Especial Edgar Allan Poe: As mentiras de Rufus Griswold e a imortalidade de Edgar Allan Poe.

Imagem de capa: Laura Chouette

Saudações, leitor noturno!

Na última postagem do noss pequeno “Especial Edgar Allan Poe” em homenagem ao aniversário do mestre to terror e do fantástico, vamos falar um pouquinho de história. Ou melhor, de como a história pode ser manipulada.

Atualmente, estamos muito familiarizados com o termo “fake news”, isto é, notícias e artigos supostamente jornalísticos, que são, na verdade, fabricações, contendo informações falsas que muitas vezes têm o objetivo de difamar figuras públicas. A gente costuma pensar em “fake news” como um fenômeno moderno, associado à mídias sociais. Mas e se eu te contasse que Edgar Allan Poe foi vítima de “fake news”? E que até hoje a gente ainda acredita em algumas delas?

Então, leitor noturno, senta que lá vem a história.

O príncipe das trevas: Poe, um escritor trágico.

Thompson daguerreotype of Poe
O daguerreotipo “Thompson” de William A. Pratt (fonte Rare Book and Manuscript Library, Universidade de Columbia)

A obra de Poe influenciou profundamente gerações de escritores e popularizou as caraterísticas que costumamos associar com a literatura gótica e de terror. É claro que castelos em ruínas, belas jovens mortas na flor da idade, amores doentios, obsessões e visões do sobrenatural já faziam parte do arsenal de escritores e escritoras do texto gótico bem antes de Poe. Mas foi ele que, com seu estilo profundamente psicológico, seu comprometimento absoluto com a arte de horrorizar e sua narrativa intensa, amplificou os elementos grotescos, violentos e mórbidos da tradição gótica, expandindo-os para ajudar a criar o que hoje conhecemos como “terror”.

Só isso já bastaria para garantir o lugar de Poe no hall da fama da literatura universal, mas ele também foi fundamental para criação do gênero policial. O seu conto “Assassinatos na Rua Morgue” apresenta Charles Dupin, considerado o primeiro detetive da história da literatura. Além de suas narrativas de horror e mistério, Poe também escreveu diversos poemas, dos quais o mais famoso “O Corvo” também é sua obra mais representativa, e foi um prolífico crítico literário, que escreveu artigos para diversos jornais e revistas.

No entanto, Edgar Allan Poe foi um daqueles escritores que são tão célebres pela sua vida conturbada quanto pela sua obra. Até quem conhece pouco sobre a obra de Poe sabe que ele foi o arquétipo do escritor infeliz com uma vida trágica e marcada pelo vício. Perdeu os pais ainda criança, foi criado pelo padrinho, um homem emocionalmente distante, perdeu a madrinha, que foi sua segunda mãe, teve amores não correspondidos, casou-se com uma prima (de treze anos, aliás) que morreu jovem, foi um alcóolatra inveterado e morreu numa sarjeta sob circunstâncias misteriosas. A fama de “maldito”, de gênio trágico cai como uma luva em Edgar Allan Poe, um homem cuja imaginação engendrou monstros, espectros, psicopatas e pesadelos que até hoje nos tiram o sono.

De uma certa forma, essa fama se misturou com a obra de Poe, o que fez com que o próprio escritor acabasse entrando no imaginário popular quase como um de seus personagens fictícios. Por mais tentador que seja vê-lo como um personagem trágico nascido sob uma estrela de mau agouro, um alcóolatra sem controle que morreu por ter vivido uma vida sem limites, a verdade é que Poe foi apenas um homem com vícios e problemas emocionais, que levou uma vida até bastante funcional: estudou, serviu o exército, produziu um grande volume de literatura, também escreveu para periódicos, manteve relacionamentos pessoais e profissionais com outros escritores e intelectuais que são evidenciados por sua volumosa correspondência. Enfim uma vida razoavelmente normal, e muito produtiva. Segundo um artigo publicado pela “Edgar Allan Poe Society”:

“De um ponto de vista puramente médico, talvez seja correto dizer que Poe era um alcóolatra. Infelizmente o uso comum desse termo carrega consigo mais que seu significado puramente clínico. Em primeiro lugar, sugeriria que a vida de Poe não foi mais que uma longa série de bebedeiras, uma afirmação tão indelicada quanto incorreta. Em segundo lugar, é uma afirmação usada para diminuir Poe enquanto escritor, como se seus poemas e histórias fossem melhores ou piores de acordo com seus hábitos pessoais (…) É justo dizer que nenhum dos contos de Poe foram espirado ou escritos sob a influência do álcool. A prova disso é auto evidente. Imagine ler, quanto mais escrever, umas das frases longas, fluentes e bem construídas frases de Poe sem estar sóbrio.”

