eles mantiveram o hábito porque tinham – como devo dizer? – ficado com medo. Realmente era necessária alguma vontade oculta para explicar algo tão absurdo.

III

Quando, para coroar nosso longo relacionamento, aceitei sua proposta renovada de casamento, foi dito com humor, eu sei, que eu havia imposto a condição de que ele me desse sua fotografia. Isso era tão verdade que eu me recusei a dar a ele uma foto minha sem receber uma dele. De qualquer forma, finalmente o tinha, em sua alta distinção, enfeitando minha lareira, onde no dia em que me visitou para me dar os parabéns, ela chegou mais perto do que nunca de vê-lo. Ele deu a ela um exemplo que eu a convidei a seguir; ele havia quebrado sua regra- então, ela não poderia quebrar a dela? Ela também tinha que me dar um presente de noivado – não me daria uma foto para fazer companhia à dele? Ela riu e balançou a cabeça; moveu-se com um impulso que parecia vir de tão longe como a brisa que agita uma flor. A foto que deveria acompanhar o retrato de meu futuro marido era o retrato de sua futura esposa. Foi o que ela disse – e não arredou pé por mais que eu pedisse. Era uma teimosia, um entêtement, um juramento – ela viveria e morreria sem nunca tirar uma fotografia. Agora também estava sozinha nessa convicção. Era disso que ela gostava; isso a tornava mais original. Ela se alegrou com a derrota de seu sócio de juramento e olhou por um longo tempo para a foto dele, sobre a qual não fez nenhuma observação memorável, embora a tenha virado para ver o verso. Sobre nosso noivado ela foi encantadora – cheia de cordialidade e simpatia.

—Você o conhece há mais tempo do que me conhece,não?— ela disse — e isso parece muito tempo.

Ela entendeu como havíamos corrido juntos pela colina e pelo vale e como era inevitável que agora descansássemos juntos. Tenho certeza de tudo isso porque o que se seguiu é tão estranho que é uma espécie de alívio para mim saber o momento exato até o qual nossas relações ainda eram naturais como sempre. Fui eu mesma quem, numa súbita loucura, as alterei e destruí. Vejo agora que ela não me deu nenhum pretexto e eu só encontrei um na maneira como ela olhou para o belo rosto na moldura da Bond Street. Como eu esperava que ela olhasse para ele? O que eu queria desde o início era fazer com que ela gostasse dele. Bem, eu ainda queria isso – até o momento em que ela me prometeu que, nessa ocasião, ele realmente me ajudaria a quebrar o feitiço bobo que os mantinha separados. Eu tinha combinado com ele para fazer a sua parte, se ela fizesse a dela com o mesmo sucesso. Eu estava em uma posição diferente agora – eu estava em uma posição em que podia responder por ele. Eu definitivamente faria com que às cinco da tarde do sábado seguinte ele estivesse no local marcado. Ele estava fora da cidade a negócios urgentes; mas prometeu cumprir ao pé da letra a promessa de que voltaria para o encontro com tempo de sobra.

— Você tem certeza absoluta?— Lembro que ela perguntou, parecendo séria e considerando.

Achei que ela tivesse ficado um pouco pálida. Estava cansada, indisposta: era uma pena que ele a visse afinal em tão pobre momento. Se ele apenas pudesse tê-la visto cinco anos antes! Porém, respondi que desta vez eu tinha certeza e que o sucesso dependia simplesmente dela. Às cinco horas do sábado, ela o encontraria sentando em uma cadeira específica que indiquei, aquela em que ele normalmente se sentava e na qual – embora isso eu não tenha dito – ele estava sentado quando, na semana anterior, quando colocou a questão de nosso futuro para mim da maneira que finalmente me convenceu. Ela olhou para a cadeira em silêncio, assim como olhou para a fotografia, enquanto eu repetia pela vigésima vez que era absurdo demais, que não deveria se tão difícil apresentar minha cara metade para minha amiga mais querida.

Eu sou sua amiga mais querida? ela perguntou com um sorriso que por um momento trouxe de volta sua beleza. Eu respondi abraçando-a contra meu peito. Depois disso ela disse:

— Bem, então eu venho. Estou com um medo extraordinário, mas pode contar comigo.

Quando ela foi embora, comecei a me perguntar do que ela tinha com medo, pois ela havia falado muito sério. No dia seguinte, no final da tarde, recebi uma mensagem dela: ela tinha recebido o anúncio da morte do marido assim que chegara em casa. Ela não o via há sete anos, mas queria que eu soubesse disso antes de ouvir de outra pessoa. No entanto, e é estranho e triste dizer isso, a notícia fez tão pouca diferença em sua vida que ela iria cumprir escrupulosamente seu compromisso comigo. Fiquei feliz por ela. Achei que isso significava que, pelo menos, ela teria mais dinheiro; mas mesmo com essa distração ela não pareceu esquecer aquele medo, e eu comecei a perceber a razão dele. Seu medo à medida que o tempo passava tornou-se contagioso, e o contágio tomou em meu peito a forma de um pânico repentino. Não era ciúme, era o medo do ciúme. Eu me achei uma boba por não ter ficado quieta até sermos marido e mulher. Depois disso, eu deveria me sentir segura. Era apenas uma questão de esperar mais um mês — uma ninharia certamente para duas pessoas que já tinham esperado tanto tempo. Tinha ficado claro o bastante que ela estava nervosa, e agora que estava livre ela naturalmente não ia ficar mais calma. Qual era o nervosismo dela, portanto, senão um pressentimento? Ela tinha sido até então vítima de interferências, mas era bem possível que dali para a frente ela mesma se tornasse a fonte da interferência. A vítima nesse caso foi a tonta aqui. O que foram as interferências senão o dedo da providência apontando um perigo? O perigo era, naturalmente, para mim, pobre de mim. Ele tinha sido mantido longe dela por uma série de acidentes singulares em sua frequência; mas o reinado do acidente estava agora visivelmente chegando ao fim. Eu tinha uma convicção íntima de que ambas as partes manteriam o encontro. Eu tinha a impressão cada vez mais forte de que eles estavam se aproximando, convergindo. Tínhamos falado sobre quebrar o feitiço; bem, o tal feitiço seria efetivamente quebrado — a menos que, é claro, ele simplesmente assumisse outra forma e exagerasse seus encontros como havia exagerado seus desencontros.

