Aventura, crime e horror: O mundo dos infames Penny Serials Vitorianos. [Parte 2: Justiceiros, assassinos, mascarados e vampiros. ]

Saudações, leitor norturno!

No artigo de hoje vamos dar outro passeio pelo mundo dos Penny Serials (você pode ler a primeira parte do especial AQUI). Agora que nós já sabemos o que eles são, e como foram importantes na cultura popular do Reino Unido do século XIX, sem falar da sua influência na nossa “pop culture”, está na hora conhecer alguns dos personagens e histórias que melhor representam esse gênero literário. Os Penny Serials foram populares por várias décadas ecada editora publicava um número enorme de títulos, muitos dos quais continuavam por anos, e às vezes até inspiravam continuações e “spin offs”, meio como nossas séries de TV, filmes e quadrinhos, então isso é difícil compilar uma lista completa. Mas alguns Penny Serials e seus personagens se tornaram tão populares que acabaram até extrapolando os confins de suas publicações originais e inspirando outras mídias, como teatro, cinema, quadrinhos e musicais. São algumas dessas histórias e personagens que vamos conhecer na parte 2 do nosso especial sobre os Penny Serials vitorianos.

O submundo Londrino em “The Mysteries of London” (“Os Mistérios de Londres”)

Primeira página da primeira edição de “Os Mistérios de Londres” (fonte: wikicommons)

O Penny Blood (veja a diferença entre Penny Blood e Penny Serial na parte 1 do especial) “The Mysteries of London” ou “Os Mistérios de Londres” é considerado por muitos estudiosos como o penny serial de maior sucesso da história do gênero. O estudioso Louis James vai até mais longe e afirma que “foi, quase certamente, a obra de ficção mais lida na Grã-Bretanha de meados do século XIX, atraindo mais leitores que os romances de Dickens, Bulwer-Lytton ou Trollope”. Segundo estimativas, “Os Mistérios de Londres” chegou a vender 50.000 cópias por semana. A série original escrita por George W. M. Reynolds, foi publicada em 52 volumes semanais ilustrados, cada um com oito páginas de duas colunas cada de 1844 a 1846.

Escritor, jornalista, reformador político e socialista, Reynolds tirou inspiração para escrever “Os Mistérios de Londres” da obra do francês Eugène Sue. Durante uma viagem a Paris, Reynolds leu “Les Mystères de Paris” (“Os Mistérios de Paris” ) de Sue e ficou impressionado com a obra. Sue escreveu um romance no qual várias histórias se entrelaçavam em uma exploração do submundo da capital francesa, com um forte elemento de crítica social. Reynolds resolveu fazer algo parecido, mas explorando a vida de Londres, desde a violência e a pobreza das ruas até a corrupção da aristocracia. Assim como Eugène Sue, Reynolds usava sua narrativa como veículo para sua crítica em relação à desigualdade social.

Devido a desentendimentos com os editores, Reynolds abandonou a obra, e “Os Mistérios de Londres” continuou por mais uma década no mesmo formato, mas com outros escritores. A terceira série foi escrita por Thomas Miller, e a quarta por Edward L.Blanchard. A obra perdeu muito de seu aspecto de crítica social com a saída de Reynolds, mudando seu enfoque para as narrativas mais sensacionalistas de crimes e violência, mas não perdeu nada em termos de popularidade.

É difícil fazer um resumo de “Os Mistérios de Londres”, pois além de ser um texto bem longo, há várias narrativas que se entrelaçam, cada uma delas com seus personagens específicos, mais ou menos como os vários núcleos de uma novela. Os heróis da série, ou o mais próximo disso que a narrativa nos oferece, são os jovens Richard Markham e Eliza Sydney, que precisam usar de sua esperteza para sobreviver no submundo cheio de crime e vício de Londres. Outros personagens incluem George Montague, um misterioso libertino que se torna um dos homens mais ricos da cidade sem que ninguém saiba de onde vem sua fortuna, Ellen Monroe, uma jovem pobre, forçada a se vender para sustentar o pai doente, e finalmente o real vilão da história: o assassino e ladrão de cadáveres “Ressurection Man”, um serial killer antes mesmo de o termo ser inventado.

