A Missa das Sombras- Anatole France

Imagem de Capa: Anthony Delanoix

“La Messe des Ombres” foi publicado na coletânea L’Étui de Nacre (O Estojo de Madrepérola), de 1892.

Eis o que o sacristão da igreja de Santa Eulália, em Neuville-d’Aumont, contou-me, bem à vontade sob o toldo da taverna Cheval-Blanc, em uma bela noite de verão, enquanto bebíamos uma garrafa de vinho velho à saúde de um falecido que naquela manhã mesmo ele tinha enterrado com toda a honra, em uma mortalha banhada de lágrimas de prata.

—Meu pobre pai, que Deus o tenha (este é o sacristão que fala) era coveiro quando vivo. Ele tinha uma personalidade agradável, o que era sem dúvida um efeito de sua profissão, porque todo o mundo sabe que as pessoas que trabalham em cemitérios costumam ter bom humor. A morte não os assusta: eles nem pensam nela. Eu mesmo que estou aqui falando com o Senhor, entro num cemitério à noite, tão tranquilo como entro em baixo do caramanchão do Cheval Blanc. E se, por algum acaso, encontrar um morto-vivo, nem me preocupo, afinal ele pode muito bem estar indo tratar dos seus negócios tanto quando eu estou indo tratar dos meus. Conheço os hábitos e o caráter dos mortos. Sei de coisas sobre esse assunto que nem os sacerdotes sabem. E se contasse tudo o que vi, o senhor ficaria espantado. Mas nem todas as verdades devem ser contadas, e meu pai, que por sinal adorava contar histórias, não revelou nem um décimo de tudo o que ele sabia. Por outro lado, ele repetia muitas vezes as mesmas histórias, e pelo que me lembro, ele me contou a história de Catherine Fontaine umas cem vezes.

Catherine Fontaine era uma senhora idosa que meu pai se lembrava de ter conhecido quando ele ainda era criança. Não me surpreenderia se ainda houvesse uns velhinhos por aí que se lembram de ouvir falar dela, porque ela era muito conhecida e respeitada, embora fosse pobre. Morava na esquina da Rue aux Nonnes, ali onde o senhor pode ver uma torre junto de um casarão velho, meio destruído que dá para o jardim das freiras ursulinas. Naquela torre, tem uma figuras e inscrições meio apagadas. O falecido pároco de Santa Eulália, Monsieur Levasseur, dizia que era latim, que dizia que o amor é mais forte do que a morte. Claro que para ele isso significava o amor de Deus.

Catherine Fontaine vivia só naquela casinha. Ela era rendeira. O senhor sabe que as rendas aqui da região já foram muito famosas. Ninguém sabia se ela tinha família nem amigos. O povo dizia que aos dezoito anos ela tinha se apaixonado pelo jovem Cavalheiro D’Aumont-Cléry, e que tinha ficado noiva dele em segredo. Mas as pessoas de bem não acreditavam nisso, achavam que era invencionice, porque Catherine Fontaine tinha mais jeito de dama que de artesã. Ela ainda guardava por debaixo dos cabelos brancos os traços de uma grande beleza, tinha um ar triste e qualquer um podia ver no seu dedo um anel daqueles em que os ourives gravam duas mãozinhas unidas, que antigamente se tinha o costume de usar nos noivados. O senhor logo vai saber a razão.

Catherine Fontaine viveu de forma santa. Ela costumava ir à igreja todas as manhãs; não importava o tempo que fazia, ela ia à missa das seis em Santa Eulália.

Então, em uma noite de Dezembro, enquanto estava recolhida em seu quarto, ela foi despertada pelo som dos sinos; achando que eles estavam tocando para anunciar a primeira missa, a piedosa senhora vestiu-se e desceu para a rua, onde a noite estava tão escura que não se podia ver as casas e nem uma luzinha no céu negro. E havia tal silêncio naquelas trevas que não se ouvia sequer um cão latindo ao longe, era como estar longe de todas as criaturas vivas.

Mas Catherine Fontaine, que conhecia cada pedra do caminho tão bem que podia ir à Igreja de olhos fechados, logo chegou à esquina da rue des Nonnes e da rue de la Paroisse, onde está a casa de madeira que tem uma árvore de Jessé1, esculpida numa Viga.