A imagem de Poe como um alcóolatra ´fora de controle, um homem perturbado e constantemente infeliz que morreu sozinho e sem amigos jogado numa sarjeta é obra de um homem: Rufus Wilmot Griswold.

Rufus Wilmot Griswold

Rufus Wilmot Griswold, gravura da edição de 1855 de The Poets and Poetry of America. Sem crédito de artists (fonte: wikicommons)

Rufus Wilmot Griswold foi um editor, poeta, crítico literário e antologista, nascido em Vermont. Saiu de casa ainda adolescente, trabalhou como jornalista, e posteriormente editor e crítico na Filadélfia e em Nova York. Griswold também foi licenciado como pastor da Igreja Batista, mas não chegou a seguir carreira religiosa, e se casou três vezes: a primeira esposa faleceu, e os demais casamentos terminaram em divórcio.

Griswold ficou célebre principalmente como crítico literário e antologista, mas sua fama no meio literário não era das melhores. Ele era tão célebre por suas antologias e artigos quanto por sua personalidade difícil e tendências, digamos assim, não muito honestas. O historiador Perry Miller o descreveu como “tão perverso quanto os homens mais perversos de sua época”, a escritora e editora Ann St Stepehns afirmou que ele era “um duas caras” e “por sua constituição mesma, incapaz de dizer a verdade”. Um de seus próprios amigos, afirmou que ele era “um dos homens mais irritáveis e vingativos que já conheci”. O escritor Cornelius Matthews escreveu em 1847 que Griswold tinha por hábito descobrir escritores a quem pudesse explorar, e aconselhava que “os pobres e inocentes peixinhos” ficassem longe do “anzol” dele. Já para James Russell Lowell, Griswold era “um asno e o que é pior, um canalha.”

Apesar de sua práticas editoriais serem notoriamente problemáticas, Griswold era um editor de renome, principalmente por causa das coletâneas Prose writers of America e Female poets of America (a segunda dedicada inteiramente ao trabalho de escritoras). Com estas antologias, Griswold pretendia estabelecer um cânone de poesia nacional, em uma época em que a literatura inglesa ainda tinha precedência sobre a literatura americana, em especial no sistema educacional. Por isso, até autores que o criticavam ou que se sentiam lesados por suas atitudes, tentavam se manter em suas boas graças, a fim de não serem excluídos de seu projeto de criação de uma literatura nacional forte e respeitada Aliás, ele foi um dos primeiros a propor o ensino de poesia americana em escolas americanas, razão pela a qual organizou a coletânea Readings in American Poetry for the Use of Schools, pensada justamente para uso escolar. Griswold também foi um dos primeiros a defender o estabelecimento de uma lei de direitos autorais, chegando até a representar a industria editorial em uma sessão do Congresso sobre o assunto

Ou seja, na cena literária dos Estados Unidos de meados do século XIX, o consenso geral sobre Griswold parecia ser “ruim com ele, pior sem ele.” Griswold estava inteiramente consciente de sua importância para o mercado editorial, pois usava sua influência como editor para dar continuidade à suas práticas profissionais questionáveis, e até para enriquecimento próprio. Em uma carta para a editora Ticknor & Co., em 10 de Julho de 1842, ele afirma, com muita naturalidade: “Eu elogio os seus livros, como sabem, sem nenhuma consideração à real qualidade deles” (The Poe Log, p. 377). Já o artista John Sartain, sócio da revista Sartain Magazine chegou mesmo chamar Griswold de “notório chantagista” afirmando que “eu mesmo tive que lhe dar dinheiro para impedir que publicasse notas abusivas sobre a Sartain Magazine”. (John Sartain, “Poe’s Last Days,” Boston Evening Transcript, February 25, 1893, reeditado por Richard Tuerk no artigo “John Sartain and E. A. Poe, em  Poe Studies, IV no, 2, Dez. 1971, pp. 21-23).

