O fantasma da casa do Capitão Brown-Harriet Beecher Stowe

Imagem de capa: Ehud Neuhaus

“The Ghost in the Cap’n Brown House” foi publicada pela primeira vez na edição de Dezembro de 1870 da Revista Atlantic Monthly. Depois foi publicada junto com outras histórias fantásticas da cidade de Oldtown contadas pelo personagem Sam Lawson na coletânea “Oldtown fireside stories” em 1872, com ilustrações de F.O. C Darley, Augustus Hoppin and John J. Harley.

Nesta tradução mantivemos, na medida do possível a voz coloquial e “regional” de Sam.

—Ora, Sam, diga a verdade, fantasmas existem mesmo?

—Se fantasma existe? — disse Sam, traduzindo a pergunta imediatamente para a sua gramática vernácula —mas é aí é que tá o negócio, viu…

—Bem, a vovó acha que sim, e a tia Lois diz que é tudo bobagem.

—A tia Lois nem acredita nas histórias de Magnalia, do Cotton Mather*.

—Cês qué sabê?— perguntou Sam, num tom de lento e lânguido meditar.

Estávamos sentados às margens do rio Charles, pescando. O vermelho suave e tristonho do fim da tarde ia desaparecendo em fitas na água vítrea, e as casas de Oldtown emergiam da escuridão solene e fantasmagórica. Há momentos, tons e atmosferas da natureza que fazem tudo o que é cotidiano comum parecer sombrio, vago e sobrenatural, como se os contornos desse material duro de que é feito o presente desaparecesse no invisível e no desconhecido. Assim, Oldtown, seus olmos, suas grandes casas brancas e quadradas, o centro de convenções, a taberna, o moinho, a ferraria, tudo aquilo que ao meio-dia parecia tão real e tão prosaico, àquela hora da noite ganhava uma solenidade, um quê de sonho. Ficava tudo embaçado, indistinto, escuro; aqui e ali, velas acesas rasgavam longas linhas de luz através das sombras, e pequenas gotas da chuva repentina ondulavam o brilho úmido da água.

—Veja bem, seus menino, nessas coisa é bom sempre lembrá das vó. As vó são tudo muito sábia. As pessoa que diz que não acredita, que não acredita nisso, não acredita naquilo, que tipo de pessoa são essa? São assim que nem a tia Lois, meio seca e murcha. Não se aprende nada sem acreditá em nada.

—Senhô todo-poderoso! Nóis não sabe é nada dessas coisa. Nóis não tá lá, então não dá pra dizer que não existe fantasma e essas coisa; ou dá?

Concordamos, e nos sentamos um pouco mais perto de Sam em meio à penumbra que se aprofundava.

—Conte sobre a casa do capitão Brown, Sam.

—Cês já passaram na casa do capitão Brown, já?

Não, nunca tínhamos tido a honra.

—Veja bem, o capitão Brown ganhô todo o dinheiro que ele tem no mar, lá por aquelas banda onde eles vende pele de bicho, e depois veio pra Oldtown se estabelecê.

“Agora, o negócio com esses comandante de navio, é que num dá pra saber por onde eles andaram, nem o que andaram fazendo, ou como eles conseguiu dinheiro. Quem não qué ouvi mentira, então melhó não fazê pergunta. É a melhó filosofia pra essas coisa. Ora, não adiantava fazê muita pergunta pro capitão Brown, porque cê num ia ficá satisfeito com as resposta. Ninguém sabia direito quem era o pai dele, nem de onde eles vinha, e, se alguém perguntasse, ele costumava dizê que só lembrava de quando era jovem andando pelas rua de Londres.

“Mas, veja bem, meus menino, ele tinha dinheiro, e é só isso que o povo vê quando um sujeito aparece pra morá na cidade. E ele comprô uns terreno e fez umas casa. Ele fez tudo pareceno navio de capitão do mar, pra se senti mais em casa. A sala parecia a cabine de um navio. A mesa e as cadeira tudo pregada no chão, e os armários cheio de furo pra colocar os rodízio, as garrafas e os copo, assim pra parecê que eles tava no mar; e tinha uns cano para se segurar; e o povo diz que nas noite de chuva o capitão costumava enchê a cara de grogue, té num podê mais, e aí então ele ficava esperano, té ouvi o vento soprá, que era pra ‘senti o mar ali mesmo, cantando pra ele.

