Kaidan, Hyaku Monogatari, J-Horror e outras tradições arrepiantes do Japão- PARTE 2: Um Longo Catálogo de Assombrações

(Antes de qualquer coisa, minhas desculpas aqueles que ficaram esperando a parte dois deste artigo. Por razões familiares, eu não tive tempo para escrever nem postar muito nas últimas semanas.)

O fantasma da tradição japonesa é bem diferente dos fantasmas com que estamos acostumados. No imaginário japonês, duas coisas determinam a existência de um fantasma: as condições da morte e as ações dos vivos. Parece estranho, mas isso tem uma explicação. Como vimos na Parte 1 deste artigo (leia AQUI), a cultura religiosa japonesa dá muita importância ao culto dos antepassados e ao respeito aos mortos. Tanto o Budismo quanto o Xintoísmo determinam que os vivos não apenas orem pelos mortos, mas que também façam oferendas, homenagens e tenham atitudes que sirvam para dar paz aos mortos, seja cumprindo promessas feitas a eles em vida, realizando seus últimos desejos ou cumprindo certas obrigações sociais. Por isso, é comum a crença de que se os vivos não cumprem essa regra, os mortos podem voltar na forma de fantasmas.

O respeito e a dívida com os mortos é ainda mais importante em relação aqueles que morreram em sofrimento. Ou seja, se uma pessoa é assassinada, comete suicídio, ou morre em consequência de algum evento traumático, como um acidente, uma doença muito grave ou algum tipo de catástrofe, há muito mais chances de que sua alma não tenha paz, por isso é ainda mais importante que os vivos cumpram os rituais apropriados. Estes ritos geralmente tem uma conexão profunda com os valores sociais que a sociedade japonesa considera importantes, e com tabus sociais que, se quebrados, causam um tipo de fratura ou trauma n o tecido social.

Salgueiro ao luar, Koson

Por essa razão, há vários “tipos” de fantasma no imaginário folclórico e religioso do Japão, e cada um deles reflete um tipo de preocupação ou trauma social. O termo mais genérico para designar a alma dos mortos em japonês é Shiryo junção das palavras shi, que significa morte ou morto, e ryo, grafia alternativa de rei, que significa alma ou espírito. Ou seja Shiryo=almas dos mortos, um termo que designa qualquer alma de alguém que tenha falecido, quer seja um fantasma ou não. Para o fantasma, isto é a alma morta que não está em paz, há dois termos usados: yuurei, a junção de rei, ou alma) com yu, que dá a ideia de “indistinto” ou “tênue”, e borei, que significa “alma em ruína”. Dos dois, o termo mais comum é, de longe, yurei. Dentro desta “classificação” geral, encontramos diversas variações, muito mais do que seria possível dar conta em um artigo. Por isso vamos conhecer apenas os tipos de aparição que são encontradas com mais frequencia no folclore e na literatura.

Ubume ou Kosodate-Yurei (Fantasmas maternos)

Há muito tempo a mulher de um fazendeiro da região de Katsurada morreu repentinamente durante seu último mês de gravidez. Uma certa noite, depois de passarem 49 dias de sua morte, as pessoas começaram observar que os bolinhos de arroz deixados como oferenda no templo estavam desaparecendo misteriosamente. Ninguém sabia quem estava roubando os bolinhos. Os habitantes do vilarejo começaram a investigar, e ficaram perplexos quando a investigação oo levou ao túmulo da mulher do fazendeiro. Ali, eles descobriram um grande buraco. A família foi imediatamente avisada e resolveu abrir a cova para saber o que estava acontecendo. Lá dentro, encontraram o corpo da mulher perfeitamente preservado. Mas não foi isso que mais chocou a todos. Nos braços dela, encontraram um bebezinho, vestido de branco, como é tradição vestir os mortos para o funeral. O bebê estava lambendo um bolinho de arroz idêntico aos que estavam desaparecendo do templo. De alguma forma, a criança tinha sobrevivido a morte da mãe, e nascido dentro do túmulo onde vinha se alimentando dos bolinhos roubados.

As pessoas se apressaram em tentar tirar o bebê do túmulo, mas o corpo morto da mãe parecia enrijecido, e seus braços não soltavam a criança de jeito nenhum. Depois de muitas tentativas, uma mulher que tinha dado a luz recentemente se aproximou da morta e, mostrando-lhe o seio cheio de leite, disse “Eu prometo que vou alimentar o seu bebê, pode entregá-lo para mim.” Com isso, o cadáver finalmente soltou o bebê.