O começo da rivalidade

Edgar Allan Poe e Rufus Wilmot Griswold eram, em muitos aspectos, opostos. Poe se considerava sulista pois, apesar de ter nascido em Boston, foi muito pequeno para a Virginia, onde cresceu, já Griswold era do norte, nascido e criado em Vermont antes de se mudar para Nova York. Poe era filho de artistas pobres que morreram quando ele ainda era criança, fazendo com que John Allan, seu padrinho, o criasse, sem nunca tê-lo adotado formalmente. Griswold nasceu em uma família grande, estável e conservadora, e seu pai tinha uma fazenda. Profissionalmente, Poe era conhecido por ser um crítico literário intelectualmente independente e um escritor e poeta criativo e ousado, enquanto Griswould era membro de uma elite literária, uma “panelinha” cheia de conexões e era mais conhecido por compilar e criticar o trabalho alheio do que por seus próprios poemas e escritos. Seria muito improvável que dois homens tão diferentes tivessem alguma chance de serem grandes amigos, mas a rivalidade também não surgiu da noite para o dia. Na verdade, no início, os dois tiveram um relacionamento profissional até bastante cordial.

Em março de 1841, antes de conhecê-lo em pessoa, Poe enviou vários de seus poemas para Griswold, na esperança de que algum deles fosse selecionado para a antologia The Poets and Poetry of America, na qual o editor estava trabalhando. Griswold selecionou três destes poemas: “Coliseum”, “The Haunted Palace” e “The Sleeper”. Os dois se encontraram pela primeira vez no mês de maio do mesmo ano, quando Poe era editor da revista Graham’s magazine e Griswold do periódico The Daily Standard. Neste mesmo ano, em uma série de escritos “autobiográficos”, Poe descreve Griswold como “um escritor de prosa refinada, mas um poeta de talento além do ordinário” (Harrison, Complete Works, XV, p. 215).

As coisas começaram a mudar quando Poe saiu do posto de editor da Graham’s Magazine, e Griswold foi contratado em seu lugar. Em uma carta para Daniel Bryan, em julho de 1842, ao falar sobre sua demissão, Poe declara: “Não tenho inimizade nem com o Sr. Graham, nem com o Sr. Griswold, mas também não tenho nenhum respeito especial por nenhum dos dois”. Alguns meses depois, em uma carta para F.W. Thomas, Poe escreve “Ele [referindo-se a Graham] não está particularmente satisfeito com Grinwold, nem ele nem ninguém, com a exceção do próprio reverendo cavalheiro, que acabou caindo num vespeiro graças ao seu Poets & Poetry ” (Ostrom, Letters, p 211). Em outubro, em outra carta desta vez endereçada a James Russell Lowell, Poe afirma: “É uma pena que tantas destas biografias [referindo-se a biografias publicadas na Graham’s Magazine] tenham sido confiadas ao Sr. Griswold. Certamente falta-lhe independência, discernimento, ou ambos.”(Ostrom, Letters, p 211).

Até então, a tensão entre Poe e Griswold não passava de uma rivalidade entre profissionais da mesma área, algo desagradável, mas bastante comum. Todos nós já vimos (se é que já não protagonizamos) picuinhas profissionais bem parecidas. Não havia, neste primeiro momento, nenhuma indicação da futura obsessão que faria Griswold tentar destruir o legado de Poe.

Para entender como isso aconteceu, é preciso voltar a falar da antologia “The Poets and Poetry of America”.

O pomo da discórdia

Como vimos, The Poets and Poetry of America foi a antologia organizada por Griswold, para qual ele escolheu alguns dos poemas enviados por Edgar Allan Poe. A obra foi publicada em 1842, e até aquele momento era a mais extensa seleção de poetas norte-americanos já publicada. Apesar de ter sido um sucesso de vendas, com diversas reedições, o livro também foi muito criticado. Diversos jornalistas e escritores elogiaram a inciativa mas discordaram das escolhas de Griswold, achando que, com algumas exceções, ele não tinha selecionados os melhores poetas que o país tinha a oferecer. De fato, com o passar do tempo, depois das reedições iniciais, a popularidade da antologia foi caindo, até que hoje em dia The Poets and Poetry of America é mais conhecido como “um cemitério de poetas”, porque a maioria dos autores selecionados caiu no esquecimento.

