Feroz- Zora Neale Hurston

Imagem de capa: Raphael Renter (detalhe)

“Spunk”1 é o terceiro conto publicado de Zora Neale Hurston e ajudou a lançar sua carreira de autora de ficção (Hurston era mais conhecida como etnógrafa, antropóloga e folclorista). O texto foi publicado pela primeira vez na revista Opportunity, A Journal of Negro Life, direcionada para o público afro-americano e ganhou a segunda colocação no concurso de contos da publicação. “Spunk” é considerada a primeira história de terror do século XX escrita por um(a) autor(a) negro(a), e foi inspirada pelas crenças e superstições do folclore afro-americano que Hurston estudava como folclorista e etnóloga.

Zora Neale Hurston ambienta a história em um cenário parecido com aquele em que ela mesma cresceu: uma cidade afro-americana no interior da Flórida, por isso as falas dos personagens são marcadas pelo dialeto e oralidade deste grupo étnico-social específico. Como o Brasil não tem um dialeto equivalente (nossos dialetos são marcados pela regionalidade, não pela etnicidade), escolhi usar um falar que consideraríamos mais próximos de um dialeto “caipira” ou rural, para marcar essa caraterística do texto.

….

I

Um gigante de pele acastanhada subiu pela única rua do vilarejo e entrou no bosque cheio de palmeiras, levando uma mulher pequena e bonita, amorosamente agarrada ao braço.

—Óia só, meu povo! —chamou Elijah Mosley, dando um tapinha maroto na própria coxa. —Lá vai eles, mais empinado que uma pipa e mais afiado que um prego.

Todos os clientes na lojada venda foram até a porta tentando fazer ar de desinteresse, mas sem muito sucesso.

—Eita nós! — Walter Thomas exclamou— Mas veja só! Mas é isso que eu gosto no Feroz Banks! Ele num tem medo é de nada nesse mundo de meu Deus! Nadinha! Ele monta aquele tronco lá na serralheria igual que nem anda por aí com a muié dos otro. Quando aquela serra pegou o Tes’ Miller e moeu ele todim, foi o Feroz que subiu lá. Nós tudo tava era com medo ´té de chegá perto!

Uma figura de ombros caídos, vestindo um macacão largo demais para o seu tamanho, entrou nervoso porta adentro e a conversa silenciou-se. Os homens se entreolharam, surpresos.

—Me dá um refrigerante. Uma salsaparilha2. — o recém-chegado pediu, e foi beber de pé no canto do balcão, junto de um pote aberto de pés de porco em conserva.

Elijah cutucou Walter e virou-se com um expressão de seriedade fingida para o recém-chegado.

—E aí, Joe, tudo indo? Como vai a patroa?

Joe tomou um susto e quase deixou cair a garrafa que segurava em sua mão. Engoliu várias vezes com dificuldade, seus lábios tremiam.

— Lige, num faz um negócio desse. —Walter resmungou.

— Ela acabô de passá por aí agorinha mesmo, foi pra ali, ó. — e fez um gesto com a mão, indicando o bosque.

Joe sabia muito bem que sua mulher tinha ido naquela direção. Ele sabia que os homens que estavam na venda tinham visto, e além disso também sabia que os homens sabiam que ele sabia. Ficou ali parado em silêncio por algum tempo, encarando o nada, o pomo-adão- tremendo nervosamente pela garganta abaixo e acima. Dava para ver a dor que o atormentava em seus olhos, em seu rosto, em suas mãos, até na curvatura desanimada de seus ombros. Ele pousou a garrafa no balcão. Não bateu a garrafa com força, apenas a soltou silenciosamente, e começou a mexer na fivela do seu suspensório.

—Bem, eu vou atrás dela hoje. Vou lá pegá ela. O Feroz já tá abusando.

Enfiou a mão no bolso da calça e tirou uma navalha, grande e brilhante, e passou o polegar molhado pela lâmina.

—Agora cê tá falando feito homi, Joe. Claro que isso é assunto seu, mas dá gosto vê um homi de corage.

Joe Kanty colocou uma moeda no balcão, e saiu para rua, tropeçando.

