Conde Magnus- M.R.James

Imagem de capa: Mohammed Idris Djoudi

“Count Magnus” foi publicado pela primeira vez em 1904, na coletânea “Ghost Stories of an Antiquary”

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Como chegaram às minhas mãos os documento que me permitiram escrever esta história é algo que o leitor descobrirá nas páginas que se seguem. Porém, é necessário prefaciar o que extraí deles com uma descrição detalhada do que exatamente tenho.

A documentação consiste, portanto, em parte de uma série de anotações para um livro de viagem, algo comum nas décadas de 1840 e 50. O “Diário de uma Residência na Jutlândia e Ilhas Dinamarquesas” de Horace Marryat é um bom exemplo do gênero. Esses livros, em geral, tinham como tema algum canto pouco conhecido do continente, eram ilustrados com xilogravuras ou gravuras em placas de aço e davam detalhes de acomodações de hotel e estradas como agora podemos encontrar em qualquer guia de viagem bem pesquisado. Seus autores conseguiam informação principalmente de relatos de conversas com intelectuais estrangeiros, hospedeiros espirituosos e camponeses prosadores. Em resumo, eram livros ‘tagarelas’.

Os documentos que tenho em mãos começam com a ideia de juntar material para um livro desse tipo, mas conforme os escritos avançavam, eles assumiam cada vez mais os contornos de registro de uma experiência pessoal, e continuou assim até quase as últimas páginas.

O escritor era um certo Sr. Wraxall. Meu conhecimento sobre este cavalheiro se baseia inteiramente nas evidências providas por seus escritos. Deles, pude deduzir que se tratava um homem que já tinha passado da meia-idade, que possuía alguns bens privados, e era completamente sozinho nesse mundo. Aparentemente, não tinha residência fixa na Inglaterra, sendo um costumeiro hóspede de hotéis e pensões. É possível que ele tenha feito planos se fixar em um futuro que nunca se realizou. Também acho provável que o incêndio do Pantechnicon1 na década de 1870 tenha destruído muito do material que poderia revelar seus antecedentes, já que ele menciona duas vezes que tinha bens arquivados naquele estabelecimento.

É ainda mais evidente que o Sr. Wraxall tinha publicado um livro sobre uma temporada de férias que passara na Bretanha. Não posso dizer mais que isso sobre seu trabalho, pois uma pesquisa diligente da bibliografia disponível me convenceu que ele se escreveu algo mais, só pode tê-lo feito anonimamente ou sob algum pseudônimo.

Quanto a sua pessoa, não me foi difícil formar uma opinião superficial. Deve ter sido um homem inteligente e culto. Parece que chegou perto ser pesquisador da faculdade em Oxford—Brasenose, acredito, a julgar pelo calendário. É evidente que seu maior defeito era o excesso de curiosidade, um defeito que pode ser uma qualidade para um viajante, mas pelo qual nosso viajante em particular pagou bem caro.

Naquela que viria a ser sua última viagem, ele estava planejando escrever um livro. Ele tinha decidido que a Escandinávia, uma região pouco conhecida para os ingleses de quarenta anos atrás, seria um tema interessante. Ele deve ter encontrado alguns livros antigos sobre história sueca, ou algum volume de memórias que o convenceu de que havia demanda para um livro que descrevesse uma viagem pela Suécia intercalada com episódios da história de algumas importantes famílias. Portanto, ele obteve cartas de apresentação junto a algumas pessoas ilustres na Suécia, e partiu para lá no início do verão de 1863.

Não é necessário falar sobre suas viagens pelo norte, nem sobre sua estadia de algumas semanas em Estocolmo. Só é preciso dizer que algum sábio que ali residia, lhe deu uma pista sobre uma importante coleção de documentos familiares pertencentes aos proprietários de uma antiga mansão na região de Västergötland, e conseguiu para ele a permissão para examiná-los.

Chamarei esta mansão, ou herrgård, de Råbäck (pronunciado mais ou menos como Robeck), embora não seja esse seu nome. Trata-se de uma das melhores construções de seu estilo em todo o país, e na ilustração em Suecia Antiqua et Moderna de Dahlenberg, de 1694, ela tem exatamente o mesmo aspecto que os turistas ainda podem ver hoje em dia. Foi construída logo depois de 1600 e é, grosso modo, muito parecida com uma casa inglesa da mesma época tanto no material, tijolos vermelhos com detalhes em pedra, quanto no estilo. O homem que mandou construí-la era descendente da ilustre casa De la Gardie, e seus descendentes ainda detém a posse dela. De la Gardie é o nome pelo qual os designarei quando a sua menção se tornar necessária.