Edição de 1855

Poe, apesar de ter sido um dos incluídos na antologia, também não ficou satisfeito com o produto final. Quando escreveu a Griswold, dizendo que “seria uma honra” fazer parte da seleção, ele acreditava que o livro seria importante para mudar o cenário da literatura norte-americana. Mas após a publicação, ficou decepcionado em ver diversos autores que considerava talentosos serem excluídos em função de outros que não achava dignos de nota. Em uma carta para J. E. Snodgrass, ele questiona “Já viu o livro de poesia do Griswold? É um embuste absurdo (…)”

É aqui que as coisas ficam…estranhas. Por alguma razão, apesar da crescente (e pública) inimizade entre eles, Griswold encomendou a Poe uma resenha crítica de The Poets and Poetry of America e Poe…aceitou.

Na resenha, Poe usou um tom mais ameno, mas não abriu mão das críticas. Se por um lado disse que a antologia era “a mais importante adição que nossa literatura recebeu nos últimos anos”, “escrita com discernimento, dignidade e candor” e que Griswold “merecia os agradecimentos de seus compatriotas por mostrar-se um homem de bom gosto, talento e tato”; por outro lado, também afirmou que discordava de Griswold “em muitas de suas estimativas críticas”, e que ele “omitiu do livro um ou dois poetas que ficaríamos tentados a incluir” ao mesmo tempo em que escolheu “uma dúzia ou duas de poetas que deveriam ser ignorados” (Boston Miscellany, Nov.1842). Em carta para F.W. Thomas, Poe indica que o pagamento que Griswold lhe dera para escrever o artigo teria sido basicamente um “suborno” para que ele escrevesse uma crítica inteiramente positiva, mas afirma que estava satisfeito de ter escrito um texto que, apesar de justo, estava longe de ser o que Griswold achou que estava “comprando”.

É difícil saber porque Griswold, com a fama que tinha, publicou a resenha sem fazer nenhuma mudança. Em uma carta para James T. Fields, ele se diz “chateado, mas não muito irritado” com Poe (…)” e que “a crítica não é tão favorável quanto poderia ter sido” dado que ele e Poe “não se davam muito bem” (The Poe Log, p.378). É bem possível que Griswold estivesse sim bastante irritado, mas não quisesse dar o braço a torcer. Publicar o texto de Poe seria uma maneira de se mostrar “acima” da rivalidade, e de manter a imagem de editor sério.

Mas se a resenha crítica de Poe estremeceu ainda mais o relacionamento profissional já tenso com Griswold, foi um outro texto, publicado em Janeiro de 1843, que fez com que tudo degringolasse de vez. O periódico Saturday Museum, da Filadelfia, publicou uma resenha crítica extremamente negativa, que não apenas desqualificava a coletânea mas também lançava ataques pessoais contra o próprio Griswold. O texto questiona “Quem leu esta besteirada? Nós não, e certamente rejeitaremos tudo o que tiver a assinatura de Rufus Wilmot Griswold” e, depois de mencionar vários poetas que não figuravam na coletânea, afirma “estes cavalheiros podem ficar satisfeitos de não terem aparecido no volume que temos diante de nós, pois se há uma ruína literária, se tal coisa existe, então nove décimos dos poetas norte-americanos estão para sempre arruinados pelo elogio do Sr. Griswold.”

Pior que a crítica negativa ao livro, a resenha termina com este ataque à pessoa de Griswold: “(…) qual será o seu destino? Esquecido por todos, com a exceção apenas daqueles a quem ele injuriou e insultou, ele cairá no anonimato, sem deixar uma marca sequer que prove que um dia existiu; se por ventura seu nome for mencionado, será para chamá-lo de servidor desleal que abusou da confiança nele depositada.”

