Krampus: o anti-Papai Noel?

Saudações, leitor noturno!

Faz um tempo que não temos artigo novo no blog, e como já estamos em Dezembro, é hora de falar um pouco de tradições natalinas! Mas o que são “tradições natalinas”? Claro que cada lugar tem seus próprios costumes e tradições para celebrar essa data do calendário cristão. O Natal, colocado da maneira mais simples, é a celebração simbólica do nascimento de Jesus Cristo. Mas cada cultura, cada país inventou ou adotou formas diferentes de celebrar. Até países que não tem maioria cristã inventaram algumas, como por exemplo o Japão, onde a tradição natalina é…comer frango do KFC!

É verdade que na maioria dos países de maioria cristã, como o Brasil, os elementos da comemoração se parecem um pouco. Temos a árvore de Natal, os presentes, o Papai Noel…De uma certa forma o Natal se globalizou, em muito graças ao comércio e à indústria de entretenimento. Afinal todo mundo já ouviu aquela história que diz que o Papai Noel de vermelho é invenção do marketing da Coca-Cola (o que não é bem assim, mas isso é assunto para outro artigo) e todos nós já lemos ou assistimos alguma adaptação do “Conto de Natal” de Charles Dickens. Esse livro, aliás, é a fonte de muitas das tradições natalinas que nós ainda observamos, graças à sua enorme popularidade na época do lançamento. Pois é, antes de existir reprise de “Esqueceram de Mim” na TV as famílias se juntavam no Natal para ler e contar histórias. Na época vitoriana muitas dessas histórias eram publicadas em revistas e outras publicações periódicas, que foram a primeira forma de “indústria de entretenimento natalina”.

Mas é claro que o Natal nem sempre foi tão homogêneo, e mesmo com a avalanche de filmes, brinquedos, programas de TV, especiais da Netflix e outros produtos culturais que vendem uma visão pré-determinada do Natal, ainda podemos encontrar tradições e costumes diferentes. A verdade é que o Natal é uma mistura de diferentes culturas. Apesar de ser uma festa cristã, ele tem inúmeros elementos pré-cristãos, que foram sendo assimilados à medida que o Cristianismo se expandia e ganhava força durante a Antiguidade tardia até o Início da Idade Média. Muitos destes elementos agora são parte intrínseca das comemorações em todo o mundo, como a árvore decorada (uma possível herança de tribos germânicas), mas há outros menos conhecidos, como o Krampus.

O companheiro malvado de São Nicolau

O Krampus é uma figura folclórica da Europa central. Ele é um dos muitos “companheiros de São Nicolau” que aparecem no Natal da Alemanha, Áustria, Croácia, Hungria, República Checa e até em partes da França e da Itália. Ou seja antes de falar do Krampus, temos que falar um pouco de São Nicolau.

Aqui no Brasil, assim como nos Estados Unidos, Portugal, França e outros países ocidentais temos o Papai Noel (Santa Claus, Father Christmas, Pai Natal, Père Noël, et), que é uma figura inspirada em São Nicolau, mas que foi, ao longo dos anos, recebendo outras características que aos poucos tiraram dele muitos dos aspectos religiosos e o transformaram em uma figura mais laica, ou seja perfeita para usar como garoto propaganda no comércio natalino. Mas em muitas partes da Europa a tarefa de trazer presentes para as crianças boazinhas tradicionalmente era do próprio santo.

São Nicolau de Myra foi uma pessoa real, que nasceu no século III na Ásia Menor (onde hoje seria a Turquia) e foi bispo na antiga cidade de Myra. Ele tinha a reputação de ser um homem extremamente bondoso. Uma das historiais mais famosas sobre ele é a de como salvou três homens de serem executados por um crime que não tinham cometido. Mas a tradição mais popular conta que ele tinha o costume de ajudar famílias pobres deixando moedas de ouro em suas janelas ou dentro de seus sapatos no meio da noite, quando ninguém estava vendo. Parece familiar, não? Como o dia de São Nicolau é em 6 de Dezembro, é bem fácil perceber como essa figura bondosa acabou sendo assimilada nas tradições de Natal e dando origem ao nosso “bom velhinho”. Então, antes de o Papai Noel existir como o conhecemos hoje, a tradição dizia que era São Nicolau quem deixava os presentes de Natal para as crianças boazinhas.

