Especial Edgar Allan Poe: A Máscara da Morte Rubra

The Masque of the Red Death

“The Mask of the Red Death” foi publicado pela primeira vez em maio de 1842 na revista Graham’s Lady’s and Gentleman’s Magazine. Uma versão revisada foi publicada com o título definitivo “The Masque of the Red Death” em Julho de 1845 no Broadway Journal.

A “Morte Rubra” vinha devastando o país há muito tempo. Nenhuma outra pestilência jamais fora tão fatal, tão atroz. Sangue era sua manifestação e seu sinal – a vermelhidão e o horror do sangue. Primeiro vinham dores pungentes, seguidas por uma tontura súbita, o sangramento profuso dos poros, e finalmente o óbito. As manchas escarlates pelo corpo e especialmente no rosto da vítima eram a marca da peste, que isolava o paciente do socorro e da compaixão dos demais. O curso da doença entre contaminação e perecimento não passava de meia hora.

Mas o Príncipe Próspero era alegre, resoluto e perspicaz. Enquanto seu domínios esvaziavam-se de sua população, ele chamou à sua presença um milhar de amigos saudáveis e joviais escolhidos entre os cavaleiros e damas de sua corte, e com eles se retirou para a longínqua reclusão de uma abadia acastelada. Tratava-se de ma estrutura ampla e magnífica, criada pela excêntrica e grandiosa imaginação do próprio príncipe. Era circundada por uma muralha com portões de ferro, extensa e altaneira. Os cortesãos, ao entrar, logo buscaram fornalhas e martelos para soldar as cavilhas. Estavam decididos a fechar qualquer meio de entrada ou saída, para caso de algum súbito impulso de desespero ou frenesi. A abadia estava bem suprida de víveres. Com tais precauções, planejavam resistir à contaminação. O príncipe pensara em todas as formas de entretenimento. Havia bufões, improvisadores, dançarinos de balé, músicos, havia beleza, havia vinho. Tudo isso havia dentro daquelas paredes. Fora delas, havia a “Morte Rubra”.

Illustração de Arthur Rackman (1935)

Foi quase no fim do quinto ou sexto mês de reclusão, enquanto a pestilência rugia furiosamente do lado de fora, que o Príncipe Próspero decidiu entreter seus convidados com um baile de máscaras de opulência única.

Um cenário voluptuoso, foi o daquele Carnaval. Mas primeiro, permitam-me descrever os salões nos quais foi celebrado. Era uma série imperial de sete. Em certos palácios tais séries de cômodos formam longas perspectivas retilíneas, nas quais portas com dobradiças se abrem de par em par de cada lado, desimpedindo a vista de toda a extensão. Mas essa era diferente, como seria de se esperar do príncipe e seu amor pelo bizarro. Os cômodos estavam dispostos de forma tão irregular que a visão abarcava apenas um de cada vez. Um ângulo agudo a cada vinte ou trinta metros introduzia um ambiente diferente. À esquerda e à direita, bem no meio de cada parede, altas janelas góticas se abriam para corredores fechados que corriam em paralelo com a série de aposentos. Tais janelas eram feitas de vitrais cuja cor variava de acordo com o tom dominante das decorações do salão para o qual se abria. O salão no extremo oriental, por exemplo, decorado de azul, tinha janelas de um azulão vívido. O segundo salão era roxo em seus ornamentos e tapeçarias, e nele as vidraças eram roxas. O terceiro, verdejante, tinha vidros verdes. O quarto cômodo era iluminado e colorido de laranja, o quinto, branco, o sexto, violeta. O sétimo salão estava coberto de tapeçarias de veludo negro que caíam do teto, cascateavam sobre as paredes e tombavam em pesadas dobras sobre um tapete do mesmo material e tonalidade. Apenas ali a cor das janelas não correspondia à da decoração. Eram vermelhas, de um vermelho-escarlate cor de sangue. Em nenhum dos sete salões havia um candelabro ou lustre sequer em meio à profusão de ornamentos dourados que se espalhava de diferentes formas desordenadas de acordo com o aposento. Não havia luz de qualquer tipo emanando de nenhuma vela ou luminária. Mas nos corredores que ladeavam os salões havia, junto a cada uma das janelas, um tripé pesado sustentando um braseiro de fogo vivo cuja luz atravessava o vidro colorido iluminando os cômodos com uma claridade espalhafatosa. Assim, produziam-se efeitos de luz extravagantes e fantásticos. Porém, no salão ocidental, o salão negro, a visão da luz ígnea vertida sobre as decorações sombrias através de janelas sanguíneas era excepcionalmente espantosa, e produzia um efeito tão brutal sobre os nervos daqueles que porventura adentravam o recinto, que poucos convidados eram intrépidos o bastante para pôr os pés ali.