A resenha foi publicada anonimamente, mas hoje sabemos que seu autor foi o poeta Henry Beck Hirst, um amigo pessoal de Edgar Allan Poe. Griswold, no entanto, sem saber quem tinha escrito o texto, presumiu que foi o próprio Poe. E sua crença foi reforçada pelo fato de que Poe fez uma série de palestras itinerantes sobre poesia norte-americana, entre 1843 e 1845, nas quais, por várias vezes, criticou Griswold e sua antologia.

Trégua?

Griswold podia ter muitos defeitos, mas era um homem inteligente (ou pelo menos bem esperto). Quando começou a trabalhar em uma nova antologia, desta vez de prosa, chamada The Prose Writers of America, ele entrou em contato com Poe para pedir que lhe enviasse alguns contos e um pequeno texto autobiográfico que ele incluiria na publicação. Griswold sabia que deixar Poe de fora seria um escândalo, não só porque ele já era um autor popular e respeitado, mas também porque daria a entender que ele mesmo não era profissional o bastante para deixar seus sentimentos pessoais fora de seu trabalho como editor.

Poe respondeu com um pedido de desculpas e de reconciliação. Em sua resposta, ele diz a Griswold: “Sua carta me causou dor e depois alegria. Dor porque me permitiu ver que, devido à minha própria irresponsabilidade, acabei perdendo um amigo honrado. E alegria, pois vejo nela a possibilidade de uma reconciliação” (Ostrom, Letters, p.275). Na carta, Poe também tenta explicar suas críticas ao trabalho de Griswold, e insistiu que essas críticas eram puramente profissionais, e não pessoais. Depois disso, o conflito entre os dois pareceu se tranquilizar. Griswold chegou até a emprestar dinheiro para Poe, e a fornecer material de estudo que o ajudou a escrever “O corvo e outros poemas”. Poe por sua vez escreveu outra resenha crítica para Griswold, desta vez da antologia The Female Poets of America. Essa resenha foi muito mais favorável que a primeira, mas muitos acreditam que isso teve mais a ver com o fato de que Poe queria apoiar uma obra que dava espaço a autoras femininas, do que com alguma intenção de agradar Griswold.

A carta de Poe para Griswold

Embora os ataques virulentos tivessem ficado no passado, alguma tensão ainda permaneceu, pairando sobre a trégua entre Poe e Griswold. Entre meados e fins dos anos de 1840, circulou o rumor de que os dois estariam interessados na mesma mulher, a poetisa Frances Sargent Osgood. Apesar de serem ambos casados, Poe e Osgood mantinham uma amizade muito íntima, tinham o costume de trocar poemas e flertavam abertamente um com o outro, pelo menos segundo as fofocas que circulavam entre a os círculos intelectuais em que os dois frequentavam. Griswold, que também era casado, tinha uma certa queda por Osgood, e sempre a defendia das más línguas que falavam de seu suposto relacionamento com Poe. Ela chegou a dedicar um de seus livros de poesia a Griswold. Poe terminou a “amizade colorida” com Osgood em 1846, mas ao que tudo indica Griswold continuou enamorado da poetisa até a morte dela, em 1850 (e, segundo rumores, até depois disso)

O obituário Ludwig e como Rufus Griswold sequestrou a memória de Edgar Allan Poe.

Assim, de fofoca em fofoca, de alfinetada em alfinetada, de picuinha em picuinha, Poe e Griswold continuaram seu relacionamento profissional conturbado, mas agora com algum nível de “civilidade”. Muitos acreditaram até que os dois tinham realmente feito as pazes de vez, e que as rusgas eram apenas besteiras, coisas de dois homem de personalidade difícil, mas que no fundo se respeitavam.

Porém, pelo menos no que diz respeito a Griswold, nada havia realmente mudado. Ele continuava detestando o rival. Quando Edgar Allan Poe morreu sob circunstâncias misteriosas (o que é assunto para outro artigo), no início de outubro de 1849, Griswold viu a oportunidade de, finalmente, se vingar.

