Lucy – Edith Nesbit

Imagem de capa: Filip Pizl

“Lucy” foi publicado pela primeira vez em 1909, na coletânea “These Little Ones”. A versão traduzida aqui, vem de uma publicação posterior, de 1914, na revista Windsor, volume 29.

Um dia, um cavalheiro já idoso estava revirando sua velha escrivaninha, e na gaveta a que educadamente poderíamos chamar de “secreta” encontrou uma rosa seca que uma moça lhe dera de presente, e um uma fita que fora bela e colorida quando ela a usava. Também encontrou um pequeno livro oblongo encadernado em fino couro amarelo, com bordas e fecho de um dourado desbotado, um livro que não tinha nada a ver com aquela moça, que não era ninguém em particular, e cujo nome ele já tinha esquecido há muito tempo. Mas o pequeno livro ele não tinha esquecido; era seu primeiro diário. Na folha de de rosto estava escrito, com aquela tinta violeta que não desaparece: “Ao querido Peter, da mamãe, com o todo amor.”

E o velho cavalheiro se lembrou de como, vestido em seu terno de veludo com uma gola bordada, ele havia convencido a mamãe a gastar um xelim naquele diário, na loja chique perto da casa da tia Ingram — a loja chique que também era uma loja de brinquedos e uma biblioteca ambulante.

Ele leu as entradas. Não eram muitas; aos nove anos de idade não se mantém um diário por muito tempo.

15 de AgostoPapai e mamãe foram para a Suíça. Mamãe mi deu ese livro. Vou escrever tododia.
17 de AgostoVou ficar na tia Ingram.
18 de AgostoTentei trabalha no jardim. Não deu serto.
19 de AgostoAcho que sou muito mau. Mas nao é por querer.
21 de AgostoÉ errado fazer mdelos de argila.
24 de Agosto.Mau de novo. Tenho que ir pra iscola Fico triste quando eu sou mau. Espero que ninguém lea isso.
26 de AgostoNão tem ninguém na escola, só eu. Não aconteceu nada.
27 de AgostoNão aconteceu nada.
28 de AgostoNão tem nada pra fazer. Queria que os otros tivessem aqui. Não aconteceu nada.
29 de AgostoNão aconteceu nada. Vi L.
30 de AgostoVi ela de novo.
31 de AgostoL.
1 de Setembro.L.
2 de SetembroL.

…e assim por diante L. L. L. por mais quinze dias. Então as entradas terminaram pois mamãe voltou da Suíça. Ela chegou quando ele, envolto em sonhos, estava sentado solitário com sua caneca de leite frio e seu pão com manteiga. Ela entrou fazendo arabescos de seda violeta, usando um xale branco com bordado, e um véu de renda sobre seu grande chapéu, e o beijou e abraçou, e o colocou na cama com muitos carinhos. No dia seguinte, ele foi para o jardim e lhe explicaram algumas coisas. Até hoje ele não se lembra do que aconteceu depois disso. Só se lembra que depois foi estudar em Brighton, onde foi muito feliz com os outros meninos. Certa vez, uma prima em segundo grau contou-lhe que depois que mamãe o levou embora, ele ficou muito doente com algo que a prima chamou de febre cerebral, e o médico dissera que ele tinha perdido o juízo por causa da menina que morava na casa ao lado, e que ele falava dela sem parar nos delírios da febre.

Conforme o velho cavalheiro olhava aquelas entradas em seu primeiro diário -as linhas tortas escritas com uma daquelas penas com cabo de marfim que eram vendidas junto com aquele tipo de diário, ele teve, por assim dizer, um lampejo, e voltou-lhe a lembrança da agonia que aquelas letras apagadas documentavam. Lembrou de tudo sobre a vizinha da casa ao lado, e tudo que ela representou para ele quando ainda não era Peter Alguém, um cavalheiro, um adulto com seu escritório na cidade, cheio de empregados respeitosos e móveis de mogno; com dinheiro em ambos os bolsos, que podia decidir por onde passeava, quanto tempo ficava no jardim, e o que comia nas refeições e com quem conversava. Quando ainda era só Peter, o pequeno Peter que não tinha nenhuma voz em tais decisões, que tinha que ser um bom menino e fazer o que lhe mandavam. Ao segurar o caderno amarelo em suas mãos, e sentir seu sutil aroma doce e almiscarado, ele podia até ver de novo a casa ao lado.