O entardecer veio se esgueirando através do mato. Ike Clarke acendeu a lamparina a óleo, e os mosquitos começaram imediatamente a esvoaçar em volta. Os homens riam alegremente pelas costas de Joe enquanto o observavam caminhar trôpego rumo ao bosque.

—Cê não devia ter falado nada pra ele, Lige. Olha só, o homi ficô doido! —Walter ralhou.

—Mas é pra ficar mesmo! Num é nem decente um homi ficar aceitando o que ele aceita.

—O Feroz vai é matá ele.

—Cê num sabe disso. Num dá pra saber essas coisa. Ele pode até dar uns tapa nele, se ele fô lá atrapalhá, mas o Feroz num vai matá um homi desarmado. Aquela navalha num vai nem fazê cocéga no Feroz, e o Joe num tem corage de ir trás dele, sabendo que o Feroz anda por aí com aquela 45 da época do exército. Ele foi lá só pra se amostrá pra nós. Ele vai é escondê aquela navalha na primeira raiz de palmeira que encontrá, depois vai voltá pra casa pra dormir. Nem vem me falar daquele nego frouxo. E ele não viu o Feroz com a Lena semana passada, e ficou lá só resmungando que o Feroz tinha que deixa a muié dele em paz?

—E o que foi que o Feroz disse? — Walter interrompeu—Eu até gosto do sujeito, mas num é certo ele ficá andando por aí com a Lena Kenty, só porque o Joe num gosta de brigá.

—Aí é que você se engana, Walter. Num é porque o Joe não é de briga, é porque o Feroz qué a Lena pra ele. O Joe podia sê mais brabo que um gato do mato, que o Feroz ia se engraçar com ela do mesmo jeito. Ele vai atrás de tudo o que ele qué. Como eu ia dizendo, o Feroz falou pro Joe bem na cara dele que a Lena era dele.

‘Falou mesmo assim: ‘chama ela. Chama ela pra vê se ela vai. ‘ E o Joe ficou lá choramingando, falando ‘A muié tem que sabê quem manda nela, respondê quando chama. Eu num sô seu marido, Lena? ‘ E a Lena olhô pra ele como quem tava era com nojo e nem respondeu, nem se mexeu. Aí o Feroz garrô no braço dela e disse “Lena, tu é minha. Agora eu vou trabalhá pra tu e vou te protegê, enquanto eu vivê cê num vai precisar de ninguém para te dar nem um pedaço de pão, nem um corte de ropa, nem uma telha de teto. Eu vou pegá as madeira pra fazê sua casa amanhã. Vai pra casa e pega suas coisa.” E a Lena falou: “Aquela casa é minha. Foi papai quem me deu.” e o Feroz bem respondeu “Então, cê num vai abrir mão do que é seu. Mas quando tiver lá, cê num esquece que é minha, cê num vai deixá nenhum homi ficá cheio das liberdade.” A Lena olhou pra ele com uns olhão tão cheio de amor que parecia que ia té transbordá.

‘O Feroz viu, o Joe viu também, e ficou ali com os beiço tremendo, e o gogó galopando dentro do pescoço igual um cavalo de corrida. Tenho certeza que ele nem consegue mais engoli direito desde que o Feroz se ajuntou com a Lena. É só o que ele faz. Já, já ele tá aqui de volta, engolindo e tremendo os beiço com se fosse falá alguma coisa sem consegui.

—Mas ele num fez foi nada?

—Não, nadinha, nadinha. Só ficou lá parado. O Feroz pegô a Lena pelo braço e foi-se embora como se num tivesse acontecido nada, e Joe ficou lá olhando té eles sumi por aí. Que muié que vai querer um homi desse? Tô só esperando pra ver o que ele vai dizê quando voltá.

II

Mas Joe Kanty não voltou. Nunca mais.

Os homens na venda ouviram o disparo cortante de uma pistola ao longe, em algum lugar dentro do bosque. Logo, Feroz apareceu, caminhando calmamente até a venda com seu chapéu Stetson preto meio de lado como sempre e Lena no braço.

Lena soluçava, apavorada.

—Então, —Feroz anunciou, tranquilamente—Joe apareceu lá com uma faca, e eu tive que matá ele.

