Um frio abraço- Mary Elizabeth Braddon

Imagem de capa: Juan Pablo Serrano Arenas

“The Cold Embrace” foi publicado em 29 de setembro de 1860 no periódico The Welcome Guest, e desde a primeira publicação aparece frequentemente em compilações e antologias dos contos da autora.

*AVISO*: Esta história menciona suicídio e nela aparecem opiniões sobre o suicídio que refletem os valores e preconceitos predominantes na época.

Ele era um artista – o que aconteceu com ele às vezes acontece com os artistas.

Ele era alemão – o que aconteceu com com ele às vezes acontece com os alemães.

Ele era jovem, bonito, estudioso, entusiasta, metafísico, imprudente, incrédulo, e sem coração.

E sendo jovem, belo e eloquente, ele era também amado.

Era órfão, criado sob a tutela de seu tio Wilhelm, irmão de seu falecido pai, em cuja casa ele havia vivido desde pequeno. Aquela que o amava era sua prima – sua prima Gertrude, a quem ele jurou que também amava.

Ele a amava? Sim, quando jurou pela primeira vez. Logo se esvaiu aquele amor apaixonado. Quão esfarrapado e miserável esse sentimento acabou se tornando no coração egoísta do estudante! Mas em seu primeiro amanhecer dourado, quando ele tinha apenas dezenove anos e acabara de voltar de seu aprendizado com um grande pintor na Antuérpia, quando eles caminhavam juntos pelos arredores mais românticos da cidade ao pôr do sol rosado, sob luar sagrado ou na alegre manhã brilhante, que lindo sonho havia sido!

Eles mantiveram seu amor escondido de Wilhelm, já que ele tinha a ambição típica de pai de arranjar um pretendente rico para sua única filha – um plano frio e sombrio se comparado aos sonhos de um apaixonado.

Então eles ficaram noivos. Lado a lado, enquanto o sol poente e a pálida lua nascente compartilham os céus, ele coloca o anel de noivado em seu dedo, o dedo branco e afilado cuja forma esguia ele conhece tão bem. O anel é peculiar, uma pesada serpente dourada, com a cauda na boca, o símbolo da eternidade. Tinha pertencido à sua mãe; ele o reconheceria entre mil outros. Se ficasse cego amanhã, ainda conseguiria encontrar aquele anel entre outros mil apenas pelo toque.

Ele coloca o anel no dedo dela, e eles juram ser fiéis um ao outro para todo o sempre -frente a qualquer problema ou perigo, frente à qualquer mudança e tristeza, na riqueza e na pobreza. Teriam que convencer o pai dela a consentir em sua união em breve, pois estavam noivos agora, e só a morte poderia separá-los.

Mas o jovem estudante, escarnecedor da revelação, porém entusiástico adorador do místico, pergunta:

— A morte pode nos separar? Eu voltaria do túmulo para você, Gertrude. Minha alma voltaria para ficar perto do meu amor. E você, se morresse antes de mim, a terra fria não a afastaria de mim; se me ama, voltaria, e novamente estes belos braços estariam em volta do meu pescoço como estão agora.

Mas ela respondeu, com uma luz mais sagrada em seus olhos azul-escuros do que jamais brilhou nos olhos dele, que aqueles que morrem em paz com Deus são felizes no céu e não podem retornar à terra conturbada; e que é apenas o o espírito profano do suicida, o perdido espírito infeliz a quem anjos tristes fecham a porta do Paraíso, que assombra os passos dos vivos.

O primeiro ano de noivado se passou, e ela está sozinha, pois ele foi à Itália, a pedido de um homem rico, para copiar Rafaéis, Ticianos e Guidos, numa galeria de Florença. Ele foi para conquistar fama, talvez; mas isso não diminui a tristeza – ele se foi!

É claro que o pai dela sente falta do sobrinho, que tinha sido como um filho para ele; e acredita que a tristeza da filha não é mais do a tristeza que uma prima sente pela ausência de um primo.

Nesse ínterim, as semanas e os meses se passam. O amado escreve – muitas vezes no início, depois raramente , até que por fim, mais nada.

Quantas desculpas ela inventa para ele! Quantas vezes ela vai à longínqua agência dos correios, à qual ele deve enviar as cartas! Quantas vezes ela espera, apenas para se decepcionar!