“Não tinha uma Senhora Brown, e parecia que nem ia tê, e se alguma vez teve uma, ninguém sabia. Ele tinha era uma véia negra da Guiné, chamada Quassia, que fazia os trabalho da casa. Ela era bem redonda que nem essas abóbora grande e retorcida. Ela num era nenhuma beleza, isso eu posso afirmá; costumava usar um turbante vermelho, um vestido curto por cima de uma saia vermelha, e um colar de conta de ouro em volta do pescoço, e uns brinco grande de argola de ouro nas orelha, tudo feito na África, no meio dos pagão de lá. Ela era só uma empregada, mas se achava muito, e inté mandava no capitão. Senhô tem piedade, meus menino, se não é sempre assim. É só botá um homi e uma muié junto – qualquer uma que você quisé, não importa com quem – e de um jeito ou de outro ela manda nele, e ele acaba dançando miúdinho na mão dela. Cada uma tem seu jeito de fazê isso; umas faz no grito, as outra faz com beijo, e as outra com as esperteza e os truque; mas de um jeito ou de outro elas consegue.

“O véi capitão Brown era um tipão forte e grande feito um touro, e conhecia muito de bebida, tinha umas garrafa de coisa fina nos armário; mas, da primeira à última coisa da casa era tudo do jeitim que a véia Quassia queria. O povo respeitava a Quassia. Ela vinha sempre na missa de domingo, toda arrumada e vestida de vermelho, amarelo e verde, com as contas de vidro e outras coisa, parecendo um daqueles deus indiano malajambrado; mas ela se comportava tão bem quanto qualqué otro cristão. E era mestra em cozinhá. Ninguém fazia pão e biscoito igual, ninguém fazia torta igual às dela, e não tinha bolo melhó que o dela em lugar nenhum.

“Essa história que eu vou contá foi Cinthy Pendleton que me contô. Não tem moça mais de respeito esse mundo, seja véia ou nova, que a Cinthy. Agora ela mora lá pros lado de Sherburne, e ouvi dizê que ela tá arrumando um negócio que tá é dando dinheiro; mas antes ela era costureira aqui em Oldtown. Ela era da igreja e boa cristã. Então, o que aconteceu foi que a Quassia chamou a Cinthy pra passá uma semana na casa do Capitão Brown, fazendo uns conserto e ajeitando umas ropa pra ele, isso foi lá pelo começo de março.

“Cinthy sentava junto da lareira na sala com e a máquina de costura e o ferro de passá pra trabalhá: sem visita nenhuma, e a neve com um metro e meio na porta da frente; então não tinha chance de ninguém aparecê por lá. O capitão era um homi educado com as muié; e a Cinthy bem que gostô da companhia dele, o capitão se divertia contando as história lá dele sobre o mar, e as aventura dele com os amonitas, perresitas e jebuseus, e todos os tipo de gente pagã que ele tinha conhecido. E num foi bem nessa semana que passô uma tempestade de neve das grande. De todas as tempestade de neve que já teve por essas banda, aquela foi a maió, o vento soprando como se fosse acabá o mundo. Dava medo dela batendo na casa como se a natureza tivesse brava, e a neve caía tanto que não dava nem pra vê do otro lado da rua, o vento gemendo, uivando e soprando pra dentro da chaminé, inté dentro de casa. Eu digo procês, era o tipo do negócio que fazia um sujeito pensar em três coisa: na morte, no julgamento final e na vida eterna. Não importa quem ocê seja, nem se ocê é bão, mas numa hora daquela acaba sentindo umas coisa bem séria.