Ele mandou Lena de volta para casa e levou os homens para ver Joe, lá no bosque, caído no chão, torcido, ainda com a navalha na mão direita.

—Tão vendo minhas costa? Minha ropa tá cortada. Ele veio por trás e tentou me matar, mas eu peguei ele direitinho, foi de um tiro só.—explicou Feroz

Todos os homens encararam Elijah, com olhares cheios de reprovação.

—Leva ele e planta ele em Stoney lonesome. —Feroz disse, sem mostrar preocupação. — Eu num queria matá ele, mas foi ele que me forçô. O covarde foi atacar um homi pelas costa.

Feroz deu meia-volta e foi para onde sabia que sua amada estava chorando, preocupada com ele, e ninguém ficou no seu caminho. Depois, de volta à venda, todos falaram em prendê-lo até que o xerife voltasse de Orlando, mas ninguém fez nada.

O caso era claramente de legítima defesa; o julgamento foi rápido e Feroz saiu do fórum como um homem livre. Ele podia voltar a trabalhar, cavalgando a perigosa máquina que jogava toras de madeira na serra que rugia, gemia e cortava. Ele podia passear pelas alamedas sombreadas com seu violão. Estava livre para andar pelos bosques de novo; livre para voltar para Lena.

Então foi isso ele fez.

III

—O que tu acha, Walt? —Elijah perguntou na noite seguinte. —O Feroz tá ajeitando pra casá com a Lena.

—Não? O Joe nem esfriô ainda! Nem sabia que o Feroz era do tipo de casá.

—Pois ele é. —Elijah retrucou. —Já pegou as coisa da Lena e levou ela pra casa do Bradley. Ele vai comprar a casa. Pois é como eu falei proceis tudo na noite que o Joe morreu. O Feroz é doido pela Lena. Ele num qué que o povo fique falando dela, por isso essa pressa toda. E essa história do gato do mato, hein?

—Que gato do mato, Lige? Num ouvi nada disso, não.

—E não, é? Então… anteonte, de noite, foi a primeira noite que o Feroz e a Lena passaro junto lá na casa nova. Quando eles tava indo dormir parece que tinha um gato do mato grande, um lince, todo preto, isso mesmo, todinho preto, rondando a casa e rosnando. Aí o Feroz pegou a arma e saiu pra atirá nele, e o bicho ficou ali, encarando ele, olhando ele bem nos olho, rosnando pra ele. O Feroz ficou tão apavorado que nem conseguiu atirá. Ele disse que aquilo não é um gato do mato. Ele jura de pé junto que é a alma do Joe que escapou do inferno!

—Humph! — fungou Walter, — Depois do que ele fez, é bom mesmo ele ficar com medo. O Joe pode muito bem ter voltado pra assombrar ele, pra ele não casá com a Lena. Aposto que ele vai ficá voltando. Sabe o que eu acho? Joe era um homi mais valente que o Feroz.

Houve um burburinho generalizado de escárnio.

—É verdade! — Walter continuou— Ele foi com uma navalha atrás de um sujeito que ele sabia que tava com uma arma, que ele sabia que atirava bem, também. E o Joe tinha medo do Feroz, morria de medo dele. Mesmo assim ele foi. Demorô pra ele criá coragem. E o Feroz num tem medo de brigá, ele num tem medo de nada! E o Joe foi lá, foi lá pra enfrentá um homi que tinha tudo que ele não tinha. Cês tudo sabe que o Joe só tinha a Lena, e ele não queria mais nada que não fosse a Lena. Isso aí só pode sê uma assombração. Onde já se viu gato do mato, lince preto!?

—E tem mais! — um dos homens interrompeu — O Feroz tava cuspindo marimbondo hoje, porque a serra se soltou e quase pegou ele. Aí, o técnico veio, deu uma olhada e disse que tava tudo funcionando direito. O Feroz é que devia tá muito perto da serra. Então ele disse que alguém tinha empurrado ele, mas num tinha ninguém nem perto. Eu fiquei foi feliz quando acabô o turno. Aquele homi me dá medo quando ele fica azougado. Ele é capaz de te dar uma surra conversada só se olhá ele torto.