Quando chegou, viu que as portas da Igreja estavam abertas e dali saía uma grande claridade de luz de velas. Ela prosseguiu e, ao atravessar a porta, se viu em meio a uma numerosa assembleia que enchia a igreja. Mas não reconheceu nenhum dos participantes, e ficou surpresa ao ver todas aquelas pessoas vestidas de veludo e brocado, com penas nos chapéus e carregando espadas na moda dos tempos antigos. Havia cavalheiros com bengalas de castão de ouro e senhoras com penteados enfeitados de rendas presas em pentes de adorno. Cavaleiros de São Luís2 levavam pela mão damas que escondiam atrás dos leques seus rostos maquiados, dos quais só se podia ver as têmporas cobertas de pó de arroz e as pintinhas desenhadas no canto do olho.

Todos tomaram seus lugares em silêncio, e enquanto caminhavam, não se podia ouvir nem o som de passos nem farfalhar de tecidos. Os corredores estavam cheios de jovens artesãos3, com blusões marrons, calças e meias azuis, que seguravam pela cintura jovens muito bonitas, de faces rosadas e olhos tímidos. Junto das pias de água benta, camponesas de saias vermelha e corpetes enlaçados estavam sentadas no chão com a tranquilidade dos animais domésticos, enquanto rapazes, de pé atrás deles, arregalavam os olhos, girando seus chapéus entre os dedos. Todos aqueles rostos silenciosos pareciam eternizados em um único pensamento, doce e triste.

Ajoelhada em seu lugar habitual, Catherine Fontaine viu o padre andar em direção ao altar, precedido por dois desservants4. Ela não reconheceu nem o padre nem os clérigos. A missa começou. Uma missa silenciosa. Não se ouvia sequer o som dos lábios se movendo, nem o toque da campainha, tocada em vão. Catherine Fontaine sentiu-se observada por um homem misterioso sentando ao seu lado e, ao olhar para ele, quase sem quase virar a cabeça, reconheceu o jovem Cavalheiro D’Aumont-Cléry, que ela um dia tinha amado, que estava morto havia quarenta e cinco anos. Ela o reconheceu por um pequeno sinal que ele tinha sob a orelha esquerda e especialmente pela sombra que suas longas pestanas negras faziam em sua face. Ele estava vestido com um traje de caça, vermelho riscado de dourado, o mesmo que ele usava no dia em que a encontrou na floresta de Saint-Leonard, quando lhe pediu um pouco de água, e lhe roubou um beijo. Ele tinha conservado sua juventude e beleza. Seu sorriso ainda exibia os dentes de jovem lobo. Catherine lhe disse, bem baixinho:

“Meu Senhor, a quem amei, a quem ofertei aquilo que uma moça tem de mais precioso, Deus o tenha em sua graça! Que Ele, enfim, me inspire a expiar o pecado que cometi consigo; pois é verdade que, ainda que meus cabelos estejam brancos e eu perto da morte, ainda não me arrependo de tê-lo amado. Mas, meu amado perdido, meu belo cavalheiro, diz-me quem são estas pessoas vestidas à moda dos velhos tempos, que aqui assistem a esta missa silenciosa.”

O Cavalheiro D’Aumont-Cléry respondeu com uma voz mais frágil que um suspiro e mais límpida que o cristal:
“Catherine, estes homens e mulheres são as almas do purgatório que ofenderam a Deus pecando como nós pecamos ao preferir o amor terreno. Mas não estão separados de Deus por isso, pois seu pecado foi, como o nosso, sem maldade.

‘Enquanto estão separados daqueles que amavam na terra, eles purificam-se no fogo lustral do Purgatório, sofrem a dor da ausência, e este sofrimento é para eles o mais cruel. Eles são tão infelizes que um anjo do céu teve pena de suas dores de amor. Com a permissão de Deus, ele reúne todos os anos, por apenas uma hora à noite, cada um deles com a pessoa que amou em sua igreja paroquial, onde podem assistir a missa das sombras de mãos dadas. Essa é a verdade. Se me é dado vê-la aqui antes da tua morte, Catherine, foi apenas pela vontade de Deus.”