Quantas vezes ela se desespera, apenas para ter esperança novamente!

Mas o verdadeiro desespero finalmente chega e nada pode evitá-lo. O rico pretendente entra em cena e seu pai está decidido. Ela vai se casar imediatamente. O dia do casamento é marcado – 15 de junho.

A data parece gravada a ferro em seu cérebro.

A data, escrita em fogo, dança sem parar diante de seus olhos.

A data, gritada pelas Fúrias, soa continuamente em seus ouvidos.

Mas ainda há tempo – estamos em meados de maio – há tempo para uma carta chegar até ele em Florença; há tempo para que ele venha a Brunswick, para levá-la embora e se casar com ela, apesar de seu pai – apesar de todo o mundo.

Mas os dias e as semanas voam e ele não escreve, ele não vem. O verdadeiro desespero usurpa o coração dela e se recusar a ir embora.

É 14 de junho. Pela última vez ela vai à pequena agência dos correios; pela última vez, ela faz a mesma pergunta, e eles dão-lhe pela última vez a mesma, triste resposta: ‘Não; nenhuma carta. ‘

Pela última vez pois amanhã é o dia marcado para o casamento. Seu pai não ouvirá seus argumentos; seu rico pretendente não ouvirá suas súplicas. Eles não adiarão um dia, uma hora sequer. Mas esta noite só é dela, esta noite, que ela pode usar como quiser.

Ela segue um caminho diferente daquele que leva para casa; vai rápido pelas ruelas da cidade até chegar em uma ponte solitária, na qual passeara com ele tantas vezes ao pôr do sol, observando o entardecer cor de rosa brilhar, definhar e morrer no rio.

Ele volta de Florença. Tinha recebido a carta dela. Ele recebera a carta, manchada de lágrimas, suplicante, desesperada, mas já não a amava mais. Uma jovem florentina, que posou para ele como modelo, enfeitiçou suas fantasias – aquelas fantasias que ele tinha no lugar de um coração – e Gertrude tinha sido quase esquecida. Se ela tinha um pretendente rico, ótimo; ela que se casasse; melhor para ela, muito melhor para ele. Ele não queria se prender a uma esposa. Não teria sempre sua arte? Sua noiva eterna, sua amante imutável.

Assim, ele achou mais sensato adiar sua viagem a Brunswick, para chegar quando o casamento já tivesse se realizado – exatamente a tempo de dar os parabéns a noiva.

E as juras- as fantasias místicas – a crença de que voltaria mesmo após a morte, ao abraço de sua amada? Ah, essas não tinham mais lugar em sua vida; esvaneceram-se para sempre aqueles sonhos tolos de sua infância.

Então, no dia 15 de junho, ele chega em Brunswick, por aquela mesma ponte em que ela estivera, sob o olhar das estrelas, na noite anterior. Ele passeia pela ponte e desce pela beira da água, com um grande cão peludo em seus calcanhares, e a fumaça de seu curto cachimbo de argila enrolando-se fantasticamente em arabescos azuis no ar puro da manhã. Ele leva seu caderno de esboços debaixo do braço e, atraído aqui e ali por algum objeto que chama a atenção do seu olhar de artista, para para desenhar: algumas plantas e pedras à beira do rio, uma rocha na margem oposta , um grupo de salgueiros à distância. Quando termina, admira seu desenho, fecha o caderno de esboços, esvazia as cinzas de seu cachimbo, o reabastece com tabaco de sua bolsa, canta o refrão de uma alegre canção de bebedeira, chama seu cão, fuma novamente, e anda. De repente abre seu caderno de novo; desta vez aquele que o atrai é um grupo das pessoas. O que será? Não é um funeral, pois não há ninguém de luto.

Não é um funeral, mas há um corpo dentro de um esquife grosseiro, coberto com um uma velha vela de barco, carregado por dois homens.

Não é um funeral, porque os homens que carregam o esquife são são pescadores,-pescadores em suas roupas de trabalho.

Cerca de 100 metros mais adiante, eles descansam seu fardo em uma das margens—um fica de pé junto à cabeça do esquife, o outro se deita ao pé dele.