Eu não conseguia ficar calma pensando nisso. Me roubou o sono — à meia-noite eu estava inquieta. Finalmente senti que só havia uma maneira de vencer o fantasma. Se o reinado do acaso tinha acabado, cabia a mim assumir a sucessão. Sentei-me e rabisquei com pressa um bilhete que ele receberia quando voltasse. Como os criados estavam dormindo, eu mesma saí à rua vazia, no vento, sem nem colocar um chapéu, para depositar o bilhete na caixa de correio mais próxima. No bilhete, eu pedi que não viesse à minha casa à tarde na hora marcada, mas que adiasse sua visita para a hora do jantar. A implicação era de que ele me encontraria sozinha.

IV

Quando ela veio às cinco naturalmente me senti falsa e maldosa. Meu ato tinha sido uma loucura momentânea, mas eu tinha pelo menos que ser consistente. Ela ficou por uma hora; ele, claro, não apareceu; e eu só podia persistir na minha perfídia. Eu tinha pensado que era melhor deixá-la vir, é estranho mas, agora, acho que pensei que isso diminuía minha culpa. No entanto, enquanto ela estava ali sentada, tão visivelmente pálida e cansada, afetada por tudo que a morte de seu marido tinha trazido à tona, eu senti uma pontada quase intolerável de pena e remorso. Eu só não contei imediatamente o que tinha feito foi porque eu estava muito envergonhada. Fingi surpresa, fingi até o fim. Se por um dia da minha vida tive confiança, foi naquele dia. Eu me envergonho ao contar minha história — eu vejo isso como minha penitência. Não houve reclamação que eu não fizesse contra ele. Inventei suposições, desculpas. Admiti, estupefata, conforme os ponteiros do relógio viajavam, que sua a sorte dos dois não tinha mudado. Ela sorriu com a ideia da “sorte” deles, mas parecia ansiosa – estava estranha: a única coisa que me encorajou a continuar a farsa foi o fato de que, estranhamente, ela estava de luto – sem grandes farturas de crepe, mas vestida de preto simples e escrupuloso. Ela tinha em seu chapéu três pequenas penas pretas. Carregava um pequeno regalo de astrachan. Isso me sugeriu a aguda reflexão de que estava um pouco certa. Ela me escreveu dizendo que o acontecimento repentino não fez diferença para ela, mas aparentemente fez bastante diferença. Se estava inclinada a observar o luto, por que não adiou o encontro em um ou dois dias? Ela queria tanto vê-lo que mal podia esperar até que o marido fosse enterrado. A revelação daquele desejo me tornou dura e cruel o bastante para continuar com meu odioso ardil ainda que, conforme as horas passavam, tenha suspeitado que havia algo ainda mais profundo na decepção dela, algo, de certa forma, menos secreto. Quero dizer um estranho alívio subjacente, a emissão suave e baixa da respiração que surge quando um perigo passa. O que aconteceu quando ela perdeu uma hora comigo foi que finalmente ela desistiu dele. Ela o deixou ir para sempre. Ela fez uma piada com o assunto, e foi a mais graciosa que já ouvi na vida, mas foi um gracejo com a data mais importante de sua vida. Ela falou com sua leve alegria de todos as outras tentativas vãs, o longo jogo de esconde-esconde, a estranheza sem precedentes de tal relação. Pois era, ou tinha sido, uma relação, não era, não foi? Essa foi a parte absurda. Quando ela se levantou para ir eu disse a ela que era mais uma relação do que nunca, mas que eu não tinha coragem, depois do que tinha acabado de acontecer, de propor um novo encontro. Era claro que a única oportunidade válida seria meu casamento. Claro que ela estaria no meu casamento, não? Era de se esperar que ele iria.

—Se eu estiver lá, ele não vai estar! — ela declarou, rindo. Eu admiti que era possível. Era melhor, portanto, nos casar em segurança primeiro.

— Isso não vai nos ajudar. Nada vai nos ajudar! — ela disse quando se despediu de mim com um beijo. — Eu nunca, nunca vou vê-lo!

Com estas palavras. ela foi embora.

Eu podia aguentar o que chamei de “decepção’ vindo dela, mas quanto, algumas horas depois, eu recebi meu noivo para jantar, foi a decepção dele que não pude aguentar. Eu não me preocupei muito com a maneira como minha manobra poderia tê-lo afetado; mas o resultado disso foi a primeira palavra de reprovação que ele proferiu contra mim. Digo “reprovação” porque essa expressão não exprime suficientemente os termos com que ele me transmitiu sua surpresa de que, dadas as circunstâncias extraordinárias, eu não tivesse arrumado um jeito de não privá-lo daquele encontro. Eu poderia ter desmarcado o compromisso que me obrigou a sair a sair ou deixar o encontro deles acontecer do mesmo jeito. Eles podiam ter se encontrado em minha sala de estar sem que eu precisasse estar lá. Com isso, desmoronei – confessei meu ardil e sua miserável motivação. Eu não tinha desmarcado com ela, nem tinha saído; ela estivera lá e, depois de esperar por uma hora, partiu, acreditando que ele se ausentara por que quis.

