Dia da Consciência Negra: livros de terror de autores negros para incluir na sua coleção.

Saudações, leitor noturno!

Hoje é Dia da Consciência Negra no Brasil. Nesse feriado a gente celebra a história do povo negro e sua contribuição para a formação da nossa cultura e identidade nacional. Então, mantendo a tradição de fazer listas de leitura arrepiantes para ocasiões especiais, é claro que a Biblioteca Noturna tem várias sugestões para você que quer conhecer um pouco mais da literatura de terror produzida por autores e autoras negros. Como sempre, escolhi dar preferência a livros traduzidos no Brasil, o que infelizmente deixou muita coisa boa de fora.

(Uma pequena observação antes de prosseguir. Quando falamos de “literatura negra” nesse artigo, estou me restringindo à experiência negra nas Américas, em especial Brasil e Estados Unidos e, em menor medida na Europa. Essa escolha se deve simplesmente ao fato de ser o tipo de literatura com a qual tenho mais familiaridade. Trocando em miúdos: autores que eu conheço e portanto posso recomendar. Mas futuramente, podemos sim ter um artigo mais focado na literatura produzida no continente africano.)

O terror e o horror, são em vários níveis, gêneros bastante brancos. Claro que se falamos de romances góticos, literatura vitoriana e outros gêneros do terror dos séculos XVIII e XIX, estamos, em geral, falando de uma conjuntura histórica e social na qual autores brancos, e geralmente homens, representam a vasta maioria, pois eram eles quem tinham acesso mais fácil à escrita e à publicação. Mas no século XIX a literatura negra começa a aparecer em formas publicadas, tanto nas narrativas de ex-escravizados (as “slaves narratives” dos EUA), quanto em textos de intelectuais e ativistas, e dos filhos e netos de escravizados ou ex-escravizados que vão encontrando sua voz dentro da literatura enquanto homens e mulheres livres, como Machado de Assis, Maria Firmina dos Reis, José do Patrocínio e Lima Barreto. No século XX, a escrita negra consegue se estabelecer como uma força literária dentro de diversos estilos e temáticas, e movimentos como a Renascença do Harlem, a luta pelos direitos civis, e mais recentemente o fortalecimento da militância político-social, assim como movimentos de matriz afro (tanto laicos como religiosos), ou de caráter feminista e periférico foram fortalecendo essas vozes negras.

Entre os muitos estilos nos quais a voz e a experiência de autores e autoras negros encontraram espaço, o terror não é dos mais comuns. A vasta maioria dos autores de terror ainda é branca, talvez porque o terror seja um gênero por vezes escapista, e a experiência literária negra é bastante enraizada em questões muito reais, do ponto de vista econômico e social. Outra possível razão é que o mercado editorial ainda espera, e até certo ponto exige, que autores negros falem apenas de “temas negros” como racismo (que, na verdade todos deveríamos debater). Mas há sim muitos escritores negros escrevendo terror tanto quanto uma forma de abordar questões raciais quanto como forma literária viável para expressar sua individualidade e interesses pessoais.

Essa lista oferece apenas uma pequena amostra desse universo de autores.

Amada – Toni Morisson

(Tradução: José Rubens Siqueira. Companhia das Letras)

Eu já incluí “Amada” na lista de autoras para o dia internacional da mulher, lá em março, mas nenhuma lista de livros escritos por autores negros (e principalmente autoras negras) está completa sem esse que é um dos meus favoritos. “Amada” é um livro que, geralmente, não é considerado “de terror” no sentido clássico. Muito dessa percepção vem do fato de o terror ser, muitas vezes, considerado um gênero literário menor, logo um clássico romance histórico como “Amada” não poderia ser terror. Mas a verdade é que “Amada” é, provavelmente um dos melhores livros de terror da literatura norte-americana.