São Nicolau, ícone pintado por Jaroslav Čermák (1831 – 1878)

E as crianças más? Bem, elas tinham que se entender com os “companheiros de São Nicolau.”

Esses “companheiros” eram um grupo de figuras maléficas, que variavam de lugar para lugar, mas cuja função era fazer o “trabalho sujo” de São Nicolau. Ou seja, enquanto ele distribuía presentes para as crianças bem comportadas, seus companheiros castigavam aquelas que tinham passado o ano fazendo travessuras. Dependendo do lugar e da versão da história esses castigos podiam ser “leves” como umas palmadas ou chicotadas no bumbum, ou bem piores como ser cozido vivo em um caldeirão ou até arrastado para o inferno. Pois é, era meio como se São Nicolau fosse um chefão da máfia com um monte de capangas.

De longe o mais famoso desses “companheiros” é o Krampus.

Krampus (Devil, Père Fouettard, Knecht Ruprecht, traditionally evil companion of Santa Claus) taking naughty children, postcard for feast of St Nicholas, Hungary, early 20th century
Um cartão postal húgaro representando o Krampus.

O Krampus, cujo nome vem da palavrea germânica “kranpen’ que significa “garra”, é sempre representado mais ou menos do mesmo jeito: uma criatura sinistra com corpo de homem, chifres e patas de bode, um língua vermelha e comprida saindo para fora da boca, pelos pretos ou marrons e carregando um feixe de varas ou um chicote na mão, correntes e e um saco nas costas. Parece muito mais com um demônio do que com uma figura “natalina”, e a ideia é essa mesmo. De acordo com Stephem Nissembaum, professor de história na Universidade de Massachusetts at Amherst e autor do livro “The Battle for Christmas” (“A Batalha pelo Natal” ainda sem tradução no Brasil), o Natal “funcionava teologicamente como uma versão infantil do Dia do Juízo Final” Ou seja, era o dia em que elas eram julgadas pelo seu comportamento ao longo do ano da mesma forma que, segundo a tradição cristã, as almas seriam julgadas por seus pecados ao longo da vida no dia do Juízo Final. Daí a necessidade de uma dualidade: São Nicolau, que recompensa os bons, representava Deus, e o Krampus, que pune os maus, representava o demônio.

No entanto o Krampus tem origens muito mais antigas, que remontam de antes da expansão do Cristianismo da Europa e do surgimento das festividades associadas com o Natal

Perchtenlauf: a origem do Krampus?

A região dos Alpes alemães e austríacos tem uma rica tradição folclórica pré-cristã na qual se mescla de elementos galo-romanos, germânicos, eslavos e récios (os Récios eram os habitantes da Récia, uma região submetida ao Império Romano que se localizava onde hoje estão as áreas centrais is orientais da Suiça). Uma das divindades do paganismo alpino era a deusa Perchta (a luminosa). Essa divindade era a guardiã dos animais, e tinha duas formas: uma jovem e bela e a outra velha e de aparência selvagem. Também se acreditava que ela podia tomar a forma de qualquer animal. Perchta tinha um séquito de criaturas mágicas conhecidas como Perchten, figuras femininas que usavam máscaras feitas de madeira e pele de carneiro. Acreditava-se que as Perchten eram a representação das almas dos mortos e costumavam sair e vagar durante o inverno. Essa crença criou a tradição das procissões chamadas de Perchtenlauf, nas quais as pessoas saíam fantasiadas de Perchten. As fantasias tinham diversas variantes: os Percht, versões masculinas das Perchten, as Perchten belas (Schönperchten) que traziam sorte e fortuna, e as Perchten feias (Schiachperchten), que espantavam os espíritos malignos e demônios.

