Uma convocação fantasmagórica- Ada Buisson

A ghost’s summons

“A ghost’s summons” foi publicado pela primeira vez no volume 4 da revista Inglesa Belgravia, sob edição de Mary Elizabeth Graddon, em janeiro de 1868. Também foi publicada no periódico australiano The Queenslander, em março do mesmo ano.

—Estão chamando o senhor, é um paciente.

Foi no início de minha carreira profissional, quando minha lista de pacientes era pequena e os honorários menores ainda. Embora eu estivesse prestes a sentar-me à mesa com uma costeleta, e tivesse me prometido uma xícara de ponche fumegante para comemorar o Natal, corri imediatamente para o meu consultório.

Eu entrei rapidamente mas, assim que avistei a figura encostada no balcão, recuei com uma estranha sensação de horror que, juro por tudo que há de mais sagrado, não consegui entender. Jamais esquecerei como era apavorante daquele rosto, o branco horror estampado em cada um de seus traços, a agonia que parecia afundar seus olhos sob as sobrancelhas contraídas. Mesmo para mim, acostumado a ver cenas terríveis, foi uma visão assustadora.

—Precisa de ajuda? —perguntei, com alguma hesitação.

—Não. Eu não estou doente.

—Então precisa de…

—Calado! —ele interrompeu, aproximando-se mais, sua voz murmurante se transformando em um mero sussurro. —Eu creio que você não é rico. Estaria disposto a ganhar mil libras?

Mil libras! Suas palavras pareciam queimar meus ouvidos.

—Eu ficaria grato se pudesse fazer isso honestamente.—respondi com dignidade. —Que serviço teria que prestar?

Uma peculiar expressão de intenso horror passou sobre o rosto branco que eu tinha diante de mim, mas os lábios escuros e exangues responderam firmemente:

—Acudir a um leito de morte.

—Mil libras para acudir a um leito de morte! Para onde devo ir, então ? Quem é o paciente?

—Eu.

A voz que disse essa palavra soou tão oca e distante, que involuntariamente me encolhi.

—O senhor!? Que absurdo! O senhor ão está morrendo. Está pálido, mas me parece perfeitamente saudável.

—Calado! —ele interrompeu —Eu sei de tudo isso. Você não pode estar mais convencido da minha saúde física do que eu eu mesmo. Mesmo assim, sei que antes que relógio soe a primeira hora após a meia-noite serei um homem morto.

— Mas…

Ele estremeceu ligeiramente; mas levantando a mão com ar de autoridade, acenou-me para ficar em silêncio.

—Estou muito bem informado sobre o que afirmo— disse ele calmamente—Recebi uma misteriosa convocação dos mortos. Nenhuma ajuda mortal pode me salvar. Estou tão condenado quanto o prisioneiro a quem o juiz deu sua sentença. Não vim para buscar o seu conselho ou para discutir o assunto, mas simplesmente para contratar seus serviços. Ofereço mil libras para passar a noite no meu quarto, e testemunhar o que vai acontecer. A soma pode parecer extravagante. Mas não tenho mais necessidade de me preocupar com dinheiro; e o espetáculo que vai testemunhar não será uma visão comum.

As palavras, ainda que estranhas, foram ditas com bastante calma. Mas assim que a última frase saiu lenta daqueles lábios lívidos, uma expressão de tal horror selvagem passou outra vez sobre o rosto do desconhecido que, apesar da do generoso pagamento, hesitei em lhe dar uma resposta.

—Tem medo de confiar na palavra de um homem morto? Pois, veja, e creia— ele exclamou ansiosamente. Então colocou um documento escrito em papel pergaminho sobre o balcão entre nós e apontou com sua mão pálida e musculosa para as palavras “Ao Sr. Frederick Kead, residente em High Street 14, Alton, deixo a soma de mil libras referentes a serviços prestados à minha pessoa.”

—Mandei redigir nas últimas 24 horas, e assinei há uma hora, na presença de testemunhas idôneas. Sim, estou preparado. Aceita minha oferta ou não?

Minha resposta foi atravessar o aposento, pegar meu chapéu e trancar a porta que conecta a clínica com a minha casa.

Era uma noite escura e gélida e, de alguma forma, a coragem e a determinação que se apossaram de mim ao ver meu nome escrito ao lado de “mil libras” foram diminuindo consideravelmente assim que me vi levado às pressas no meio da escuridão silenciosa por um homem cuja morte eu estava prestes a testemunhar.

Ele estava severamente quieto; mas quando sua mão tocou a minha parecia um carvão em chamas, apesar da geada.

Prosseguimos, andando, andando e andando através da neve. Continuamos e continuamos, até eu ficar cansado até que, por fim, as badaladas de um relógio de igreja chegaram aos meus ouvidos apavorados. Conforme nos aproximávamos, fui distinguindo as encostas nevadas de um cemitério.

