O Bangalô Vermelho- Bithia Mary Croker

Imagem de capa: Dak Bangalô no estado de Himachal Pradesh, em 1868. Foto de Samuel Bourne (arquivo: Museum of Photographic Arts, San Diego, EUA)

“The Red Bungalow” foi publicado no livro Odds and Ends em 1919. Este conto, assim como a maior parte do trabalho da autora, é inspirado pelo período em que a irlandesa Bithia Mary Croker viveu na Índia, quando seu marido, um oficial do exército britânico, foi transferido para a cidade indiana de Madras e posteriormente para Bengala.

Como história do conto “O Bangalô Vermelho” se passa na Índia, quando o país ainda era uma colônia britânica, mantive a grafia das palavras indianas conforme aparecem no texto original (isto é, a grafia britânica usada pela narradora), até aquelas que têm equivalentes em português (como saree / sári). Também conservei o falar “incorreto” das personagens indianas, que no texto original falam um inglês menos “fluente”. Este elementos foram preservados para manter a voz, profundamente britânica, da narradora, e conservar a tensão e estranheza entre seu ponto de vista colonial e a cultura indiana.

Faz bastante tempo desde que o regimento do meu marido (‘os ‘Snapshots‘) estava estacionado em Kulu1, mas quando me lembro dos dias que passamos na Índia, parece que foi ontem. Ao me sentar perto da lareira, ou no canto mais ensolarado do jardim, às vezes, quando meus olhos ficam cansados da leitura e tenho que fechá-los, ainda posso ver, com vívidos detalhes, os eventos que aconteceram anos atrás. Entre tantas lembranças, não há uma que se destaque de forma tão estranha e lúgubre quanto o episódio do “Bangalô2 Vermelho”.

Robert era comandante de seu regimento, e nos estabelecemos em uma casa bem espaçosa em Kulu e gostamos da estação3. Ela ficava um pouco fora de mão, mas era agradável e animada. A vizinhança ainda se apegava à memórias da John Company4 e aos vestígios de antigos impérios. A caça aos porcos selvagens, o cultivo de rosas, badminton e pólo ajudavam os residentes a passar o tempo naqueles longos dias indianos, que nunca eram longos demais para mim!

Certa manhã, tive uma agradável surpresa quando, lendo o Gazette5, vi que meu primo, Tom Fellowes, tinha sido nomeado Contramestre-Geral do distrito e ia assumir o cargo imediatamente.

Tom tinha uma esposa e dois adoráveis filhinhos (enquanto nosso berço continuava vazio). Deixei o jornal de lado e mandei um telegrama para Netta para felicitá-los e insistir que viessem nos visitar o mais rápido possível. Os indianos são rápidos. Em uma semana, nosso pequeno grupo aumentou para seis com Tom, Netta, o pequeno Guy, de quatro anos, e Baba, uma belezinha de olhos escuros e quase dois anos. Eles também trouxeram com eles uma ayah6 inestimável, de Madras. Ela falava inglês com um belo sotaque estrangeiro e era inteiramente dedicada às crianças.

Netta era uma jovem esguia, de olhos brilhantes, cabelo negro como azeviche e boca forte. Ela era animada, inteligente e uma ótima parceira para um militar, com sua energia maravilhosa e gosto invejável.

Tom era um soldado intrépido, mas um sujeito tranquilo em sua vida pessoal. Todos os assuntos financeiros e domésticos ficavam a cargo de sua esposa, que administrava tanto a ele quanto a casa com notável competência.

Antes de Netta vir passar três dias conosco, ela começou, apesar dos meus protestos, a insistir em ‘arrumar uma casa’.

—Ora, você acabou de chegar!— protestei.— Não desfez nem metade das malas. Fique aqui algumas semanas e conheça o lugar e as pessoas. É um prazer para mim ter você e as crianças aqui.

—Você os estraga, especialmente o Guy!—ela declarou, rindo.— É melhor tirá-los logo daqui! Mas, falando seriamente, eu quero me instalar logo. Estou ansiosa para reformar minha nova casa, deixá-la bem bonita e ter um jardim, assim, uma humilde imitação do seu, uma quadra de badminton e alguns cavalos. Me sinto como uma criança esperando por um brinquedo novo. Quando estava trancada em Fort William, lá em Calcutá, nunca senti que tinha um lar de verdade.

—Mesmo assim— respondi—ainda temos muito tempo, acho que você podia ficar até depois do Natal.

—O Natal! —ela exclamou. —Quero fazer minhas próprias festas, e uma árvore para as crianças; e você, querida Liz, virá me ajudar. Eu quero ter uma casa já na próxima semana.