Essas procissões continuaram mesmo com a expansão e estabelecimento do cristianismo, e a Igreja não as via exatamente com bons olhos. Muitos governantes e oficiais tentaram até proibir as Perchtenlauf, mas era muito difícil fazer a proibição valer pois o terreno dos Alpes e a pouca densidade populacional faziam a fiscalização quase impossível. Enquanto a tradição das Perchenlauf continuava, uma outra tradição ia se estabelecendo: a Nikolausspiel, ou “Peças de São Nicolau”. Eram peças de teatro moralizantes, encenadas no início de Dezembro, perto dos dia de São Nicolau. Nelas, São Nicolau era apresentado como o representante do bem, que recompensava as crianças por suas boas ações, e salvava as almas dos pecadores. Conforme essas apresentações cresceram em popularidade, as Perchenlauf começaram a usar a figura de São Nicolau.

Mas há mais elementos pagãos na figura do Krampus. Segundo Maurice Bruce, no artigo de 1958  “The Krampus in Styria”, os chifres do Krampus seriam uma herança direta da figura do Deus Chifrudo presente em diversas tradições pagãs, e os ramos de bétula que ele às vezes carrega consigo poderiam ser uma referência à antigos rituais de iniciação. O antropológo John J. Honigmann, em seu artigo de 1975, “The Masked Face”, argumenta que elementos de tradições pagãs foram assimilados pela igreja à figura do demônio, o que teria dado origem ao Krampus depois de sua associação com São Nicolau.

Krampusnacht, Krampuslauf, Krampuskarten: o Krampus é pop.

Com o passar do tempo a associação entre o Krampus, descendente dos perchts/perchen do folclore pagão, com São Nicolaus foi ficando tão forte que acabou dando origem ao festival de Krampusnacth, ou “noite do Krampus”. Nessa noite, na véspera do dia de São Nicolau, acontece a Krampuslauf, uma “procissão” de pessoas vestidas de Krampus que saem às ruas para “tocar o terror”, assustando criancinhas (e adultos também, diga-se de passagem) e exibindo suas fantasias cheias de efeitos especiais. O Krampuslauf não tem o caráter religioso do Perchtenlauf, e talvez por isso continue sendo popular até hoje. O evento acontece em muitas cidades da Alemanha, Áutria, Suiça e no norte da Itália , e geralmente atrai multidões, em especial famílias com crianças. Afinal nada melhor para manter o espírito natalino do lembrar ao pequenos que o comportamento ao longo do ano pode ter consequências apavorantes.

Na verdade, o Krampus sempre foi popular. Com certeza muitos pais e mães ao longo dos séculos se aproveitaram da figura assustadora dele para assustar as crianças para tentar fazê-las se comportar melhor. Ou seja o Krampus é bem parecido com a Cuca, o Bicho Papão ou o velho do saco. Só isso já garantiria sua “popularidade”. Afinal, todo mundo gosta de uma boa história assustadora, e o que pode ser mais assustador do que um demônio que aparece na época de natal para castigar criancinhas com um chicote (ou coisa pior)? É uma daquelas histórias clássicas que a gente ouve de uma avó e depois conta para os filhos e os netos. Mas o atrativo do Krampus não está só no seu lado sombrio. Ele também tem seu lado divertido.

Durante o século XIX os Krampuskarten (cartões do Krampus) ficaram muito populares. Eram cartões de natal que mostravam o Krampus em desenhos engraçados. É claro que o que era engraçado para as pessoas do século XIX não necessariamente é engraçado para nós, ou seja enquanto muitos destes cartões ainda são bem hilários aos nossos olhos modernos, outros são meio…esquisitos. Um dos temas mais populares para os cartões era, claro, o Krampus castigando criancinhas malcriadas, o que certamente é mais fácil de apreciar se você tiver um senso de humor mais mórbido.