E assim eles formam um grupo perfeito. Ele recua dois ou três passos, escolhe um ângulo e começa a esboçar um rápido desenho. Termina antes que eles se movam; ouve suas vozes, embora não possa ouvir suas palavras, e se pergunta sobre o que eles estão falando. Então caminha e se junta ao grupo.

—Vocês estão levando um cadáver, meus amigos?— pergunta.

—Sim, um cadáver a correnteza trouxe para a margem há uma hora.

—Afogamento?

— É, afogada. Uma moça muito bonita.

—Os suicidas são sempre bonitos— diz o pintor; e então fica parado por um tempo, fumando e meditando, olhando para o contorno nítido do cadáver sob as dobras rígidas da tela áspera que o cobre.

A vida é um feriado tão dourado para ele – jovem, ambicioso, inteligente – que parece que a tristeza e a morte não poderiam fazer parte de seu destino.

Por fim, ele diz que, se essa pobre suicida é tão bonita, então gostaria de fazer um esboço dela.

Ele dá algum dinheiro aos pescadores, e eles se oferecem para remover a lona que cobre o rosto dela.

Não; ele mesmo pode fazer isso. Ele levanta a tela grosseira, áspera e molhada de seu rosto. Que rosto?

O rosto que brilhava nos sonhos de sua infância tola; o rosto que um dia foi a luz da casa de seu tio. Sua prima Gertrude — sua prometida!

Ele vê, como num relance, enquanto respira fundo, os traços rígidos, os braços de mármore, as mãos cruzadas sobre o peito frio; e, no terceiro dedo da mão esquerda, o anel que tinha sido da mãe dele – a serpente dourada; o anel que, se ficasse cego, ele poderia identificar entre milhares de outros apenas pelo toque.

Mas ele é um gênio e um metafísico – a dor, a dor verdadeira, não é para alguém como ele. Seu primeiro pensamento é fugir; fugir para qualquer lugar longe daquela cidade maldita, para qualquer lugar longe da beira daquele rio horrendo, para qualquer lugar longe do remorso, para qualquer lugar onde possa esquecer.

Ele já está a quilômetros de distância de Brunswick antes de se dar conta de ter dado um passo sequer.

Somente quando seu cão se deita ofegante a seus pés é que ele sente o quanto está exausto e se senta na beira da estrada para descansar. Como a paisagem gira e gira diante de seus olhos assombrados, enquanto seu esboço matinal dos dois pescadores e do esquife coberto de lona o encara, avermelhado pelo crepúsculo!

Por fim, depois de ficar sentado por um longo tempo na beira da estrada, brincando com seu cachorro, fumando e descansando displicentemente, como qualquer estudante despreocupado em viagem, mas o tempo todo lembrando da cena daquela manhã em seu cérebro em chamas cem vezes por minuto; por fim ele se recompõe um pouco. Tenta pensar em si mesmo como é, à parte do suicídio de sua prima.

Se não fosse por isso, ele não estaria pior nem melhor do que ontem. Seu gênio não se foi; o dinheiro que ganhara em Florença ainda enchia sua carteira; ele era seu próprio mestre, livre para ir aonde quisesse.

E enquanto ele se senta na beira da estrada, tentando deixar para trás a cena daquela manhã, tentando afastar a imagem do cadáver coberto com a vela de lona úmida, tentando pensar no que fazer a seguir, para onde ir, para estar o mais longe possível de Brunswick e do remorso, uma velha diligência vem chacoalhando pela estrada. Ele se lembra dela; ela vai de Brunswick até Aix-la-Chapelle.

Ele assobia para chamar o cachorro, grita para o postilhão parar e salta para dentro do veículo.

Durante toda a noite, durante a longa noite, embora não feche os olhos uma única vez, ele não fala uma palavra; mas quando amanhece e os outros passageiros acordam e começam a conversar, ele entra na conversa. Conta que é artista, que vai a Colônia e a Antuérpia copiar obras de Rubens, e o grande quadro de Quentin Matsys, no museu. Depois, ele se lembrou de como falava e ria ruidosamente e que, quando falava e ria mais alto, um passageiro, mais velho e sério que os outros, abriu a janela perto dele e disse-lhe para colocar a cabeça para fora. Ele se lembrou do ar fresco soprando em seu rosto, do canto dos pássaros em seus ouvidos e dos campos planos e da estrada irregular diante de seus olhos. Ele se lembrou disso, e então caiu como um corpo sem vida no chão da diligência.