Eles receberam o Sr. Wraxall com muita gentileza e cortesia, e insistiram que eles se hospedasse em sua mansão enquanto durasse a pesquisa. Mas, presando por sua independência, e sem confiar muito em seu domínio do sueco, ele preferiu se instalar na hospedaria do vilarejo, o que acabaria sendo bastante confortável durante os meses de verão. Este arranjo implicava uma curta caminhada diária até a mansão e de volta, um pouco mais de um quilometro e meio. A residência ficava em um terreno, protegida, digamos escondida, por grandes árvores antigas. Perto dela havia um jardim murado, e mais além, um bosque margeando um dos pequenos lagos daqueles que existem por toda a região. A alguma distância, estavam os muros da propriedade, e depois deles um outeiro íngreme, um pedaço de rocha ligeiramente coberto de terra, sobre o qual erguia-se uma capela, cercada por árvores altas e escuras.

Para olhos ingleses, era um edifício curioso. A nave e os corredores eram baixos, e cheios de bancos e galerias. Na Galeria ocidental havia um belo órgão antigo com tubos prateados, pintado com cores alegres. O teto era plano, e nele um artista do século XVII pintara um estranho e hediondo “juízo final”, cheio de chamas turvas, cidades em ruína, navios incendiados, almas chorosas, e demônios marrons e sorridentes. Havia belas coroas de bronze penduradas do teto, o púlpito parecia uma casa de bonecas, coberto com pequenos querubins de madeira e santos, e uma plataforma com três ampulhetas estava conectada à mesa do pregador.

São características que podem ser vistas em muitas igrejas da Suécia até hoje, mas o que distinguia esta em particular era uma adição feita ao prédio original: na ponta leste do corredor norte, o construtor da mansão erigiu um mausoléu para si e para a sua família. Era uma construção de tamanho razoável, com oito lados, iluminada por uma séries de janelas ovais. O telhado era abobadado, e no topo dele havia um tipo objeto em formato de abóbora do qual saía uma agulha, um elemento muito querido pelos arquitetos suecos. O telhado tinha uma camada externa de cobre e foi pintado de preto, enquanto as paredes eram assustadoramente brancas, combinando com as da igreja. Não era possível acessar o mausoléu pela igreja. Ele tinha um portal separado e degraus próprios no lado norte.

Depois do pátio da Igreja o caminho leva a aldeia, e não se demora mais de três ou quatro minutos para chegar na porta da pousada.

No primeiro dia de sua estadia em Råbäck, o Sr. Wraxall encontrou a porta da igreja aberta, e pode observar tudo o que acabo de descrever. No entanto, ele não conseguiu entrar no mausoléu. Olhando pelo buraco da fechadura, ele viu que havia belas efígies de mármore e sarcófagos de bronze, e uma riqueza de ornamentos armoriais, o que o deixou ansioso para explorar tudo.

Os documentos que ele tinha vindo examinar na mansão revelaram ser exatamente o que ele queria para o seu livro. Havia correspondência familiar, diários e livros de contabilidade dos primeiros senhores da propriedade, muito cuidadosamente guardados e claramente escritos, cheios de detalhes divertidos e pitorescos. Aqueles documentos revelavam que o primeiro De La Gardie parecia ser um homem forte e capaz. Pouco depois da construção da mansão, houve um período de conflito no distrito, quando os camponeses se revoltaram e atacaram diversos chateaux, causando algum dano. O proprietário de Råbäck foi um dos que coibiram a revolta, e havia referências às execuções dos líderes e outras punições severas, infligidas sem qualquer piedade.

O quadro que retratava o tal Magnus de la Gardie era um dos mais bem-feitos da mansão, e o Sr. Wraxall o estudou com bastante interesse depois de um dia de trabalho. Ele não fez nenhuma descrição, mas acredito que aquele rosto deve tê-lo impressionado não por sua beleza ou por indicar um caráter bondoso, mas sim por seu ar de autoridade. De fato, ele apenas afirma que o conde Magnus era um homem quase que inacreditavelmente feio.

