O professor e seus fantasmas: os contos de M.R. James.

Saudações leitores noturnos!

Já faz um tempo que não temos um artigo novo na Biblioteca, e nada melhor para reiniciar os trabalhos do que tirar a poeira de um bom clássico.

Hoje vamos falar de M.R. James e seus contos fantasmagóricos!

Quem segue o blog há algum tempo já deve ter notado que M.R. James é um dos autores mais presentes na nossa Biblioteca (para ler minhas traduções dos contos de James é só ir nas tags “M.R.James” ou “Ghost Stories of an Antiquarian”). É um daqueles autores inescapaveis quando se fala de histórias de fantasmas, especialmente dentro da literatura inglesa. M.R. James não é um dos autores de terror mais populares hoje em dia, em parte porque nossa ideia do que é assustador e nosso gosto em relação à literatura de terror mudou bastante desde o início do século XX, mas seus contos tem uma sutileza fantasmagórica clássica, e são bem capazes de dar aquele friozinho na espinha que vem quando ouvimos uma boa história de fantasma. Aliás, o jeito de assustar de M. R. James funciona justamente pela sua sutileza que contrasta com as forças sobrenaturais, criaturas monstruosas, bruxaria, vingança e maldições que enchem as páginas de suas histórias.

Mas antes de mergulhar no universo apavorante destes contos de fantasma, vamos conhecer melhor o seu autor.

O professor.

M. R. James, era, sob muitos aspectos o típico intelectual e gentleman inglês do fim da Era Vitoriana: professor de Estudos Medievais, diretor do King’s College, e vice-diretor da Universidade de Cambridge, Anglicano devoto e um conservador apoiador da hegemonia da Coroa Britânica. Seria difícil imaginar um homem assim como a mente por trás de tantos horrores e espectros, mas é claro, temos que lembrar que a história de fantasma é uma tradição tão profundamente inglesa quanto o chá da tarde.

Montague Rhodes James nasceu em Kent, em 2 de Agosto de 1862, o mais novo de quatro filhos, três meninos e uma menina. Seu pai, Herbert James, era pastor da Igreja Anglicana e sua mãe, Mary Emily, filha de um oficial da marinha. Quando ele tinha três anos de idade, seu pai foi transferido para a pequena paróquia do vilarejo de Great Livermere, em Suffolk. O vilarejo era bastante isolado, rodeado por muitas charnecas, aliás até hoje é um povoado minúsculo com apenas 226 habitantes, segundo o censo de 2011. Ali, Montague, ou “Monty” cresceu cercado pela natureza ocasionalmente inóspita do lugar, ouvindo os contos, histórias e superstições da tradição oral do povoado, ao mesmo tempo que recebia uma educação profundamente religiosa em casa. Além dos ensinamentos religiosos, seus pais também lhe ensinaram história, literatura e línguas: com o pai aprendeu latim e grego, e com a mãe, francês.

Great Livermere - Church of St Peter.jpg
Igreja de St. Peter em Great Livermere

Aos nove anos de idade, Monty foi mandado para o colégio preparatório Temple Grove School, em Londres. De 1876 a 1882, estudou no tradicional Eton College, uma das mais conceituadas escolas secundárias do Reino Unido. Foi em Eton que Montague começou a cultivar seriamente seu amor pela história e pela literatura. Fascinado pelo obscuro e pelo mórbido, ele lia sobre os martírios dos santos assim como as histórias de terror de Sheridan LeFanu e Charles Dickens. Com outros alunos, ele editou o jornal da escola, o “Eton Rambler” no qual publicou sua primeira história de fantasma, que já apresentava alguns traços dos contos que consagrariam seu nome na história da literatura de terror.

Em 1882, M.R. James ingressou na King’s College, uma das faculdades da Universidade de Cambridge, que seria o palco da maior parte de sua carreira intelectual e profissional. Enquanto era aluno de graduação, M.R. James passava a maior parte de seu tempo na Biblioteca do Museu Fitzwilliam. Ainda como aluno, foi responsável pela catalogação detalhada do acervo de manuscritos medievais do museu, organizando-os por autoria e proveniência. Foi também um dos primeiros a catalogar o material levando em conta iluminuras e elementos pictóricos, já que era fascinado por imagens, especialmente aquelas que representavam demônios ou martírios de santos.