Sweeney Todd, o barbeiro demoníaco de “The String of Pearls: A Domestic Romance” (“O colar de pérolas:Um Romance Doméstico”)

Sweeney Todd e uma de suas vítimas, ilustração original (fonte: The British Library)

Se “Os Mistérios de Londres” foi o penny serial de maior sucesso durante a sua publicação, podemos dizer que “A String of Pearls” ou “O Colar de Pérolas” é o mais conhecido do público atual. Afinal, que outro penny serial inspirou peças de teatro, musicais e um filme de Tim Burton? Porém, é um pouco complicado dizer que essas são adaptações do texto original, pois tanto o musical quanto o filme não se propõem como adaptações do penny serial, mas sim como releituras de seu personagem mais célebre: o barbeiro assassino Sweeney Todd.

“O Colar de Pérolas” foi publicado semanalmente totalizando em 18 volumes, de 1846 a 1847. Uma versão em livro, expandida e com um final diferente, foi publicada em 1850. Sua autoria já foi atribuída à Thomas Peckett Prest, à Malcolm Rymer e outros, mas nunca foi determinada de forma conclusiva. Como não se sabe quem é o autor, é difícil saber de onde veio a inspiração para a história e, principalmente para o seu personagem mais famoso.

Ao longo da história europeia, a profissão de cirurgião-barbeiro era extremamente comum, pois boa parte da população não tinha acesso a cuidados médicos, e a própria profissão médica nem sempre estava bem estabelecida. Barbeiros tinham os instrumentos (lâminas, navalhas) e um certo nível de habilidade técnica, geralmente passada de um profissional ao seus aprendizes, o que fazia com que se recorresse a esses profissionais para a realização de cirurgias. Não seria difícil criar um personagem como Sweeney Todd, já que o barbeiro com acesso a lâminas “cirúrgicas” e pacientes vulneráveis era uma realidade quotidiana.

Uma provável inspiração para Sweeney Todd pode ter vindo da França: Joseph Fourché, chefe de polícia de Paris de 1799 a 1815, teria feito registros de assassinatos cometidos por um barbeiro que, com a ajuda de um vizinho padeiro, teria transformado as vítimas em tortas. Porém é quase certo que a história foi inventada, ou pelo menos exagerada por uma revista Londrina, que publicou um artigo sobre o caso mais de dez anos depois de sua suposta ocorrência (franceses e ingleses tinham uma rivalidade histórica, e depois da Revolução Francesa, histórias que mostravam o povo francês como monstros violentos eram bem populares na Inglaterra). Uma segunda inspiração pode ter vindo do Newgate Calendar: o nome “Sweeney Todd” é mencionado em uma lista de criminosos, mas detalhes sobre seu crime, julgamento e execução não estão disponíveis. É provável que o autor de “O Colar de Pérolas” tenha apenas juntado um nome aleatório do Newgate Calendar com a história do barbeiro assassino de Paris.

Mas como já dissemos, a história de “O Colar de Pérolas” não é só sobre Sweeney Todd, ainda que muitas adaptações tenham mudanças bem grandes no original para dar a ele um maior protagonismo, por vezes à custa dos demais personagens.

A história se passa em Londres, no século XVIII. A intriga é deflagrada pelo desaparecimento de um tenente da marinha chamado Thornhill. Ele é visto pela última vez entrando na Barbearia de Sweeney Todd, levando consigo um colar de pérolas que pretendia entregar para uma jovem chamada Johanna Oakley, em nome do noivo dela, Mark Ingestrie, um marinheiro que desapareceu no mar. Tanto Johanna quanto o Coronel Jeffrey, um amigo e colega de marinha de Thornhill, desconfiam do envolvimento de Sweeney Todd no desaparecimento do tenente. Johanna deseja saber o que realmente aconteceu com o noivo, Mark, e acredita que o desaparecimento de Thornhill pode oferecer alguma pista. Para investigar, Johanna se disfarça de rapaz e consegue um emprego na barbearia como assistente, depois que empregado anterior, Tobias Rigg, foi mandado para um manicômio por acusar Todd de assassinato. Claro que Tobias estava certo: Todd realmente é um assassino, e conta com a ajuda da Sra Lovett e seu forno de assar tortas para se livrar dos corpos.