Naquele dia, o Sr. Wraxall almoçou com a família, e voltou no final da tarde, quando ainda estava dia claro.

—Tenho que lembrar—escreve ele—de perguntar ao sacristão se ele poderia me deixar entrar no mausoléu da igreja. É evidente que ele tem acesso, pois eu o vi hoje a noite de pé nas escadas, e acho que estava trancando ou destrancando a porta.

Acredito que no dia seguinte o Sr. Wraxall teve uma conversa com o estalajadeiro. A princípio me surpreendeu a riqueza de detalhes com que ele descreveu a conversa. Porém, logo percebi que os documentos que eu estava lendo eram, ao menos no começo, material para o livro que ele pretendia escrever, e que ele pretendia que fosse um daqueles diários de viagem admitem a introdução de assuntos abordados em conversas.

Seu objetivo, diz ele, era descobrir se ainda existia algum registro sobre o Conde Magnus de la Gardie e suas atividades, e se a opinião popular a respeito dele era favorável ou não. O Sr. Wraxall acabou descobrindo que o Conde, decididamente, não era muito querido. Se os trabalhadores se atrasavam nos dia que tinham de trabalhar nas terras dele2, seu direito como senhor da região, eram colocados no cavalo de madeira3, açoitados ou marcados a ferro no pátio da mansão. Houve um ou dois casos nos quais homens que ocupavam terras cujos limites invadiam o domínio do senhor tiveram suas casas misteriosamente incendiadas no meio de uma noite de inverno, com suas famílias ainda lá dentro. Mas o que mais parecia preocupar o estalajadeiro—pois ele voltou ao assunto mais de uma vez—era que o Conde tinha participado da Peregrinação Negra, e trazido algo, ou alguém, de volta consigo.

O leitor, naturalmente, estará se perguntando, assim como se perguntou o Sr. Wraxall, o que seria esta tal Peregrinação Negra. Mas a sua curiosidade sobre o assunto, tal como a dele, deve permanecer insatisfeita por enquanto. O estalajadeiro, evidentemente, não estava inclinado a dar qualquer explicação sobre o assunto, e, ao ser chamado por um momento, afastou-se, claramente com pressa. Ao voltar, só assomou na porta por um momento para dizer que tinha sido chamado para Skara, e que não voltaria até a noite.

Então o Sr. Wraxall partiu para seu dia de trabalho na mansão, insatisfeito. Os documentos que ele estudava logo fizeram seus pensamentos irem para outras direções, pois ele tinha de dar uma olhada na correspondência entre Sophia Albertina em Estocolmo e sua prima já casada, Leonora, que morava em Råbäck, entre os anos de 1705 e 1710. As cartas eram excepcionalmente interessantes pois lançavam luz sobre a cultura da época na Suécia, como pode atestar qualquer um que tenha lido a edição completa em que foram publicadas pela Comissão de Manuscritos Históricos da Suécia.

À tarde, ele tinha terminado de ler tudo, e depois de devolver as caixas em que eram guardadas para os seus devidos lugares na prateleira, continuou, muito naturalmente, a retirar os volumes mais próximos, a fim de determinar qual deles poderia ser mais informativo sobre o principal objeto de estudo do dia seguinte. A prateleira a que ele se dirigiu era ocupada principalmente por uma coleção de livros-caixa, escritos com a letra do primeiro Conde Magnus. Mas um deles não era um livro de contas, e sim um livro de tratados de alquimia e outros estudos, escritos com outra caligrafia e datados do século XVI. Como não era muito familiarizado com a literatura alquímica, o Sr. Wraxall perdeu algum tempo só para identificar os títulos e o começo de cada tratado: O Livro da Fênix, Livro das Trinta Palavras, Livro do Sapo, Livro de Míriam, Turba Philosophorum, e assim por diante6. Depois ele anuncia, com uma certa pompa, sua satisfação em descobrir, numa página originalmente em branco mais ou menos no meio do volume, algumas anotações do próprio Conde Magnus, entituladas ‘Liber Nigrae Peregrinatoris’. É verdade que se tratava apenas de algumas linhas, mas havia o suficiente para provar que a crença a que o estalajadeiro se referia naquela manhã era da época do conde Magnus, e que o próprio parecia compartilhar dela. Eis a tradução do que estava escrito:

“Se alguém deseja obter uma vida longa, se ele quer obter um mensageiro fiel e ver o sangue de seus inimigos, é necessário que ele primeiro vá para a cidade de Korazin, e lá saudar o príncipe. . . .” Aqui havia uma palavra apagada de forma um tanto desleixada, de modo que o Sr. Wraxall teve certeza de que se tratava de aëris (“do ar”). Mas não havia mais do texto copiado, apenas uma linha em latim: “Quære reliqua hujus materiei inter secretiora” (“veja o resto desta matéria entre as coisas mais privadas”).

