O Número 13- M.R. James

O conto “The Ash-tree” foi publicado pela primeira vez em 1904 na Coletânea “Ghost Stories of an Antiquary” (Histórias de Fantasma de um Antiquário)

Virborg se destaca dentre as cidades da Jutlândia, e com toda a justiça. É a sede de um bispado, tem uma bela catedral, ainda que seja quase inteiramente moderna, um jardim botânico encantador, um lago de grande beleza cheio de cegonhas. Nas proximidades, estão a mansão Hald, uma das maiores belezas da Dinamarca e a paróquia de Finderup, onde Marsk Stig assassinou o rei Erik Klipping1 num dia de Santa Cecília, no ano de 1286. O crânio de Erik recebeu 56 golpes de maça quando seu túmulo foi aberto no século XVII. Mas eu não estou escrevendo um guia de viagem.

Há bons hotéis em Viborg-Preisler, e o Fênix tem tudo o que qualquer hóspede poderia desejar. Mas meu primo, cujas experiências pretendo contar-lhes agora, preferiu ficar no Leão de Ouro na primeira vez que visitou Viborg. Ele nunca mais voltou lá, e as páginas seguintes poderão, talvez explicar a razão.

O hotel Leão de ouro fica em uma das poucas casas da cidade que não foram atingidas pelo Grande Incêndio de 1726, que praticamente destruiu a catedral, a Sognekirke2, o Raadhuus3, e tudo o que era antigo e digno de interesse. Trata-se de uma grande casa de tijolo vermelho— quer dizer, a fachada é de tijolo, com empenas escalonadas e um texto acima da entrada; mas o pátio pelo qual entram as carruagens é de madeira e gesso, todo preto e branco.

O sol já começava a se por quando meu primo foi até a porta. A luz banhava toda a fachada imponente da residência. Ele ficou encantado com o ar antigo do lugar, e pensou consigo que teria uma estadia divertida e plenamente satisfatória naquela pousada tão típica da Jutlândia.

O Sr. Anderson não estava em Viborg a negócios exatamente. Ele estava participando de uma pesquisa acadêmica sobre a história da Igreja da Dinamarca, e tinha sido informado que o Kinsarkiv4 de Viborg abrigava certos documentos que tinham sobrevivido ao incêndio e se referiam ao declínio do Catolicismo no país. Então, resolveu passar um tempo considerável, quiçá umas duas ou três semanas, examinando e copiando tais documentos. Ele esperava que o Leão de Ouro tivesse acomodações de tamanho adequado para servir como quarto e escritório. Foi o que explicou ao proprietário que, depois de pensar um pouco, sugeriu que talvez fosse melhor se o jovem cavalheiro examinasse alguns de seus quartos maiores, e escolhesse o mais adequado. Pareceu-lhe uma boa ideia.

O andar superior foi logo rejeitado pois eram muitas escadas a subir depois de um dia de trabalho; no segundo andar não tinha nenhum quarto com as exatas dimensões necessárias; mas, no primeiro andar, havia dois ou três quartos que seriam perfeitos no que tangia ao tamanho.

O proprietário sugeriu enfaticamente o quarto 17, mas Anderson percebeu que as janelas davam para a parede do edifício ao lado, o que o deixaria muito escuro à tarde. O quarto 12 e o 14 eram melhores, pois ambos davam para a rua. A luz do entardecer e a bela vista mais do que compensariam pelo barulho.

Finalmente, o número 12 foi o quarto escolhido. Assim como os aposentos vizinhos, ele tinha três janelas, todas do mesmo lado, bem altas e estranhamente compridas. Não havia, naturalmente, nenhuma lareira, mas sim um fogão bonito e bem velho—uma estrutura de ferro fundido, em cuja lateral havia um relevo representando Abraão sacrificando Isaac, e a inscrição, ‘1 Liv. Mose, Cap. 22, ‘5. Nada no quarto era digno de nota. O único quadro que chamava a atenção nas paredes era uma gravura colorizada da cidade, datada de 1820.

Era quase hora do jantar quando Anderson, renovado pelas costumeiras abluções, desceu as escadas, Como ainda faltavam alguns minutos para a campainha tocar, resolveu dedicar esse tempo extra a observar seus companheiros de pensão. Como é de costume na Dinamarca, os nomes dos hóspedes estavam escritos em um grande quadro negro, divido em colunas e linhas, com o número do quarto marcado no início de cada linha. Era uma lista bastante sem graça. Havia um advogado, ou Sagförer, um alemão, e alguns caixeiros-viajantes de Copenhague. A única coisa que curiosa era a ausência do quarto de número 13, mas Anderson já tinha notado isso algumas vezes em suas visitas a hotéis dinamarqueses. No entanto, não podia deixar de se perguntar se a rejeição a esse número em particular, por mais comum que fosse, seria assim tão difundida e tão forte a ponto de impedir que sequer houvesse um quarto de número 13. Resolveu perguntar ao gerente se ele e seus colegas de profissão realmente tinham encontrado tantos clientes que se recusavam a ser acomodados no décimo terceiro quarto.