—Então não espere que eu ajude. Se você sair daqui assim tão apressada a estação toda vai pensar que nós brigamos.

—Eles não seriam tão detestáveis, e ninguém poderia brigar com você, sua querida— e quando ela se inclinou para acariciar minha bochecha, vi que estava absolutamente decidida a fazer o que queria.

—Eu tenho metros e metros do mais lindo corte de cretone para almofadas, cadeiras e cortinas— continuou ela, —trouxe de casa, e ainda não fiz nada. Seu Dirzee7 vai me trazer dois homens amanhã. Quando estava cavalgando esta manhã, fui a sala de leilões – John Mahomed, é como chamam o homem – e vi alguns sofás e cadeiras. Vamos até lá esta tarde a caminho do clube, quero dar mais uma olhada. Ouvi dizer que quase todos os bangalôs bons estão ocupados.

—Sim, estão!— respondi, triunfante. —No momento não há nenhum que sirva para você! Eu tenho olhado e pensado muito nisso. Ou eles estão muito perto do rio, ou são muito pequenos, ou insalubres. Depois do Natal, os Watson vão voltar para a Inglaterra e o bangalô deles vai ficar vago. É agradável e grande, e tem um ótimo escritório que seria perfeito para Tom.

Fomos ao John Mahomed naquela tarde, e escolhemos alguns móveis. Netta exibiu seu bom gosto e talento para negócios como sempre. No caminho para o clube, apontei várias casas vazias, e, entre elas, a charmosa morada dos Watsons, e seus jardins tão elogiados, com canteiros de brilhante lucerna verde e a varanda coberta de rosas amarelas.

—Ah, sim,— admitiu ela—é uma residência boa e espaçosa, mas odeio telhados de palha. Quero um com telhas, telhas vermelhas. A cor fica tão bonita entre as árvores.

—Receio que não haja muitos telhados em Kulu.—respondi—Isso vai limitar bastante suas opções.

Por várias manhãs exploramos juntas os bangalôs, e não fiquei muito triste ao descobrir que, aos olhos de Netta, todos eles tinham algum defeito. Eram muito pequenos, muito úmidos, muito perto do rio ou muito abafados. Eu já tinha decidido que a residência dos Watsons (apesar do teto de palha) seria o destino de Netta, quando uma tarde ela entrou apressada, meio sem fôlego e empoeirada, e anunciou, com um movimento selvagem de seu guarda-sol:

—Encontrei!

— Você quer dizer uma casa?—exclamei

—Sim. Que toupeiras nós somos! No final da rua, descendo a próxima curva, na encruzilhada! Bem localizada e apropriada; As pessoas chamam de ‘Bangalô Vermelho’.

—O Bangalô Vermelho— repeti pensativa.

Eu nunca tinha pensado nele. Muitas vezes não vemos o que está bem diante do nosso nariz. Além disso, estava desocupado desde que tínhamos chegado à estação, completamente esquecido como se não existisse! Eu tinha uma vaga lembrança de que ele tinha algum defeito – ou era muito grande, ou muito caro, ou precisava de muitos reparos.

—É estranho que eu nunca tenha mencionado esse.—observei. — Mas não tem inquilino há anos.

—A menos que eu esteja muito enganada, ele terá inquilinos em pouco tempo.—continuou Netta, com sua expressão mais resoluta —Parece que ele estava esperando por nós, que tinha sido reservado.

—Então você já foi até lá?

—Não, não consegui entrar, as portas estão todas trancadas, e não parece ter chokedar8. Andei pelas varandas, e fiz uma estimativa do tamanho e proporções. É um complexo imponente. Há algumas ruínas na parte de trás, misturadas com os restos de um jardim, umas goiabeiras velhas, limoeiros, uma vinha e um poço. Há um ótimo espaço em um dos lados para duas quadras de Badminton, e já estou imaginando um jardim de rosas em frente ao pórtico.

—Como a sua mente viaja rápido!

—Tudo viaja rapidamente hoje em dia. Nós temos que acompanhar o ritmo. Quando eu estava indo embora, conheci uma pessoa venerável, um coolie9, que me informou que John Mahomed tinha as chaves, então eu o despachei para trazê-las imediatamente, e prometi uma rúpia pelo favor. Agora, seja boazinha e vamos tomar um chá antes de começar imediatamente a inspecionar o tesouro que encontrei!

—Eu posso lhe garantir a xícara de chá em cinco minutos,—respondi—mas não estou tão certa sobre o seu tesouro.