—Ela deve pensar que sou um incivilizado!— ele exclamou. —O que ela disse de mim? Do que me chamou? E com todo o direito!

—Garanto que ela não disse nada que demonstrasse o mínimo de sentimento. Ela olhou para a sua fotografia, até virou o verso, onde o seu endereço está inscrito. Mas isso não provocou nenhuma demonstração. Ela não se importa muito com isso.

—Então por que você tem medo dela?

—Não era dela que eu tenho medo. É de você.

—Você achou que eu iria me apaixonar por ela? Você nunca aludiu a tal possibilidade antes. —ele continuou enquanto eu permanecia em silêncio.— Você a descreveu como uma pessoa admirável, mas não foi assim que você a mostrou para mim.

—Você quer dizer que se eu a tivesse mostrado assim, você teria dado um jeito, a essa altura, de conhecê-la? Eu não tinha esse medo.—Acrescentei —Eu não tinha razão para ter.

Neste momento ele me beijou. Me lembrei que ela tinha feito o mesmo uma hora ou duas antes, quando nos despedimos e me pareceu, por um momento, como se ele estivesse buscando nos meus lábios a pressão dos lábios dela. Apesar dos beijos o incidente esfriou as coisas entre nós, e eu sofri horrivelmente, pois sabia que ele se sentia enganado. Ele tinha aceitado minha versão dos fatos, mas me sentia mal, como se tivesse um pecado a expiar. Eu não conseguia esquecer o jeito dele quando lhe descrevi a aparente indiferença dela à sua ausência.

Pela primeira vez desde que o conheci, ele parecia ter expressado uma dúvida sobre minha palavra. Antes de nos despedirmos, eu lhe disse que esclareceria tudo com ela, que de manhã cedo iria para Richmond e diria a ela que ele não tinha culpa nenhuma. Ao ouvir isso, ele me beijou outra vez. Eu expiaria meu pecado, eu disse; me humilharia. confessaria tudo e pediria perdão. Com isto, ele me beijou uma vez mais.

V

No dia seguinte, no trem, me pareceu que o combinado era muito bom para ele; mas segui firme no meu propósito. Subi a colina até onde se pode ver toda a vista, e bati à porta dela. Fiquei um pouco surpresa de ver que as cortinas ainda estavam fechadas, e pensei se, ansiosa por causa de minha culpa, eu não teria chegado cedo demais, antes mesmo de todos se levantarem.

—Em casa, senhora? Ela deixou essa casa para sempre.

Fiquei extremamente surpresa ao ouvir esse anúncio da velha empregada.

—Ela foi embora?

—Ela está morta, senhora, por favor.— E prosseguiu enquanto eu mal me recuperei da notícia —Morreu na noite passada.

O grito que me escapou soou mesmo em meus próprios ouvidos como uma dura violação da ocasião. Senti, naquele momento, como se eu a tivesse matado. Fiquei fraca e minha visão embaçada mal enxergou a mulher estirando os braços para me segurar. Não tenho nenhuma lembrança do que aconteceu em seguida, nada além da prima tonta de minha amiga em um quarto escuro, depois do que imagino ter sido um intervalo bem curto, soluçando de um jeito acusador. Eu não posso dizer quanto tempo levei para compreender, acreditar e reagir com um esforço imenso àquela dor de culpa que, supersticiosa e insanamente, foi a primeira coisa de que me lembro. O médico, após o fato, tinha sido superlativamente sábio e claro: ele chegou a conclusão de que a causa tinha sido uma fraqueza há muito latente no coração, provavelmente causada anos antes pelas agitações e terrores aos quais seu casamento a havia submetido. Ela tinha passado por cenas cruéis nas mãos do marido, e chegara até a temer pela própria vida. Sua tentativa de viver uma existência tranquila era um sinal de que ela conscientemente tentava deixar para trás todas aquelas emoções, ansiedades e incertezas. Mas como alguém, especialmente uma “dama de verdade”, poderia se proteger completamente de toda e qualquer agrura? Ela tinha tido um choque, um ou dois dias antes, ao receber a notícia da morte do marido, pois há choques de todos os tipos, não apenas aqueles de luto e surpresa. Ela nem sonhava que aquele assunto se encerraria assim. Estranhamente, ela tinha a impressão que ele viveria tanto quanto ela. Então, à noite, na cidade, com certeza ela deveria ter sofrido outro baque: algo devia ter acontecido lá, e era indispensável descobrir o quê. Ela tinha voltado muito tarde — já passava das onze horas, e ao ser recebida no corredor por sua prima, que estava muito preocupada, havia dito que estava cansada e que ia descansar um momento antes de subir as escadas. As duas foram juntas para a sala de jantar, onde a prima ofereceu-lhe uma taça de vinho e foi até o aparador para servir a bebida. Isto levou apenas um momento, e quando minha informante voltou-se viu que nossa infeliz amiga não tinha tido tempo nem de se sentar. De repente, com um pequeno gemido quase inaudível, ela caiu no sofá. Estava morta. Que “pequena agrura” desconhecida havia causado o ataque? Que choque, perguntava-se, ela sofrera na cidade? Mencionei imediatamente o único que eu poderia imaginar – ela não conseguiu encontrar em minha casa, a qual para esse fim ela tinha vindo às cinco horas a meu convite, o cavalheiro com quem eu iria me casar, que ela ainda não conhecia pois, por vários acasos, ambos viviam se desencontrando. Isso obviamente era muito pouco; mas algo mais poderia facilmente ter ocorrido; nada nas ruas de Londres era mais possível do que um acidente, especialmente um acidente naqueles táxis desesperados. O que ela fez, para onde foi ao sair da minha casa? Eu achava que ela tinha ido direto para casa. Nós duas lembramos que em suas excursões à cidade ela às vezes, por conveniência, para se refrescar, passava uma ou duas horas no “Gentlewomen”, um tranquilo clube para senhoras. Eu prometi que a primeira coisa que faria seria ir até esse estabelecimento para tentar descobrir algo. Então entramos na câmara escura e terrível onde ela jazia presa da morte e onde, depois de um tempo pedindo para ser deixada sozinha com ela, permaneci meia hora. A morte a deixou e a manteve bonita; mas senti acima de tudo, ao me ajoelhar ao lado da cama, que a fizera e a mantivera calada. Tinha virado a chave sobre algo que eu estava preocupada em saber.