O vampiro antes de Drácula: “Varney, the Vampire” (“Varney, o vampiro”)

Capa da edição original (fonte: wikicommons)

Desde sua publicação, o padrão de ouro pelo qual as audiências tendem a julgar uma história de vampiro foi e continua a ser o Drácula de Bram Stoker, escrito em 1897. Mesmo os livros, quadrinhos, filmes e séries que tentam subverter o gênero vampiresco continuam, em grande medida, fazendo referências ao clássico do escritor irlandês. Mas a verdade é que muitos dos elementos tradicionalmente associados com o vampiro literário (que é bem diferente do vampiro folclórico!) já existiam antes da publicação de Drácula. A figura do vampiro existe pelo menos desde a Grécia antiga, e o folclore de diversas culturas europeias tem alguma lenda com características vampirescas, como o Varcolak da Romênia, o Vurdalak na Rússia, a Vampyr da Sérvia e Bósnia e o Vrikolakas da Grécia. Porém, o primeiro vampiro literário nos moldes a que estamos acostumados, isto é o aristocrata carismático e sedutor, aparece em 1819 com o “O Vampiro” de John Polidori. Outros aspectos do vampiro, como os hábitos noturnos e a capacidade de se transformar vem de “Carmilla”, de Sheridan Lefanu, publicado em 1872. No entanto, alguns elementos da figura literária do vampiro apareceram primeiro em “Varney, o vampiro”.

A autoria de “Varney, o Vampiro” já foi atribuida a James Rymer e Thomas Pecket Prest (sim, os mesmos que podem ter escrito “O Colar de Pérolas”, já deu para perceber que a questão da autoria dos penny serials era meio confusa, especialmente pelo uso de pseudônimos), mas sabemos que o autor, quem quer que tenha sido, recebeu seu pagamento por linha escrita. Talvez por isso “Varney, o vampiro” seja uma obra tão monumental em termos de tamanho: publicada entre 1845 e 1847, a versão original conta com 876 páginas (de duas colunas cada!), 232 capítulos e mais de 500 mil palavras.

Segundo especialistas como Jon Asbjorn, “Varney” foi uma grande influência na ficção vampiresca. Varney é um vampiro de origem aristocrática como o vampiro de Polidori, mas é o primeiro a ter longos caninos que usa para morder o pescoço de suas vítimas, a entrar por uma janela para atacar uma bela jovem adormecida (uma cena clássica tanto nos livros quando nos filmes), e a ter poderes sobre-humanos como hipnose e grande força física. Varney também é o primeiro exemplo de um vampiro trágico, que desperta, até certo ponto, a simpatia do leitor: ele sofre com sua condição, que ele encara como uma maldição, mas incapaz se libertar dela. Ao longo da narrativa, o sofrimento de Varney vai ganhando contornos mais nítidos e influenciando suas ações a medida em que ele se rebela e “desconta” em suas vítimas. O vampiro sofrido, que não consegue se livrar de sua maldição e sucumbe aos seus “instintos” vampíricos já é até um cliché para o público contemporâneo, e aparece em várias obras, sendo a mais famosa delas, provavelmente, “Entrevista com o Vampiro”.

Mas não é porque uma obra é pioneira que ela é necessariamente perfeita. “Varney, o vampiro” sofre de vários “problemas técnicos”, talvez devido à sua longa duração. A ação se passa em vários lugares, entre os quais as cidades inglesas de Londres, Winchester e Bath, e as cidades italianas de Nápoles e Veneza, presumidamente no início do século XVIII, apesar de haver várias incongruências históricas que dificultam a identificação do período. O enredo principal relata o relacionamento tumultuado entre Sir Francis Varney e os Bannerworth, uma família aristocrática cuja fortuna foi perdida por seu falecido patriarca. A princípio parece que os problemas criados por Varney tem a ver com seu interesse nas propriedades que os herdeiros dos Bannerworth ainda detém, mas ao longo da história suas motivações vão ficando mais confusas e misteriosas. Várias linhas narrativas em potencial são abertas, como por exemplo a semelhança física entre Varney e um ancestral do Bannerworth, mas a narrativa acaba deixando diversas pontas soltas. Conforme a história se estica, Varney é derrotado e morre várias vezes, sempre voltando e abrindo a possibilidade de numerosas explicações possíveis para a natureza de sua origem.