Ele costumava chamá-la de casa ao lado, mas na verdade, a escola era uma casa de estilo georgiano com persianas nas janelas, que ficava um pouco mais abaixo na High Street. O portal da frente dava para um jardim com um caminho de piso de cerâmica que levava até um portão fechado, que por sua vez, abria-se em uma rua lateral. A rua era irregular e interessante, com diferentes tipos de casas e jardins e as mais belas casas de veraneio- o tipo de lugar sobre o qual se pode inventar histórias. Por isso Peter não podia andar por ali. Mas a casa ao lado era perto do jardim da escola, de modo que dava para ver a estampa das cortinas, um quadrado branco meio transparente que durante o dia era só um quadrado branco, mas que à noite, quando se acendiam as luzes, virava um belo desenho do portão de um castelo, em frente ao qual seis homens acorrentados se curvavam diante de um rei. Não houve ninguém que dissesse a Peter que eram os burgueses de Calais* rendendo-se ao rei Eduardo, e ele e o viu somente uma vez, na primeira noite quando se esqueceram dele, e o deixaram no jardim até escurecer, olhando tudo com medo de tocar em qualquer coisa, chorando por ser era um menino tão mau que ninguém poderia amá-lo. Sua tia explicou tudo muito bem antes de ele ser mandado para a escola.

Mamãe, que lhe deu o diário com todo seu amor, tido ido para a Suíça com papai, para ficar boa de novo, e Peter ficou com uma tia que não tinha filhos.

No começo ele ficou tão infeliz que se comportou bem: ficava quietinho, ou saía para passear, fazia tudo exatamente como era mandado e nada mais. Mas ele foi ficando mais feliz, pois uma das empregadas era muito boazinha com ele quando não tinha ninguém por perto, e ao ficar mais feliz, ficou também mais agitado. O velho jardineiro estava cortando as urtigas na cerca com uma foice. Peter pegou um aro quebrado de um dos barris no depósito e começou a cortar as urtigas também, mas escolheu se concentrar naquelas que eram grandes, verdes e vermelhas. Trabalhou com afinco, pensando em como a tia Ingram ia ficar satisfeita.

Mas quando foi agarrado, sacudido e levou um tapa em cada orelha, tão forte que elas ficaram ardendo até a hora de de ir para a cama, Peter aprendeu que as urtigas que ele tinha cortado não eram urtigas, mas “có-leos”, e eram muito preciosos, e que ele era um menino muito mau.

Então tentou compensar por este erro infeliz sendo mais bonzinho que o normal, e ao correr para abrir a porta para sua tia, prendeu o pé em um tapete, e caiu pesadamente no chão, trazendo consigo uma coisa chamada ‘apanhador’, que estava cheia de xícaras e pires que ninguém nunca usava. A maioria dos copos e dos pires se quebraram, e Peter acabou com uma protuberância na cabeça que parecia até uma ameixa grande. Dessa vez, ficou feliz em ir para a cama.

Mais tarde, resolveu modelar com argila, e pegou um pedaço duro do jardim. Para amaciá-lo, o colocou na banheira, uma instalação nova que o fascinava, e deixou a torneira aberta. O teto do corredor gotejou igual aos estalactites de uma caverna antes de descobrirem que a argila tinha entupido o encanamento da banheira novinha. Coisas assim aconteciam constantemente, sem que Peter tivesse a intenção de que acontecessem.

Mas a pior ocorrência foi também a última. Animado por dois dias inteiros durante os quais nada de lamentável tinha acontecido, ele fez uma armadilha para sua amiga, a empregada, com um cesto de lixo, um saco de papel com farinha, algumas ameixas verdes e assim por diante.

A porta da sala era larga e pesada, e a criada ainda não tinha limpado aquele quarto. Tudo estava propício. Mas a primeira a entrar na sala não foi a criada. Foi Snubs, o pug gordo de sua tia, que entrou silenciosamente, sem mexer na armadilha, farejou descuidadamente e se virou para sair. Nesse momento, tia Ingram, de chapéu e luvas de jardinagem, passou junto da porta que dava para o jardim, olhou através do vidro e viu a armadilha. Ela abriu a porta e entrou junto com o vento. Peter, de seu esconderijo atrás da porta, viu o que estava por vir e se abaixou. O tapa destinado a sua orelha atingiu a porta e, com o auxílio do vento, fechou-a com violência – a armadilha disparou sobre ele e sua tia sem fazer diferença entre os dois. E Snubs, o pobre Snubs, em sua saída destrambelhada, foi pego pela porta que se fechava.