—Mas eu estou. Geralmente eu sei que me convém à primeira vista. Só estou com medo do valor do aluguel. Ainda assim, na posição de Tommy, não precisamos nos preocupar com isso. Ele tem que viver em um estilo adequado.

—A casa dos Watsons sempre foi alugada por tenentes. Acredito que atenderia a todos os seus requisitos.

—Muito perto da estrada, e muito perto do General—ela se opôs, com um gesto de impaciência. —Ah, aí vem o chá, finalmente!

Veio, mas antes de ter tempo de engolir minha segunda xícara, me vi arrastada para fora de casa por minha energética prima, a caminho de sua maravilhosa descoberta, o Bangalô Vermelho.

Tínhamos apenas uma curta distância para caminhar, e, apesar de ter passado por ela muitas vezes, olhei para a casa com um interesse crítico pela primeira vez. Em Kulu, por alguma razão inexplicável, aquele bangalô em particular nunca tinha chamado a atenção; foi boicotado – não, essa não é a palavra –foi ignorado, como se, não tivesse lugar nos pensamentos dos habitantes da estação, como se fosse um personagem indesejável. No entanto, sua localização era bastante privilegiada, ficava no encontro de quatro estradas. Duas das entradas sem portão abriam-se para estradas diferentes, como se estivessem determinadas a chamar a atenção do público. Entre os acessos, estava a casa com sua aparência indiferente. Era grande, com telhas vermelhas e construída no formato da letra ‘T’, tinha uma enorme varanda com pilares, que, com algumas altas árvores adjacentes, dava-lhe um ar de austera dignidade.

—O coolie ainda não chegou com as chaves,— disse Neta, —então vou só te levar para dar uma volta e mostrar pessoalmente o potencial da casa. Aqui —tropeçamos em uma grama áspera— é onde eu quero fazer duas quadras de badminton, e este—chegamos aos fundos do bangalô —é o jardim.

Havia canais de água entupidos, feitos de pedra, uns restos de estradinhas, goiabeiras e damascos, uma pérgula de pedra e uma videira morta, e também um poço, decorado com um rendilhado elaborado e montes estranhos e disformes de alguma construção antiga . Ficamos de pé em frente a varanda dos fundos da casa. À nossa direita ficavam sobreiros altos, uma vasta extensão de terreno e a estrada; à nossa esquerda, à distância, mais árvores, um muro alto e, abaixo dele, agrupados, os aposentos dos empregados, a cozinha e uma longa série de estábulos.

Era uma residência bonita e de aspecto imponente, embora os estábulos estivessem quase sem teto e o jardim fosse uma uma selva, entregue a cabras soltas e lagartos mansos.

—Sim, só tenho medo de uma coisa.—exclamou Neta.

—Cobras? —Sugeri. —Parece que tem muitas.

—Não, o aluguel; e aí vem a chave, finalmente—enquanto ela falava, um jovem funcionário gordinho montado em um pequeno cavalo amarelo, veio trotando rapidamente sob a varanda. Era um rapaz falante, vestido com roupas imaculadamente brancas que falava inglês com muita fluência.

—Eu sou um infame. Por favor, perdoem meu atraso. Não consegui escavar a chave; mas finalmente a achei, e agora vou lhes mostrar as instalações imediatamente. Em primeiro lugar, vou abrir portas e janelas e invocar a atmosfera. Senhoras, com sua licença.

Deixando seu manso corcel solto, o baboo10 correu para os fundos da casa. Logo ouvimos o ranger de fechaduras, o bater de venezianas e o rilhar de ferrolhos. Então a porta foi escancarada e entramos, indo, como de costume, direto para a sala de visitas; uma sala bonita, arejada, semicircular, duas vezes maior e mais bem proporcionada que a minha. A sala conduzia a uma sala de jantar igualmente excelente. Vi Neta medindo tudo com os olhos, até que disse:

—Pode-se acomodar facilmente trinta pessoas aqui, e que lugar para uma árvore de Natal!

Ao lado da sala de jantar havia um imenso dormitório que dava diretamente para a varanda dos fundos, com um lance de escadas de degraus estreitos que levava para o jardim.

—O quarto das crianças!—ela sussurrou—Maravilhoso!

Haviam mais dois quartos, um de cada lado, com banheiros e quartos de vestir completos. Sem dúvida, era uma casa extremamente confortável e bem planejada.

Quando nos encontramos novamente no quarto das crianças, com todas as largas portas abertas, dava para ver através do bangalô até a varanda, já que os três grandes quartos eram em suíte.

—O vento passa direto, viu?! —disse ela. —Vao ficar tão fresco quando fizer calor.