Meu primo não tinha nada de para me contar sobre o jantar (estou lhes contando a história exatamente como a ouvi dele) nem sobre a primeira noite, que ele passou desfazendo as malas e arrumando suas roupas, livros e papéis. Por volta das onze, decidiu ir para a cama mas, como é o caso de muita gente, ele tinha um ritual noturno quase necessário: ler um pouco. Lembrou-se de um livro em particular que vinha lendo no trem, e que poderia satisfazer sua necessidade no momento. Estava no bolso de seu sobretudo que ele tinha deixado pendurado na sala de jantar.

Descer para pegá-lo seria coisa de um segundo, e como os corredores eram bem iluminados, também seria fácil encontrar o caminho de volta até o quarto. Pelo menos foi o que ele pensou. Mas ao voltar e tentar virar a maçaneta, a porta simplesmente se recusou a abrir. Ouviu o som de um movimento rápido dentro do quarto. Era óbvio que tinha tentado a abrir a porta errada, mas seu quarto ficava para a direita ou para a esquerda? Conferiu o número: 13. Então seu quarto devia ficar à esquerda, onde de fato estava.

Anderson já estava na cama fazia alguns minutos, tinha lido umas três ou quatro páginas, apagado a luz e se ajeitado para dormir, quando lhe ocorreu que, ainda que o quadro negro mostrasse que não havia quarto 13 no hotel, com certeza absoluta existia um quarto com aquele número. Até lamentou não tê-lo escolhido para si. Talvez pudesse fazer ao senhorio o favor de ocupá-lo, dando-lhe assim a oportunidade de dizer aos hóspedes que um cavalheiro inglês de boa estirpe tinha usado o quarto por três semanas e ficado muito satisfeito.

Mas o aposento provavelmente estava sendo usado como quarto para algum empregado ou algo assim. Afinal, não devia ser tão grande confortável quanto o de Anderson. Sonolento, examinou o quarto ao seu redor, bem visível sob a luz fraca que vinha dos postes na rua. Fazia um efeito bastante curioso, ele pensou. A meia-luz geralmente faz cômodos parecerem maiores, mas este parecia ter se contraído em sua largura, e crescido em altura. Ora, ora! Descansar era mais importante que se perder em vagas digressões, então resolveu dormir.

No dia seguinte à sua chegada, Anderson foi ao Rigsarkivet6 de Viborg. Como seria de se esperar na Dinamarca, foi muito bem recebido e teve acesso fácil a todo o material que desejava consultar. Os documentos que lhe foram apresentados eram muito mais numerosos e mais fascinantes do que ele tinha imaginado. Além de documentos oficiais, havia um grande pacote de correspondências relacionadas ao bispo Jörgen Friis, o último católico a presidir a Sé, e ali encontrou muitos detalhes divertidos e digamos “íntimos” de sua vida privada e seu caráter. Havia muitas referências a uma certa casa na cidade que pertencia ao Bispo, na qual ele nunca morou. O inquilino foi, aparentemente, pivô de um escândalo e um obstáculo para os reformistas. Segundo as cartas, este inquilino era uma vergonha para a cidade: praticava artes malignas secretas e tinha vendido sua alma ao ‘adversário’. Que uma víbora sanguessuga como Troldmand fosse apoiado e protegido pelo Bispo era um sinal claro da corrupção e superstição grosseira presentes na Igreja babilônica.

O Bispo enfrentou as críticas corajosamente; reafirmou sua aversão às artes secretas e exigiu que seus acusadores levassem o assunto à corte apropriada—é claro, a corte religiosa—para que fosse investigado a fundo. Ninguém mais do que ele, tinha interesse em condenar o Magistrado Nicolas Francken, caso as evidências provassem que ele de fato era culpado dos crimes que, informalmente, lhe eram imputados.

Anderson só teve tempo de dar uma rápida olhada na carta seguinte, escrita pelo líder protestante Resmus Nielsen, antes que o arquivo fechasse o expediente do dia, mas conseguiu ter uma boa ideia de seu teor. Em resumo, os cristãos não mais acatavam as decisões dos bispos de Roma, portanto a corte romana não era, nem podia ser, um tribunal adequado e competente para julgar uma causa tão grave e importante.