Dois dias depois do falecimento de Poe, um obituário foi publicado no jornal The New York Tribune, assinado por um certo “Ludwig”. O texto abria com a seguinte frase: “Edgar Alla Poe está morto. Ele morreu em Baltimore, antes de ontem. Esta notícia surpreenderá muitos, mas poucos ficarão tristes.”. O texto é uma torrente de insultos pessoais, misturados com alguns elogios à obra de Poe. “Tinha poucos ou nenhum amigo”, “andava pelas ruas, como um louco”. “Ludwig” acusou Poe de não aceitar críticas sem se enfurecer, de ter inveja da riqueza alheia, de não ter honra, de ser ambicioso…enfim, um sem número de ofensas pessoais, que terminavam com um rápido elogio do trabalho de Poe como escritor e poeta.

Se você leitor prestou atenção no artigo até aqui, claro que já adivinhou que o obituário foi escrito por Griswold, usando um pseudônimo para evitar represálias dos amigos e admiradores do falecido. Mas não demorou para que todos que o conheciam chegassem a conclusão de que ele era “Ludwig”. Griswold não era exatamente o sujeito mais sutil do mundo, afinal. Ele mesmo confirmou isso em uma carta para a escritora Sarah Helen Whitman, amiga e ex-noiva de Poe: “Eu escrevi, como deve imaginar, o obituário de Poe no Tribune, mas com muita pressa. Eu não era amigo dele, nem ele meu” (Gill. The life of Edgar Allan Poe, pp. 228-229).

O obituário foi apenas o começo de uma longa campanha de difamação que duraria anos. O próximo passo de Griswold foi entrar em contato com Maria Clemm, a sogra de Poe, para convencê-la a vender os direitos das obras dele (Clemm não acompanhava a vida literária do genro, e provavelmente não sabia da inimizade dele com Griswold). Na verdade, Poe era viúvo (sua esposa Virginia, filha de Maria Clemm, tinha morrido em 1847), e não tinha filhos, então a verdadeira herdeira dos direitos legais sobre suas obras era a irmã do escritor, Rosalie Poe. Mas Rosalie ela tinha problemas mentais, o que a tornava legalmente incapaz, então Griswold se apressou em ir atrás de Maria Clemm, a única parente de Poe que tinha condições de negociar as obras.

Um dos dois túmulos de Edgar Allan Poe em Baltimore (foto: Ben Michalski. Fonte: wikicommons)

De posse dos direitos legais da obra de seu inimigo, Griswold começou a trabalhar na destruição de seu legado. No fim do ano, ele publicou uma coleção póstuma das obras completas de Poe, cujo prefácio afirmava que os lucros iriam para a Sra Clemm, que estava com dificuldades financeiras. Na verdade tudo o que ela ganhou foi uma cópia da coleção e nenhum centavo. No ano seguinte, ele publicou um artigo biográfico na revista International Monthly Magazine, no qual repetiu e aumentou as calúnias do obituário Ludwig. Griswold pegou cada fato da vida de Poe e os torceu contra o escritor. Alguns exemplos: o pai adotivo de Poe, John Allan, se recusou a pagar por seus estudos integralmente, o que fez com que o jovem escritor começasse a jogar para tentar ganhar algum dinheiro. Conforme sua dívida de jogo aumentava, Poe decidiu trancar a faculdade e se alistar no exército para pagar a dívida e se sustentar. Na versão de Griswold Poe foi expulso por mau comportamento. Poe serviu o exército por dois anos, chegando a sargento de artilharia, e pediu dispensa para se matricular na academia militar de West Point: na versão de Griswold ele desertou. O alcoolismo de Poe, na narrativa de Griswold, foi aumentado para uso de drogas e completa e violenta instabilidade mental. Dos desentendimentos com John Allan, Griswold inventou um suposto affair entre Poe e a segunda mulher do pai. Griswold chegou até a fabricar cartas falsas que davam a entender que ele e Poe eram amigos íntimos, a fim de tirar a credibilidade dos verdadeiros amigos de Poe, quando eles tentassem desmenti-lo.

O que se seguiu foi uma verdadeira guerra de narrativas: de um lado Griswold, que com sua influência no mundo editorial e os direitos sobre a obra de Poe continuava publicando livros e artigos cheios de mentiras sobre o escritor, e ganhando dinheiro com seu nome e obra. Do outro, poetas, escritores, jornalistas, amigos e admiradores de Poe, que tentavam através de artigos, reportagens, correspondência e livros desfazer o estrago que Griswold estava fazendo à memória do autor.