Ao voltar de Richmond e depois de cumprir outra tarefa, fui até o alojamento dele. Era a primeira vez, mas tinha pensado em ir muitas vezes antes. Na escada, que, como a casa tinha vinte conjuntos de cômodos, era irrestritamente pública, encontrei seu criado, que voltou comigo e me fez entrar. Ao som de minha entrada, ele apareceu na porta de uma outra sala e, no instante em que ficamos sozinhos, dei a minha notícia:

—Ela está morta!

—Morta?

Ele ficou tremendamente chocado e observei que não precisou perguntar a quem, com tal brusquidão, eu me referia.

—Ela morreu na noite passada, logo depois de me sair da minha casa.

Ele me olhou com a expressão mais estranha, seus olhos encarando os meus como se estivessem procurando por uma armadilha.

—Noite passada, depois de sair da sua casa? —Ele repetiu minhas palavras, com estupefação. Então ele falou algo que eu ouvi com a mesma estupefação: — Impossível! Eu a vi.

—Você a ‘viu’?

—Exatamente aí onde você está.

Isso me trouxe de volta depois de um instante, como que para me ajudar a assimilar, a lembrança da estranha ocorrência de sua juventude.

—Na hora da morte. Eu entendo: você a viu tão lindamente como viu sua mãe.

—Ah! Não como vi minha mãe. Não desse jeito, não desse jeito!

Ele ficou profundamente comovido com a minha notícia – muito mais comovido, eu percebi, do que ele teria ficado no dia anterior: isso me deu uma sensação vívida de que, como eu disse a mim mesma, havia realmente uma relação entre eles e ele tinha realmente havia estado cara a cara com ela. Tal ideia, ao reafirmar seu privilégio extraordinário, de repente o teria apresentado como dolorosamente anormal, se ele não tivesse insistido com tanta veemência na diferença.

—Eu a vi, viva. Eu a vi e falei com ela. Vi como eu vejo você agora!

É notável que por um momento, embora apenas por um momento, eu encontrei alívio no mais pessoal, por assim dizer, mas também no mais natural dos dois fenômenos. Ao aceitar a ideia de que ela foi procurá-lo ele ao sair da minha casa e do que isso representava na disposição de seu tempo, eu imediatamente perguntei com uma sombra de aspereza da qual eu estava ciente:

—O que diabos ela veio fazer aqui?

Ele agora tinha um minuto para pensar, para se recuperar e julgar as consequências, de modo que, se ainda falava com um olhar nervoso, mostrava um rubor consciente e fez uma tentativa inconsequente de afastar a gravidade de suas palavras com um sorriso.

—Ela veio me ver. Ela veio depois do que tinha acontecido em sua casa porque que nós tínhamos, afinal, que finalmente nos encontrar. O impulso me pareceu excelente, e foi assim que o aceitei.

Olhei em volta da sala onde ela esteve, onde ela esteve e eu nunca tinha estado.

—E a maneira como você entendeu isso foi a maneira como ela se expressou?

—Ela só expressou isso estando aqui e me deixando olhar para ela. Isto foi o bastante.— ele exclamou com uma risada singular.

Eu me perguntei mais e mais.

—Você quer dizer que ela não falou com você?

—Ela não disse nada. Ela apenas olhou para mim como eu olhei para ela.

—E você também não falou?

Ele me deu novamente seu sorriso doloroso.

—Eu pensei em você. A situação era delicada em todos os sentidos. Usei do melhor tato. Mas ela viu que me agradou. —Ele até repetiu sua risada dissonante.

—Ela evidentemente agradou você!—Então eu pensei um momento. —Quanto tempo ela ficou?

—Como posso saber? Pareceram vinte minutos, mas provavelmente foi bem menos.

—Vinte minutos de silêncio!—Comecei a formar minha opinião definitiva e agora, de fato, me agarrei a ela. —Você sabe que está me contando uma história positivamente monstruosa?

Ele estava de costas para a lareira; ao ouvir minhas palavras, com um olhar suplicante, ele veio até mim.

—Eu imploro, querida, que aceite isso com gentileza.

Eu poderia aceitar com gentileza, e expressei isso; mas eu não pude de alguma forma, quando ele abriu os braços um tanto desajeitadamente, deixá-lo me atrair para ele. Assim, caiu entre nós por um tempo apreciável o desconforto de um grande silêncio.

VI

Ele o quebrou dizendo:

—Não há absolutamente nenhuma dúvida sobre a morte dela?

—Infelizmente não. Acabei de ficar de joelhos ao lado da cama onde a colocaram.

Ele fixou os olhos no chão; então os ergueu para mim.

—Como é a aparência dela?

—Ela parece em paz.

Ele se virou de novo, enquanto eu o observava; mas depois de um momento perguntou:

—A que horas, então …?

—Devia ser quase meia-noite. Ela morreu ao chegar em casa, por uma problema do coração que ela mesma e seu médico sabiam que ela tinha, mas da qual, com paciência e bravura, ela nunca havia falado comigo.

Ele ouviu atentamente e por um minuto não conseguiu falar. Por fim, ele irrompeu com um tom cuja confiança quase infantil, a simplicidade realmente sublime ainda ressoa em meus ouvidos enquanto escrevo:

—Ela não era maravilhosa!?