Era inegável que esta descoberta lançava uma luz macabra sobre os gostos e crenças do conde. No entanto, para o Sr. Wraxall, separado daqueles documentos por quase três séculos de distância, a ideia de que um homem severo como o conde pudesse se interessar em algo mágico como a alquimia, apenas o tornava mais pitoresco.

Depois de contemplar o retrato do conde por um longo tempo, o Sr. Wraxall começou seu caminho de volta para a estalagem, com a cabeça cheia de perguntas sobre ele. Nem sequer prestava atenção ao seu entorno, nem percebia os aromas da floresta ou luz do entardecer sobre o lago. Ficou surpreso quando, de repente, parou e percebeu que já estava no portão do pátio da igreja, míseros minutos depois de almoçar. Seus olhos contemplaram o mausoléu.

—Ah, Conde Magnus—ele disse—aí está você. Eu gostaria muito de vê-lo.

“Como tantos homens solitários” escreve ele “tenho o hábito de falar sozinho em voz alta; mas ao contrário dos particípios gregos e romanos, eu não espero uma resposta. Certamente, e talvez felizmente neste caso, não foi nem uma voz nem uma pessoa que me respondeu. Apenas me assustei com o som de um objeto metálico derrubado no chão pela moça que, suponho, estava limpando a igreja. O Conde Magnus, acredito, descansa em paz.”

Naquela mesma noite, o estalajadeiro, depois de ouvir o Sr. Wraxall mencionar que queria ver o secretário ou diácono (como seria chamado na Suécia) da paróquia, o apresentou ao funcionário da igreja, ali mesmo na sala de estar da pousada. Logo, combinaram uma visita à tumba de la Gardie para o dia seguinte, ao que se seguiu uma breve conversa.

O Sr. Wraxall, lembrando que uma das funções dos diáconos escandinavos é orientar os candidatos à crisma, resolveu refrescar sua própria memória acerca de um certo assunto Bíblico.

—O senhor poderia me dizer algo sobre Korazin7?

O diácono pareceu assustado, mas prontamente lembrou-lhe como aquela aldeia fora amaldiçoada no passado.

—Certamente, —respondeu o Sr. Wraxall— ela não passa de uma ruína agora.

—Acredito que sim.—respondeu o diácono— Eu ouvi de um de nossos sacerdotes mais veteranos que o Anticristo nasceria lá; há histórias…

—Que histórias seriam essas? —indagou o Sr. Waxall.

—Histórias, como estava dizendo, das quais já me esqueci. —respondeu o diácono, e logo depois disso desejou-lhe boa noite e partiu.

O estalajadeiro agora estava sozinho, e à disposição do Sr. Waxall, que não estava inclinado a poupá-lo de seu interrogatório.

Herr Nielsen, eu descobri algo sobre a Peregrinação Negra. É mais fácil me dizer o que o senhor sabe. O que o Conde trouxe consigo?

Talvez os suecos sejam mais lentos para responder perguntas, ou talvez fosse só o estalajadeiro. Não sei ao certo, mas o Sr. Waxall escreve que o estalajadeiro ficou pelo menos um minuto olhando para ele antes de dizer alguma coisa. Então, ele se aproximou de seu hóspede, e com muito esforço, disse:

—Sr. Waxall, só posso lhe contar uma pequena história, e não mais que isso. Nada mais que isso. Mas o senhor não deve me fazer nenhuma pergunta quando eu tiver terminado. No tempo do meu avô, quer dizer há noventa e dois anos, dois homens disseram. “O conde está morto, e não nos importa. Hoje à noite vamos caçar de graça no bosque que fica nas terras dele.” Aquele bosque comprido na colina, que o senhor viu, atrás de Råbäck. Pois bem, as pessoas que ouviram isso, avisaram: “Não, não vão lá. Vão encontrar pessoas andando por lá que não deviam estar andando por aí. Pessoas que deveriam estar descansando, não andando” Os dois homens apenas riram. Não havia guardas para vigiar o bosque, porque ninguém queria viver lá. A família não morava mais na casa. Eles podiam fazer o que bem entendessem.