Nesse salão ficava um gigantesco relógio de ébano encostado na parede ocidental. Seu pêndulo oscilava de um lado para outro com um toque metálico, constante e tedioso; e sempre que o ponteiro do minuto fazia uma volta completa e a hora soava, do fundo dos pulmões de bronze saía um som claro, profundo e retumbante, extremamente musical, mas tão peculiar em timbre e ênfase que a cada hora os músicos da orquestra eram obrigados parar sua performance e submeter-se àquele bramido; os dançarinos cessavam as evoluções de suas valsas; um sutil incômodo recaía sobre a alegria dos convivas, e enquanto soavam as badaladas do relógio, os mais risonhos empalideciam e os mais idosos e cansados levavam a mão à testa como se entrassem num estado confuso de sonho ou meditação. Quando os ecos finalmente silenciavam, um riso leve espalhava-se entre eles, os músicos se entreolhavam e riam de seu próprio nervosismo e tolice, confessando baixinho uns para os outros que da próxima vez que o relógio badalasse teriam a mesma reação. E, novamente, sessenta minutos depois (o que abarcava três mil e seiscentos segundos do célere tempo) soava o relógio, causando o mesmo mal-estar e trepidação.

Apesar disso, as festividades eram radiantes e faustosas. As preferências do duque eram peculiares. Ele tinha um gosto refinado para cores e efeitos. Desprezava as regras simplórias da moda. Seus planos eram audaciosos e arrojados, e suas ideias luziam com um brilho indômito. Alguns consideravam-no louco. Seus seguidores discordavam. Era preciso vê-lo, ouvi-lo e tocá-lo para saber que não era.

Ilustração de Aubrey Beardsley (1894/1895)

Ele dirigira pessoalmente a decoração dos sete salões para a ocasião de sua grande festa; e guiado por seu próprio gosto, ele mesmo escolheu as fantasias dos convidados. Elas tinham que ser grotescas. Havia muito brilho e resplandecência, euforia e delírio – tudo do que se havia visto no “”Hernani”. Havia figuras de arabesco com membros díspares. Fantasias delirantes e modas loucas. Abundava o belo e o indecente, mas havia também o bizarro e o terrível e ainda um pouco de uma certa repugnância excitante. Pelos sete salões passeava uma multidão de sonhos. Sonhos que se contorciam, vagavam, assumindo as cores dos cômodos, e a música indócil da orquestra parecia ecoar nos passos deles. Então, soavam as badaladas do relógio de ébano na parede do salão de veludo. Por um momento tudo é suspenso, tudo é silêncio, exceto pela voz do relógio. Os sonhos ficam paralizados em seus lugares. Os ecos se dissipam – duravam apenas um instante – e um leve, contido riso flutua no seu rastro. Novamente a música se eleva, e os sonhos se reanimam e se agitam novamente, mais alegremente que antes, assumindo as cores das janelas multicoloridas através das quais filtram-se os raios de luz dos tripés. Mas no cômodo do lado ocidental não há um mascarado sequer que se aventure. Corre a noite, e ali brilha a luz carmim das janelas cor de sangue, ali a escuridão das tapeçarias negras desnorteia, e para os ouvidos daquele cujo pé toca o tapete negro, o rugido abafado do relógio de ébano é mais solenemente esmagador do que o som que alcança aqueles que festejam nos ambientes mais agradáveis dos demais cômodos.

Os demais salões pulsavam com vida, apinhados de convidados. Os folguedos continuaram delirantes até que o relógio soou a meia-noite. Então a música parou, como já descrevi. Mas dessa vez, eram doze badaladas a ser tocadas; e quiçá mais tempo e mais pensamentos tomaram conta das meditações dos mais pensativos dentre os convivas. E talvez também, antes que o som do último eco afundasse no silêncio, muitos naquele grupo tivessem percebido a presença de uma figura mascarada que não chamara a atenção de ninguém antes. O rumor sobre a nova presença se espalhou em sussurros, e cresceu como um murmúrio, um ruído de reprovação e surpresa geral- e finalmente, de terror, horror e nojo.