E Catherine Fontaine respondeu-lhe:

“Eu gostaria de morrer para ficar bonita novamente como era no passado, meu cavalheiro perdido, quando lhe dei de beber naquela floresta.”

Enquanto conversavam aos murmúrios, um cônego muito idoso passava, apresentando um grande prato de cobre para os fiéis, que nele depositavam moedas antigas, já há muito fora de circulação: écus de seis libras, florins, ducados e ducatons, Jacobus, nobles à rose, e várias outras moedas caíam em completo silêncio. Quando o prato de cobre foi apresentado a ele, o cavalheiro depositou um louis tão silencioso quanto as demais moedas de ouro e prata. Em seguida, o velho cônego parou na frente de Catherine Fontaine, que vasculhou em seus bolsos sem encontrar nem um centavo. Então, não querendo recusar uma oferta, ela tirou do dedo o anel que o cavalheiro lhe tinha dado no dia anterior à sua morte, e o colocou na bacia de cobre. Ao cair, o anel de ouro soou como um pesado dobrar de sino e com esse ruído retumbante, o cavalheiro, o cônego, o celebrante, os clérigos e toda a assembleia desvaneceram-se, os círios se apagaram e Catherine Fontaine ficou sozinha na escuridão.

Tendo assim terminado sua história, o sacristão engoliu um grande gole de vinho, ficou pensativo por um momento e retomou a palavra, nos seguintes termos:

—Eu lhe contei a história exatamente como meu pai a contou para mim tantas vezes, e acredito que ela seja verdadeira pois está de acordo com tudo o que observei sobre os hábitos e costumes daqueles que já se foram. Desde menino, eu converso muito com os mortos, e sei que é do feitio deles voltar para os seus amores.

É por isso que os avarentos, depois de mortos vagam pela noite juntos dos tesouros que esconderam em vida. Ficam de guarda junto de seu ouro, mas esse cuidado, ao invés de lhes servir de alguma coisa, só os prejudica. Não é raro encontrar dinheiro enterrado quando se procura em algum lugar assombrado. Até os maridos falecidos voltam para atormentar suas esposas quando elas se casam de novo; eu mesmo posso citar vários que cuidaram melhor das esposas depois de mortos do que quando eram vivos. E nisso, estão muito errados, pois não é justo que os defuntos voltem para fazer cenas de ciúmes. Mas eu apenas conto o que já observei. É preciso ter cuidado quando se resolve casar com uma viúva. A propósito, a história que acabo de lhe contar é verdadeira, e lhe digo como foi provada.

Na manhã seguinte àquela noite extraordinária, Catherine Fontaine foi encontrada morta em seu quarto. E os guardas da igreja de Santa Eulália descobriram no prato de cobre que era usado para recolher o dízimo, um anel de ouro gravado com duas mãos unidas. Além disso, não sou homem de ficar inventando histórias só por graça. Pedimos outra garrafa de vinho?

Notas da tradutora:

1 A Árvore de Jessé é uma representação pictórica da árvore genealógica de Jesus Cristo, de acordo com a Bíblia. Ela recebe esse nome em referência a Jessé, pai de Davi, em quem a árvore geralmente começa. Essa representação pode ser vista em pinturas, vitrais e relevos escultóricos tanto em igrejas quanto em residências particulares.

2 Cavaleiro de São Luís é o título conferido a quem tenha recebido a medalha da Ordem Real e Militar de São Luís (em francês: Ordre Royal et Militaire de Saint-Louis), estabelecida pelo rei Luís XIV em 1693. A medalha foi criada para honrar oficiais que tivessem prestado pelo menos dez anos de serviço no exército real, e poderia ser conferida a qualquer oficial, independentemente de origem social.

3 No texto original “artisan” se refere a um a categoria de trabalhadores manuais autônomos e qualificados, geralmente membros de uma guilda (organização similar aos atuais sindicatos.).

4 Desservants eram uma classe de párocos regionais que existiu apenas na França. Durante o Antigo Regime eram os responsáveis por conduzir os ritos em paróquias nas quais o padre oficiante estava impedido de cumprir suas funções. A partir de 1801, o termo desservant passou a indicar párocos considerados de “segunda classe” por serem nomeados pelo bispo, mas sem a aprovação do governo, e que, por isso, cumpriam apenas funções auxiliares.

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