‘Pois bem, eles foram para o bosque, à noite. Meu avô ficou sentado bem aqui nesta sala. Era verão, e a noite estava clara. Com a janela aberta, ele podia ver o bosque, e podia ouvir.

‘Então ele se sentou aqui, acompanhado de mais dois ou três homens, e ficaram ouvindo. No começo não ouviram nada, então ouviram alguém, o senhor sabe como o bosque fica longe, mas conseguiram ouvir alguém gritando, gritando como se a parte mais profunda da sua alma estivesse sendo arrancada de seu corpo. Todos que estavam aqui nesta sala se agarraram um ao outro e ficaram aqui escutando por quase uma hora. Então ouviram outra pessoa, mas dessa vez há uns trezentos metros de distância. Ouviram essa pessoa rindo muito alto. Não era nenhum dois dois homens que tinham ido lá, na verdade, todas as testemunham disseram que aquela risada não parecia humana. Depois ouviram uma porta pesada bater.

‘Assim que o dia começou a clarear, foram procurar o sacerdote. E disseram: “Padre, coloque suas vestes e venha enterrar estes homens, Anders Bjornsen e Hans Thorbjorn.”

‘O senhor entende? Eles tinham certeza de que aqueles dois homens estavam mortos. Então, foram todos para o bosque. Meu avô nunca esqueceu disso. Ele dizia que eles mesmos pareciam cadáveres. Até o padre estava branco de pavor. Quando foram buscá-lo, ele tinha dito: “Eu ouvi um grito no meio da noite, e ouvi uma gargalhada depois. Se não esquecer o que ouvi, acho que nunca mais vou conseguir dormir.”

‘Então, eles foram, e encontraram os dois homens perto da entrada do bosque. Hans Thorbjorn estava de pé com as costas apoiadas contra uma árvore, e não parava de empurrar alguma coisa com as mãos—ficava empurrando com o se tivesse alguma coisa em cima dele. Mas não tinha nada. Ou seja, ele não estava morto. Os homens o tiraram do bosque e o levaram para casa em Nykjoping. Ele morreu antes do inverno. Sempre empurrando alguma coisa que não existia com as mãos.

‘Anders Bjornsen também foi encontrado; mas já estava morto. E o que vou lhe contar sobre Anders Bjornsen…ele era um homem bonito, mas quando o encontraram, o rosto dele tinha desaparecido; a carne toda tinha sido arrancada do crânio. O senhor entende? O meu avô nunca esqueceu isso. Eles deitaram o corpo numa maca que tinham levado, e cobriram a cabeça dele com um lençol. O padre foi andando na frente, e os outros começaram a cantar o salmo dos mortos. Quando chegaram no final do primeiro verso, um deles caiu, o que estava segurando o lado da maca onde estava cabeça do corpo. Os outros olharam para trás, e viram que o lençol tinha deslizado, e os olhos de Anders Bjornsen estavam escancarados, olhando; pois ele não tinha pálpebras para fechar. Foi aí que não aguentaram mais. O sacerdote cobriu o corpo, mandou buscar uma pá, e eles o enterraram ali mesmo.

No dia seguinte, o Sr. Wraxall registrou que o diácono mandou chamá-lo logo depois do café da manhã, e o levou para a igreja e para o mausoléu. Ele viu que a chave do mausoléu estava pendurada em um prego perto do púlpito. Ocorreu-lhe que, já que a igreja nunca ficava trancada, teria sido fácil entrar no mausoléu, se o monumento tivesse despertado seu interesse antes. Ao entrar, viu que a construção não era imponente. As lápides, em sua maioria grandes estruturas dos séculos XVII e XVIII, eram solenes ainda que exageradas, e epitáfios e heráldica eram abundantes. Na área central da sala abobadada havia três sarcófagos de bronze, cobertos de ornamentos finamente executados. Dois deles tinham. como é de costume na Dinamarca e na Suécia, um grande crucifixo de metal na tampa. O terceiro, que parecia pertencer ao conde Magnus, tinha esculpida na tampa, em vez da cruz, uma efígie em tamanho natural, e ao longo da borda havia faixas ornamentadas representando diversas cenas. Uma delas era uma batalha, com canhões a cuspir fumaça, cidades amuralhadas, e tropas de lanceiros. Outra representava uma execução. Numa terceira, um homem corria a toda velocidade por entre as árvores com os cabelos ao vento e as mãos estendidas.