Mesmo na época, fui capaz de ser justa suficiente para comentar em resposta que eu sempre disse isso a ele; mas no minuto seguinte, como se depois de falar ele tivesse tido um vislumbre do que poderia ter me feito sentir, ele continuou rapidamente:

—Veja bem, se ela não chegou em casa antes da meia-noite..

Eu imediatamente o interompi.

—Houve tempo para você tê-la visto? Como assim — perguntei— se você não saiu da minha casa até tarde? Não me lembro bem do momento, estava preocupada. Mas você sabe que embora tenha dito que tinha muito o que fazer, você ainda ficou por algum tempo depois do jantar. Ela, por sua vez, passou a noite toda no ‘Gentlewomen’. Acabo de vir de lá, verifiquei. Ela tomou chá e ficou lá muito, muito tempo.

—O que ela estava fazendo durante todo esse tempo?

Percebi que ele estava ansioso para desafiar de cada parte do meu relato sobre o assunto; e quanto mais ele demonstrava isso, mais eu me via disposta a insistir naquela versão, a preferir, com aparente perversidade, uma explicação que apenas aprofundava a maravilha e o mistério. No entanto dos dois prodígios entre os quais tinha que escolher, reviver o ciúme era o caminho mais fácil de aceitar. Ele ficou ali implorando com uma franqueza que agora me parece bela por eu ter tido o privilégio, apesar de minha derrota, de ter conhecido a mulher em vida. Enquanto eu, com uma paixão que me admira hoje, e que ainda arde de certa forma em suas cinzas, só conseguia responder que, por um estranho dom que ela tinha em comum com a mãe dele, e que deveria ser também hereditário, o milagre de sua juventude havia se repetido para ele, como o milagre da juventude dela também se repetira para ela. Ela tinha estado com ele – sim, e por um impulso tão encantador quanto ele acreditava; mas oh! ela não estava em seu corpo. Era uma simples questão de evidência. Eu tinha, garanti a ele, uma declaração definitiva do que ela tinha feito —na maior parte do tempo — no clube. O lugar estava quase vazio, mas os em pregados a viram. Ela sentou-se imóvel em uma cadeira funda perto da lareira do salão; inclinou a cabeça para trás, fechou os olhos, e pareceu ter caído no sono suavemente.

—Entendi. Mas até que horas?

—Isto— fui obrigada a responder— os empregados não souberam me dizer. A recepcionista em particular, infelizmente, é uma tonta, embora até ela também tenha de ser uma dama. Ela estava evidentemente naquele período da noite, sem substituta e, contra o regulamento, se ausentou por algum tempo da cabine da qual lhe compete vigiar as idas e vindas. Ela estava confusa e obviamente não estava trabalhando direito; portanto, não posso positivamente, pela observação dela, dar uma hora exata. Mas o comentário era de que por volta das dez e meia nossa pobre amiga já não estava mais no clube.

—Ela veio para cá; e daqui foi direto pegar o trem.

—Ela não poderia ter se apressado tanto— declarei.— Não era do costume dela fazer isso.

—Ela não precisaria se apressar, minha querida, tinha bastante tempo. Você se engana ao lembrar que eu saí da sua casa tarde. Na verdade eu fui embora mais cedo que de costume. Sinto muito que minha estadia com você tenha parecido longa; pois eu estava de volta aqui por volta das dez .

—Para calçar os chinelos— respondi —e adormecer na cadeira. Você dormiu até de manhã. Então você a viu em um sonho!

Ele olhou para mim em silêncio e com olhos sombrios — um olhar que me sugeria que ele tantava reprimir sua irritação. Então eu continuei:

—Você recebeu a visita, em uma hora extraordinária, de uma dama—soit: nada no mundo é mais provável. Mas existem damas e damas. Como, por tudo o que é mais sagrado, se a visita dela não foi anunciada, se ela não falou nada, e se você nunca viu nenhum retrato dela, como poderia identificar a pessoa de quem estamos falando?

—Eu não ouvi você descrevê-la inúmera vezes? Vou descrevê-la para você em todos os detalhes.

— Não! — Exclamei com uma prontidão que o fez rir mais uma vez. Eu me irritei com isso, mas continuei: —Seu empregado a apresentou?

—Ele não estava aqui. Sempre está fora quando preciso dele. Uma das características desta casa enorme é que desde a porta da rua os diferentes pisos são acessíveis praticamente sem obstáculo. Meu servo anda de namoro com uma jovem empregada que trabalha no cômodo acima deste, e passou muito tempo com ela na noite passada. Quando está fora, ele deixa minha porta externa, na escada, entreaberta para poder se esgueirar de de volta sem fazer barulho. A porta então requer apenas um empurrão. Ela empurrou e entrou, isso simplesmente exigiu um pouco de coragem.

— Um pouco? Exigiu muita! E também exigiu todos os tipos de cálculos impossíveis.

—Bem, ela os tinha, ela os fez. Veja bem, não nego por um momento— acrescentou ele—que foi muito, muito incrível!

Algo em seu tom me impediu por um tempo de confiar em mim mesma para falar. Por fim, eu disse:

—Como ela soube onde você mora?

—Ele deve ter lembrado do endereço na etiqueta que o pessoal da loja felizmente deixou colado na moldura que eu mandei fazer para minha fotografia.

—E como ela estava vestida?

—De luto, minha querida. Sem grandes profundidades de crepe, mas preto simples e escrupuloso. Ela tinha em seu chapéu três pequenas penas pretas. Carregava um pequeno regalo de astrachan. Ela tem perto do olho esquerdo—ele continuou— uma pequena cicatriz vertical.

Eu o interrompi.