Dick Turpin, de bandido real a herói em “Black Bess, or The Knight of the Road” (“Black Bess, ou o Cavaleiro das Estradas”)

Capa de uma edição original (fonte: The British Library)

Enquanto alguns penny serials eram inspirado em lendas urbanas, figuras folclóricas ou outras obras literárias, algumas eram inspiradas em fatos reais. É o caso de “Black Bess, or The Knight of the Road”, isto é,“Black Bess, ou o Cavaleiro das Estradas”, um dos vários penny serials inspirados no bandoleiro Dick Turpin.

Richard “Dick” Turpin é uma figura folclórica tão famosa na Inglaterra, que é fácil achar que ele não existiu, mas sua carreira de fora-da-lei está bem documentada. Acredita-se que ele era filho de um açougueiro e teria aprendido o ofício do pai antes se juntar a um bando de ladrões de caça na década de 1730. Ladrões de caça e caçadores ilegais eram comuns no século XVIII devido às legislações que limitavam a caça para o povo, dando ao aristocratas a preferência para caça em várias extensões de bosques intocados. Dick Turpin, provavelmente começou a roubar caça apenas tentando sobreviver e foi avançando para outras atividades ilegais como invasão de residências, roubo de cavalos, assalto à veículos pelas entradas do interior até chegar a assassinato. Há vários documentos que confirmam os crimes cometidos por Turpin em várias localidades, conforme ele viajava pelas estradas roubando qualquer carruagem ou veículo que encontrasse, mas foi a morte de outro bandoleiro, Matthew King, que acabou levando suas “aventuras” ao fim. Em 1737, Turpin estava trabalhando com dois irmãos, Matthew e John King. O trio cometeu vários assaltos até se envolver em um roubo de cavalo que resultou em um tiroteio no qual Matthew King foi morto. O dono do cavalo roubado, Richard Bayes, (que mais tarde escreveria uma biografia de Turpin) acusou Turpin de ter matado o próprio parceiro (provavelmente para se eximir da culpa), e o bandoleiro fugiu. Durante a fuga ele matou um homem chamado Thomas Morris que o reconheceu, e teve que mudar de identidade, passando a se apresentar como John Palmer, continuando a roubar cavalos, até finalmente ser preso e condenado a morte, não pelo assassinato de Morris, ou mesmo de King, mas por roubo de cavalos, um crime cuja pena era execução na época.

Muitos dos eventos da vida de Turpin serviam perfeitamente para romantizá-lo como um anti-herói injustiçado: o começo da vida de crimes, caçando ilegalmente para sobreviver, e o fato de não ter se envolvido em assassinatos até ser falsamente acusado pela morte de um companheiro, o que teria levado a matar Morris, e sua execução não por assassinato mas por roubo de cavalos, tudo contribuiu para transformá-lo em uma espécie de figura folclórica. Várias histórias circulavam a respeito dele, até que escritor William Harrisson Ainsworth transformou Dick Turpin em um dos personagens secundários do romance ‘Rookwood‘, fazendo com que o público começasse a encarar Turpin menos como uma figura histórica e mais como um personagem fictício, e inclusive bem carismático.

O penny dreadful “Black Bess” tira inspiração tanto do Dick Turpin real, quanto da figura ficcionalizada do romance de Ainsworth. Acredita-se que tenha sido escrito por Edward Viles, em 1866. A série foi publicada por cinco anos, em 254 volumes curtos, totalizando 2.228 páginas. O Título “Black Bess” (algo como ‘Bess, a negra’ ou ‘a Negra Bess’, sendo que ‘Bess’ era um apelido comum para o nome ‘Elizabeth’, antes das variantes ‘Beth’ ou ‘Betty’ ficarem mais populares) s refere à montaria de Dick Turpin, uma bela (e rápida) égua chamada Black Bess devido à cor de seu pelo. A importância dada à Black Bess vem de uma história famosa, segundo a qual Turpin teria cavalgado 200 milhas (cerca de 320 km) entre Bath e Londres em uma noite, e Bess teria sido sua montaria. Um feito claramente impossível, mas que aparece em todas as versões da lenda de Dick Turpin.