A graduação foi apenas o começo de uma longa carreira acadêmica em Cambridge. M.R. James foi professor de Estudos Medievais em King’s College, e dirigiu o Museu Fitzwilliam. Durante sua administração, o museu adquiriu um grande número de manuscritos e pinturas. Ele se tornou diretor do King’s college em 1905, e uma década mais tarde, chegou a vice-reitoria de Cambridge. Durante tantos anos passados dentro da instituição, James trabalhou principalmente com manuscritos medievais, um dos quais chegou a levar a estudos e escavações arqueológicas na abadia de Bury St. Edmund, perto da paróquia onde ele cresceu, em Suffolk.

Durante seus anos em Cambridge, M.R. James viveu muito mais dentro do mundo isolado e, na época, exclusivamente masculino, da Universidade. Conservador e tradicionalista, ele apenas socializava com alunos e outros membros do corpo docente e se opunha à presença de mulheres na universidade. Ao longo da vida, teve relacionamentos com outros homens que seus biógrafos tendem a categorizar como “amizades”. Ainda há algum debate sobre a sexualidade de M.R.James, pois suas cartas e documentos pessoais não dão muitas informações conclusivas, mas sabemos de pelo menos dois relacionamento que, se não foram romances, foram ao menos amizades muito profundas. Uma deles foi com Gordon Carey, que mais tarde descreveu o escritor como “um homossexual não-praticante”, insinuando que embora o escritor sentisse atração por homens, não teria tido relacionamentos homossexuais de fato. A outra foi com James McBryde, um aluno de King’s College, que mais tarde seria o primeiro a ilustrar as histórias de fantasma de M.R. James. A morte McBride em 1904, deixando a esposa grávida da única filha do casal, foi um grande baque emocional para o escritor. A viúva de McBryde, Gwendoline, e sua filha Jane se tornaram uma espécie de família adotiva para M.R. James.

Um segundo golpe veio com a Primeira Guerra Mundial. Muitos alunos e alguns professores de Cambridge serviram no exército britânico, e muitos não voltaram do front, ou voltaram com sequelas físicas e psicológicas. Uma parte da universidade também foi transformada em hospital de campanha, o que fez com que os professores, alunos e funcionários que por uma razão ou outra não puderam servir, testemunhassem uma parcela dos horrores da guerra bem de perto, dentro de um espaço que muitos consideravam quase como seu lar. Este foi o caso de M. R. James, então com 52 anos de idade. Segundo o professor Alan Macfarlane: “(…) sendo um vitoriano, ele deve ser se sentido envelhecer muito rapidamente (…) tudo o que ele conhecia, todos os símbolos, os relacionamentos, os mitos, todas as histórias e os amigos tinham desaparecido”.

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M. R. James, fotografado por Olive Edis, 1910

Em 1918, M.R.James recebeu um convite para ser diretor de Eton, a escola na qual estudara durante a adolescência. De acordo com seus biógrafos, o retorno à escola na qual tinha passado alguns dos anos mais felizes de sua vida, foi muito positivo para o escritor. Ele foi um diretor muito popular e querido pelos alunos, e continuou a escrever e publicar suas histórias de fantasmas.

M.R. James morreu em 1936, aos 73 anos.

Os fantasmas

A vida de M. R. James, praticamente todos os seus relacionamentos e sua vida social existiam quase que exclusivamente dentro do universo acadêmico. Ele se sentia muito mais a vontade entre alunos, professores, livros e manuscritos, e suas responsabilidades de diretor e vice-reitor faziam com que ele literalmente vivesse em Cambridge e mais tarde em Eton, uma vez que os professores e administradores destas instituições, na época, viviam no campus, assim como os alunos (o que hoje não é mais um requisito). Para passar o tempo, ele escrevia histórias de fantasmas que tiravam inspiração de seus estudos em história medieval, assim como das histórias, tradições e lugares que conhecera em sua infância, em Suffolk.