Ao sair, o Sr. Anderson foi acompanhado pelo idoso cavalheiro que presidia o arquivo. Conforme caminhavam, a conversa naturalmente voltou-se para os documentos sobre os quais acabamos de falar.

Herr Scavenius, o arquivista de Viborg, embora muito bem informado sobre o conteúdo geral dos documentos que tinha sob sua tutela, não era um especialista no estudo do período da Reforma. Então, ficou muito interessado no que Anderson tinha para contar. Afirmou que aguardaria ansiosamente pela oportunidade de ler a publicação na qual o Sr. Anderson pretendia explorar tais tópicos.

—A possível localização da tal casa do Bispo Friis é um grande mistério para mim.—acrescentou— Estudei cuidadosamente a topografia da antiga Viborg, mas não tive muita sorte. Ainda temos uma boa parte dos registros das propriedades do Bispo que foram lavrados em 1560 no Arkiv, mas faltam justamente aqueles que listam as propriedades que ele tinha na cidade. Mas não importa, quem sabe um dia consiga encontrá-los.

Depois de fazer algum exercício, não me recordo exatamente qual ou onde, Anderson voltou para o Leão De Ouro para jantar, jogar um pouco de paciência, e dormir. A caminho de seu quarto, percebeu que tinha esquecido de conversar com o gerente sobre a omissão do número 13 do quadro do hotel. Também lhe ocorreu que deveria antes se certificar de que o quarto realmente existia antes de falar sobre o assunto.

A decisão não foi difícil de tomar. A porta estava bem ali, com o número tão claro quanto o dia, e era evidente que estavam fazendo algum tipo de serviço lá dentro, pois sempre que se aproximava podia ouvir passos e vozes, ou melhor uma voz. Durante os poucos segundos em que ficou ali parado para conferir o número, os passos cessaram, aparentemente bem perto da porta. Tomou um susto ao ouvir o som de uma respiração acelerada, como se alguém estivesse nervoso.

Voltou para seu quarto e, de novo, ficou surpreso ao ver que o aposento parecia muito menor agora do que quando o escolheu. Ficou desapontado, mas não muito. Se achasse que o quarto não tinha espaço suficiente, poderia facilmente mudar para outro.

Nesse meio tempo, precisou pegar alguma coisa na mala, acredito que era um lenço, porém o carregador tinha colocado a tal mala em cima de um banco de forma bastante desajeitada, bem no canto do quarto, longe de sua cama. Essa era a parte estranha: ele não conseguia achar a mala em lugar nenhum. Com certeza os empregados enxeridos do hotel tinham guardado, sem dúvida, dentro do armário.

Não, não estava no armário.

Ora, aquilo era constrangedor. Anderson rejeitou a hipótese de roubo imediatamente. Coisas assim raramente acontecem da Dinamarca, mas com certeza alguém tinha cometido um erro, o que era bem menos raro. A stuepige7 teria que ser severamente repreendida. Mas como não precisava de nada da mala que não pudesse esperar até o dia seguinte, resolveu não tocar a campainha nem incomodar os empregados. Então, foi até a janela do lado direito e observou a rua tranquila lá fora. Havia um edifício alto à frente, com grandes extensões de parede em branco. Ninguém passava pela rua e naquela noite escura não havia nada de interessante para ser visto.

Com a luz do quarto atrás de si, Anderson podia ver sua própria sombra claramente delineada na parede oposta. Também podia ver a sombra do homem de barba que estava hospedado no quarto 11. Em mangas de camisa, ele andou de um lado para o outro algumas vezes, depois penteou o cabelo e colocou o camisão de dormir.

À direita estava a sombra do ocupante do quarto número 13.

Ele devia ser mais interessante. O número 13 estava, assim como Anderson, apoiado no peitoril, observando a rua. Parecia ser um homem alto e magro. Ou seria uma mulher? A pessoa parecia ter coberto a cabeça com algum tipo de pano antes de ir para a cama e, pensou Anderson, devia ter um abajur vermelho cuja luz parecia piscar. A luz vermelha aumentava e diminuía, claramente refletida na parede do prédio à frente. Anderson se esticou um pouco para ver se conseguia espiar mais da figura, mas não conseguiu ver nada além de um reflexo de uma luz, talvez uma luz branca, no peitoril da janela.

O som de passos distantes vindo da rua provavelmente fez o hóspede do número 13 se sentir exposto, pois ele se afastou da janela de repente, e a luz vermelha se apagou. Anderson, que estava fumando, deixou a ponta do cigarro na janela e foi se deitar.