Inspirado em parte no trágico caso real de Margaret Garner, “Amada” conta história de Sethe, uma mulher que se libertou da escravidão com os filhos, mas que continua a ser assombrada pelo passado, em uma narrativa na qual fantasmas (possivelmente) reais e simbólicos se misturam. O horror em “Amada” não está apenas na entidade sobrenatural que atormenta Sethe, sua filha Denver e seu companheiro Paul D., mas principalmente na crueldade abjeta do sistema escravagista e suas práticas brutais. É um livro que aborda não apenas os horrores da escravidão, um tema já visitado por vários autores e autoras, mas também um tópico bem menos discutido: o trauma coletivo da escravidão e o impacto psicológico naqueles que a sentiram na carne. Sethe e Paul D. carregam marcas profundas tanto físicas quanto psicológicas que os amarram a uma história de sofrimento, já Denver, que nasceu livre, precisa conviver com a herança de violência ao mesmo tempo em que tenta encontrar seu lugar no mundo e olhar para o futuro. Todo esse sofrimento assume a forma de uma entidade que explora os medos, arrependimentos e dores dos protagonistas sem nenhuma piedade.

A Balada do Black Tom-Victor Lavalle

(Tradução: Petê Rissatti. Editora Morro Branco)

HP Lovecraft é conhecido por duas coisas: sua obra monumental, na qual ele criou todo um gênero conhecido como “Terror cósmico” que mescla horror e ficção científica … e por ter sido extremamente racista e xenófobo. Sua visão preconceituosa do mundo aparece de forma clara em muitos de seus contos, nos qual minorias e estrangeiros são representados negativamente, as vezes até como fonte ou catalizadores do terror e o medo/desconfiança do outro e da alteridade é combustível para o horror cósmico. Durante a infância e a adolescência, o nova-iorquino Victor Lavalle adorava ler as histórias de terror de Lovecraft. Mas conforme foi crescendo e amadurecendo, ele começou a reconhecer a marca do racismo do autor em sua obra. Essa revelação teve um grande impacto em Lavalle e em sua identidade como escritor, já que HP Lovecraft despertou seu amor pela literatura de terror, mas também fez com que ele refletisse sobre sua própria posição enquanto autor negro escrevendo em um gênero majoritariamente branco.

“A Balada do Black Tom” representa tanto um tributo à obra genial de Lovecraft quanto uma crítica incisiva ao seu racismo. Lavalle escolheu um dos contos mais abertamente preconceituosos de Lovecraft, “O Horror em Redhook”, e contou a história de novo, substituindo a perspectiva do protagonista original, um policial branco, pela perspectiva de um músico negro. No original, o detetive Malone investiga o “caso Robert Suydam”, um homem misterioso e recluso, que pode ter uma conexão com vários sequestros. Na versão de Lavalle, o mistério de Robert Suydam é revelado pelos olhos de Tommy Tester, um músico do Harlem que Suydam involve em seus negócios sinistros. “A Balada do Black Tom” é uma combinação perfeita de horror lovecraftiano com uma análise sensível da experiência negra nos Estados Unidos, tanto nos anos 20, quando se passa a história, quanto na atualizade, já que questões como o racismo e a violência policial abordados no texto continuam relevantes e mais discutidas agora do que nunca.

O Ano das Bruxas- Alexis Henderson

(Tradução: Dandara Palankof. Editora Darkside)

“Bruxa”. A palavra imediatamente nos faz imaginar uma mulher mexendo poções mágicas em um caldeirão e conjurando feitiços, geralmente malevolos. Talvez também evoque imagens de fogueiras e mulheres sendo queimadas vivas. Mas sempre, ou quase sempre mulheres. Em nosso imaginário coletivo, menos na cultura ocidental de matriz européia, a bruxaria é sempre feminina, e isso se dá por uma boa razão. Historicamente as mulheres sempre foram as guardiãs de conhecimentos e de rituais: em sociedades tradicionais as mulheres são parteiras mas também são aquelas que preparam os mortos para o enterro, e também são curandeiras, que conhecem plantas medicinais e sabem como usá-las, ou seja, detém conhecimentos sobre o corpo, a saúde, a vida e a morte. Por isso muitas mulheres sofreram perseguições e chegaram mesmo a ser mortas, por ousarem conhecer tais coisas, em sociedades nas quais elas não podiam deter qualquer poder ou independência.

Em “O Ano das Bruxas”. Alexis Henderson resgata o mito da bruxa, e com ele toda a mística do feminino que resiste frente às convenções e moralismos de uma sociedade puritana. Imanuelle Moore, criada pelos avós, carrega o estigma de ter nascido de pais que não eram casados, cresce na cidade de Bethel, dominada pelo “Profeta”. Immanuelle tenta se encaixar nos padrões e ser devota e submissa como as demais mulheres. Mas ao visitar a floresta na qual habitam as almas das bruxas mortas, ela descobre uma herança mágica, deixada por sua mãe.