Mas nenhum dos envolvidos contava com uma coisa: no século XIX, assim como hoje, o público adora um bom escândalo. A versão de Griswold que pintava um Edgar Allan Poe bêbado, drogado, arruaceiro, cruel e destrutivo só fez aumentar o interesse do público na obra dele. Conforme as mentiras de Griswold se espalhavam e eram repetidas por outros biógrafos e jornalistas, Poe acabou se tornando o equivalente literário de um “rock star”, e sua biografia virou uma versão gótica do estilo de vida “sexo, drogas e rock n roll”, um século antes de o rock n roll sequer existir . O interesse pela obra de Poe não parou de aumentar. Cada vez mais leitores queriam ler a os contos de poemas daquele atormentado “príncipe das trevas”. Griswold estava ganhando dinheiro às custas de Poe, e seu plano de convencer o mundo que Poe era um trágico degenerado tinha dado certo. Porém, ele teve que assistir de camarote enquanto a obra do arqui-inimigo ia se tornando um verdadeiro monumento da literatura norte-americana, e Poe ia se tornando, postumamente, cada vez mais amado e admirado. E isso ocorreu principalmente pelo talento de Poe, mas também em parte porque o público estava fascinado pelo “personagem” que Griswold tinha criado.

Ao tentar destruir a memória de Edgar Allan Poe, Griwold acabou garantindo sua imortalidade.

Assombrado

A biografia de Poe escrita por Griswold foi a única disponível até 1875. O mito mórbido que ele criou continuou a atrair leitores, e a fama maldita de Poe continuou a se espalhar. Mas em 1875 aconteceu uma feliz coincidência: um monumento em homenagem a Poe foi inaugurado em Baltimore, e o escritor inglês John Henry Ingram publicou a primeira biografia do autor desde a de Griswold. Com a inauguração do monumento, houve um renovado interesse na obra de Poe, o que ajudou nas vendas do livro de Ingram.

Ingram era um admirador da obra de Poe, e dedicou sua vida a reabilitar a imagem dele. Para escrever sua biografia, Ingram buscou fontes sobre a vida de Poe, e colecionou tudo o que pode sobre ele: fotos, artigos, correspondências, documentos. Sua biografia de 1875 foi escrita inteiramente com a intenção de desmantelar a versão de Griswold. Para a segunda edição, Ingram expandiu a biografia para dois volumes com a ajuda de Sarah Whitman e outros amigos e conhecidos de Poe, que lhe ofereceram não apenas seu testemunho, mas também acesso à cartas e documentos. Com o passar do tempo, outras biografias foram escritas, e a polêmica entre as diferentes versões da vida de Poe continuou, mas Ingram conseguiu quebrar o “monopólio” de Griswold sobre a imagem de Poe.

Griswold não chegou a ver a a publicação do livro de Ingram, nem a inauguração do monumento em Baltimore. Ele morreu de tuberculose em Nova York, em, agosto de 1857, apenas oito anos depois de Poe. Nesses oito anos, Griswold dedicou boa parte de seu tempo ao projeto de destruir a imagem do rival. Por oito anos ele escreveu artigos e livros sobre Poe e compilou e recompilou sua obra. Nesse meio tempo, sofreu um ataque epiléptico, passou por um divórcio cercado de escândalo, quase perdeu a filha em um acidente de trem e foi vítima de um incêndio acidental em sua casa que o deixou com queimaduras no rosto e nas mãos. Depois de sua morte, seus restos mortais ficaram anos encerrados em uma câmara do cemitério de Green-Wood, até serem finalmente enterrados em 1865, em uma tumba sem lápide. Sua biblioteca pessoal de milhares de livros foi leiloada com o objetivo de usar o dinheiro para fazer um monumento em sua homenagem, mas ninguém nunca encomendou o tal monumento.

Quando morreu, um dos objetos que Griswold deixou foi um retrato de Poe, uma pintura a óleo que ele conseguira surrupiar da casa de Maria Clemm. O retrato costumava ficar pendurado na parede da casa de Griswold, junto com um retrato do próprio Griswold e outro de Frances Osgood. Em sua escrivaninha, foi encontrada uma série de artigos prontos para publicação, todos contendo ataques à diversos escritores. Seus amigos decidiram que o melhor seria queimá-los.