Depois voltamos para a sala, onde percebi que Netta já arrumava os móveis em sua imaginação. Por fim, ela se virou para o baboo e perguntou:

—E quanto é o aluguel?’

Após um momento de hesitação palpável, ele respondeu:

—Noventa rúpias por mês. Se tiver a intenção de ficar por algum tempo, tudo será consertado e reformado.

Noventa!Repeti mentalmente – e nós pagávamos cento e quarenta!

— Pertence a John Mahomed? —perguntei

—Não, é de um cliente.

—Ele mora por aqui?

—Não, mora longe, em outra região; nunca o vimos.

—Quanto tempo faz desde que a casa foi desocupada?

—Ah, um bom tempo.

—Alguns anos?

—Talvez. — ele acenou com a cabeça.

—Por que ficou vazio? Não está habitável? —perguntou Neta.

—Ah, não, não. Acho que é muito majestoso, muito gigantesco para pessoas insignificantes. Elas preferem algo menor, mais aconchegante. Aqui não é assim, é mais adequado para pessoas como uma dama do estado-maior do general —e ele se curvou para Netta.

Creio que, secretamente, ela compartilhava da opinião dele, pois já havia assumido ares de dona da casa e disse energicamente:

—Agora quero ver a cozinha e os aposentos dos empregados.

E, pegando suas delicadas saias, ela foi na frente passando pelas pedras soltas e a grama dura e amarelada. Como tenho uma antipatia enraizada por lugares escuros e desabitados, que possam ser refúgio de cobras e escorpiões, não a acompanhei. Deixei o baboo continuar seu trabalho, e voltei para dentro da casa sozinha.

Passeei pela sala de estar, pela sala de jantar, pelo quarto das crianças e, enquanto observava a longa sequencia de quartos e o sol se derramava pela varanda de um lado, e na folhagem verde e na terra amarela e seca do jardim do outro, tive que admitir para mim mesma que Netta era um milagre!

Ela, uma recém-chegada, havia encontrado esta residência excelente e adequada; e por uma pechincha. Mas ela sempre foi boa em encontrar pechinchas; descobri-las era seu métier!

Enquanto eu refletia, olhando distraidamente para a luz do sol lá fora, uma nuvem escura e misteriosa pareceu cair sobre o lugar. O sol foi subitamente obscurecido e veio uma rajada de vento forte do pórtico que gradualmente ganhou força, transformando-se em um longo gemido, certamente o lamento de alguma alma perdida! O que poderia ter colocado uma ideia tão horrível na minha cabeça? Mas o gemido soou em meus ouvidos com uma nitidez tão penetrante que tremi da cabeça aos pés. Em um segundo, a voz, por assim dizer, passou pelo jardim e foi sufocada entre as árvores de tamarindo em um queixume agonizante. Eu saí de meu estado de medo paralizado, e me esforcei para invocar meu bom senso e autocontrole. Aqui estava eu, uma escocesa de meia-idade, parada neste bangalô vazio, agarrada na minha sombrinha, imaginando horrores!

Tinha que guardar esses pensamentos exclusivamente para mim, para não me tornar motivo de chacota em uma estação onde todos tinham um aguçado senso do ridículo.

Sim, eu era apenas uma boba com muita imaginação, mas corri para a varanda e saí para o ar livre, levando comigo uma desconfiança secreta mas inabalável a respeito do Bangalô Vermelho. Essa antipatia não era compartilhada por Netta, que vinha voltando de sua investigação, toda animada e satisfeita.

—Os estábulos precisam de reparos, e algumas das áreas de armazenamento também. E toda a casa tem que ser pintada por dentro e acarpetada. Vou trazer meu marido amanhã de manhã—anunciou, dispensando o baboo. — Estaremos aqui às oito em ponto.

Com isso eu e o baboo soubemos o Bangalô Vermelho fora finalmente alugado!

—Então, o que acha? —Netta perguntou, triunfante, enquanto caminhávamos de volta para casa juntas.

—É uma casa espaçosa,— admiti —mas não tem um escritório para o Tom.

—Ora, ele tem o Gabinete da Brigada. Mais alguma objeção?

—Um bangalô que ficou tanto tempo vazio, totalmente esquecido, deve ter algum problema. E não é o aluguel.

—Está habitável.— ela argumentou. —Está em um terreno alto, mais alto do que o seu bangalô, não tem água por perto e as árvores estão em uma boa distância. Estou vendo que você não gostou. Mas pode me dar um bom motivo?

—Bem que gostaria. Não, eu não gosto dele- há algo ali que me repele. Você sabe que sou das terras altas da Escócia11, sou sensível a impressões.