Na manhã seguinte, a stuepige chegou, trazendo água quente, etc. Ao acordar, depois de escolher as palavras dinamarquesas mais apropriadas, Anderson disse, tão claramente quanto podia:

—Não tire minha mala do lugar. Onde ela está?

Como era de costume, a empregada sorriu, mas foi embora sem dar nenhuma resposta distinta.

Anderson, bastante irritado, sentou-se na cama, com a intenção de chamá-la de volta, mas parou, olhando diretamente à sua frente. Lá estava sua mala, em cima do cavalete, exatamente onde ele tinha visto o carregador deixá-la. Foi um enorme choque para um homem que se orgulhava da sua precisão de observação. Como era possível não ter visto a mala na noite anterior? Anderson nem sequer tentou entender. O importante é que agora ela estava ali.

A luz do dia revelou mais do que a mala; revelou as verdadeiras proporções da sala com as suas três janelas, confirmando que sua escolha, afinal, tinha sido correta. Quando já estava quase vestido, foi até uma das três janelas, a do meio, para ver como estava o tempo. Outra surpresa o esperava. Ele devia ter ficado muito distraído na noite anterior. Podia jurar que tinha fumado junto da janela da direita antes de ir para a cama, mas aqui estava a ponta do cigarro no peitoril da janela do meio.

Resolveu descer para tomar seu café da manhã. Estava um pouco atrasado, mas não tanto quanto o hóspede do quarto 13: suas botas ainda estavam na porta. Eram botas de cavalheiro. Então, tratave-se de um homem, não uma mulher. Só então viu o número na porta. 14. Pensou se não tinha passado direto pelo 13 sem perceber. Três erros estúpidos em doze horas eram demais para alguém tão metódico e tão dedicado a precisão quando Anderson, por isso voltou para se certificar. O número ao lado do 14 era o 12, seu próprio quarto.

Não havia nenhum número 13.

Depois de alguns minutos dedicados a uma cuidadosa análise de tudo que tinha comido e bebido durante as últimas 24 horas, Anderson resolveu desistir da questão. Se seus olhos ou seu cérebro estivessem lhe pregando peças, ele teria muitas oportunidades para descobrir; se não fosse esse o caso, então era evidente que ele estava passando por uma experiência muito singular. De qualquer maneira, certamente valia a pena acompanhar o desenrolar dos eventos.

Ao longo do dia, Anderson continuou a estudar a correspondência episcopal da qual já falamos. E para a sua decepção, ela estava incompleta. Só havia mais uma carta que se referia ao caso do Magistrado Nicolas Francken. Era uma carta do bispo endereçada a Rasmus Nielsen. Ela dizia:

Embora não estejamos minimamente inclinados a concordar com o vossa opinião a respeito de nosso tribunal, estamos preparados, se necessário, para apoiar-vos até ao fim nesta questão, ainda que nosso fiel e bem-amado Mag. Nicolas Francken, contra quem Vossa Senhoria ousou lançar certas acusações falsas e maliciosas, tenha sido subitamente subtraído de nós, é evidente que a questão se encerra nestes termos. No entanto, na medida em que vossa senhoria alega que o apóstolo e evangelista São João, em seu Apocalipse celestial afirma que a Sacra Igreja Católica Romana está representada pela mulher em vestes escarlates, que se seja sabido, etc, etc.

Por mais que procurasse, Anderson não conseguia encontrar a continuação daquela carta, nem nenhuma pista sobre quais seriam as causas ou circunstâncias da tal ‘subtração’ de Francken do casus belli8. Só podia supor que ele tinha morrido; e como havia uma diferença de apenas dois dias entre a data da última carta de Nielsen—quando Francken ainda estava evidentemente vivo—e a da carta do Bispo, a morte deve ter sido completamente repentina e inesperada.

À tarde, Anderson fez uma curta visita à mansão Hald, e tomou seu chá em Baekkelund. Embora se eonctrasse em um estado de espírito um tanto ansioso, não percebeu qualquer problema com sua visão ou seu raciocínio, como tinha temido depois das experiências daquela manhã.

Na hora do jantar, acabou se sentando ao lado do gerente.

—Por acaso existe uma razão para que a maioria dos hotéis que visitei neste país não tenha o número 13 na lista de quartos? —finalmente perguntou, depois de um pouco de conversa fiada.— Percebi que aqui também não há esse número.

O proprietário pareceu achar graça da pergunta.

—Como o senhor percebeu isso? Para dizer a verdade, eu mesmo já me perguntei a mesma coisa algumas vezes. Mas creio que um homem tão culto quanto o senhor não deveria perder tempo com tais superstições. Eu cresci aqui mesmo, estudei na escola secundária de Viborg, e nosso velho mestre sempre foi contra esse tipo de coisa. Ele morreu já faz muito tempo, era um homem honesto, que trabalhava tão bem com a cabeça quanto com as mãos. Eu me lembro de um certo dia, estava nevando e nós éramos garotos ainda…—Então, mergulhou em suas lembranças de juventude.