Céus! A tal cena horrível da qual eu deveria ser testemunha iria acontecer literalmente entre os mortos?

—Onze— gemeu o homem condenado. —Céus! Só mais duas horas e aquele mensageiro fantasmagórico trará a convocação. Venha, venha; pelo amor de Deus, vamos nos apressar.

Apenas um curto caminho nos separava agora do muro que cercava uma grande mansão. Seguimos rapidamente ao longo dele até que chegamos a uma pequena porta.

Depois de cruzá-la, em poucos minutos estávamos subindo furtivamente a escada privada de um aposento esplendidamente mobiliado, que não deixava dúvidas sobre a riqueza de seu proprietário.

No entanto, tudo estava intensamente silencioso dentro da casa; e naquele aposento em particular havia uma quietude que me pareceu quase medonha enquanto eu olhava ao meu redor.

Meu acompanhante olhou para o relógio que ficava sobre a lareira e afundou-se em uma grande cadeira ao lado do fogo, estremecendo.

—Só mais uma hora e meia—murmurou.— Deus do céu! Achei que tinha mais coragem. Esse horror me atormenta. —

Então, em um tom mais feroz, agarrando meu braço, ele acrescentou—Ah! Você zomba de mim, me acha louco; mas espere até ver – espere para ver!

Eu coloquei minha mão em seu pulso. Percebi uma febre em seus olhos fundos que deteve o medo supersticioso que tomava conta de mim e me fez acreditar que, afinal, minha primeira suspeita estava correta e que meu paciente era apenas vítima de alguma terrível alucinação.

—Zombar do senhor? — respondi suavemente. —Longe disso; simpatizo muito com o senhor e quero, de verdade, ajudá-lo. Precisa dormir. Deite-se e deixe-me vigiá-lo.

Ele gemeu, mas se levantou e começou a se livrar das roupas. Aproveitando a oportunidade, coloquei um sonífero, que conseguira colocar no bolso antes de sair do consultório, na taça de vinho claret que estava ao lado dele.

Quanto mais eu via, mais me convencia de que era o sistema nervoso de meu paciente que exigia minha atenção; e foi com sincera satisfação que o vi beber o vinho e depois se esticar na luxuosa cama.

—Rá— pensei eu, quando o relógio bateu meia-noite, e em vez de um gemido, foi apenas a respiração profunda do paciente adormecido que ecoou pela sala; —o senhor não receberá nenhuma convocação esta noite, posso ficar tranquilo

Silenciosamente, portanto, aticei o fogo, me servi de uma generosa taça de vinho e, fechando o cortinado do cama para que a luz da lareira não incomodasse o paciente, me ajeitei para seguir seu exemplo.

Não sei quanto tempo dormi, mas de repente despertei com um sobressalto e o arrepio de um terror fantasmagórico como nunca tinha sentido antes em minha vida.

Algo – o quê, eu não sabia – parecia próximo, algo sem nome, mas indizivelmente horrível.

Olhei em volta.

O fogo emitia um leve brilho azul, apenas o suficiente para me permitir ver que o quarto continuava exatamente do mesmo jeito que estava quanto adormeci, mas que o longo ponteiro do relógio estava a apenas cinco minutos da misteriosa hora que seria o momento da morte do homem “convocado”!

Haveria então alguma verdade na estranha história que ele me contara?

O silêncio era pesado.

Não conseguia ouvir sequer um suspiro vindo da cama. Estava prestes a me levantar e me aproximar, quando novamente aquele horror inominável se apoderou de mim, e no momento em que meus olhos caíram sobre o espelho oposto à porta, e eu vi …

Deus do céu! Aquela forma grotesca, aquela zombaria medonha do poderia ter sido um ser humano, era realmente um mensageiro dos mortos enterrados e silenciosos?

Estava lá, com as vestes fúnebres bem visíveis; mas o rosto hediondo mortificado de corrupção e os olhos fundos brilhavam com uma luz verde e vítrea que parecia uma verdadeira explosão dos fogos do inferno.

Mover-se ou emitir um som naquela presença hedionda era impossível; e como uma estátua, fiquei ali sentado, vendo aquela forma dantesca mover-se lentamente em direção à cama.

Que cena pavorosa se desenrolou ali, eu não sei. Não ouvi nada, exceto um gemido agonizante e abafado; e vi a sombra daquele mensageiro medonho curvado sobre a cama.

Se foi alguma horripilante frase dita sem palavras que seus lábios mortos transmitiram enquanto estava ali, não sei; mas por um instante a sombra de uma mão em forma de garra, da qual faltava o terceiro dedo, apareceu estender-se sobre a cabeça do homem condenado. E então, quando o relógio bateu um único badalar límpido e prateado, a mão caiu sobre ele, e um grito selvagem ecoou pela sala – um grito de morte.