Ele era perseguido por uma criatura estranha.

Era difícil saber que os artista tivera a intenção de representar um homem e não tinha conseguido criar a semelhança necessária, ou se tinha desenhado a forma monstruosa intencionalmente. Em vista da habilidade com que o resto do desenho fora feito, o Sr. Wraxall sentiu-se mais inclinado a adotar a segunda teoria. A figura era de estatura excessivamente baixa, e, quase toda escondida por um manto com capuz que se arrastava pelo chão. A única parte daquela forma que se projetava para fora das vestes não parecia nem um braço nem uma mão. O Sr. Wraxall a compara com o tentáculo de um peixe-demônio, e prossegue: “Vendo isso, pensei comigo mesmo: Isto, que só pode ser algum tipo de representação alegórica, um monstro perseguindo uma alma atormentada, pode ser o que deu a origem a história sobre o conde Magnus e seu misterioso acompanhante. Também há aqui um caçador, vejamos como é representado: sem dúvida trata-se de um demônio tocando uma trombeta” Mas, no fim das contas, não havia ali tal figura fantástica, apenas o que parecia ser um homem encapuzado de pé sobre um outeiro que, apoiando-se em um cajado, observava a perseguição com um interesse que o artista tinha tentado expressar em sua atitude.

O Sr. Wraxall notou que o sarcófago estava trancado com três cadeados de aço maciço finamente trabalhados. Observou que um deles estava aberto, e jogado no chão. Não desejando atrasar o diácono nem perder mais do tempo que poderia estar aplicando aos estudos, saiu do mausoléu e dirigiu-se à mansão.

“É curioso” observa ele “como fazer um caminho familiar faz com que nossos pensamentos se desliguem completamente das coisas ao nosso redor. Ontem à noite, pela segunda vez, não vi por onde estava indo. Tinha planejado uma visita privada ao mausoléu para copiar os epitáfios, quando, de repente, me vi, como tinha feito antes, fazendo a curva no portão da igreja e, acredito, que cantei ou chamei: “Está acordado, conde Magnus?” “Está dormindo, conde Magnus?”, e mais alguma coisa que agora não me lembro. Pareceu-me que já devia estar agindo desta maneira tola havia algum tempo.”

Ele encontrou a chave da mansão no lugar onde esperava encontrá-la, fez a maior parte das anotações que tinha planejado. Aliás, ficou lá até escurecer.

“Devo ter me enganado” continua ele “ao dizer que um dos cadeados do sarcófago do conde estava aberto. Hoje pude ver dois estão soltos. Os coloquei cuidadosamente no parapeito da janela, depois de tentar, sem sucesso, fechá-los. O outro ainda está bem fechado e, embora eu acredite que é um cadeado de mola, não consigo descobrir como se abre. Se tivesse conseguido destrancá-lo, quase temo que teria tomado a liberdade de abrir o sarcófago. É estranho, o interesse pessoal que sinto por este antigo aristocrata que era, receio eu, tão feroz e cruel.”

O dia seguinte seria a última estadia do Sr. Wraxall em Råbäck. Ele recebeu cartas relacionadas com certos investimentos que tornavam desejável que regressasse à Inglaterra. Seu trabalho com a documentação estava praticamente pronto e a viagem seria longa, portanto, ele decidiu fazer suas despedidas, dar uns retoques finais a suas anotações e partir.

Estes retoques finais e despedidas, no entanto, acabaria levando mais tempo do que ele esperava. A hospitaleira família insistiu que ele ficasse para almoçar com eles. Almoçaram às três, mas já eram quase seis e meia quando ele saiu dos portões de ferro de Råbäck. Já que fazia aquele caminho pela última vez, concentrou-se em cada passo de sua caminhada ao longo do lago, determinado a absorver todo a ambientação do lugar e do momento. Chegando ao cume do outeiro da Igreja, deteve-se por longos minutos olhando para a ilimitada paisagem de bosques próximos e distantes, escurecidos sob um céu de verde líquido. Quando finalmente voltou-se para ir embora, ocorreu-lhe que deveria despedir-se do conde Magnus e do resto dos De la Gardies. A igreja estava apenas a 20 metros de distância, e ele sabia onde ficava a chave do mausoléu. Não demorou muito até que estivesse frente a frente com o grande sarcófago de cobre, e, como de costume, falando sozinho em voz alta.