Peter chorou muito por causa disso. Ele realmente sentia muito. Queria mostrar seu respeito por Snubs, de quem não gostava em vida, dando-lhe um funeral magnífico, como o que sua mãe havia dado ao canário que morrera, com os gatos de laços pretos liderando a procissão fúnebre, mas ficou trancado no quarto de hóspedes e não o deixaram sair, nem mesmo para o funeral.

É horrível ficar trancado em uma sala estranha, sozinho com sua consciência pesada e seus remorsos e pedidos de desculpas confusos.

Quando sua tia o procurou muito mais tarde naquele dia, ele havia adormecido no chão. Ela o acordou para dizer austeramente que ele tinha que ir para a escola imediatamente.

—Mas estou de férias.— disse Peter.

—Férias não são para meninos malvados que matam cachorrinhos inocentes.— respondeu tia Isabel. —A Srta. Snape foi gentil em aceitar em recebê-lo imediatamente.

—H-hoje?— perguntou Peter trsitemente.

—Amanhã. Ela me enviou um telegrama. Pode ir para a cama agora. E certifique-se de fazer suas orações e pedir um coração novo. Imagine se você morresse esta noite, para onde acha que iria?

—Eu não sei.— confessou Peter, muito honestamente.

—Mas eu sei. Não.— ela negou quando Peter, com o espírito incuravelmente generoso de uma criança, havia se aproximado dela dar-lhe o beijo de “boa noite” habitual. —Não. Ninguém pode amar um menino tão perverso. Ninguém sequer falaria com você se soubesse. Você é quase o mesmo que um assassino.

—Eu sinto muito, muito mesmo.— insistiu Peter. —Eu não vou fazer de novo.

—Eu vou cuidar disso.—disse tia Ingram—E lembre-se de fazer suas orações.

Suas orações incluíam um pedido sincero para que Deus fizesse dele um bom menino para todo o sempre. Ele estava com muito sono.

E no dia seguinte, eles o mandaram para a escola. Ele ficou a cargo do guarda ferroviário, um homem gentil e amigável, que fazia piadas e tentava animar as pessoas. Peter ficou feliz, até lembrar que se o guarda soubesse sobre Snubs, não falaria mais com ele. Então ele ficou triste. O guarda achou que ele estava cansado e o deixou em paz. E Peter se perguntou se seu crime transparecia em seu rosto e se o guarda ficara tão calado pois, de alguma forma, descobrira que ele era o garotinho que matou um cachorro, quase por acidente, mas ainda assim matou um cachorro.

Uma estranha criada com um xale xadrez e um chapéu com um pano azul o encontrou em uma estação ferroviária distante, e o levou por uma cidade até chegar em uma casa grande e estranha. Havia pão com manteiga e uma caneca azul cheia de leite em uma das pontas de uma mesa comprida – também uma senhora de cabelo cacheado que o beijou como se não quisesse e disse que ele devia ser um bom menino, e que ele era fazer exatamente o que Jane mandasse. Ele nunca mais viu essa senhora. Em seguida, ele foi enviado para o jardim para brincar e ali foi esquecido. Quando se lembravam dele, já era hora de dormir, e depois disso, um tempo que que parecia não ter fim terminava no despertar, em seu quarto de sótão bem iluminado pelo sol e com tábuas nuas, vinha terrível sensação de ter cometido um crime e esquecido, até a repentina e ardente lembrança vergonhosa. Ele era quase um assassino. Ninguém falaria com ele se soubesse. O velho cavalheiro que, um dia, remexia sua escrivaninha ainda se lembra com um arrepio da tristeza daquele despertar culpado.

E agora seu único dever era fazer o que Jane mandasse. Jane não falava muito. Ela era muito gentil, mas ele raramente a via, exceto durante as refeições e na hora do banho. Ela era uma criada de confiança, encarregada de cuidar da escola vazia e de seu pequeno e vergonhoso interno. Os outros criados, os professores, os alunos, até a diretora que recebeu Pedro naquela primeira noite, estavam todos de férias. Peter e Jane estavam sozinhos na casa. E Jane tinha seus amigos e seus assuntos. Peter não tinha nenhuma das duas coisas.