Projeto Lakewood-Megan Giddings

(Tradução: Mabi Costa. Editora Primavera Editorial)

Ao longo da história, a ciência (ou melhor a pseudo-ciência) foi usada como uma arma de opressão sistêmica contra minorias. Mulheres eram “diagnosticadas” como insanas simplesmente por terem opiniões próprias ou representarem um incômodo para maridos e pais que queriam se livrar delas, e povos africanos, indígenas e aborígenes eram tratados como “evolutivamente inferiores” e exibidos em “zoológicos humanos” com justificativas supostamente científicas. No caso dos negros norte-americanos, existe também uma sinistra história de experimentação científica. Alguns exemplos incluem o estudo de Tuskegee, em que homens negros diagnosticados com sífilis receberam tratamentos falsos, pois os cientistas queriam usá-los para estudar a progressão da doença, o trabalho de James Marion Sims, o “pai da ginecologia moderna” que conduziu experimentos brutais em mulheres escravizadas e ainda o caso de Henrietta Lacks, uma paciente de câncer cujo material foi colhido e usado em experimentos sem o seu consentimento.

Por essas razões a experimentação científica e o horror com elementos de ficção científica volta e meia dão as caras no terror produzido por criadores negros.Um bom exemplo disso é o cineasta Jordan Peele, que usa a o horror científico em seus dois filmes mais famosos “Corra” e “Nós”. “Projeto Lakewood” de Megan Giddins bebe da mesma fonte de ansiedade e desconfiança. Quando a avó de Lena Johnson morre deixando apenas dívidas, a jovem precisa abandonar a faculdade e procurar um emprego para sustentar a família. Ela acaba recebendo uma proposta de emprego na remota cidade de Lakewood, no Michigan, que parece boa demais para ser verdade: um bom salário, plano de saúde e moradia incluída. Em troca Lena só precisa participar de uma pesquisa científica… Megan Giddins é uma autora jovem, cujo texto mistura terror e ficção científica com feminismo e temas relevantes para a geração “milennial” como a busca da estabilidade econômica em um mundo em constante mudança, um mercado de trabalho sempre mais exigente e relações sociais e intergeneracionais cada vez mais tensionadas.

Kindred: Laços de sangue- Octavia Butler

(Tradução: Carolina Caires Coelho. Editora Morro Branco)

Se por um lado a ciência ou pseudo-ciência, muitas vezes aparece na literatura afro-americana como catalizador do horror, também há vários autores negros que abraçaram a ficção científica. A literatura afro-americana frequentemente se volta para o passado, para a reflexão de traumas e dívidas históricas, como a escravidão, a segregação, conflitos, etc, mas a literatura mais recente faz o caminho inverso, voltando-se para o futuro e contemplando possibilidades e soluções na interseção entre a diáspora e a cultura afro com a tecnologia. Esse movimento literário é conhecido como afro-futurismo, e está tão bem estabelecido e definido que já chegou até ao cinema na forma do blockbuster “Pantera Negra”. Se há um nome inescapável na literatura de ficção científica negra e no Afro-futurismo, esse nome é Octavia Butler. Butler foi um dos grandes nomes tanto da ficção científica quando da literatura afro-americana e feminista, e seu trabalho se encontra na interseção de todos esses gêneros, o que o torna absolutamente único.

“Kindred:Laços de Sangue”, é, provavelmente, a obra que melhor ilustra as várias esferas temáticas pelas quais a obra de Butler transita. O livro é narrado em primeira pessoa por uma jovem escritora negra, Dana, que acaba sendo transportada de sua vida normal na Los Angeles de 1976 diretamente para um fazenda em Maryland, na época da escravidão. Dana, precisa então encontrar uma maneira de sobreviver e voltar para casa. Ao colocar uma mulher negra do século XX no cenário da escravidão, Butler aborda questões como raça, dívida histórica e genêro, assim como as possibilidades futuras para a comunidade negra. Embora “Kindred” não seja considerado um livro de terror (ao contrário de “Fledgling” que não entrou na lista por não ter, infelizmente, tradução no Brasil), há nele fortes elementos de terror psicológico, não apenas pela representação dos horrores da escravidão, mas por, basicamente, ser narrado do ponto de vista de um a mulher presa fora do seu tempo, em uma conjuntura qual está sujeita a todo o tipo de violência apenas pela cor da sua pele. Um horror que ainda é muito real.