Numa assembleia de fantasmas tal qual a que acabo de descrever, poder-se-ia supor que nenhuma aparição comum suscitaria tal reação. A liberdade oferecida pelo anonimato das máscaras era quase infinita, mas aquela figura superava o próprio Herodes, ultrapassava até os frouxos limites de decoro impostos pelo príncipe. Existem acordes até no coração dos mais imprudentes que não podem ser tocados sem que haja alguma consequência. Até para os mais completamente perdidos, aqueles para quem vida e morte são igualmente motivo de zombaria, há assuntos com os quais não se pode brincar. Toda a assembleia de convidados parecia sentir que não existia qualquer sentido de decência ou espirituosidade na fantasia e na postura daquele estranho. A figura era alta e descarnada, e estava envolvida dos pés a cabeça numa mortalha. A máscara que lhe escondia o rosto era tão detalhadamente entalhada para imitar a expressão do rosto de um cadáver enrijecido que era difícil detectar o engodo. E ainda assim sua aparência poderia ter sido suportada, senão até apreciada, pelos desvairados foliões. Mas o truão tinha chegado ao cúmulo de fantasiar-se como a personificação da Morte Rubra. Suas vestes estavam ensanguentadas, e sobre os traços da face viam-se os sinais do horror escarlate.

Illustração de Harry Clarke (1919)

Quando os olhos do Príncipe Próspero encontraram aquela imagem espectral (que, com um lento e solene passo, adequado ao papel interpretado, vagava por entre os dançarinos), ele agitou-se e tremeu, talvez de terror talvez de nojo, mas logo seu rosto enrubesceu de raiva.

— Quem ousa?— interrogou rispidamente os cortesãos que o circundavam — Quem ousa insultar-nos com pilhéria tão aviltante? Peguem-no e desmascarem-no, para que possamos saber a quem enforcaremos nas ameias pela manhã!

Foi no salão oriental, o azul, que o Príncipe pronunciou tais palavras. O som delas ecoou através de todos os sete salões, claro e retumbante, pois o Príncipe era um homem robusto e enérgico, e a música diminuíra ao seu sinal.

Foi no salão azul, onde estava o Príncipe, cercado por um grupo de pálidos cortesãos. E assim que ele falou, seu círculo de palacianos fez ligeira menção de avançar contra o intruso, que naquele momento aproximava-se deles com um passo deliberado e majestoso. Mas um certo pavor difuso que as enlouquecidas suposições sobre a identidade do estranho haviam inspirado em todos os convidados impediu que sequer um deles tivesse a coragem de proceder à captura. Assim, desimpedido, o intruso passou a apenas um metro do príncipe, enquanto a multidão, como que em um único impulso fugiu do centro do salão, indo aglomerar-se junto às paredes. Ele caminhou ininterrupto, mas com o mesmo ritmo cerimonioso e calculado que o distinguia, do salão azul até o roxo, do roxo para o verde, do verde para o laranja, do laranja para o branco e do branco para o violeta, sem que qualquer movimento para apreendê-lo fosse finalmente feito. Foi então, no entanto, que o Príncipe Próspero, enlouquecido em sua fúria e envergonhado de sua própria covardia momentânea, saiu em disparada, vencendo a extensão dos seis salões sem que ninguém o acompanhasse, pois estavam todos tomados de um terror mortal. O príncipe, brandindo sua adaga desembainhada, venceu com um ímpeto veloz a curta distância entre ele e a figura que se retirava, mas que, ao chegar à extremidade do salão de veludo, voltou-se subitamente e encarou seu perseguidor. Ouviu-se um grito lancinante. A adaga caiu, reluzente sobre o tapete negro, e sobre ela caiu o corpo sem vida do Príncipe Próspero. Então, animados pela coragem selvagem que nasce do desespero, a turba de cortesãos invadiu o salão negro. Ao capturar o intruso, que encontraram aprumado e inerte à sombra do relógio de ébano, todos foram tomados pelo horror incomensurável de perceber que suas mãos agarravam violentamente nada mais que um mortalha e uma máscara cadavérica.

E percebeu-se a presença da Morte Rubra. Ela viera como um ladrão na calada da noite. Um por um sucumbiram os cortesãos nos salões encharcados de sangue nos quais antes festejavam, cada qual expirando na mesma posição atormentada em que tombara ao chão. A vida do relógio de ébano apagou-se junto com aquela do último folião. As chamas dos tripés se extinguiram. A escuridão, a podridão e a Morte Rubra agora reinavam absolutas sobre tudo.

Ilustração de Bryam Shaw. (1905)

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