As amizades de Jane prosperavam melhor quando Peter não estava em casa. Por, ele era orientado a ficar brincando no jardim por longas horas. Ele não gostava do jardim; mas também não gostava da casa. No entanto, ele preferia ambos às “caminhadas” até os portões de Burleigh Park e de volta. Havia correntes penduradas em postes de pedra do lado de fora do Burleigh Park, e Peter queria se balançar nelas. Mas Jane estava sempre com pressa de voltar.

—Minhas ordens são que você dê um belo passeio todos os dias— ela dizia —e não se esqueça de que fiz isso.

A casa era esquálida e empoeirada; salas de aula vazias com carteiras pretas e bancos baixos e brilhantes. Muitos dos cômodos estavam trancados. Havia muito o que comer, e Peter e Jane comiam juntos.

—Quem mora ao lado? —ele perguntou no primeiro dia, enquanto comiam carneiro assado.

—Um velho cavalheiro e a netinha dele.

—Será que eu posso ir brincar com ela? —Perguntou Peter, que tinha passado toda a sua vida no campo, onde conhecia todo mundo.

—Meu Deus, não!— disse Jane. —O avô dela acha que não há ninguém bom o suficiente para ela brincar. Esse é o problema dela, eu acho. Está definhando como se sentisse falta de uma companhia alegre, é o que eu acho.

Peter chegou à conclusão que Jane provavelmente não iria definhar por esse problema. Do jardim quente e ressecado, ele ouvia gritinhos e risadas, através das grades da janela da cozinha.

Na hora do chá, ele ouviu de novo.

—A garotinha não está sofrendo de verdade, não é, Jane?— ele perguntou, comendo uma grossa fatia de pão com manteiga. Eles faziam as refeições na cozinha para evitar problemas.

—Ela é branca como um ovo— explicou Jane— e tosse muito. Ou costumava tossir. Agora ela até perdeu a voz de tanto tossir. Você pode vê-la na janela quase todos os dias. Eu ouvi que eles iam levá-la para o litoral, para ver se ela melhora. Mas você não ia poder brincar com ela, de qualquer maneira, mestre Peter. O avô dela não ia deixá-la brincar com com você. “

Peter parou de comer na hora. Tinha quase certeza de que Jane agora sabia quem havia matado – sem querer, mas ainda assim matado- o pug. Ele fugiu o mais rápido que pôde e foi para o jardim. Havia um canto tranquilo e cheio de ervas daninhas, entre o estábulo e a parede da outra casa. Peter deitou-se de bruços entre as trepadeiras e a camomila, perguntando-se como ele poderia ter sido tão perverso e se carregaria tal mancha para sempre, e seria apontado quando crescesse, como o homem que matou o cachorro quando ainda era garotinho. Parecia que ele estava na escola há tanto tempo. Já conhecia o jardim melhor do que o jardim de tia Ingram. Era um jardim agradável e antigo, com o pátio do estábulo dividido apenas por uma frágil cerca de alfeneiro. Mas não havia cavalariços no pátio e nem cavalos no estábulo. A porta da cocheira, porém, estava aberta. Dava para subir e sentar na janela aberta do palheiro. Mas para quê? Não havia ninguém para vê-lo subir. Ele, então, deitou-se de bruços no meio do das plantas, chorou e desejou que sua mãe não tivesse ido embora.

Mamãe estava na Suíça, muito longe, desejando que seu filho fosse bom e feliz. Ela disse que pensaria nisso todos os dias. Bem, ele não era bom. E também não estava feliz.

Ele nunca soube em que momento percebeu que alguém estava olhando para ele. Sentiu mais do que pensou que devia olhar para cima e ver quem era. Não podia ser ninguém além de Jane, e bem, se ela visse que ele estava chorando, talvez prestasse mais atenção nele. Ele sabia muito bem que ela não iria repreendê-lo ou chamá-lo de bebê chorão. As crianças sabem esse tipo de coisa com uma precisão estranha. Então ele ficou ali deitado, apesar do interesse de saber o que Jane diria se visse suas lágrimas. Seus ombros ainda tremiam com os soluços. Mas Jane não disse nada. Então, ele virou-se. E Jane não estava lá. Sentou-se e olhou em volta. Não havia ninguém ali. E ele tinha certeza de que havia alguém.