M. R. James tinha o costume de apresentar uma leitura interpretativa de contos de fantasmas, em especial os de seu autor favorito, o irlandês Sheridan LeFanu, durante as celebrações de Natal (o que, como vimos neste artigo, era uma tradição na era vitoriana). Ele apresentou suas próprias histórias pela primeira vez em 1893, quando leu “Canon Alberic’s Scrapbook” e “Lost Hearts” (“O livro de recortes do Cônego Alberic” e “Corações perdidos”, ambas podem ser lidas AQUI e AQUI) em uma reunião da Chitchat Society, um grupo social de alunos e professores.

O objetivo inicial destes contos era puramente passar o tempo e entreter alunos e professores e de fato, as histórias de M.R. .James faziam muito sucesso com o seu “público”. Muitos sugeriram que ele as publicasse, mas como encarava seus contos apenas como um hobby, James não tinha interesse em investir em uma edição. Isso mudou em 1904 quando finalmente decidiu publicar um volume de suas histórias. A decisão foi motivada menos pela vontade de ver seu trabalho de escritor de ficção reconhecido e mais pelo desejo de ajudar a carreira de ilustrador de James McBryde. Na época, McBryde, que estudara Ciências Naturais em King’s College, tinha se casado e estava começando seus estudos em artes na Slade School of Arts, então M.R. James sugeriu que ele ilustrasse seus contos para publicação. Infelizmente, McBryde só conseguiu completar quatro ilustrações antes de morrer devido à complicações de uma operação de apêndice.

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Ilustração de McBryde para o conto “A Warning to the Curious” (“Um aviso aos curiosos”)

O livro foi publicado mesmo assim, sob o título “Ghost Stories of an Antiquary” (“Histórias de Fantasma de um Antiquário) e acabou sendo um sucesso. M. R. James ainda publicaria mais três coletâneas de histórias de fantasmas “More Ghost stories of an Antiquary” (“Mais Histórias de Fantasmas de um Antiquário) em 1911, “A Thin Ghost and Others” (“Um Fantasma Esquálido e Outras Histórias”) em 1919 e “A Warning to the Curious and Other Ghost Stories” (“Um Aviso aos Curiosos e Outras Histórias de Fantasma”) em 1925. Em 1931, uma coletânea contemplando toda a sua obra foi publicada sob o título de “Collected Ghost Stories”.

Suas histórias tinham alguns elementos básicos em comum, que M.R. James usava de maneiras variadas:

1-Seus cenários favoritos eram vilarejos ingleses no campo ou perto do litoral, cidades ou vilarejos antigos na França, Dinamarca ou Suécia (países que M.R. James conhecia e cujos idiomas ele dominava). A ação geralmente se passava em uma casa de campo, uma universidade, igreja ou abadia, tipos de “locação” que ele conhecia bem (alguns eram locais que realmente existiam, e que James já tinha visitado).

2-O protagonista é, em geral, um cavalheiro ou acadêmico excessivamente confiante, de personalidade reservada e bastante “comum”, ou seja, nada de protagonistas exuberantes, desequilibrados ou atormentados.

3-A descoberta de um livro ou alguma outra antiguidade que desperta, liberta ou atrai um poder malévolo e sobrenatural, muitas vezes de origem fantasmagórica. Segundo James, a história deve “colocar o leitor na posição de dizer a si mesmo ‘Se eu não tiver cuidado, algo assim pode acontecer comigo.’

The ghost stories of M.R. James

A principal característica da prosa jamesiana, que podemos perceber nesta lista de “elementos básicos” está na transposição da narrativa sobrenatural para dentro de um contexto quotidiano. Estas não são histórias de aristocratas passionais e castelos assombrados da narrativa gótica, mas sim narrativas de eventos que se passam em locais e apresentam personagens muito similares à experiência pessoal do autor. Em suas histórias é sempre um professor ou estudioso como ele mesmo (ou em alguns casos um clérigo, como seu pai), que em sua busca de conhecimento acaba despertando horrores adormecidos. O texto também tende a ser “enxuto”, sem muitos adornos. Ele prefere deixar as descrições mais detalhadas e cheias de adjetivos para os cenários e os elementos mais “reais” do que para os elementos sobrenaturais, tornando assim o real mais palpável, e o surreal mais vago e etéreo.