É difícil fazer um resumo de “Black Bess”, pois a história não é uma narrativa única, mas quase um compilado de lendas e histórias atribuídas a Dick Turpin. O formato é, inclusive, bastante parecido com aquelas séries de TV antigas em que o herói e seus amigos passam por aventuras diferentes a cada episódio, com um fio narrativo comum bastante tênue. Nessas aventuras, uma versão romantizada de Dick Turpin é apresentada como um “cavalheiro das estradas” um fora-da-lei charmoso meio nos moldes de um Zorro. Ele é acompanhado por seus leais companheiros Claude Duval, Tom King e Jack Rann, todos personagens fictícios, sem nada em comum com os parceiros de crime do Turpin real. Aliás, “Black Bess” foi um dos penny serials mais criticados pelas autoridades e pela mídia vitoriana justamente por apresentar um criminoso histórico como um mocinho. Apesar da críticas, “Black Bess” fez tanto sucesso que seu autor escreveu outros títulos protagonizados por Dick Turpin, criando quase uma espécie de universo expandido para o personagem.

Uma Lenda Urbana vitoriana: as várias versões de Spring Heeled Jack (“Jack, pé-de-mola”)

Anúncio para a publicação de “Spring Heeled Jack, the Terror of London”, de 1886 (fonte: wikicommons)

Como já vimos, penny serials tiravam inspiração de muitas fontes, até mesmo de figuras históricas. Mas, ao contrário de Dick Turpin que, apesar de muito romantizado, foi uma pessoa real cuja existência é documentada, “Spring Heeled Jack” ou “Jack pé de mola” é uma figura bem mais nebulosa. Até hoje não se sabe se ele existiu mesmo, e caso tenha existido, quem exatamente ele era. Seria Jack Pé de Mola apenas uma lenda urbana, uma brincadeira de mau gosto ou uma espécie de fenômeno de histeria coletiva? E se por acaso ele existiu, teria sido realmente um maníaco à solta, ou apenas um fanfarrão que se divertia em assustar as pessoas mais incautas?

Entre 1837 e 1904, vários relatos de aparições de uma estranha figura foram registrados em Londres, Liverpool e outras cidades na Inglaterra e na Escócia. Há várias versões conflitantes sobre os eventos, mas segundo a mais famosa, uma jovem empregada doméstica chamada Mary Stevens estava a caminho de Lavender Hill, área residencial no sul de Londres onde ela trabalhava, depois de ter ido visitar os pais em Battersea, também em Londres. No caminho ela tinha que passar pelo parque Clapham Common, que estava bem escuro, já que era tarde. Ali, uma figura estranha pulou sobre Mary, a agarrou e tentou beijá-la e rasgar suas roupas. Mary resistiu e gritou, chamando atenção de alguns passantes que vieram socorrê-la, o que fez com que o agressor fugisse. O caso teria sido registrado como mais um crime “comum” de assédio ou tentativa de estupro, se não fosse a descrição que Mary fez de seu agressor: ela afirmou que ele tinha garras, e que elas eram “frias como as mãos de um cadáver”. No dia seguinte, houve outro ataque no mesmo local, mas agora com o modus operandi pelo qual Jack pé-de-mola ficou conhecido: ele pulou na frente de uma carruagem, fazendo condutor perder o controle do veículo. Várias testemunhas afirmaram que a figura tinha fugido aos pulos, e que conseguia pular mais de dois metros de altura. Conforme outras pessoas diziam ter sido atacadas e os jornais começaram a noticiar as estranhas aparições, mais detalhes foram sendo adicionados, alguns diziam que a figura tinha uma capa preta, outros que tinha asas, que atacava moças sozinhas; mas o elemento comum de todos os relatos era que a figura se movia aos pulos, o que lhe rendeu o apelido de “Spring-heeled Jack” ou “Jack pé-de-mola”.

A primeira versão literária de Spring-Heeled Jack foi a peça de 1840 Spring-Heeled Jack, the Terror of London, de John Thomas Haines, na qual ele aparece como um vilão que ataca mulheres depois de ser rejeitado. Em 1849, veio outra peça, The Curse of the Wraydons de W.G.Willis, na qual Jack é um traidor a serviço de Napoleão. Os Penny serials dedicados ao personagem também foram publicados na década 1840. Há pelo menos três penny serials com o título Spring-Heeled Jack, the Terror of London, obviamente tirado da peça de 1840. O primeiro foi uma publicação semanal, de autor anônimo (não consegui nem encontrar a data de publicação!). Um segundo veio em 1864, e foi publicado também semanalmente até 1867. Finalmente, uma terceira versão, também semanal, foi publicada entre 1878 e 1879, escrita (provavelmente) pelo autor veterano de penny serials Alfred Burrage, sob o pseudônimo de Charlton Lea. Mas além destes, diversos outros penny serials tinham Jack pé-de-mola como antagonista ou protagonista.