—A marca de uma ‘carícia’ do marido. Quão próximo você deve ter sido dela!— Ele não respondeu a isso, e até achei que ele corou. Quando percebi, parei imediatamente. —Bem, adeus.

—Você não vai ficar um pouco?

Ele veio a mim de novo com ternura, e desta vez eu o tolerei.

—A visita dela teve sua beleza—, ele murmurou enquanto me abraçava— mas a sua tem uma beleza maior.

Deixei que ele me beijasse, mas me lembrei, como tinha me lembrado no dia anterior, que o último beijo que ela dera, como eu supunha, neste mundo tinha sido nos lábios que ele tocava.

—Eu sou a vida, você entende?— respondi. —O que você viu ontem à noite foi a morte.

—Era vida, era vida!

Ele falou com uma espécie de teimosia suave, e eu me afastei. Ficamos nos olhando duramente.

—Como você descreve a cena – até onde a descreve – em termos que são incompreensíveis. Ela estava no aposento antes que você percebesse?

—Eu ergui os olhos da carta que estava escrevendo, naquela mesa sob a luminária. Eu estava totalmente absorto, e ela apareceu diante de mim.

— Então o que você fez?

—Eu levantei surpreso, e ela, com um sorriso, levou o dedo aos lábios, como um aviso, mas com uma certa dignidade delicada. Eu sabia que significava silêncio, mas o estranho é que o ato parecia imediatamente explicar e justificar. Nós, de qualquer forma, ficamos um tempo que, como já disse, não consigo calcular, cara a cara. Exatamente como você e eu estamos agora.

—Só se encarando?

—Ah! Nós não estamos encarando!— Ele protestou impacientemente.

—Sim, estamos conversando.

—Bem, nós também estávamos- de certo modo. —Ele se perdeu na lembrança. —Foi tão amigável quanto nossa conversa.

Eu estava com vontade de perguntar se isso significava muito para ele, mas, em vez disso, observei que o que eles evidentemente fizeram foi olhar com admiração mútua. Então perguntei se ele a tinha reconhecido de imediato.

—Não exatamente— respondeu ele—pois, é claro, eu não a esperava; mas me percebi quem ela era muito antes que ela partisse. Só poderia ser ela.

Eu pensei um pouco.

—E como ela foi embora, finalmente?

—Assim como veio. A porta se abriu atrás dela, e ela saiu.

—Ela foi rápida? lenta?

—Bem rápida. Mas pensando agora — acrescentou ele, com um sorriso. — Eu a deixei ir, pois entendi perfeitamente que deveria aceitar o que ela desejasse.

Tive consciência de exalar um suspiro longo e vago.

—Bem, você deve entender agora que eu desejo que você me deixe ir.

Com isso, ele se aproximou de mim novamente, detendo-me e persuadindo-me, declarando com toda a galanteria que comigo era muito diferente. Eu teria dado qualquer coisa para poder perguntar se ele a havia tocado, mas as palavras se recusaram a se formar. Eu sabia muito bem o quão horríveis e vulgares soariam. Eu disse outra coisa, esqueci exatamente o quê; mas foi algo dissimulado, para fazê-lo me contar sem que eu perguntasse. Mas ele não contou; só repetiu sua declaração feita momentos antes, como se tivesse percebido que me acalmar e consolar era o mais apropriado: me garantiu que ela era realmente primorosa, como eu sempre insisti, mas que eu era seu amor “de verdade” e para sempre. Isso me levou a reafirmar, no espírito de minha tréplica anterior, que eu tinha pelo menos o mérito de estar viva; o que, por sua vez, provocou vele o novo lampejo de contradição que eu temia.

—Oh, ela estava viva! Ela estava! Estava!

—Ela estava morta! Estava morta!— Afirmei com uma energia, uma certeza de que tinha que ser assim, que agora ao lembrar, me parece quase tão grotesca quanto antes. Mas quando ouvi o som de minhas palavras, elas me encheram de horror de repente, e toda a emoção natural que o significado delas poderia ter evocado em outras condições se juntou e irrompeu como uma inundação. Percebi que aqui estava um grande afeto extinto, e o quanto eu a amava e confiava nela. E, ao mesmo tempo, tive uma visão da beleza solitária de seu fim.

—Ela se foi. Está perdida para nós, para sempre!— Comecei a soluçar.

—Isso é exatamente o que sinto—, exclamou ele, falando com extrema gentileza e apertando-me junto a si para me consolar. —Ela se foi; ela está perdida para nós para sempre: então o que isso importa agora?

Ele se curvou sobre mim e, quando seu rosto tocou o meu, mal soube se estava molhado pelas minhas lágrimas ou pelas dele.