Não adiantava começar a chorar de novo agora. Havia uma videira crescendo na parede do estábulo, com uvas verdes bem no alto. Ele ia subir e ver se estavam maduras. Não ia pegar nenhuma, pois isso seria roubar. Mas não subiu. De repente, viu que não valia a pena. Ele foi e caminhou pelo jardim, colheu flores, as despedaçou, e provou as pétalas. As pétalas de rosa eram gostosas, assim como as capuchinhas. Mas as dálias e os girassóis eram horríveis.

Ele foi para a cama cedo naquela noite, porque Jane estava saindo para uma festa. Ele fez suas orações duas vezes e acrescentou um pedido:

—Oh, por favor, meu Deus! Oh, querida mamãe, venha e me tire daqui!

Foi seu último ato de fé. Na manhã do segundo dia, ele se acomodou na silenciosa e desesperada infelicidade de uma criança sozinha, para quem não há um passado alegre nem futuro esperançoso, apenas o presente interminável e intolerável.

Ele passava quase todo o seu tempo no jardim e passou a odiá-lo como um prisioneiro odeia sua prisão. A princípio, ele pensou em escrever para a mãe e contar a ela. Contar o quê? Que ele tinha sido mandado de volta para a escola porque matou – não de propósito, mas mesmo assim matou – o cachorro da tia Ingram! Talvez até a mamãe não o amasse mais quando soubesse disso.

Peter, agora um homem velho, sentado e meditando com o primeiro diário nas mãos, seria capaz de desenhar a planta daquele jardim de memória e dizer onde as flores cresciam, o lugar e o número exato de velhos vasos de couve nos quais os caracóis adoravam esconder-se, distinguir o sabor das diferentes pétalas, das folhas novas das videiras e das uvas verdes, pois, em comparação com “quase assassinato”, o roubo logo passou a não parecer muito, de certa forma. E comer é a primeira distração que ocorre a uma criança entediada.

E à medida que ele andava, cada vez mais crescia nele a sensação de estar sendo observado e de que havia outra pessoa bem perto. Quanta solidão naqueles dias! Uma solidão que deixara uma marca em sua alma que nunca seria apagada. Teria marcado sua mente tanto quanto sua alma, se não fosse pela menina da casa ao lado.

Ele tinha ficado no jardim por três longos, longos dias, com intervalos apenas para dormir e comer, e parecia que ele ficaria lá para sempre, quando a viu pela primeira vez – em uma janela do primeiro andar da casa ao lado. Um rostinho pequeno e pálido com olhos grandes e escuros e cabelos que caíam em mechas compridas, finas e negras puxadas para trás com um pente redondo, atrás do qual os cabelos mais curtos se erguiam em uma espécie de penteado irregular. Ela tinha um tipo de xale branco enrolado em volta de si, acenou com uma mão que parecia a garra de pássaro branco e sorriu para ele.

—Olá! —ele disse, animado com uma possível aventura— Você está melhor?

Ela sorriu e seus lábios se moveram, mas não respondeu. Então, ele lembrou.

—Oh!—disse ele, chegando o mais próximo possível da parede divisória sem perdê-la de vista —Esqueci que você perdeu a voz. Acho que você não pode sair, não é?

Ela balançou a cabeça, ainda sorrindo.

—Estou muito feliz em te ver.— disse Peter—Eles não vão ficar bravos por eu estar falando com você, vão?

Ela balançou a cabeça e fez um movimento com os lábios. Peter, observando com atenção, percebeu o que o movimento queria dizer: —Não conte.

—Eu não vou contar,— prometeu Peter—claro que não vou. Você não está cansada de ficar aí em cima?

Ele não tem certeza agora se foi apenas imaginação, ou se ele realmente conseguia entender, pela maneira como os lábios dela se moviam, o que ela dizia. Mas na época ele não tinha dúvidas. Por que teria? O que ela parecia dizer era-

—Eu costumava ficar muito, muito cansada.