—Então, não acha que existe nenhuma rejeição em particular ao número 13? —insistiu Anderson

—Ah, com certeza existe. Bem, o senhor entende, eu fui criado para herdar os negócios de meu pobre pai. O primeiro hotel dele foi em Aarhuus e depois, quando nós nascemos, ele voltou aqui para Viborg, que era sua cidade natal, e administrou o Fênix até a sua morte. Isso foi em 1876. Depois, eu fui trabalhar em Silkeborg, e vim para este hotel faz dois anos. — Em seguida, deu mais detalhes sobre o estado do hotel e as condições dos negócios na época em que assumiu.

—E quando o senhor veio para cá, havia um quarto de número 13?

—Não, não. Eu já ia falar sobre isso. Veja bem, em um lugar como este, a classe comercial, os que viajam, são nossa principal clientela Como vamos colocá-los no número 13? Eles prefeririam dormir na rua! No que me diz respeito, o número do meu quarto não faz a mínima diferença, e eu já disse isso a muitos deles; mas todos insistem que esse número traz má sorte. Eles contam muitas histórias sobre este ou aquele colega que dormiu em um quarto de número 13 e nunca mais foi o mesmo, que perdeu seus melhores clientes, e outras coisas— contou o proprietário, usando as palavras mais ilustrativas que podia.

—Então, para que o senhor usa o seu quarto 13? —perguntou Anderson, ciente de que sua pergunta soava ansiosa demais para um assunto tão corriqueiro.

—O meu quarto 13? Ora, já não lhe disse que não existe um quarto 13 neste hotel? Pensei que tivesse percebido. Se houvesse, seria bem ao lado do seu.

—Bem, sim; apenas eu pensei, isto é, imaginei que tinha visto uma porta com o número 13 ontem à noite naquele corredor. Na verdade, tenho quase a certeza de que tenho razão, pois eu a vi na noite anterior também.

Como Anderson previu, Herr Kristensen riu como se tivesse ouvido um verdadeiro disparate e enfatizou com muita firmeza que o número 13 não existia nem nunca tinha existido naquele hotel.

Anderson ficou de certa forma aliviado com tanta certeza, mas ainda estava confuso, e começou a pensar que a melhor maneira de se certificar de que realmente tinha sido uma ilusão seria convidar o gerente para seu quarto para fumar um charuto mais tarde. Algumas fotografias de cidades inglesas que tinha trazido consigo forneceriam um bom pretexto.

Herr Kristensen ficou lisonjeado com o convite e aceitou de bom grado. Marcaram por volta das dez, mas antes Anderson tinha algumas cartas para escrever, e se recolheu com esse propósito. Era embaraçoso admitir, mas não podia negar que estava ficando bastante nervoso com a questão da existência do quarto número 13. Tanto que se aproximou de seu quarto vindo pelo lado do número 11, a fim de não ter que sequer passar pela porta do 13, ou melhor, pelo lugar onde ela deveria estar.

Depois de entrar em seu quarto, deu uma rápida olhada desconfiada em volta, mas não percebeu nada além daquela sensação indefinível de que o cômodo estava menor, como que para justificar sua desconfiança. Naquela noite, não tinha dúvidas sobre a localização de sua mala. Ele mesmo a tinha esvaziado e guardado embaixo da cama. Com algum esforço, tirou a história do número 13 da cabeça, e sentou-se para escrever.

Os vizinhos estavam bem quietos. De vez em quando alguma porta era aberta e um par de botas jogado no corredor, ou um carregador de malas passava cantarolando. Lá fora, aqui e ali soava o estrépito de uma charrete sobre os paralelepípedos ou o barulho de passos apressados.

Anderson terminou suas cartas, pediu um uísque e soda, e então foi para a janela a fim de analisar a parede do prédio à frente e as sombras sobre ela.

Até onde se lembrava, no quarto número 14 estava hospedado um advogado, um homem respeitável que não conversava muito durante as refeições, e geralmente ficava estudando seus papéis, epilhados ao lado do prato. No entanto, parecia que ele tinha o hábito de dar vazão aos seus instintos mais animalescos quando estava sozinho. Afinal, por qual outra razão ele estaria dançando? A sombra no quarto ao lado claramente mostrava que era isso que ele estava fazendo. Sua silhueta magra passava repetidas vezes em frente à janela, balançado os braços, e chutando com a perna magricela, com surpreendente agilidade. Ele parecia estar descalço, e o piso devia ser muito firme, pois não se ouvia nenhum barulho. Sagförer Herr Anders Jensen, dançando às dez horas da noite em um quarto de hotel, parecia um tema perfeito para uma pintura histórica em grande estilo; e os pensamentos de Anderson, como os de Emily em os “Mistérios de Udolfo”, ‘começaram a ir na seguinte direção:

Quando volto para o hotel

às 10 da noite já avançada

os empregados se preocupam

o que não me importa em nada.