Não sou dado a desmaiar, mas tenho que confessar que os seguintes dez minutos de minha existência foram um branco impassível; e mesmo quando consegui me levantar, cambaleando, ao olhar em volta, esforcei-me em vão para compreender o horror frígido que ainda me possuía.

Graças a Deus, percebi que a sala estava livre daquela presença aterradora e então, engolindo um pouco de vinho, acendi uma vela cambaleei em direção à cama. Ah, como rezei para que, afinal de contas, eu tivesse sonhado e que minha imaginação nervosa tivesse apenas evocado alguma lembrança horrível da sala de dissecação!

Mas um olhar foi suficiente para responder à minha prece.

Não! A convocação tinha realmente sido feita e respondida.

Iluminei o rosto morto, inchado e ainda convulsionado pela agonia da morte; mas de repente me afastei.

Mesmo enquanto eu olhava para ele, a expressão de seu rosto parecia mudar: o negror se desmanchou em uma brancura mortal; as feições convulsionadas relaxaram e, como se a vítima daquela terrível aparição ainda vivesse, um sorriso triste e solene apareceu nos lábios descorados.

Fiquei profundamente horrorizado, mas ainda retive autoconsciência suficiente para que tal fenômeno me intrigasse profissionalmente.

Certamente havia algo mais do que ação sobrenatural em tudo aquilo.

Novamente, examinei o rosto morto, examinei a garganta e o peito; mas, com exceção de uma pequena espinha em uma têmpora, sob um cacho de cabelo, não encontrei nenhuma marca. Olhando para o cadáver, dava para acreditar que aquele homem tinha realmente morrido pela visitação de Deus, pacificamente, enquanto dormia.

Não sei ao certo quanto tempo fiquei ali, mas foi tempo suficiente para reunir meus sentidos dispersos e refletir que, levando tudo em consideração, eu acabaria em uma posição muito desagradável caso fosse encontrado assim de surpresa no quarto de um homem que morrera tão misteriosamente.

Então, o mais silenciosamente que pude, saí daquela casa. Não encontrei ninguém ao descer a escada e a porta que dava para a rua se abriu facilmente. Fiquei muito grato ao sentir novamente o ar fresco do inverno enquanto andava rápido, seguindo ao longo daquela estrada perto do cemitério.

Pouco tempo depois houve um funeral magnífico na igreja que ficava ali; e dizia-se que a jovem viúva do homem enterrado estava inconsolável. Então, rumores espalharam-se sobre uma horrível aparição que teria sido vista na noite da morte; cochichava-se que a jovem viúva estava apavorada e insistia em deixar sua esplêndida mansão.

De qualquer forma, eu estava muito confuso com o caso para arriscar minha reputação dizendo o que sabia. E teria deixado que minha participação naquela história permanecesse para sempre enterrada no esquecimento, se não tivesse ouvido que a viúva, objetando a muitas cláusulas do testamento do marido, pretendia contestá-lo sob alegação de insanidade. Gradualmente começou a circular o boato de ele acreditava ter recebido uma convocação misteriosa.

Então, procurei um advogado e enviei um recado à senhora dizendo que, como a última pessoa a atender seu marido, me comprometia a provar sua sanidade; e implorei a ela que me concedesse uma entrevista, na qual eu contaria a história mais estranha e horrível que ouvidos humanos já ouviram. Na mesma noite recebi um convite para ir à mansão. Fui conduzido imediatamente a uma sala esplêndida, e ali, diante do fogo, estava a jovem criatura mais deslumbrantemente bela que eu já tinha visto.

Ela era pequena, mas primorosamente feita; se não fosse pela dignidade de seu porte, eu teria acreditado que se tratava de uma mera criança. Com uma reverência imponente, ela se aproximou, mas não disse nada.

—Venho em uma missão estranha e dolorosa,— comecei a falar, mas parei pois aconteceu de eu olhar bem em seus olhos, e deles para a pequena mão direita agarrada à cadeira. A aliança estava naquela mão!

—Concluo que é o Sr. Kead que solicitou permissão para me contar uma absurda história de fantasmas, e que meu falecido marido menciona aqui. —E enquanto falava, estendeu a mão esquerda em direção a alguma coisa – o quê eu não sabia, pois meus olhos estavam fixos em sua mão.

Que horror! Era uma mão branca e delicada, mas tinha a forma de uma garra e faltava o terceiro dedo!

Uma frase foi o suficiente depois disso.

—Senhora, tudo o que posso dizer é que o fantasma que convocou seu marido estava marcado por uma deformidade singular. O terceiro dedo da mão esquerda estava faltando— eu disse severamente; e sem mais me afastei daquela presença bela e pecaminosa.

O testamento nunca mais foi contestado. Na manhã seguinte recebi um cheque de mil libras. Só fui ouvir alguma notícia da viúva quando soube ela mesma acabou vendo aquela aparição pavorosa e tinha se mudado da mansão imediatamente.

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