VII

Era minha teoria, minha convicção, e tornou-se, como posso dizer, minha atitude, que eles nunca tinham “se encontrado”; e foi justamente por esse motivo que disse a mim mesma que seria generoso pedir-lhe que me acompanhasse ao enterro. Ele fez isso, com muita discrição e ternura, e presumi, embora ele claramente não se importasse com o risco, que a solenidade da ocasião, em grande parte composta por pessoas que conheciam aos dois e tinham noção da longa história, apagaria todo o tipo de associação. Sobre a questão do que aconteceu na noite de sua morte, pouco mais discutimos entre nós. Fui tomada pelo horror do elemento de evidência. Parecia grosseiro e indiscreto em qualquer hipótese. Ele, por sua vez, não tinha nada para apresentar, nada pelo menos a não ser uma declaração de seu porteiro — que ele mesmo admitia ser um personagem muito casual e intermitente — de que entre dez horas e meia-noite não menos do que três damas vestidas de preto entraram e saíram do local. Isso provou ser demais; nós não tínhamos nenhuma necessidade de três. Ele sabia que eu acreditava ter reconstituído cada fragmento do que ela fizera naquela noite, deixamos o assunto e nos abstivemos de mais discussões. O que eu sabia, porém, era que ele se absteve para me agradar, e não porque tinha me dado razão. Ele não cedeu, apenas fez minha vontade. Ele se agarrou à sua interpretação porque era a que preferia. Ele preferia, eu pensei, porque agradava à sua vaidade. Em uma posição semelhante, esse não teria sido o efeito sobre mim, embora eu tivesse, sem dúvida, minha vaidade; mas essas são coisas do caráter individual, que ninguém pode julgar pelo outro. Eu podia imaginar que seria mais gratificante ser o assunto de uma daquelas ocorrências inexplicáveis que são narradas em livros emocionantes e discutidas em reuniões eruditas. Eu poderia conceber, por parte de um ser recém envolvido pelo infinito e ainda vibrando com a emoção humana, nada mais fino e puro, mais elevado e augusto do que esse impulso de reparação, de admoestação ou mesmo de curiosidade. Isso era lindo, se assim fosse, e eu no lugar dele teria uma opinião mais alta de mim mesmo por ter sido escolhido dessa forma. Era público que ele já fora escolhido e que há muito se distinguia de forma especial, e o que era isso em si senão quase uma prova? Cada uma das estranhas visitas contribuiu para estabelecer a outra. Ele tinha um sentimento diferente; mas ele também tinha, apresso-me a acrescentar, um desejo inconfundível de não tomar posição ou, como se costuma dizer, fazer barulho a respeito. Eu poderia acreditar no que quisesse – tanto mais que a coisa toda era de certa forma um mistério que eu mesma produzira. Foi um acontecimento da minha história, um enigma da minha consciência, não dele; portanto, ele tomaria qualquer tom que parecesse conveniente para mim. De qualquer forma, tínhamos outros assuntos a tratar ; estávamos apressados com os preparativos para nosso casamento.

Os meus preparativos eram certamente urgentes, mas com o passar dos dias descobri que acreditar no que eu “quisesse” era acreditar naquilo de que estava cada vez mais intimamente convencida. Descobri também que não queria acreditar tanto quanto achei que queria, ou que o prazer de planejar o evento estava longe de ser a causa de minha convicção. Minha obsessão, como posso realmente chamá-la e como comecei a perceber, recusava-se a ser afastada por minhas responsabilidades, como eu esperava que fosse. Se eu tinha muito a fazer, tinha ainda mais em que pensar, e chegou o momento em que minhas tarefas foram gravemente ameaçadas por meus pensamentos. Parece que vejo tudo de novo, que sinto, vivo de novo. Foi um período terrivelmente vazio de alegria, e cheio até transbordar de amargura; e, no entanto, devo fazer justiça a mim mesma: não poderia ser de outra maneira. As mesmas impressões estranhas, se eu as reencontrasse, produziriam a mesma angústia profunda, as mesmas dúvidas agudas, as mesmas certezas ainda mais agudas. Ah, é mais fácil lembrar do que escrever, mas mesmo se eu pudesse reconstituir tudo hora a hora, que pudesse encontrar os termos para o inexprimível, a feiura deles e a dor que causaram rapidamente deteriam minha mão. Permitam-me, então, observar de forma muito simples e resumida que uma semana antes do dia do nosso casamento, três semanas após a morte dela, tomei consciência de que tinha algo muito sério a encarar e que, se quisesse fazer esse esforço, tinha que ser imediatamente, sem perder mais um momento sequer. Meu ciúme inextinguível—essa era a máscara da Medusa. Não tinha morrido com a morte dela, tinha sobrevivido lividamente, alimentado por suspeitas indizíveis. Elas seriam indizíveis hoje, isto é, se eu não tivesse sentido a necessidade urgente de pronunciá-las naquele momento.

Essa necessidade tomou posse de mim — para me salvar, ao que parecia, do meu destino. Quando isso aconteceu, eu vi, na urgência do caso, nas horas que passam e no intervalo cada vez menor até o casamento, apenas uma questão: a rapidez e a franqueza absolutas. Eu poderia pelo menos não fazer a ele o mal de atrasar mais um dia, eu poderia pelo menos dar à minha dificuldade a importância que ela tinha, em vez de recorrer a um subterfúgio. Portanto, muito calmamente, mas ainda assim abrupta e horrivelmente, numa certa noite, disse a ele que deveríamos reconsiderar nossa situação e reconhecer que ela havia mudado completamente.

Ele me olhou bravamente.

—Mudou como?

—Outra pessoa se interpôs entre nós.

Ele hesitou por um instante.

—Não vou fingir que não sei de quem você está falando. —Ele sorriu com pena da minha aberração, mas tentou ser gentil. —Uma mulher morta e enterrada!

—Ela está enterrada, mas não está morta. Ela está morta para o mundo, está morta para mim. Mas ela não está morta para você.

—Você se lembra do que conversamos sobre a aparição dela naquela noite?

—Não,— respondi,—não vou voltar atrás de nada. Eu não preciso disso. Tenho mais do que suficiente com o que está diante de mim.

—E diga, querida, o que seria?

—Você está completamente mudado.

—Por esse absurdo? —Ele riu.

—Não tanto por esse, mas por outros absurdos que vieram depois.

—E o quais seriam eles?

Tínhamos nos enfrentado de maneira justa, com olhos que não vacilaram; mas os dele tinham uma luz fraca e estranha, e minha certeza triunfou em sua palidez perceptível.

—Você realmente finge—perguntei —não saber o que eles são?

—Minha querida menina, — respondeu ele— você os descreve muito superficialmente!

Eu pensei por um momento.

—Pode-se ficar com vergonha de contar os detalhes! Mas desse ponto de vista – e desde o início – o que foi mais embaraçoso do que sua idiossincrasia?