—Minha querida Liz,— e aqui ela parou—não está querendo me dizer que você acha que é assombrado? Ora, estamos no século vinte!

—Eu não disse que era mal-assombrado,—não ousei expressar meus medos—mas lhe digo que não gostei, e preferiria que você esperasse pelo menos mais alguns dias. Vou levá-la para ver o bangalô dos Watsons. É tão ensolarado, tão confortável, e sempre tão alegre. Tem um lindo jardim e um escritório para o Tom.

—Não tenho certeza se isso é uma vantagem! —ela exclamou com um sorriso.— Nem sempre é agradável ter um homem em casa durante vinte e quatro das vinte e quatro horas do dia!

—Mas os Watsons…

—Minha querida Liz, se você disser mais uma palavra sobre o bangalô dos Watsons, ficarei emburrada e vou direto para a cama!

Nem é preciso dizer que Tom ficou encantado com o bangalô escolhido por sua esposinha sempre tão esperta, e na semana seguinte, minha própria residência virou um balneário de alfaiates, ambulantes, açougueiros, leiteiros, fabricantes de móveis, vendedores de cavalos e vacas e uma tropa de criados tentando encontrar lugar.

Todos os dias, Netta ia até o bangalô para inspecionar e dar instruções, ver como os mallees12 estavam planejando o jardim e as quadras de badminton, e supervisionar as pessoas instalavam os carpetes e os pintores avançavam na parte de dentro

A quantidade de mãos tornou o trabalho fácil, em uma semana, a transformação do Bangalô Vermelho era surpreendente. Em quinze dias estava completo; os estábulos foram ocupados novamente, assim como os novos aposentos dos criados. As Quadras de badminton estavam prontas para serem usadas, a varanda e o alpendre ficaram alegres com palmeiras, plantas e papagaios, e a sala de visitas era admirada por todos em Kulu. Netta colocou plantas em vasos- revestidos com seda pongee!- para impressionar as senhoras da estação; as almofadas do sofá eram repletas de babados, ela tinha muitas fotos e quadros bonitos, badulaques de prata e tapetes coloridos.

Mas antes que Netta colocasse a costumeira placa com a identificação – ‘Major Fellowes, AQMG13 – nos pilares do portão do Bangalô Vermelho, surgiram sinais de objeção e protesto. Minha ayah, uma anciã de Madras, que estava há muito tempo a meu serviço, arriscou-se um dia, enquanto segurava meu cabelo em sua mão:

—Aquela patroa nova vai ficar no velho bangalô vermelho?

—Sim .

—Minha patroa diz pra ela, por favor, é lugar horrível, ah, muito ruim! Tem ninguém lá faz anos.

—E por quê?

—Eu não sei, só uma palavra – ruim. Oh, minha senhora! A senhora fala, não pode essas criancinhas linda ir pra lá!

—Mas outras pessoas já viveram lá, Mary …

—Elas nunca se demora lá, é o que as pessoas diz. O homem da casa pinta o bangalô todo tão bonito, que nem agora, faz bom negócio, tão satisfeito. E aí um dia eles vão embora, vão embora, e nunca mais volta. Por favor, por favor— e ela se abaixou e beijou minha mão—fala com aquele senhor, diz pra ele, do bangalô ruim.

É claro que eu minimizei o assunto para Mary, que até chorou, a criatura tão boa e gentil, enquanto penteava meu cabelo, tanto que tinha que enxugar constantemente os olhos em seu saree.

Sabendo seria inútil conversar com Tom, mais uma vez ataquei Netta. Eu lhe disse:

—Netta, tenho certeza de que você me acha uma imbecil supersticiosa e ignorante, mas eu acredito em pressentimentos. E tenho um pressentimento, querida, sobre aquele bangalô. Desista dele para me agradar e, sim, para me acalmar.

—O quê?! Meu belo achado, a melhor casa em Kulu, minha barganha?

—Essa barganha pode lhe sair cara, minha querida!

—Nem mesmo para agradá-la, querida Liz, posso romper meu acordo, e eu estou realmente apaixonada por esta casa que você detesta tanto. Eu sinto muito, muito mesmo.— ela veio e me acarinhou.

Eu me pergunto se Netta, em seu íntimo, achava que eu, a esposa de um Coronel, poderia estar com inveja da recém-chegada que tinha garantido uma morada muito mais impressionante que a minha, e que por essa razão eu estaria tentando persuadi-la a desistir.