Não temos como saber o que se passava pela cabeça de Griswold, enquanto ele escrevia obsessivamente sobre um homem que odiava, Um homem cujo retrato pendurado na parede acompanhou Griswold até o último suspiro, como um fantasma, assombrando o resto de seus dias. Talvez ele nem sequer tenha percebido que seus últimos anos de vida, mergulhados em vingança e obsessão, pareciam muito uma das histórias macabras do próprio Poe.

Como um dos assassinos enlouquecidos dos contos de Poe, Griswold se entregou à vingança, à ânsia de destruir o legado de seu inimigo, e acabou se autodestruindo no processo. Em vida, ele ainda conseguiu fazer dinheiro com os direitos da obra de Poe, mas teve que conviver com o fato de que seu rival era um escritor de fama internacional, que entraria para a história como um dos maiores escritores de sua época, e que com o passar do tempo só ganhava mais leitores e mais homenagens, enquanto o próprio Griswold só seria conhecido como alguém cuja fama e lucros vinha de compilar o trabalho alheio.

Ao dedicar sua vida à difamar Poe, Griswold garantiu que seu nome passasse à história eternamente associado ao dele. Sem querer, acabou fazendo com que a profecia de Henry Beck Hirst, em sua ferina resenha de 1843, se torna-se realidade: “qual será o seu destino? Esquecido por todos, com a exceção apenas daqueles a quem ele injuriou e insultou, ele cairá no anonimato, (…) se por ventura seu nome for mencionado, será para chamá-lo de servidor desleal que abusou da confiança nele depositada.”

Como Hirst previu, Griswold foi esquecido pelo grande público. Os únicos pesquisadores que hoje se dedicam ao estudo da sua vida e obra são justamente os especialistas na vida e obra de Poe. A maior coleção de obras de Griswold se encontra…no Museu Edgar Allan Poe, em Richmond.

Griswold viveu assombrado pela memória de Poe, e ao morrer, sua própria memoria foi apagada pelo mito que ajudou a criar.

Estátua de Edgar Allan Poe em Baltimore, esculpid em 1916 por Moses Jacob Ezekiel (foto: Eli Poousson, fonte: wikicommons)

Materiais consultados/citados:

Sites:

Edgar Allan Poe Society of Baltimore

Edgar Allan Poe Museum

Artigos:

“Edgar Allan Poe and Rufus Wilmot Griswold”- Edgar Allan Poe Society of Baltimore

The long simmering feud between Edgar Alla Poe e Rufus Griswold- Kim Reynolds- Boston Public Library

A vengeful archnemesis taught you fale news about Edgar Allan Poe- Todd Van Luling- The Huffinton Post Culture&Arts

Livros:

David Kelly Jackson and Dwight Thomas The Poe Log: A Documentary Life of Edgar Allen Poe, 1809-1849 G. K. Hall & Co. Boston, 1987

James Harrison, ed., The Complete Works of Edgar Allan Poe New York: T. Crowell, 1902

John H. Ingram, , “Memoir of Edgar Allan Poe,” The Complete Poetical Works and Essay on Poetry of Edgar Allan Poe Together with His Narrative of Arthur Gordon Pym, London: Frederick Warne, 1888,

John Ward Ostrom, (ed.), The Letters of Edgar Allan Poe, New York: Gordian Press, Inc, 1966.

Joy Bayless Rufus Wilmot Griswold: Poe’s Literary Executor Nashville: Vanderbilt University Press. 1943.

Sidney P. Moss. Poe’s Literary Battles: The Critic in the Context of His Literary Milieu. Southern Illinois University Press, 1969.

Rufus Wilmot Griswold(“Ludwig”), “Death of Edgar Allan Poe,” New York Tribune, 9 de Outubro , 1849, p. 2. in Eric W. Carlson(ed.), The Recognition of Edgar Allan Poe, Ann Arbor: The University of Michigan Press, 1966.

Willian Fearing Gill The life of Edgar Allan Poe William F. Gill & Co,1877.

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