É interessante observar que os primeiros penny serials, escritos quando os primeiros ataques ainda apavoravam o público e estavam frescos nas páginas dos jornais, mostram Jack pé-de-mola sempre como o vilão. Mas a medida em que o tempo foi passando e ele deixou as páginas policiais para se transformar em uma figura quase folclórica, uma espécie lenda urbana, os penny serials começaram a mostrá-lo mais como um anti-herói, ou até mesmo um herói propriamente dito. O primeiro a fazer essa transição completa entre bandido da vida real e herói de ficção é o texto de Alfred Burrage/ Charlton Lea que mencionamos acima. Nessa história, Jack é um justiceiro mascarado que se esconde na escuridão da noite londrina para lutar contra malfeitores e proteger os inocentes, mas sua em verdadeira identidade, ele é um aristocrata que teve sua herança roubada e luta para recuperá-la. Ele usa uma espécie de collant vermelho com asas de morcego e botas especiais que lhe permitem saltar longas distâncias e alturas, além de ser muito forte. Ou seja, ele é praticamente um protótipo dos super-heróis dos quadrinhos modernos, e tem mais do que uma leve semelhança com ninguém menos que o Batman.

Essa semelhança é fácil de explicar. Os diversos penny serials inspirados em Spring Heeled Jack, Dick Turpin, entre outros bandidos, heróis e anti-heróis estão entre as inspirações do gênero literário norte-americano conhecido como “Pulp”, revistas ilustradas nas quais eram publicadas histórias de detetive, ficção científica, terror e aventura. O “Pulp” perdurou até os anos 1950, mas atingiu o seu auge entre os anos 30 e 40, justamente quando vários quadrinhos clássicos começaram a ser publicados e foram suplantando a sua popularidade. Entre os diversos heróis do gênero “Pulp” estão Flash Gordon, Zorro e Nick Carter e outros que acabariam, por sua vez, inspirando os personagens das histórias em quadrinhos clássicas publicadas por Marvel, DC etc.

O submundo do crime internacional em “The Black Band or the Mysteries of Midnight” (“A Facção Negra, ou os Mistérios da Meia-Noite.”)

Duas páginas de “A Facção Negra” (fonte: The British Library

Em uma carta de 1860, a escritora Mary Elizabeth Braddon confidencia a um amigo “O tanto de crime, traição, assassinato, envenamento lento e infâmia generalizada que o leitor de halfpenny exige é uma coisa terrível.” Claro ela está se referindo os penny serials, e com conhecimento de causa, pois Braddon escreveu vários deles (Leia mais sobre Elizabeth Braddon AQUI). O mais famoso foi “The Black Band or the Mysteries of Midnight” (“A Facção Negra, ou os Mistérios da Meia-Noite.”).

“A Facção Negra” foi publicado de 1861 a 1862, em dois capítulos por semana, totalizando 101. Uma versão em livro foi publicada em 1877, mas com o texto muito editado. O texto integral só seria publicado em 1998 pela editora Sensation Press. Assim como “Os Mistérios de Londres”, “A Facção Negra” também foi inspirado no romance “Os Mistérios de Paris” de Eugène Sue, mas Braddon, que conhecia bem o público dos penny serials e sabia o que vendia, resolveu dar a sua obra um enfoque menos social e com mais elementos de aventura e intriga criminosa (como vimos no artigo sobre Braddon, ela via os penny dreadfuls meramente como uma forma de ganhar dinheiro, e deixava suas observações sociais mais profundas para outros textos, como os contos de fantasmas publicados em revistas mais “respeitáveis”). Mas o que “A facção negra” tem em comum com “Os Mistérios de Londres” e “Os Mistérios de Paris” é a multiplicidade de histórias. Não há uma narrativa central, mas sim várias narrativas e personagens, cada qual com seus interesses e ambições, e a história vai de incidente em incidente, com ênfase em revelações e reviravoltas. Como boa veterana autora de penny serials, Braddon sabia o que o público do gênero queria, por isso, ao longo de seus mais de cem capítulos, “A Facção Negra” contém assassinatos, sequestros, prisões, roubos, bigamia, traição, suicídio, fraude, enfim, tudo o que vendia.