Sua técnica narrativa era mais baseada na sugestão do que na descrição explícita. M.R. James permite que o leitor infira os elementos mais horripilantes, dando-lhe apenas o necessário para que a imaginação crie algo assustador. São detalhes e sutilezas que, combinadas com o ambiente e personagens corriqueiros, estabelecem o horror. O mal que perturba a vida comum e pacífica de seus protagonistas sempre começa mostrar-se em detalhes que às vezes o leitor nem percebe a princípio. A presença do do sobrenatural vai se insinuando aos poucos, seja por um ruído estranho, uma coincidência improvável, uma citação em um livro ou algum outro elemento fácil de ignorar, mas aos poucos vai se tornando mais e mais persistente, até que, por fim, o mal se revela em sua totalidade.

Em sua introdução para a coletânea “Ghosts and Marvels”, ele afirma:

“Os dois ingredientes mais preciosos na criação de uma história de fantasma são, para mim, a atmosfera e um crescendo bem desenvolvido…Então, temos que ser apresentados aos atores de uma maneira tranquila, vê-los vivendo sua vida comum, sem serem perturbados for presságios, felizes com o que tem ao seu redor, e neste ambiente calmo, deixamos que algo sinistro se esgueire, discretamente a princípio, então cada vez mais insistentemente, até que domine o palco”

As figuras sobrenaturais nos contos de M.R. James são quase sempre malévolas, ou ao menos agressivas de alguma maneira. Em algumas histórias a presença sobrenatural busca vingança, como é, o caso de “O Freixo” (leia a minha tradução AQUI) e “Corações Perdidos”, mas em sua maioria ela simplesmente existe, adormecida, e é despertada pelas ações impensadas do protagonista, como em “O livro de recortes do Cônego Alberic”, ou nos famosos “Oh Whistle and I’ll come to you, my lad” (“Assobie e eu virei, meu jovem.”) e “A warning to the Curious” (“Um aviso aos curiosos”). O próprio James afirmou que “outro requisito, em minha opinião, é que o fantasma tem que ser malévolo ou odioso. Aparições amigáveis ou solícitas ficam muito bem em contos de fadas ou lendas locais, mas não têm função em uma história de fantasma”. Uma possível exceção que prova a regra é “Corações Perdidos”, na qual as figuras sobrenaturais não são propriamente maléficas, mas ainda assim, são capazes de cometer atos de violência chocantes. Em M. R. James, o choque entre horror e o mundo real é o ápice de um crescendo sutil que vai aumentando a tensão do leitor vagarosamente.

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“Ele foi até a porta do banheiro para verificar se a figura de seu sonho estava realmente lá” – Ilustração de Simon Harmon Vedder para o conto “Corações Perdidos”

O grande trunfo de M.R. James é começar deixando o leitor confortável. Como seus contos foram incialmente pensados apenas com o propósito de serem lidos para um público pequeno que incluía só seus alunos, amigos e colegas, o tom de sua prosa é muito parecido com o de uma conversa. A narração frequentemente se dirige ao leitor/ouvinte diretamente, usando o pronome “you” (que em inglês pode ser um casual “você”, o plural “vocês” ou mais formal como “o senhor”, “a senhora”, “os senhores”, etc) como se estivesse contando a história diretamente a um interlocutor (ou vários), o que de fato ele fazia em suas tradicionais leituras de Natal. Em muitos momentos, a narração sai momentaneamente da história, para se dirigir ao leitor/ouvinte e fazer comentários ou para falar de gostos e opiniões pessoais do narrador em relação à, por exemplo, arquitetura ou arte. Dessa forma o narrador cria uma distância “segura” eventos relatados. O tom de conversa serve para relaxar o leitor, fazendo com que ele se sinta em uma reunião de amigos, como aquelas da Chitchat Society. Esse afastamento cria uma certa sensação de “segurança” inicial, algo do tipo “você está só ouvindo uma história, está tudo bem, nada disso é real”.