“Você pode ter sido um pouco malandro no seu tempo, Magnus, mas por mais que eu quisesse vê-lo, ou, melhor dizendo…Só um momento, alguma coisa bateu no meu pé…”

‘Rapidamente movi meu pé, e alguma coisa caiu no chão com um estrondo. Era o terceiro e último dos cadeados que trancavam o sarcófago. Abaixei-me para pegá-lo e, Deus é testemunha de que o que escrevo é a mais absoluta verdade, antes que pudesse me levantar, ouvi um som de dobradiças de metal rangendo, e vi claramente a tampa movendo-se.

Posso ter-me comportado como um covarde, mas por nada eu ficaria ali mais um momento sequer. Saí daquele edifício pavoroso mais rapidamente do que escrevo estas palavras—mais rápido do que posso descrever— mas, e isso é o que mais me apavora, não consegui virar a chave na fechadura para trancá-lo. Sentado em meu quarto, escrevendo esses fatos passados a menos de vinte minutos atrás, tento me lembrar se o ruído de metal rangendo ainda continuou, mas não consigo me lembrar. Só sei que havia algo além do já escrevi que me assustou, mas não consigo me lembrar se foi algo que vi ou ouvi. O que foi que eu fiz?”

Pobre Sr. Wraxall! Ele partiu de volta para a Inglaterra no dia seguinte como planejado, e chegou em segurança a seu destino. Mas a julgar pela mudança em sua caligrafia e por suas anotações sem sentido, ele voltou destruído. Um dos diversos cadernos que vieram parar em minhas mãos junto com seus documentos oferece, senão uma resposta, ao menos uma pista sobre o que ele vivenciou. Boa parte de sua viagem fora de barco, e encontrei nada menos que seis agonizantes tentativas de enumerar e descrever os outros passageiros. As entradas são deste tipo:

’24. Pastor da aldeia em Skåne. Casaco preto e chapéu preto macio.

’25. Viajante comercial de Estocolmo indo para Trollhättan. Capa preta, chapéu marrom.

’26. Homem de capa preta longa, chapéu de aba larga, muito antiquado.’


Este item é alinhado, e contém uma nota: “Talvez idêntico ao nº 13. Ainda não vi o rosto dele.” Pelas descrição do nº 13, me parece um sacerdote católico de batina.

O resultado da listagem é sempre o mesmo. Vinte e oito pessoas, sendo um a delas um “homem com um longo manto preto e um chapéu largo”, e outra uma “figura de estatura baixa usando um manto escuro com capuz. ” Por outro lado, ele sempre observa que apenas vinte e seis passageiros estavam presentes durante as refeições, e que o homem com o manto talvez estivesse ausente, e a figura de baixa estatura certamente estava ausente.

Ao chegar à Inglaterra, parece que o Sr. Wraxall desembarcou em Harwich, e resolveu imediatamente escapar do alcance de alguma pessoa ou pessoas a quem ele tinha evidentemente começado a considerar como seus perseguidores, mas cuja identidade ele nunca especifica em seus escritos. Assim, não confiando na ferrovia, ele pegou uma carruagem fechada e atravessou o país até a aldeia de Belchamp St.Paul. Eram cerca de nove horas em uma noite enluarada de agosto quando ele se aproximou de seu destino. Estava virado para a frente, olhando os campos e bosques —não havia muito além disso para se ver—que passavam por sua janela. De repente, chegou a uma encruzilhada. Ali, viu duas figuras de pé, paradas. Os dois vestiam capas escuras, o mais alto usava um chapéu, o mais baixo um capuz. Ele não teve tempo de ver seus rostos, nem eles fizeram qualquer movimento que lhe permitisse ver. No entanto, o cavalo tremeu violentamente e começou a galopar. Sr. Wraxall afundou-se em seu assento, sentindo uma espécie de desespero.

Ele já tinha visto aqueles dois antes.