No centro das várias intrigas que conduzem o fio narrativo da história, está o Coronel Oscar Bertrand, um militar austríaco de alto status social que também é o cabeça de uma organização criminosa secreta, a “Facção Negra” do título, também conhecida como “Os Companheiros da Meia-Noite”. Ao longo da história Bertrand e sua gangue cruzam caminhos com vários outros personagens. Alguns destes personagens, especialmente os membros da elite, são corruptos e ambiciosos, como por exemplo Lionel, o irmão mais novo do marquês de Willoughby, que se junta à Facção na esperança de usurpar o título e o dinheiro do irmão e se casar com um jovem rica, Lady Edith, que começa uma carreira de crimes depois de tentar matar o marido e Frederick Beaumorris, que rouba a herança do próprio irmão. Mas também há personagens virtuosos, que, em geral, acabam se tornando vítimas da Facção ou dos vários vilões da história, como Lolota Vizzinni, uma bailarina italiana, apaixonada por Lionel, e Clara, amiga e companheira de palco de Lolota, constantemente perseguida por Beaumorris e também Robert Merton, um rico comerciante de bom coração. O estilo “novelão mexicano” com vilões que são quase caricaturas, mocinhas sofridas, reviravoltas improváveis e tramas excessivamente complicadas pode parecer meio ridículo para o leitor atual, mas “A Facção Negra” consegue segurar a atenção do público justamente porque Braddon conhece as convenções do penny serial como a palma da mão. De certa forma, ela quase parece exagerar de propósito, empilhando vários clichês comuns dos penny dreadfuls, no melhor estilo “dando ao público exatamente o que ele quer”.

Materiais consultados

Livros:

Judith Flanders. The Invention of Murder: How the Victorians Revelled in Death and

Detection and Created Modern Crime. London: HarperPress, 2011

Karina dos Santos Salles. Penny Bloods: O Horror Urbano na Ficção de Massa Vitoriana. Tese de Mestrado apresentada em 2015, ao Instituto de Letras da Universidade Federal Fluminense, Niterói.

Martin Priestman (org.). The Cambridge Companion to Crime Fiction. Cambridge: Cambridge University Press, 2003.

Patrick Batlinger & William B. Thesing (orgs.) A Companion to the Victorian Novel. Oxford:

Blackwell Publishing, 2002

Artigos:

Alicia Zaloga & Wendy Trimboli. “Why pennydreadfuls scandalized Victorian society-but flew off the shelves” in crimereads.com

Courtney Kimball “Sweeney Todd’s Dreadfuls and Mass Readership”. The Journal of Publishing Culture Vol. 7, abril de 2017.

J.S. Mackley “Penny Dreadfuls and Spring Heeled Jack” in Clive Bloom The Palgrave Handbook of Steam Age Gothic, Mcmillan, 2021

JA. Asbjorn . “From Nosteratu to Von Carstein: shifts in the portrayal of vampires”. Australian Folklore: A Yearly Journal of Folklore Studies (16):2001

Kate Summerscale. “Penny dreadfuls: the Victorian equivalent of video games”. The Guardian, 30 de abril de 2016.

Louise Welsh- “On a knife Edge”. The Guardian, 19 de Janeiro de 2008 https://www.theguardian.com/books/2008/jan/19/classics.film

The London Hermit (Walter Parke). “The Physiology of ‘Penny Awfuls’” in The Dublin University Magazine, setembro de 1875, pp. 364-376

Patrick Dunae. “Penny Dreadfuls: Late Nineteenth-Century Boys’ Literature and Crime”. In: Victorian Studies, v. 22, n. 2, inverno de 1979, pp. 133-150

Websites

A Course of Steady Reading (Blog) https://acourseofsteadyreading.wordpress.com/

Dissertation Sensation (Blog) https://dissertationsensation.wordpress.com/

The Real Dick Turpin (Britannia.com) https://web.archive.org/web/20040208150832/http://www.britannia.com/BritHeritage/turpin.html

The Mysteries of London-Valancourt books https://www.valancourtbooks.com/the-mysteries-of-london-1844-45

Penny Dreadfuls (The British Library) https://www.bl.uk/romantics-and-victorians/articles/penny-dreadfuls

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