O texto de M.R. James também contém muitas descrições pitorescas de bonitos vilarejos no interior, casas de campo, antigas mansões, belas catedrais, uma aldeia à beira mar, o dia-a-dia de um colégio ou universidade…enfim, cenários que também servem para deixar o leitor tranquilo e, consequentemente, vulnerável. Dessa forma, quando os elementos sinistros começam a se manifestar, o leitor/ouvinte quase não percebe a princípio, sentindo apenas uma ligeira inquietação, algo que não “combina” com a atmosfera agradável criada pela narração. Esse desconforto vai crescendo paulatinamente, até que o horror é finalmente revelado. Jack Sullivan, em seu livro “Elegant Nightmares-The English Ghost Story from LeFanu to Blackwood” (“Pesadelos Elegantes – A história de fantasma inglesa de LeFanu a Blackwood”), analisa este aspecto do texto Jamesiano:

“O horror sobrenatural é, geralmente, mais convincente quando sugerido ou evocado do que explicitamente documentado, mas a sutileza discreta de James é tão obsessiva, tão paradoxalmente desenfreada, que quase parece uma inversão da escrita hiperbólica de Poe ou Maturin. (…) O que começa como uma maneira de potencializar o horror, se torna uma forma de reprimi-lo e evitá-lo. Frequentemente, ele parece fazer as duas coisas ao mesmo tempo, criando uma tensão e um apavoramento únicos.

Para Michael Cox, autor da biografia “M.R. James : An informal portrait” ( “M. R. James: Um retrato informal”), “não é preciso ser um psicanalista profissional para ver nas histórias de fantasma uma válvula de escape para sentimentos reprimidos”. Muitos biógrafos e críticos vêem nos contos de M.R.James elementos psicologicamente complexos. Por exemplo, para Julia Briggs, em ”Night Visitors: The Rise and Fall of the English Ghost Story” (“Visitantes Noturnos: A Ascenção e Queda da História de Fantasma Inglesa”) existe uma correlação entre o fato de que James em sua vida pessoal, evitava o contato físico com outras pessoas, e o fato de haver um elemento físico muito presente em sua visão do horror. Em seus contos, quando o horror finalmente se revela, isso acontece de uma maneira profundamente “carnal”: fantasmas com feridas abertas, criaturas monstruosas com garras, dentes e pelos, mãos e braços que agarram as vítimas, cadáveres retorcidos, rostos grotescos… O fato de M. R. James nem sempre descrever esses horrores com detalhes apenas os torna mais apavorantes, já que ele descreve o suficiente para que a imaginação do leitor faça o resto. Pior ainda, mesmo quando o horror é revelado, ele quase nunca é “explicado”. Os monstros e fantasmas de M. R. James, simplesmente existem, sem razão nem lógica, e juntando todos os pequenos elementos de horror que se somam ao longo da narrativa para criar o clímax, é o não-dito o que mais apavora.

Ao contrário de outros autores, não há em M.R. James a possibilidade do “horror imaginário” do “era tudo um pesadelo”. Nenhum de seus protagonistas apresenta sinais de perturbações emocionais ou psicológicas, e seus fantasmas, monstros e aparições são tratados como absolutamente reais. Os eventos sobrenaturais são apresentados de uma forma totalmente pragmática: o protagonista, perfeitamente são e lúcido, de alguma forma encontra, geralmente devido a sua própria curiosidade, um objeto ou local que o conduz a um contato com o sobrenatural. E mesmo depois de contatar o “outro lado”, o protagonista (se sobreviver) continua curioso, continua a buscar livros antigos e artefatos misteriosos. O fantasma é real e simplesmente existe, não há nada que possa ser feito a respeito. E a curiosidade humana não muda. Os sinais de que algo sinistro nos espera estão todos ali, discretos mas presentes, no entanto a curiosidade nos impele a prosseguir na descoberta. E para Jack Sullivan é aí que está o “delicioso paradoxo” de M.R. James: “quanto mais de suas histórias nós lemos, mais sabemos o que esperar, mas é exatamente este reservatório de expectativas que enche cada leitura de suspense”.

As histórias de terror de M. R. James são clássicos no sentido mais puro da palavra: sabemos o que esperar delas, mas ainda assim, justamente por sabermos, não conseguimos parar de ler, nem conseguimos evitar os calafrios.