Horror Noire: A Representação Negra no Cinema- Robin R. Means Coleman

(Tradução: Jim Anotsu. Editora Darkside)

Pense rápido: quais são os seus filmes de terror favoritos? Pensou? Agora tente lembrar quantos personagens negros estão presentes nesses filmes. E se há algum, qual é o tipo de papel que esses personagens representam? A questão da representação de minorias raciais no cinema, especialmente quando falamos em filmes mais populares e comerciais, é bem espinhosa, pois, verdade seja dita, o cinema deixa bastante a desejar no quesito. O cinema de terror, claro, também tem seus problemas de representatividade: é raro ver personagens asiáticos em filmes de terror que não sejam produzidos em países asiáticos, e indígenas ou aborígenes quase só dão as caras quando representam a fonte do horror (o famoso cliché da “casa construída em cima um cemitério indígena”) ou como figuras místicas que auxiliam os protagonistas, como xamãs. Já personagens negros tendem a ficar restritos a papéis secundários, tipo “amigo ou amiga do/a protagonista”, bruxos ou místicos, (mais ou menos cumprindo o mesmo papel dos xamãs indígenas), ou ao eterno cliché do “black dude dies first” (uma expressão que quer dizer “o cara negro morre primeiro” , um tema tão recorrente que o site “tv tropes” dedicado a compilar clichés tem uma página inteira dedicada a ele). Mas há muitos filmes que fogem dessa fórmula, claro. O protagonista do revolucionário “A Noite dos Mortos Vivos” é um homem negro, assim como o carismático vilão da versão original de “Candyman”, e cada vez mais cineastas negros exploram o gênero, como Jordan Peele (“Corra”), Nia Da Costa (o remake de “Cadyman”) e Mati Diop (“Atlantics” ).

O único livro de não-ficção selecionado para a lista, “Horror Noire” é uma necessária história do cinema de terror negro. Robin R. Means, vice-presidente, reitora associada para assuntos de diversidade e professora de comunicação da Universidade Texas A&M, faz uma análise linear da representação do negro no cinema de terror desde os primórdios até as produções mais recentes. Em cada capítulo, além de situar a obra de diretores e atores negros dentro da produção cinematográfica do período, Means também explora as conjunturas sociológicas, econômicas e históricas que influenciam essas produções, assim como o processo de produção em si. O livro também conta com uma excelente bibliografia e uma filmografia, para que o leitor possa explorar por si mesmo os filmes analisados. “Horror Noire” também deu origem a um documentário dirigido por Xavier Burgin para a plataforma de streaming Shudder.

AfroHorror (vários autores, organização:Alec Silva)

O horror/terror não é um dos gêneros mais escritos no Brasil. Não é que os brasileiros não gostem de literatura de terror, pelo contrário, gostam e gostam muito, como podemos ver pelo sucesso de editoras que investem no gênero como Darkside, Wish, Intrínseca e Suma (um selo da Companhia das Letras). Mas o público brasileiro tende a consumir mais literatura de horror norte-americana (ou inglesa), e quase sempre os mesmos autores, Stephen King, Poe, Clive Barker…Enfim os clássicos populares. Claro que isso não quer dizer que autores brasileiros de terror não tenham conquistado o público com seu trabalho, como é o caso de Raphael Montes e Soraya Abuchaim, entre outros. Mas como vimos na introdução desse artigo, se não há tanta representatividade negra na literatura de terror gringa, no Brasil o problema é mais ou menos o mesmo. Espera-se que autores negros escrevam sobre “temas negros”, e nem sempre aqueles que escrevem gêneros fora dessa curva conseguem ser publicados.

A proposta da coletânea “AfroHorror” é justamente preencher essa lacuna. São 17 contos escritos por 12 autores. Cada história contém todos os elementos clássicos que um bom conto de terror deve ter, desde assassinatos, monstroes e o sobrenatural, mas também abrem a porta para o debate sobre o racismo, a identidade negra, a visão do seu lugar e pertencimento no mundo. A seleção inclui Machado de Assis, que não pode deixar de figurar em uma antologia como essa, mas o verdadeiro coração da obra esta nos autores e autoras contemporâneos que tiveram total liberdade para criar sua própria visão do terror. Os contos tem um pouco de tudo: releituras de temas clássicos, regionalismos, paisagens urbanas, horrores sobrenaturais e quotidianos. Indispensável.