Ele foi extremamente vago. —Minha idiossincrasia?

—Seu notório, peculiar poder.

Ele encolheu os ombros com impaciência, e um suspiro de desdém exagerado. —Oh, meu poder peculiar!

—Sua acessibilidade a formas de vida— continuei friamente, —seu domínio de impressões, aparências, contatos que, para o bem ou para o mal, são proibidos para o resto de nós . No começo, isso foi parte do profundo interesse com que você me inspirou, uma das razões pelas quais me diverti, pois estava realmente orgulhosa de conhecê-lo. Era uma distinção magnífica; ainda é uma distinção magnífica. Mas é claro que eu não sabia na época como isso funcionaria agora; e mesmo que fosse esse o caso, eu não poderia imaginar nenhuma das formas extraordinárias em que sua ação me afetaria.

—Ao quê, em nome de Deus, —ele perguntou suplicante,—você está fantasticamente aludindo?

Então, enquanto eu permanecia em silêncio, procurando um tom adequado para minha acusação,ele continuou:

—Como afinal ele funciona? De que jeito isso te afeta, afinal?

—Ela não viu você por cinco anos,—eu disse,—mas agora ela nunca sente sua falta.

—Você está inventando.

—Inventando?

Ele tinha começado a mudar de branco para vermelho.

—Você a vê. Você a vê: a vê todas as noites! —

Ele fez um alto som de escárnio, mas não foi genuíno.

—Ela vem até você como veio naquela noite—declarei; —Depois de experimentar, ela descobriu que gostou!

Pude, com a ajuda de Deus, falar sem paixão cega ou violência vulgar; mas essas foram as palavras exatas – longe de serem “esboçadas” como me pareceram então – que eu pronunciei. Ele havia virado de costas, rindo e batendo palmas por causa da minha loucura, mas em um instante ele me encarou novamente, com uma mudança de expressão que me impressionou.

—Você ousa negar—perguntei —que costuma vê-la?

Ele tinha tomado a linha da indulgência, de me encontrar no meio do caminho e me agradar gentilmente. Em todo caso, para minha surpresa, ele disse de repente:

—Bem, minha querida, e se eu vejo?

—É o seu direito natural; pertence à sua constituição e à sua maravilhosa, senão talvez invejável sorte. Mas você compreenderá facilmente que isso nos separa. Eu te liberto incondicionalmente.

— Me liberta?

—Você deve escolher: eu ou ela.

Ele me olhou duramente.

—Entendi.

Então ele se afastou um pouco, como se entendesse o que eu havia dito e pensasse na melhor maneira de agir. Por fim, ele se voltou para mim de novo.

—Como você sabe de uma coisa tão particular?

—Você quer dizer porque você tentou tanto esconder isso? É mesmo algo muito particular, e você pode acreditar que nunca vou trair sua confiança. Você fez o seu melhor, cumpriu sua parte, se comportou, meu pobre amado, leal e admiravelmente. Portanto, tenho observado você em silêncio, desempenhando meu papel também. Notei cada queda em sua voz, cada ausência em seus olhos, cada esforço em sua mão indiferente: esperei até estar completamente segura e miseravelmente infeliz. Como pode esconder que está abjetamente apaixonado por ela, quando você está doente quase até a morte com a alegria do que ela lhe dá? —Eu rejeitei seu protesto rápido com um gesto ainda mais rápido. —Você a ama como nunca amou ninguém e, paixão por paixão, ela retribui igualmente! Ela manda em você, ela te segura, ela te possui completamente! Uma mulher, em um caso como o meu, adivinha, sente e vê; não é uma idiota que precisa ser informada com credibilidade. Você vem a mim mecanicamente, com compaixão, com os restos de sua ternura e o resto de sua vida. Posso renunciar a você, mas não posso compartilhá-lo; o melhor de você é dela. Eu entendo, e livremente entrego você a ela para sempre!

Ele resistiu bravamente, mas não tinha mais jeito; ele repetiu sua negação, retirou sua admissão, ridicularizou minha acusação, que eu prontamente admiti era de uma extravagância indefensável. Não fingi por um momento que estávamos falando de coisas comuns. Não fingi por um momento que ele e ela eram pessoas comuns. Ora, se eles fossem, como eu poderia tê-los amado? Eles haviam desfrutado de uma rara extensão de existência e me levaram junto em seu voo; só que eu não conseguia respirar naquele ar, e prontamente pedi para ser colocada de volta no chão. Tudo nos fatos era monstruoso e, acima de tudo, minha percepção lúcida deles; a única coisa aliada à natureza e à verdade era eu ter que agir de acordo com essa percepção. Depois de ter dito tudo isso, senti que minha certeza era completa; nada lhe faltava, exceto a visão do meu efeito sobre ele. Ele disfarçou sua reação como quem se esconde numa nuvem de fumaça, uma distração que lhe rendeu tempo e cobriu sua retirada. Ele desafiou minha sinceridade, minha sanidade, quase minha humanidade, e isso, é claro, ampliou nossa discordância e confirmou nossa ruptura. Ele fez tudo menos me convencer de que eu estava errada ou que ele estava infeliz; nós nos separamos e eu o deixei com sua comunhão inconcebível.

Ele nunca se casou, e eu também não. Quando, seis anos depois, na solidão e no silêncio, soube de sua morte, recebi a notícia como uma confirmação direta da minha teoria. Sua morte foi repentina e nunca foi devidamente explicada, cercada por circunstâncias—eu analisei muito bem! — que sugeriam claramente uma intenção, a marca de sua própria mão oculta. Foi o resultado de uma longa necessidade, de um desejo insaciável. Para dizer exatamente o que quero dizer, foi uma resposta a um chamado irresistível.

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