—Quer que eu faça alguma coisa para você?— foi a próxima pergunta de Peter. E novamente sua cabeça balançou com um “Não, obrigada” e pareceu que ela acrescentou: “Eu gostava de brincar. Eu gostaria de ver você brincar. “

Sob essa inspiração, Peter escalou a porta da cocheira e sentou-se na abertura do palheiro, balançando as pernas.

Ela aplaudiu com sorrisos, batendo palmas suavemente.

Pela primeira vez, o chamado de “Venha para a cama, Mestre Peter!” parecia vir cedo demais.

Na manhã seguinte, Peter acordou cedo, animado com uma alegre expectativa: havia – que maravilha! – algo pelo que podia ansiar. Mas então ele se lembrou. Não havia nada no rosto, na voz ou nos modos da menina que mostrasse que ela sabia quem ele era – ele – o protagonista maligno de uma história de assassinato.

Se vestiu lentamente, amadurecendo uma resolução de martírio.

Quando foi para o jardim, quase desejou que ela não estivesse na janela. Ao ver que ela não estava ali, teve certeza que aquele desejo era só um ‘quase’. Quando olhou para cima de novo, lá estava ela, sorrindo e acenando com a mão que era, como uma garra de pássaro, branca.

Com a ajuda de dois vasos de couve e um velho cavalete, ele conseguiu subir a parede divisória, enquanto ela sorria, admirando seus feitos acrobáticos. Então, a pouco mais de um metro de distância do peitoril da janela, ele lhe contou. Foi muito difícil, mas ele contou tudo a ela, com toda a honestidade. Contou que tipo de garoto ele era, um menino mau, quase um assassino de verdade. E ao pensar em Snubs, ele chorou, embora não gostasse de Snubs quando ele era vivo.

A menina foi muito gentil com ele. Ela disse: “Não se preocupe” e “Tenho certeza de que não foi de propósito” com outras frases gentis e consoladoras.

Ela também disse, quando ele perguntou, que seu nome era Lucy e que tinha oito anos. Ele nunca chegou a ouvir a voz dela, mas é fácil se tornar especialista na linguagem silenciosa dos lábios, especialmente quando se está muito triste e solitário.

É impossível brincar com uma pessoa que fica para sempre sentada à janela, mas é fácil brincar para ela. Peter representou para Lucy todas as peças que ele havia imaginado e não chegara a interpretar. Ele girou um pião, embora agosto não seja uma época adequada para piões. Jogou bola de gude, naquela época bons meninos jogavam bolas da gude, e a cada golpe de sorte ou de habilidade erguia os olhos para receber os aplausos dela.

Ele cantava para ela as canções que aprendera com seus irmãos ou com os criados de casa, as canções da moda daquele época. “Slap, bang, lá vamos nós de novo!”, “O capitão e seus bigodes” e “A cura perfeita”. E Lucy, pálida, mas sempre sorrindo, aplaudia e pedia bis. Ela não falava muito, mas era uma daquelas pessoas a quem se pode contar tudo. Peter contou a ela mais coisas do que já contara a qualquer outra pessoa. Coisas diferentes. Coisas que ele nunca em toda a sua vida disse a mais ninguém.

E, gradualmente, a casa sombria e cheia de ecos, Jane e a crinolina de Jane, e seus chapéus coloridos e alegres e seus amigos, e até mesmo os horários das refeições e ir para a cama, começaram a parecer vagos e oníricos, pois a única coisa real no mundo era Lucy. O rosto magro na janela com mechas lisas de cabelo caindo de cada lado, e os olhos interessados em tudo o que ele fazia, os lábios pálidos que sempre sorriam e nunca diziam nada que não fosse gentil.

Ele não disse nada a Jane sobre a vizinha da casa ao lado. Por mil razões, ele não podia dizer nada. Na verdade, ele quase já não conversava com Jane. Ela, pelo contrário, começou a falar mais com ele, e levá-lo mais para sair, e trazê-lo para a cozinha quando seus amigos estavam lá. Ele odiava isso. Agora, não queria nada do jardim. O jardim, e Lucy.

As únicas coisas que pareciam reais, além de Lucy e o que ele fazia quando estava com ela, eram seus sonhos, que se tornaram muito vívidos. Neles, ele brincava com Lucy dentro da casa ao lado. Anos depois, ele entrou naquela casa, viu que podia encontrar tudo até com os olhos fechados. Cada canto era familiar. No entanto, ele nunca tinha estado lá antes, exceto em sonhos.