Mas quando em meu quarto eu me tranco

e deixo as botas porta afora

dançando, a noite passo em branco.

Começam os vizinhos a reclamar,

mas eu só danço sem parar.

Pois das leis tenho noção

E apesar da falação

de seus protestos, fico a gargalhar.

Se o gerente não tivesse batido na porta exatamente naquele momento, o leitor teria que ler este longo poema inteiro. A julgar por seu ar de surpresa quando entrou no quarto, algo de estranho também parecia ter chamado a atenção de Herr Kristensen. Mas ele não disse nada. Estava muito interessado nas fotografias, que lhe inspiraram diversas divagações autobiográficas.

Não sei muito bem como Anderson pretendia conduzir a conversa ao assunto do quarto 13, que era seu verdadeiro objetivo, antes de o advogado começar a cantar, e cantar de um jeito que qualquer um que ouvisse juraria que o homem estava bêbado ou completamente louco. A voz que ouviram era aguda, fina, e parecia seca, como se há muito não fosse usada. Letra e melodia eram indecifráveis. A voz se expandiu até alcançar um volume surpreendente, amplificada em um gemido desesperado, como o vento do inverno uivando em uma chaminé vazia, ou um orgão cujos tubos subitamente ficam sem ar. Era um som indubitavelmente terrível, e Anderson teve certeza que se estivesse sozinho teria fugido correndo para buscar refúgio e companhia no quarto de algum outro hóspede.

O gerente ficou de boca aberta.

—Não entendo!— ele finalmente falou, limpando o suor da testa.—Que coisa mais horrível. Já ouvi isso uma vez, mas jurava que tinha sido um gato.

—Ele está louco? — respondeu Anderson.

—Deve estar. Que coisa mais triste! Um hóspede tão bom, e, pelo que ouvi, tão bem-sucedido nos negócios, e com família para sustentar!

Nesse exato momento, ouviram batidas impacientes na porta, que se abriu sem esperar por permissão. Era o advogado, de pijama, com o cabelo todo desgrenhado e parecendo muito irritado.

—Perdoe-me, senhor,— disse ele — mas eu ficaria muito agradecido se o senhor parasse…

Ele parou, pois, evidentemente as pessoas que tinha diante de si não eram responsáveis pelo que que que fosse que o incomodava. Depois de um silêncio momentâneo, o som encheu o ar de novo, ainda mais selvagem do que antes.

—Por Deus, o que significa isso? — exclamou o advogado. —De onde está vindo? Quem é? Será que estou ficando maluco?

—Certamente, Herr Jensen, o som vem do seu quarto, aqui ao lado. Não haveria um gato ou algum bicho preso na chaminé? —Essa foi a única explicação que ocorreu a Anderson, mas assim que ouviu suas próprias palavras, percebeu que elas não tinham nenhum sentido. Mas qualquer coisa era melhor do que ficar ali ouvindo aquela voz horrenda, olhando para o rosto largo e pálido do gerente, que suava e tremia, agarrado aos braços de sua poltrona.

—É impossível! —disse o advogado — Impossível! Não tem chaminé. Vim aqui porque tinha certeza de que o barulho vinha daqui. Estou certo de que veio do quarto ao lado do meu.

—Não há nenhuma porta entre a sua e a minha? —Anderson perguntou, nervoso.

—Não, senhor! —afirmou Herr Jensen, bruscamente —Pelo menos não havia essa manhã.

—Ah, e essa noite? — continuou Anderson.

—Não tenho certeza. —o advogado admitiu, hesitante.

De repente, a voz lamuriosa que cantava no quarto ao lado foi sumindo, e o cantor começou a rir sozinho, bem baixinho. O som fez os três se arrepiarem.

Depois, silêncio.

—Então, — disse o advogado —o que me diz, Sr. Kristensen? O que significa tudo isto?

—Céus!—exclamou Kristensen—Como posso saber? Não sei mais do que os senhores, cavalheiros. E espero não ter que ouvir esse som novamente.

—Eu também.— concordou Herr Jensen, e murmurou alguma coisa de si para si. Anderson teve a impressão que eram as últimas palavras do Saltério9, “omnis spirittis laudet Dominum10, mas não teve certeza.