“Foi aí que a Cinthy disse que ela meio que sentiu assim alguma coisa, um sentimento estranho, que parecia que tinha alguém perto da casa. Ela me disse que meio que sentiu no ar; mas achô que era bobage, e tentô não pensá naquilo. Mas duas ou três vez, ela disse que quando ficava de noite ela sentia alguém passá por ela e subi as escada. A entrada da frente não era muito clara de dia e, naquela tempestade, quando chegava as cinco, tava tudo tão escuro que só dava pra vê um brilho de alguma coisa, e duas ou três vez quando ela foi a subir as escada, ela viu um pano macio e branco que parecia que tava subindo na frente dela, aí ela parô com o coração batendo que nem um daqueles martelo pneumático, e ela viu aquilo subi té a porta do capitão, e então pareceu que atravessô, porque a porta não tava aberta.

“Então, Cinthy perguntô pra a véia Quassia:

—Tem alguém morando nessa casa além de nóis?

—Alguém morando aqui?—disse a Quassia—Como assim?

E a Cinthy respondeu:

—É que eu achei que alguém tinha passado por mim nas escada onte de noite e hoje de noite.

‘Senhô tem piedade! Como a véia Quassia gargaiô.

—Meu bom Deus!” Ela disse— Como os branco são tonto! Alguém passô por ocê? O capitão não tava?

—Não, não era o capitão, era um troço macio e branco, que mexia como se tivesse parado; como se tivesse parado no ar.

“Então a Quassia só fez foi rir mais alto ainda. Ela falô:

—Isso é histeria sua, sinhorita Cinthy; só isso.

‘Oras, a Cinthy ficô inté meio envergonhada, mas o que ela podia fazê? Às vez, à noite, ela estava com o capitão e achava que tava ouvindo alguém mexendo no quarto dele; e ela sabia que não era Quassia, porque Quassia tava passando rôpa na cozinha.

‘Ela tentou uma ou duas vez descobri o que era. Então, veja bem, o quarto do capitão era a o da frente, em cima da sala, e logo em frente era o quarto onde a Cinthy dormia. Era bonito que só, tinha uma cama de mogno de quatro coluna e as curtina de damasco comprada na Inglaterra; mas era fria que dava pra congelá um urso polar, como se fosse um quarto vazio. Tinha um corredô entre os quarto, que passava pela casa toda: de um lado era o quarto da véia Quassia e o outro era como se fosse uma dispensa, onde o véi capitão tinha todo tipo de armadilha.

‘Então, a Cinthy continuô ouvindo coisa e vendo coisa, até que ela não sabê mais o que podia sê. Certa vez, quando ela entrô na sala assim bem na horinha do pôr do sol, ela teve certeza que viu uma figura branca desaparecendo pela porta que dava para a entrada do lado da casa. Ela disse que tava tão escuro, que tudo que ela viu foi só uma figura branca, e ela só ficô quieta que nem um gato quando entrou.

“Aí, ela apagô as luz antes ir para a cama, na paz de Deus, e dormiu inté de madrugada, e foi aí, pelo que ela me contô, que alguma coisa acordô ela, assim num repente. Os olho dela se arregalaro rápido qui nem uma mola daquelas hidráulica. A tempestade já tinha passado e a lua tinha parecido: e tava ela ali, parada debaixo da luz do luar junto da cama, uma muié branca, mais branca qui nem um lençol, com os cabelo preto inté a cintura e os olho preto mais brilhante e cheio de tristeza que já se viu. Ela ficô parada ali, na frente da Cinthy; e a Cinthy acha que foi por isso que ela acordô; porque, ocêis sabe, se alguém fica encarando a pessoa que tá durmindo é capaz inté de acordá ela.

“Pois então, Cinthy disse que se sentiu como se tivesse se virado em pedra. Ela não conseguia se mexê nem falá. Ela ficô ali deitada um minuto, depois fechô os olho e começou a rezar; e um minuto depois que ela olhou, a coisa tinha sumido.”

Notas da tradutora:

Magnalia, de Cotton Mather: Magnalia Christi Americana (latim para “Os Gloriosos Trabalhos de Cristo na América”) é um livro em dois volumes escrito em 1702 pelo pastor Cotton Mather, que detalha o desenvolvimento da Igreja puritana na Nova Inglaterra entre os anos de 1620 e 1698. Entre os eventos narrados está o Julgamento da chamadas Bruxas de Salem

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