A Mulher da Gargantilha de Veludo e outras histórias de Horror- Alexandre Dumas

(Tradução: André Telles & Rodrigo Lacerda. Editora Zahar)

Assim como Machado de Assis, Alexandre Dumas é um autor negro que foi, digamos, “embranquecido” pela história da literatura. Raramente pensamos em Dumas como um “autor negro”. Isso se deve em parte ao fato de que Dumas, filho de um general francês de origem haitiana e neto de um marquês e uma avó escravizada, viveu uma vida privilegiada em uma sociedade majoritariamente branca. Mas também é porque a sua obra, assim como a de Machado de Assis, não aborda temáticas consideradas tipicamente negras. De fato, a obra de Dumas raramente faz alguma alusão à sua etnia, ou aos preconceitos que ele viveu como um homem negro na França do século XIX, mas envereda pela aventura e pelo romance histórico…e também pelo terror.

“A Mulher da Gargantilha de Veludo e outras histórias de Horror” junta em um único volume a novela que dá título ao livro e a curiosa novela-antologia “1001 fantasmas.” Em “A Mulher da Gargantilha de Veludo” Dumas faz uma homenagem ao autor E.T.A Hoffman, mestre da literatura fantástica, ao tranformá-lo em protagonista de um romance delirante com uma bailarina misteriosa durante a Revolução Francesa. Já em “1001 Fantasmas”, Dumas usa uma história principal como fio condutor para contar várias: quando um homem se entrega à polícia, jurando que a cabeça da esposa que ele acabou de decapita está falando com ele, o processo judicial revela que vários outros personagens também tem histórias apavorantes para contar.

Minha irmã, a serial-killer – Oyinkan Braithwaite

(Tradução: Carolina Kuhn Facchin. Editora Kapulana)

Serial killers. Outra figura do terror, tanto real quanto ficcional, que tem um rosto branco. Nesse caso há uma razão para isso, pois de acordo com estudiosos do fenômeno, assassinos em série nos EUA tendem a ser em sua maioria homens brancos. A branquitude do serial killer pode ser um dos muitos fatores envolvidos na sua glamorização, como vemos nos filmes e séries que tendem a pintar o assassino em série como um psicopata carismático, fascinante e superinteligente, como Hannibal Lecter (“Silêncio dos Inocentes”), ou Joe Goldberg (“Você”), ou até torná-los figuras dignas de simpatia ou pena, como Dexter (“Dexter”) ou Norman Bates (“Psicose”) . Claro que isso está bem longe da verdade: assassinos em série são apenas pessoas com um desvio de personalidade muito grave, mas que não são necessariamente mais ou menos inteligentes ou carismáticos que a média. A dificuldade em capturá-los geralmente reside na escolha das vítimas (frequentemente eles escolhem vítimas com as quais a sociedade não se preocupa muito, como prostitutas, pessoas em situação de rua, especialmente menores etc), no padrão que só faz sentido na cabeça deles (o que obriga a polícia a “esperar” que as mortes se acumulem para identificar o padrão) ou no despreparo da polícia mesmo (muitas vezes falta um treinamento específico em psicologia forense, por exemplo). Mas claro que isso não nos impede de ver o serial killer quase como uma figura sobrenatural, que reina no cinema e na literatura de terror em pé de igualdade com fantasmas, vampiros e demônios.

Em “Minha irmã, a serial killer”, a nigeriana Oyinkan Braithwaite subverte o principal cliché do serial killer, colocando uma mulher negra no papel. A história se passa na cidade nigeriana de Lagos e é protagonizada por duas irmãs, Korede e Ayoola. Korede é amargurada e sem-graça enquanto Ayoola é bonita, carismática e popular. Mas quando os namorados de Ayoola começam a desaparecer misteriosamente, fica bem claro que ela tem um distúrbio grave. Korede é a única a perceber o que está acontecendo, e a história é narrada pela sua perspectiva enquanto ela tenta proteger a irmã e impedir outras mortes. O que diferencia essa história de outros livros sobre serial killers não é só o relacionamento entre as irmãs, mas também o senso de humor ácido da narrativa que torna esse thriller tão tenso quanto divertido.

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