Chegou a Belchamp St.Paul, onde teve a sorte de encontrar uma residência m obiliada e decente. Nas 24 horas seguintes viveu relativamente falando, em paz. As suas últimas notas foram escritas neste dia. Elas são muito desarticuladas e cheias de exclamações para serem reproduzidas na íntegra, mas seu sentido é suficientemente claro. Ele espera uma visita de seus perseguidores, ainda que não saiba quando nem como, e se lamenta constantemente, “O que eu fiz?” “Não haverá esperança?”. Os médicos, afirma ele, dizem que está louco e os policiais riem . O pastor está viajando. Que pode ele fazer senão trancar a porta e clamar por Deus?

Até recentemente, os moradores de Belchamp St. Paul ainda se lembravam de como um estranho cavalheiro chegou em uma noite de agosto, anos antes; e como na manhã seguinte, ele foi encontrado morto. Houve um inquérito; sete dos membros do júri desmaiaram ao ver o corpo, Depois, todos eles se recusaram a descrever o que viram. O veredito foi morte por causas naturais. Os donos da casa onde ele morreu se mudaram naquela mesma semana, e abandonaram a cidade. Não se sabe, creio eu, se houve alguma pista, se alguma luz foi lançada, ou poderia ser lançada, sobre aquele mistério.

Ano passado, por acaso, a propriedade veio parar em minhas mãos como parte de uma herança. Estava vazia desde 1863, e não parecia haver nenhuma maneira de usá-la; então mandei demolir. Os papéis cujo conteúdo acabo de resumir foram encontrados em um armário esquecido debaixo da janela do quarto principal.

Notas da Tradutora

1 O Pantechnicon foi um edifício construído no início do século XIX, no West End Londrino. Originalmente, o prédio seria um bazar no qual diversos tipos de obras de arte e decoração seriam vendidos, desde pinturas até joias e móveis. Quando o bazar fechou, o Pantechnicon foi convertido em uma espécie de armazém de luxo no qual pessoas endinheiradas podiam guardar pertences de valor. Apesar de ter sido anunciado como “a prova de fogo”, o Pantechnicon acabou sofrendo um incêndio acidental em 1874. Até hoje não se sabe ao certo o quanto foi perdido.

2 Durante o Período Medieval até o início da era moderna, senhores de terra, ou “landlords” faziam contratos com camponeses tornando-os “tenants” ou “locatários”. Esse sistema implicava que o senhor de terras permitia que os trabalhadores usassem suas terras para o cultivo, em troca de um pagamento, uma parte da produção ou trabalho. Os termos “landlord” (ou “landlady” no feminino) e “tenant” que hoje em dia indicam “senhorio” e “locatário”, em contratos de aluguel, vem desta prática.

3 O cavalo de madeira ou “burro espanhol” era um instrumento de tortura que tinha o formato de um cavalete, sendo que a parte superior tinha um formato triangular. A vítima era forçada a “montar” no cavalete com se estivesse a cavalo, e pesoas eram amarrados aos seus pés, causando desconforto e exaustão, e provocando pressão, dor e ferimentos na área genital.

6 Os livros mencionados aqui são uma mistura de títulos reais e inventados. O Livro de Miriam não existe, mas como “Miriam” é o nome da irmã de Moisés, o título pode ser uma referência ao livro místico conhecido como “Sexto e Sétimo Livros de Moisés”. O “Livro da Fênix” pode se referir ao demônio Fênix ou Fenex que aparece am alguns tratados de demonologia medieval. O “Livro das Trinta Palavras” é outro título para Kitāb al-Īḍāḥ ou “Livro da Iluminação” de Jabir ibn Hayyan, já o “Livro do Sapo” é a tradução para o inglês do “Livro dos Doze Portais”, originalmente escrito em latim pelo alquimista George Ripley. (A tradução do título vem de crenças populares sobre sapos, mencionadas nele).

7 Korazin, Betsaida e Capernaum são cidades que, segundo os Evangelhos de Mateus e Lucas, teriam rejeitado a doutrina de Jesus Cristo quando ele as visitou, pregando seus ensinamentos. Por essa razão as três teriam sido amaldiçoadas(Mateus 11:20-24; Lucas 10:13-15). Segundo o Apocalipse de Pseudo-Metódio, um texto religioso do século VII, muito popular durante a Idade Média, o Anticristo seria concebido na cidade de Korazin. Hoje em dia, as três cidades estão em ruínas. A cidade israelense de Korazim foi fundada em 1983 nas proximidades da antiga Korazin.

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