—Temos que fazer alguma coisa.— sugeriu Anderson—Nós três. Vamos investigar o quarto ao lado!

—Mas o quarto ao lado é o de Herr Jensen —lamentou o gerente—Não vai adiantar nada, ele acabou de vir de lá.

—Não sei, — retrucou Jensen—mas creio que este cavalheiro pode ter razão. Temos que ir ver.

As únicas armas de defesa que encontraram foram um pedaço de pau e um guarda-chuva. O grupo saiu no corredor, não sem alguns calafrios. Estava um silêncio mortal fora do quarto, mas uma luz brilhava por baixo da porta ao lado. Anderson e Jensen aproximaram-se. Jensen virou a maçaneta e deu um puxão súbito na porta.

Nada. A porta manteve-se teimosamente fechada.

Herr Kristensen, poderia ir buscar o empregado mais forte que o senhor tiver? —pediu Jensen.— Temos de levar isto até ao fim.

O gerente concordou e saiu correndo, feliz de poder se afastar da ação. Jensen e Anderson ficaram no corredor olhando para a porta.

É o número 13. —observou Anderson.

—Sim. Ali está a sua porta, e do outro lado está a minha. —confirmou Jensen

—Meu quarto tem três janelas durante o dia. —disse Anderson, tentando suprimir uma risadinha nervosa.

—Misericórdia, o meu também! —o advogado exclamou, virando-se para Anderson. Ao fazer isso, ficou de costas para a porta.

Foi então que a porta se abriu, e um braço se esgueirou para fora e o arranhou em cheio no ombro. O braço estava envolto em um tecido de linho amarelado e esgarçado, e o que dava para ver da pele estava coberto por uma pelagem comprida e acinzentada.

Anderson só teve tempo de puxar Jensen para longe da porta, soltando um berro de pavor e nojo. Quando a porta se fechou de novo, os dois ouviram uma gargalhada gutural.

Jensen não chegou a ver nada, mas quando Anderson apressadamente revelou o risco que ele tinha acabado decorrer, ficou em um estado de enorme pânico, e sugeriu que os dois desistissem daquele plano e se trancassem juntos em um dos quartos.

No entanto, enquanto ele falava, o gerente chegou trazendo consigo e dois homens fortes. Os três pareciam muito alarmados. Jensen os recebeu com uma torrente e explicações que não encorajou ninguém a se arriscar a fazer algo.

Os homens largaram os pés-de-cabra que tinham trazido consigo, e se negaram com veemência a arriscar seus pescoços entrando naquele covil do diabo. O gerente estava terrivelmente nervoso e, consciente de que se mexessem naquele mistério seu hotel estaria arruinado, decidiu que não tinha coragem de enfrentá-lo. Felizmente, Anderson não concordou e tentou animar o pequeno exército desmoralizado.

—É essa a coragem dinamarquesa da qual tanto ouvi falar? Não é o alemão que está aí dentro, e mesmo que fosse, somos cinco contra um.

Os dois empregados e Jensen se animaram e foram até a porta.

—Parem! — exclamou Andersen —Não se precipitem! O senhor fica aqui com a lanterna, e um de vocês dois arromba a porta, mas não entrem até ela ceder.

Os homens concordaram, e o mais jovem avançou, levantou o pé de cabra e desferiu um golpe contra o painel superior da porta. O resultado não foi em nada o que eles esperavam. A madeira não se quebrou nem se partiu—só fez um som baço, como se ele tivesse batido numa parede dura. O homem deu um berro, deixou a ferramenta cair e começou a esfregar o cotovelo. Isso fez com que todos se voltassem para olhar para ele.

Então, Andersen se voltou de novo para a porta.

Ela tinha sumido.

O gesso da parede parecia encará-lo de volta. Nele, havia uma enorme rachadura justamente onde o pé de cabra tinha batido.

O quarto número 13 tinha desaparecido.

Por um breve momento, os três ficaram perfeitamente paralisados olhando para a parede branca. Ouviram um galo cantar no quintal lá embaixo, e quando Anderson se virou na direção do som, pôde ver pela janela no fim do longo corredor que o amanhecer já estava clareando o céu do leste.

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—Talvez—disse o gerente, com hesitação— os senhores prefiram mudar de quarto essa noite. Quem sabe não preferem dividir um quarto?

Nem Jensen nem Anderson se opuseram à sugestão. Sentiam-se mais inclinados a ficar juntos depois daquela experiência. Acharam mais conveniente que, quando cada um voltou ao seu quarto para pegar apenas os pertences que precisariam para passar a noite, o outro acompanhasse levando consigo uma vela. Ambos perceberam que tanto o quarto 12 quanto o 14 agora tinham três janelas.