No entanto, ela deve ter abandonado essa ideia graças à senhora a quem estávamos visitando, que disse:

—Oh, Sra. Fellowes, já tem uma casa ou vai esperar pelos Watsons? A deles é tão…

—Eu já resolvi. —interrompeu Netta. —Encontramos uma casa perfeita, não muito longe da casa de minha prima, também. Um lugar ótimo: espaçoso, alegre, com um terreno enorme. Já estamos fazendo o jardim.

—Espaçoso, com um terreno grande; perto da Sra. Drummond.— a dama repetiu, com o senho franzido. —Não…Oh, certamente não está falando do Bangalô Vermelho?

—Sim, esse é o seu nome. Estou encantada com ele, foi uma sorte encontrá-lo.

—Não há nenhuma dificuldade em encontrá-lo, querida Sra. Fellowes, mas acredito que a

dificuldade está em permanecer lá.

—Está querendo dizer que é assombrado? —perguntou Netta com um arzinho de superioridade.

—Algo assim. Os nativos o chamam de “a casa do diabo”. Uma tragédia terrível aconteceu lá há muito tempo, há tanto tempo que já foi esquecida; mas você vai ver que é quase impossível encontrar empregados para trabalhar lá.

—A senhora certamente é muito negativa, mas eu espero que algum dia venha jantar conosco, e ver como estamos confortáveis!

Havia uma nota de desafio neste convite, e não precisei de uma percepção muito aguçada para ver que a Sra. Dodd e a Sra. Fellowes dificilmente seriam amigas íntimas.

Este não foi o único aviso.

No clube, uma moradora muito antiga, esposa de um funcionário do governo, e que morava em Kulu havia vinte anos, veio sentar-se perto de mim uma certa manhã com o ar de quem pretendia cumprir um dever desagradável.

—Tem que ache que sou enxerida, a Sra. Drummond, mas eu sinto que devo falar. Sabia que a casa que sua prima alugou é considerada agourenta? Os últimos moradores só ficaram um mês, embora tenham alugado por quase nada, uma ninharia.

—Sim, eu já ouvi falar de lugares assim, e li sobre eles, também—respondi—mas geralmente o que acontece é que alguém tem interesse em mantê-los desocupados; possivelmente os nativos que vivem lá.

—Em qualquer outro lugar, menos ali! —exclamou ela. —Ninguém chega perto daquela casa depois que cai a noite, nem mesmo o chokedar.

— O que houve? Qual é a história?

—Algo ligado com aqueles velhos montes de tijolos e o poço. Acho que havia um palácio ou um templo ali há milhares de anos, quando Kulu era uma grande cidade. Tente dissuadir sua prima de ir para lá; ela vai perceber seu erro mais cedo ou mais tarde. Espero que não me ache muito intrometida, mas ela é jovem e feliz, e tem dois filhos tão queridos, especialmente o menino.

Sim, especialmente o menino! Eu adorava o Guy e meu marido, também. Tínhamos comprado um pônei e um macaquinho para ele, e ficamos muito felizes em cuidar dele e de Baba por alguns dias quando seus pais davam aquele passo tão importante e faziam a mudança para o Bangalô Vermelho. Em pouco tempo tudo estava encaminhado; o grande cômodo dos fundos virou um adorável quarto infantil, as crianças também eram donas da varanda dos fundos e do jardim, e logo estavam completamente e felizes em casa.

Uma casa em silêncio, com portas fechadas, sem o som de vozes e passos fica completamente diferente quando é habitada. Eu mal podia reconhecer a nova casa de Netta. Ela era o centro de metade das alegrias da estação – jogos de badminton duas vezes por semana, jantares, ‘Chotah Hazra14 reuniões na grande varanda, e ensaios para uma próxima peça; o tamborilar de pezinhos infantis, servos, cavalos, vacas, cabras, cães, papagaios, tudo contribuía com a vivacidade e animação. Eu ia ao Bangalô quase diariamente. Jantava, tomava café da manhã e chá da tarde, e nunca vi nada além do normal e comum, mas não conseguia deixar de lado meu primeiro instinto, minha apreensão e aversão secretas. O Natal passou e as festas, jantares e chás ficaram nas memórias do passado. Estávamos bem avançados no mês de fevereiro, quando Netta, a triunfante, suspirou sua primeira reclamação. Os empregados, excelentes empregados confiáveis e de bom caráter, chegavam, ficavam uma semana, talvez duas, e então vinham até ela e diziam: ‘Por favor, vou embora!’