Antes de terminar este pequeno e humilde post sobre M.R. James, me sinto na obrigação de compartilhar uma pérola que foi deixada nos meus comentários. O blog Reminiscências de um Lorde Velho, tem um EXCELENTE dossiê sobre a série de especiais da BBC “A Ghost Story for Christmas” com adaptações de contos de M.R. James. Seguindo a tradição vitoriana de contar histórias de fantasmas no Natal, estes especiais eram exibidos durante as comemorações de fim de ano. A primeira série foi produzida e exibida nos anos 70, e houve um revival em 2005. Mas, é claro, o querido Lorde fala disso com muito mais propriedade, incluindo todos os detalhes das produções e links para baixar e assistir. Clique AQUI e aproveite!

“M.R.James in the library with the skull” (M.R.James na biblioteca com uma caveira) illustração de Alisdair Wood

Material Consultado:

Artigos:

“Ghost Writer”- Artigo de Penelope Fitzgerald para o jornal “The Guardian”

S.T.Joshi, Introdução à Coletânea Count Magnus and Other Ghost Stories: The Complete Ghost Stories of M. R. James, Volume 1, Penguin Books, 2005

Ghost Stories for Christmas – A Tradição Natalina do Horror Gótico Britânico. Dossiê sobre o especial “A Ghost Story for Christmas” da BBC

Documentários:

M. R. James: Ghost Writer (2013. BBC)-apresentado por Mark Gatiss

A Pleasant Terror: The Life and Ghosts of M.R. James (1995)

Livros:

Jack Sullivan  Elegant Nightmares: The English Ghost Story from Le Fanu to Blackwood. Ohio University Press, 1980

Jack Sullivan: ed., The Penguin Encyclopedia of Horror and the Supernatural. New York: Viking Press, 1986

Julia Briggs.  Night Visitors: The Rise and Fall of the English Ghost Story Faber&Faber, 1977

Mary Ellen Snodgrass. Encyclopedia of Gothic Literature. Facts on File Inc., 2005

Michael Cox M. R. James: An Informal Portrait. Oxford University Press, 1983

M.R. James. Complete Ghost Stories. Macmilliam Collector’s Library, 2005

Sites:

Ghosts & Scholars – revista on-line sobre M. R. James

Archive Centre Online Resources – Arquivo Online de materiais do King’s College

A Podcast to the Curious– Podcast dedicado à obra de M.R.James

4 comentários em “O professor e seus fantasmas: os contos de M.R. James.

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  1. Que delícia a surpresa no fim do artigo! Não estava esperando! Muito, muito agradecido! 😌🙏

    Tomei a liberdade de atualizar o dossiê, linkando as traduções de “Corações Perdidos” e “O Freixo” com suas respectivas adaptações (é curioso que justamente “O Livro de recortes do Cônego Alberic” nunca tenha sido adaptado, não é?). E também o presente texto e aquele sobre os “Fantasmas no Natal”.😉

    Se tiver vontade de manter contato e trocar figurinhas, tenho instagram e telegram. Ambos o contato é @lordevelho 😊

    Curtido por 1 pessoa

    1. Acho que sou eu quem deve agradecer! Encontrar o seu blog foi uma surpresa tão bem-vinda, que eu simplesmente não podia deixar de mencioná-lo. Tenho certeza que será a primeira vez de muitas, porque você tem TANTO conteúdo interessante! Muito, muito obrigada por linkar minhas traduções (o comentário sobre minhas traduções de autorAs me deixou particularmente feliz 🙂 ). Com certeza vou entrar em contato, nossos blogs tem tanto em comum, que nós simplesmente temos que trocas umas figurinhas, né?

      Curtido por 1 pessoa

      1. É realmente muito bom saber que você gostou tanto do meu blog. Elogios são sempre bons, mas é muito mais significativo quando vem de alguém que a gente respeita. Quando é assim, é mais que elogio, é uma espécie de validação e eu ando precisando pois nos últimos meses não tenho conseguido escrever e manter o blog atualizado devido a um misto de desânimo pandêmico e falta de estímulo. Saber que alguém como você, com seu conteúdo e interesses, gostou tanto do blog me ajuda muito a retomar esse ânimo. Obrigado mesmo!😌 Não sei ainda quando vou conseguir soltar material novo… mas um dia virá.😉

        E, enquanto isso… já vi que tem conto novo pra ler.🖤

        Curtido por 1 pessoa

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