E os dias continuaram, assim como os sonhos — e Peter não queria mais que mamãe viesse buscá-lo. Ele não queria mais que os outros meninos estivessem lá. Ele só queria Lucy, e Lucy estava lá. Mas ele queria que Jane o deixasse em paz e não se preocupasse tanto.

Foi Jane quem escreveu para a sua mãe. Ele ficou sabendo disso por sua prima em segundo grau muito tempo depois. Jane perdeu seu emprego por ter feito isso, mas mamãe garantiu que ela ficasse amparada. Ela escreveu uma carta e trouxe a mamãe de volta da Suíça. A carta dizia:

“espero que esta carta a encontre bem, como eu me encontro quando a envio. Peguei seu endereço de uma carta do menino, e eu acho que é meu dever informar que mestre Peter perdeu peso desde que chegou, está pálido e com os olhos apagados, e seu eu fosse a senhora, eu viria buscá-lo ou ele vai perder o interesse na vida. Isto é tudo por enquanto, sua obediente criada

Jane Transome.”

Então mamãe veio, o beijou e acarinhou, e o colocou na cama, e naquela noite ele não sonhou.

Ele saiu para o jardim na manhã seguinte enquanto mamãe colocava suas roupas na mala, para se despedir de Lucy. Ela não estava na janela, e antes que pudesse aparecer, Jane veio atrás dele.

—Entre, Mestre Peter— ela chamou. —Vamos lavar as mãos e o rosto, tomar uma xícara de leite e comer um bom pedaço de bolo antes de ir.

—Eu quero,—disse Peter, pois agora parecia não haver razão para segredo — quero ver a garotinha da casa do lado.

—Não vai vê-la.—disse Jane, pegando sua mão. —Venha, venha logo. Pobrezinho! Pensei que tinha lhe contado sobre ela! Foi por falta de companhia, eu vivo dizendo.

—Eu quero ver a garotinha!— Peter repetiu, e resistindo à mão de Jane e arrastando os pés.

—Já disse que não pode.— Jane insistiu—Ela está morta.

Então um horror intenso se abateu sobre Peter, e em meio àquela sensação, ele só se lembra de ter dito: “Não, não, não!” muitas e muitas vezes, e batendo com suas botas no caminho do jardim.

—Estou lhe dizendo que está!—repetiu Jane. —Não seja bobo. Ela está morta, de verdade, coitadinha, e já dever ser um anjo por esta altura, eu tenho certeza.

Mas Peter continuou a puxar a mão de Jane até que arrastá-la para o lugar de onde se podia ver a janela de Lucy.

As janelas da casa estavam fechadas.

—Veja, — disse Jane — estão fechadas desde que eles foram embora.

E novamente Peter disse “não”.

—Mas eu digo ‘Sim’— ralhou Jane, exasperada. —Ela morreu no litoral três dias depois que eles a levaram para lá. Eles fecharam a casa e a levaram embora um dia depois que você chegou. Pensei que tinha contado. Agora venha, seja um bom menino e coma seu bolo.

•⁠•⁠•⁠•⁠•

Esse é o fim das lembranças despertadas pelo pequeno caderno amarelo de borda dourada. Depois disso, ele não lembra de mais nada até ir estudar em Brighton, e de sua alegria com os outros meninos.

Notas da Tradutora:

*A ilustração se refere a um evento da Guerra dos Cem Anos entre Inglaterra e França. Após vencer a Batalha de Crécy, o rei da Inglaterra, Eduardo III, montou um cerco à cidade de Calais. O cerco foi tão longo, que as provisões de Calais acabaram, o povo começou a passar fome e a cidade se viu obrigada a negociar sua rendição. Eduardo III determinou então que seis representantes se apresentassem para ser executados, e que viessem com cordas em volta do pescoço e trazendo as chaves da cidade e do castelo. O burguês mais rico de Calais, Eustache de Saint-Pierre, se ofereceu para o sacrifício e foi seguido por outros cinco burgueses. No entanto, os seis não foram executados graças a intervenção da rainha da Inglaterra, Filipa de Hainault, que estava grávida, e convenceu o marido que as execuções trariam má sorte ao bebê.

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