Nenhum deles ficava na propriedade à noite, exceto os cuidadores dos cavalos e o assistente do marido. Se retiravam para alojamentos mais agradáveis em um mercado adjacente. O mais enlouquecedor era que eles não davam nem nome nem forma definidos aos seus medos, apenas falavam de uma ‘Coisa’ , algo temível que habitava dentro e ao redor do Bangalô.

Apenas a ayah das crianças, uma mulher de Madras, permaneceu leal e firme. Ela ria das histórias do mercado e daqueles que as contavam; e, como seu marido era o cozinheiro, Netta não dependia da tripulação de covardes que fugiam toda a noite .

De repente, a ayah, aquele tesouro, adoeceu com a febre virulenta que ocasionalmente ataca os nativos do país, e parece sugar suas vidas. Como os aposentos dos meus criados eram mais confortáveis – e eu sou enfermeira – trouxe a doente para minha casa, e Netta promoveu sua substituta, uma local, temporária. Era uma criatura tagarela, alegre e inconveniente, que eu nunca aprovei, mas Netta não ouvia nenhum conselho, fosse com relação a medicamentos, servos ou bangalôs. Sua escolha no último quesito tinha, sem dúvida, ido bem, e ela, triunfante, gabava-se para mim de que nunca dera a ninguém o poder de dizer: ‘Viu, eu avisei!’.

Chegou o aniversário de Baba, que fazia dois anos. Ela era ma criança bonita e saudável, mas atrasada para sua idade: além de ‘papa’, ‘mama’, e ‘Ayah’, não sabia dizer uma palavra. No entanto, Tom displicentemente comentava que “ela logo vai compensar, aos poucos”.

Era meio-dia, depois de uma manhã muito quente, quando peguei minha sombrinha e meu chapéu e fui a ajudar Netta com os preparativos para a tarde. O principal entretenimento seria uma brincadeira de “torta de farelo de aveia”15.

Ao chegar, encontrei minha prima trabalhando duro. Na varanda, uma grande banheira cheia de farelo de aveia havia sido colocada sobre uma mesa. Ela estava decorando a banheira com elegantes faixas de tecido calicô rosa brilhante, usando um martelo e pregos, enquanto eu cavava o farelo, e enterrava bonecas, miniaturas gatos e cavalos, e todo tipo de surpresas divertidas. Estávamos fazendo uma bagunça terrível e um barulho considerável, quando de repente por cima do barulho do martelo, ouvi um grito cortante.

—Escute!— eu disse.

—Oh, Baba acordou. A danadinha vai incomodar o irmão—respondeu a mãe, pegando mais um prego. —A ayah está lá. Não vá.

—Mas foi um som tão estranho, tão bizarro.—protestei.

—Querida Liz! Como está nervosa! Os gritos de Baba parecem uma mistura de apito de trem com uma sirene de neblina Ela tem uma capacidade pulmonar anormal, e a cada dia está mais inquieta com aniversário e incomodada com os dentinhos. Seu medo…

Ela parou de falar abruptamente quando um grito, um berro alto e frenético, de terror mortal, extremo, abafou o som de sua voz. Jogando o martelo para longe, Netta correu até a sala, derrubando as cadeiras ao atravessá-la até entrar como uma fúria no quarto das crianças, de onde vinham os gritos terríveis.

Lá, encontramos as crianças abraçadas em cima da mesa que ficava no meio do cômodo. Guy tinha, evidentemente, subido por uma cadeira, e levado a irmã consigo. Era uma bela tarde, a luz do sol caáa sobre eles, iluminando o quarto que, até onde podíamos ver, estava vazio. Sim, mas não estava vazio para as pequenas criaturas trêmulas sobre a mesa. Com olhos arregalados e enlouquecidos eles pareciam seguir o movimento de algo que rastejava ao redor da sala, junto da parede. Notei que o olhar dos dois subia e descia, como se acompanhassem um movimento com pupilas dilatadas e respiração ofegante.

—Oh! O que é, meu querido?— implorou Netta, pegando Guy no colo, enquanto eu arrebatei Baba.

Ele esticou-se rigidamente em seus braços, e, apontou com um dedo trêmulo para um certo ponto, arfando:

—Oh, mamãe! Olha, olha, olha!— e com essa última palavra, que foi mais um grito de horror, ele entrou em convulsões violentas.

Por mais que procurássemos, não conseguíamos ver nada além dos tapetes e das parede nuas. Até hoje não descobrimos que coisa tão terrível que se tornara visível aos olhos daquelas crianças inocentes.