É uma febre que o deixa de cama por seis longas semanas em um hotel em Aix-la-Chapelle.

Ele melhora e, acompanhado de seu cachorro, parte a pé para Colônia. A essa altura, ele voltou a ser o mesmo de antes. Novamente, a fumaça azul de seu pequeno cachimbo sobe em caracóis no ar da manhã, novamente ele canta alguma velha canção de bebedeira da universidade, para aqui e ali, meditando e desenhando.

Ele está feliz e já esqueceu da prima- e assim segue até Colônia.

Está parado perto da grande catedral, com o cachorro ao lado. É noite, os sinos acabam de soar e os relógios marcam onze horas; o luar brilha sobre a magnífica construção, sobre a qual o olhar do artista vagueia, absorvido na beleza da forma.

Ele não pensa em sua prima afogada, pois a esqueceu e está feliz.

De repente, alguém, algo atrás dele, coloca dois braços frios em volta de seu pescoço e as mãos em seu peito.

No entanto, não há ninguém atrás dele, nas lajes banhadas pelo amplo luar há apenas duas sombras, a dele e a de seu cachorro. Ele se vira rapidamente . Não há ninguém, nada pode ser visto na grande praça, exceto ele e seu cachorro; e embora os sinta, não consegue ver os braços frios em volta de seu pescoço.

Não é fantasmagórico esse abraço, pois é palpável ao toque – mas não pode ser real, pois é invisível.

Ele tenta se livrar da fria carícia. Agarra as mãos para separá-las e arrancá-las do seu pescoço. Consegue sentir os dedos longos e delicados, frios e úmidos sob seu toque, e no terceiro dedo da mão esquerda, sente o anel que era de sua mãe – a serpente dourada – o anel que ele sempre disse que reconheceria entre mil apenas pelo toque. Agora ele tem certeza!

Os braços frios da prima morta estão em volta de seu pescoço – as mãos molhadas da prima morta estão agarradas ao seu peito. Ele se pergunta se está louco.

— Vamos, Leo!— Ele grita. – Anda, anda, garoto!

O Terra Nova salta sobre seus ombros. As patas do cão atacam nas mãos mortas, mas animal solta um uivo terrível e salta para longe de seu dono.

O estudante está de pé sob luar, os braços mortos em volta de seu pescoço e o cachorro a uma pequena distância, ganindo chorosamente.

Logo, um vigia, alarmado com os uivos do cachorro, vem para a praça ver o que está aconcendo.

Em um instante, os frios braços desaparecem.

Ele leva o vigia para o hotel e lhe dá dinheiro; era tal sua gratidão, ele teria sido capaz de dar ao homem até metade de sua pequena fortuna.

Será que vai acontecer de novo, aquele abraço dos mortos?

Ele faz de tudo para nunca ficar sozinho. Faz uma centena de amizades e compartilha seu quarto com outro estudante. Ao ser for deixado sozinho na sala aberta da pousada onde está hospedado, se levanta e sai correndo para a rua. As pessoas notam seu comportamento estranho e começam a pensar que ele é louco.

Mas, apesar de tudo, ele se encontra sozinho mais uma vez. Uma noite quando a sala compartilhada fica vazia por um momento, ele disfarçadamente caminha para a rua, mas a rua também está vazia, e pela segunda vez ele sente os braços frios em volta de seu pescoço, e pela segunda vez, quando chama seu cachorro, o animal foge dele com um uivo tristonho.

Depois disso, ele deixa Colônia, ainda viajando a pé – agora por necessidade, já que seu dinheiro está acabando. Sejunta aos vendedores ambulantes, caminha lado a lado com os operários, fala com cada viajante que encontra e tenta, da manhã até noite, conseguir companhia na estrada.

À noite, ele dorme perto do fogo na cozinha da pousada onde faz uma parada; mas não importa o que faça, muitas vezes fica sozinho e agora já é comum sentir os braços frios em volta do pescoço.