Na manhã seguinte grupo voltou a se reunir no quarto número 12. O gerente, como seria de se esperar, queria a todo custo evitar ter que contratar ajuda externa, mas era imperativo que o mistério ligado àquela parte da casa fosse logo esclarecido. Assim, os dois criados foram instruídos a assumir a função de carpinteiros. Tiraram toda a mobília que ficava no lado do quarto que compartilhava a parede com o quarto 14 e, ao custo de diversas tábuas irremediavelmente danificadas, abriram o assoalho.

O leitor, naturalmente, deve estar imaginando que eles encontraram um esqueleto, talvez o de Nicolas Francken. Mas não foi isso o que aconteceu.

O que encontraram entre as vigas que sustentavam o assoalho foi uma pequena caixa de cobre. Dentro dela, havia um documento em velino, cuidadosamente dobrado, no qual estava escrito um texto de cerca de vinte linhas. Tanto Anderson como Jensen (que por acaso era paleógrafo amador) ficaram muito animados com a descoberta, e juraram que iam descobrir o que havia por trás daquele extraordinário fenômeno.

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Eu tenho uma cópia de um tratado de astrologia que nunca li. Ele tem uma xilogravura de Hans Sebald Beham no frontispício, representando um grupo de sábios sentados à volta de uma mesa. Esse detalhe poderia permitir que um especialista identifique o livro. Não consigo lembrar-me do seu título, pois ele não está à mão nesse momento; mas suas contracapas estão cobertas de palavras, e, nos dez anos que o tive em minha posse, nunca fui capaz de determinar sequer a direção em que este texto deveria ser lido, muito menos em que língua está escrito.

Ao examinar o documento encontrado na caixa de cobre, Anderson e Jensen estavam em uma situação bastante parecida.

Depois de dois dias de contemplação, Jensen, que era o mais ousado dos dois, arriscou o palpite de que a língua era latim ou dinamarquês Antigo. Anderson não fez nenhuma conjectura, e já estava inclinado a entregar a caixa e o pergaminho para a Sociedade Histórica de Viborg, para que os guardassem em seu museu.

Eu ouvi a história completa da boca dele, alguns meses depois quando passeávamos em um bosque perto de Upsala. Tínhamos acabado de visitar a biblioteca local onde nós, ou melhor, eu dei boas gargalhadas por conta de um contrato no qual um certo Daniel Saltheniius—que posteriormente fora professor de Hebraico em Königsberg—vendeu sua alma a Satanás.

Anderson não achou muita graça.

—Que jovem mais idiota—disse ele, se referindo a Salthenius, que ainda era um estudante universitário quando cometeu a dita indiscrição—será que não sabia com o que estava se metendo?

Quando sugeri as teorias habituais, ele só grunhiu. Naquela mesma tarde, ele me contou tudo o que o leitor já conhece; mas se recusou oferecer qualquer conclusão nem concordou com aquelas que eu apresentei.

Notas da Tradutora

1 Erik V, rei da Dinamarca de 1249 a 1286. O apelido “Kipling” faz referencia à uma moeda que perdeu o valor (isto é que teve o valor “cortado”, ou “kipling”, do verbo “cortar” ou “klippe”), uma crítica ao rei que não era considerado honesto. Sua insistência em exercer um domínio absoluto sobre a Igreja e a aristocracia acabou virando a nobreza contra ele. Erik V morreu sob circunstâncias misteriosas: durante uma caçada, o rei e seus acompanhantes iam para a casa de campo real em Viborg, mas devido ao mau tempo precisaram passar a noite em uma igreja local. Ali, assassinos disfarçados de frades franciscanos atacaram o rei enquanto ele dormia, desferindo-lhe 56 facadas. Segundo uma lenda, um dos assassinos, Stig Andersen, teria matado o Erik V por vingança, pois o rei teria tido um caso com sua esposa.

2 Igreja Matriz

3 Prefeitura

4 Arquivo Real

5 “Book of Moses”, ou “Livro de Moisés” é uma referência ao livro do Gênesis, da Bíblia. O livro 22 do Gênesis relata a história de Abrãao e Isaque.

6 Arquivo Nacional

7 Empregada doméstica ou camareira

8“Causa da guerra”- na terminologia política e diplomática, a expressão se refere a um ato de agressão suficientemente grave para justificar uma declaração de guerra. Usado aqui de forma figurativa.

9 Conjunto dos 150 Salmos Bíblicos atribuídos ao Rei Davi.

10 “Que todas as almas louvem o Senhor”

Um comentário em “O Número 13- M.R. James

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