O pequeno Guy, apesar dos esforços sobre-humanos dos empregados para salvá-lo, morreu, presa de uma febre cerebral, delirando até seus últimos momentos; as únicas palavras que pudemos distinguir em meio a seus delírios foram: ‘Olha, olha, olha! Oh, mamãe! Olha, olha, olha!” . Quanto a Baba, o que quer que ela tenha visto, a resposta ficará trancada dentro de seus lábios, pois ela permanece muda até hoje.

A ayah não tinha nada a revelar; ela só conseguia bater a cabeça no chão e chorar, jurando que só tinha deixado as crianças sozinhas por um momento para ir falar com o leiteiro. Mas outros criados entregaram que a ayah estava fofocando na cozinha por mais de meia hora. A única criatura viva que estava com as crianças quando “aquilo” tinha aparecido era o macaquinho de estimação de Guy, que foi encontrado debaixo da mesa, morto.

No começo eu fiquei com medo de que com o choque da morte de Guy, a pobre Netta perdesse a sanidade. Claro que a família veio ficar conosco, naquela mesma tarde terrível, deixando para trás a festa de aniversário toda decorada, a banheira cheia de farelo na varanda, aa partituras de música no piano. Nunca se vira antes uma correria tão louca, uma tal catástrofe doméstica. Nós nos esforçamos para esconder a misteriosa tragédia. O pequeno Guy tinha febre cerebral, era natural que at família ficasse unida na adversidade. Declarei que eu, sendo enfermeira, tinha levado a criança para minha casa, e toda a família tinha acompanhado.

As pessoas falavam que tinha sido “um golpe de insolação”, mas creio que algo da verdade tenha vazado no mercado – onde todos sabem de tudo. Pouco depois da morte do pequeno Guy, Netta levou Baba de volta para o Reino Unido, declarando que nunca, nunca mais voltaria para a Índia. Tom solicitou, e obteve, uma transferência para outra estação. Ele vendeu os móveis da casa, os belos badulaques, os quadros, tudo o que tinha tornado a casa de Netta tão bela, pois ela não podia suportar olhar para eles. Aqueles objetos que tinham estado naquela casa.

Quanto ao Bangalô Vermelho, ele está fechado e silencioso novamente. Os esquilos e os pássaros compartilham o jardim, os estábulos estão entregues aos escorpiões e a casa às formigas. Qualquer um que procure John Mahomed com interesse em se tornar seu inquilino, certamente descobrirá que o bangalô ainda está disponível em troca de uma ninharia.

Notas:

1 Kulu: município do distrito de Kulu, no estado de Himachal Pradesh no norte da índia. Kulu era um centro administrativo das autoridades coloniais britânicas.

2 Bangalô: Em inglês “bungalow“, tipo de casa de um único andar, varandas e janelas largas. Seu nome vem do gujarati bangalo, que significa “begali” isto é originário da região de Bengala, entre Índia e Bangladesh. Durante o período colonial, oficiais britânicos residentes na Índia geralmente viviam em bangalôs com suas famílias, essas residências eram chamadas de dak bungalows. (o termo “dak“, se refere ao serviço colonial de correios, cujos funcionários foram o primeiro a utilizar os bangalôs)

3 Estação: Station. Termo colonial usado para se referir a áreas ou bairros nos quais oficiais do exército e da administração colonial britânica viviam com suas famílias.

4 John Company: apelido dado informalmente à Companhia Britânica das Índias Orientais

5 Gazette: Jornal da administração colonial, no qual os eventos diários eram informados

6 Ayah: empregadas de origem indiana cuja função era cuidar de crianças ou servir como criada pessoal da senhora da casa.

7 Dirzee: alfaiate

8 Chokedar: empregado responsável por cuidar de uma propriedade, um cargo parecido com o de segurança ou caseiro.

9 Coolie: Trabalhador que carrega fardos e leva encomendas e recados.

10 Baboo: ou babu, o termo que indica respeito, mais ou menos similar ao nosso “Sr.” , usado em referência a indianos que tinham nível universitário e trabalhavam em cargos administrativos.

11 Terras Altas da Escócia: Região conhecida como Highlands. O folclore britânico diz que as pessoas nascidas nas Highlands (chamadas de Highlanders) tem uma tendência a ter o Second Sight (Segunda Visão), isto é uma propensão maior para ver coisas sobrenaturais.

12 Mallees: Jardineiros

13 AQMG- Assistant Quarter Master-General: Contramestre-Geral Assistente.

14 Chotah Hazra: refeição servida pela manhã em quartéis ou residências britânicas na Índia.

15 Torta de farelo de aveia: no original “bran pie”. Uma brincadeira comum em festas. Enchia-se uma tina ou banheira com farelo de aveia e nela se escondiam brindes para se encontrados.

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