Muitos meses se passaram desde a morte da prima – outono, inverno, início da primavera. Seu dinheiro está quase acabando, sua saúde está completamente arruinada, ele é a sombra de seu antigo eu e está chegando em Paris. Ele chegará na época do carnaval. Como espera por isso! Em Paris, na época do carnaval, ele nunca vai ficar sozinho, tem certeza, não vai sentir aquela carícia mortal; pode até recuperar a alegria perdida, a saúde perdida, mais uma vez retomar a profissão, mais uma vez ganhar fama e dinheiro com sua arte.

Como ele tenta superar a distância que o separa de Paris, enquanto vai enfraquecendo dia a dia, e seu passo vai ficando mais lento e pesado!

Mas finalmente o caminho chega ao fim, as longas estradas sombrias ficam para trás. Esta é Paris, onde ele chega pela primeira vez. Paris, com a qual ele tanto sonhou! Paris, cujos milhões de vozes vão exorcizar seu fantasma.

Pare ele, esta noite, Paris parece um vasto caos de luzes, música e confusão. Luzes que dançam diante de seus olhos e não param, música que ressoa em seus ouvidos e o ensurdece, confusão que faz sua cabeça girar e girar.

Mas, apesar de tudo, encontra a ópera, onde está acontecendo um baile de máscaras. Ele ainda tem dinheiro suficiente para comprar uma entrada e alugar um dominó para vestir por cima de suas roupas surradas. Parece que se passou apenas um momento depois de entrar pelos portões de Paris, e ele está no meio de toda a alegria selvagem do baile da ópera.

Não há mais escuridão, não há mais solidão, só uma multidão louca, gritando e dançando, e uma adorável débardeuse pendurada em seu braço.

A alegria turbulenta que ele sente só pode ser a volta de sua velha despreocupação. Ele ouve as pessoas ao seu redor falando sobre a conduta ultrajante de algum estudante bêbado, e é a ele que apontam quando dizem isso a ele, logo ele que não umedece os lábios desde ontem ao meio-dia, pois mesmo agora ele não beberá; embora seus lábios estejam ressecados e sua garganta ardendo, ele não pode beber.

Sua voz está grossa e rouca, e sua fala indistinta; mas ainda assim deve ser sua velha despreocupação que o torna tão descontroladamente alegre.

A pequena débardeuse está exausta, o braço dela repousa sobre seu ombro, mais pesado do que o chumbo e os outros dançarinos vão caindo um a um.

As luzes dos lustres, uma a uma, se apagam.

As decorações parecem pálidas e sombrias naquela luz frágil da hora entre o dia e a noite.

Um brilho fraco das luzes que vão morrendo, um raio pálido de luz fria e cinza do dia recém-nascido se esgueira por entre as venezianas entreabertas.

E com essa luz a débardeuse de olhos brilhantes desvanece tristemente. Ele olha para o rosto dela. Como se extingue o brilho de seus olhos! Ele olha novamente para o rosto dela. Como seu rosto ficou pálido!

Novamente – e agora é a só a sombra de um rosto que olha de volta para ele.

Novamente – e eles se foram, os olhos brilhantes, o rosto, a sombra do rosto. Ele está sozinho; sozinho naquele vasto salão.

Sozinho e, no silêncio terrível, ouve os ecos dos seus próprios passos naquela dança sombria que não tem música.

Sem música, apenas as batidas dentro de seu peito. Os braços frios estão ao redor de seu pescoço, eles o fazem girar, não pode se desvencilhar deles. Não pode escapar de suas garras de gelo, assim como não pode escapar da morte. Ele olha para trás – não há nada além dele mesmo na grande sala vazia; mas ele sente – frios, mortiços, mas oh, tão palpáveis! – os dedos longos e finos, e o anel que era de sua mãe.

Ele tenta gritar, mas não tem força em sua garganta seca. O silêncio do lugar é quebrado somente pelos ecos de seus próprios passos naquela dança da qual ele não consegue se livrar.

Quem diz que não tem um par? As mãos frias agarram-se ao seu peito, e agora ele não mais rejeita suas carícias. Não! Mais uma polca, mesmo que ele caia morto.

Todas as luzes estão apagadas, e, meia hora após, os gendarmes entram com lanternas e encontram a casa vazia; junto com eles está um grande cão que encontraram uivando nos degraus do teatro. Perto da entrada principal tropeçam sobre o corpo de um estudante, morto de fome, de exaustão e de um aneurisma rompido.

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