IV

Os homens reuniram-se na noite seguinte em um clima diferente, sem risos.

Não havia mais gracejos.

—Escuta, Lige, cê vai lá vê o Feroz?

—Não, acho que não, Walter. Pra falá a verdade eu tô meio cabreiro. O Feroz morreu feio, morreu praguejando. Cê sabe que ele tava crente que tinham amaldiçoado a vida dele.

—Senhô amado, quem ele achava que ia fazê um negócio desse?

—O Joe.

—O Joe Kanty? E como?

—Walter, eu acho que vô pra lá. Acho que a Lena vai gostar se eu fô.

—Mas o que foi que ele disse, Lige?

Elijah não respondeu até deixarem para trás a luz da venda e começarem a andar pela escuridão da rua.

—Eu tava botando umas ripa de madeira na máquina e o Feroz caiu. Eu nem consegui agarrá ele, a serra pegou ele em cheio… foi feio. Eu e o Miller puxamo ele pra fora, mas já num tinha remédio mais. Qualquer um via que já num tinha jeito. A primeira coisa que ele disse foi “Ele me empurrô, Lige, aquele cão sarnento me empurrô pelas costa”. Ele tava cuspindo sangue quando respirava. Nós botou ele em cima duma pilha de serragem virado pro leste, pra ele morrê em paz. Ele segurou a minha mão ´té o fim, Walter, e falando: “Foi o Joe…ele num tinha corage de me encará de frente…mas eu vô pegá aquele filho da mãe, quando eu chegar lá, o inferno vai ficar quente demais pra ele. Eu senti ele me empurrá!” E foi assim que ele morreu.

—Se os morto consegue brigá, vai ter uma bela duma peleja pra lá do rio Jordão, porque eu acredito que o Joe tá pronto pro Feroz, e num deve de tá mais com medo, não… eu tenho pra mim que foi o Joe mesmo que empurrô ele.

Chegaram à casa. Os lamentos de Lena eram profundos e ensurdecedores. Ela tinha enchido a sala de flores de magnólia que liberavam uma fragrância doce e pesada. Os organizadores do velório andavam de lá para cá, sussurrando assustados. Toda a gente do povoado estava lá, até o Velho Jeff Kanty, o pai de Joe, que algumas horas antes teria tido medo de chegar a menos de três metros de Feroz, ficou ali de pé, encarando o gigante caído, triunfante, como se seus velhos dedos fossem os dentes de aço que tinham ceifado aquela vida.

A placa de resfriamento3 consistia de três tábuas de 16 polegadas montadas sobre cavaletes, e um lençol encardido era a mortalha.

As mulheres comiam com apetite as carnes assadas para o funeral, perguntando-se quem seria o próximo amor de Lena. Os homens sussurravam conjecturas grosseiras por entre goladas de uísque.

. . . . . . . . .

Notas da Tradutora:

1“Spunk” é um termo informal que significa “coragem” ou “determinação” em inglês. Fica claro que esse é o apelido do personagem Spunk devido à percepção do grupo de que ele é um homem valente. Geralmente, nomes próprios e apelidos não são traduzidos, mas a dicotomia entre coragem/ferocidade e covardia é um dos tema principais da história e a palavra “Spunk” simboliza essa ideia, resolvi traduzir “Spunk” como “feroz”, um termo que indica tanto a valentia do personagem quanto as características selvagens da entidade que aparece mais tarde na narrativa.

2Salsaparrilha é uma planta geralmente usada para fazer chá (no Brasil ela pode ser encontrada no sul), mas que nos Estados Unidos era comumente usada como saborizante para refrigerantes, quando bebdas carbonadas começaram a ser produzidas industrialmente.

3Placa de resfriamento (“cooling board” no original) era uma placa de madeira com furos na qual um cadáver era colocado temporáriamente para ser preparado para o funeral, ou caso não houvesse um caixão disponível. Para evitar a decomposição era possível colocar um recipiente com gelo em baixo dela, e os buracos permitiriam a passagem do frio e a drenagem de fluidos. Diversos blues e canções do sul dos EUA mencionam cooling boards, como por exemplo, “Death Letter” de Son House e “Cooling Board Blues” de Blind Willie McTell.

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