walt74 via Flickr // CC BY-NC-SA 2.0

Outros cartões eram mais, digamos, “adultos”. Eles mostravam o Krampus flertando ou perseguindo moças bonitas. Estes cartões mais picantes apostavam nas associações mais demoníacas e menos natalinas do Krampus. Aliás é esse aspecto meio demoníaco que torna o Krampus tão interessante. Muitas celebrações tem um elemento de perturbação da ordem “natural” e da “moralidade”. Vejamos o Carnaval, por exemplo: são três dias nos quais as regras da vida quotidiana e as hierarquias sociais são suspensas, e as pessoas podem fazer coisas que normalmente não fariam sem medo de serem julgadas. Depois tudo volta ao normal.

krampus christmas cards

Essa suspensão do “normal” funciona como uma espécie de catarse, uma válvula de escape para as frustrações da vida diária. Muitas festividades permitem essa revogação das regras justamente como uma forma de reforçar hierarquias. Isto é, quando se permite que, em momentos específicos, as pessoas possam escapar das regras momentaneamente, isso permite que a tensão social “relaxe” um pouco, e a sociedade pode voltar ao seu ritmo e suas hierarquias normais.

O natal é, provavelmente, uma das festividades mais formais e hierárquicas do calendário cristão. Afinal é a celebração do nascimento do filho de Deus. O Krampus, de certa forma, serve como uma válvula de escape que torna essa celebração um pouco menos formal e hierarquizante. Se por um lado ele é a figura que pune as crianças, por outro ele é um demônio que sai por aí assustando as pessoas no Krampuslauf ou jogando seu charme nas mulheres nos Krampuskarten. Dentro da visão “arrumadinha” do natal, o Krampus certamente é o elemento mais “caótico”.

Isso pode explicar o crescimento recente da popularidade dele entre pessoas que querem celebrar o Natal de maneiras menos ortodoxas, ou que querem explorar os elementos mais pagãos da festa. Por isso vemos o Krampus aparecer com cada vez mais frequência na cultura popular. Algumas cidades do Estados Unidos, como Nova Orleans e Washington DC já tem suas próprias Krampusnachts e o Krampus já foi tema de vários filmes e programas de tv, como Supernatural e As Arrepiantes Aventuras de Sabrina. Também encontramos o demônio do natal em quadrinhos e graphic novels como Krampus: The Yule Lord de Gerald Brom e Klaus de Grant Morrisson. Em várias cidades turísticas da Áustria e da Alemanha a figura do Krampus aparece em lembrancinhas, caixas de chocolate e brinquedos. Ironicamente, o crescimento na popularidade do Krampus levou muita gente a criticar a sua comercialização excessiva, e há uma certa preocupação de que ele acabe como o Papai Noel: um garoto propaganda para o comércio natalino.

Fontes consultadas:

Livros:

Al Ridenour, Al. The Krampus and the Old Dark Christmas: Roots and Rebirth of the Folkloric Devil. Port Townsend, WA: Feral House (2016)

Christian Roy. Traditional Festivals, A multicultural Encyclopedia ABC-CLIO (2005)

David Natko Ritual Rebellion and Social Inversion in Alpine Austria: Rethinking the “Perchtenlauf” in its Relationship to the Carnivalesque. Arizona State University (2014)

Monte Beauchamp, . The Devil in Design: The Krampus Postcards. Seattle, Washington: Fantagraphics. (2016)

Victoria Williams, Victoria. Celebrating Life Customs around the World: From Baby Showers to Funerals [3 volumes]. ABC-CLIO (2016)

Artigos:

John J. Honigmann, “The Masked Face”. Ethos5 (3): 263.(1977)

Maurice Bruce: “The Krampus in Styria”. Folklore69: 45.(1958)

Miguel Roncero, “Trailing the Krampus”, Vienna Review, 2 December 2013

Horror For The Holidays: Meet The Anti-Santa

Ideas & trends: have a very scary Christmas (The New York Times)

17 Devilishly Awesome Vintage Krampus Cards

Greetings From Krampus: Gorgeous Old Postcards Of Santa’s Demonic Sidekick

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