A história acima trata de um tipo de assombração conhecido como Ubume.

Ubume (o nome de um tipo de pequeno ouriço do mar) ou Kosodate-yuurei (“kododate” tem a ideia de “criação” no sentido de criar filhos, então se poderia traduzir como um fantasma que “cuida” dos filhos) são fantasmas de mães. Claro que nem todas as as mães viram fantasmas depois de morrer. Existem três circunstâncias nas quais uma mãe pode se tornar uma Ubume: morrer durante a gravidez, durante o parto ou deixando filhos pequenos. No caso daquelas que morreram de parto ou deixando filhos vivos, é o fato de morrer sem ter certeza de que seus filhos serão cuidados que faz com que o espírito retorne como fantasma. Nas histórias em que esse tipo de assombração aparece, ela raramente age de forma agressiva ou maldosa, pois suas ações sempre tem o objetivo de cuidar ou proteger os filhos, como acabamos de ver. Por isso, a melhor maneira de “exorcizar” este espírito é oferecendo-lhe garantias de que seus filhos estão seguros e bem tratados.

Ubume, ilustração de Yoshitoshi.

Já quando a ubume é a aparição de uma mulher que morreu durante a gravidez, para que ela descanse em paz é preciso tirar o feto de seu útero e enterrá-lo nos braços da mãe, em uma cerimônia que honre ambos. Essa tradição também seria uma forma de garantir que, no caso da morte de uma mulher em estado avançado de gestação, fosse feita uma cesariana que poderia, com alguma sorte, salvar a criança. Na história que vimos acima, a mulher do fazendeiro foi enterrada sem esta precaução, por isso sua família não tinha ideia de que a criança sobrevivera. Se a mãe morta não tivesse retornado como um fantasma, a criança teria morrido de fome e o túmulo nunca teria sido aberto, permitindo que ela fosse salva e confiada aos cuidados de outra mãe.

Mas nem toda a história tem um final “feliz”.

Uma das “ocorrências” mais famosas de Ubume é aquela que supostamente assombra as montanhas perto de Sayo no Nakayama, na área de Honshu. Diz a lenda na região existe uma rocha que chora. Acredita-se que no local onde fica esta rocha, há muito tempo, foi encontrado o corpo de uma mulher grávida. Acredita-se que ela estaria viajando, e que no caminho alguém a atacou, e depois de roubar seus pertences a matou, largando o corpo na estrada. Como o assassino nunca foi encontrado, acredita-se que a alma da mulher assassinada ainda esteja vagando pela floresta. Essa narrativa demonstra como as diferentes “categorias” de fantasmas podem se sobrepor, já que o fantasma da rocha tem elementos de jibakurei, ou fantasma “preso” em uma localidade, mas vamos falar desse tipo de fantasma com mais detalhes depois.

Zashiki-warashi (Fantasmas de crianças)

No Japão existe um ditado que diz “Até os sete anos, a criança pertence aos kami” (isto é os espíritos ou divindades da Natureza). Esta frase reflete uma crença de que crianças estariam, de certa forma, mais em sintonia com o mundo sobrenatural, seja em relação aos espíritos da natureza, seja em relação aos espíritos dos mortos, em parte porque, devido a sua juventude, sua energia vital estaria em seu ápice, mas ainda lhes faltaria maturidade para controlá-la. Os sete anos marcam o período em que crianças começam a dominar as regras de convívio social, e a aprender o significado de conceitos abstratos como a morte, então deixariam de “pertencer” ao mundo sobrenatural e passariam ter mais responsabilidades na família e a fazer parte da sociedade de forma mais plena. Por essa razão, acredita-se que os fantasmas de crianças que tenham morrido antes dos sete anos são assombrações particularmente poderosas e difíceis de apaziguar, mas não necessariamente más, pois morreram antes de começar a entender os códigos de comportamento que regem a sociedade e a desenvolver sua capacidade de lidar com suas emoções e com a ideia da morte.

Geisha doll on table
Boneca de Hinamatsuri (festival das meninas) foro de Will H. MacMahan

Fantasmas de crianças existem no folclore de todo o Japão mas são particularmente comuns no norte do do país, onde há muitas histórias de fantasmas infantis, que nessa região são conhecidos como Zashiki-warashi (zashiki se refere a um tipo de sala de estar, enquanto warashi é um termo arcaido do dialeto do norte que indica uma criança pequena, ou seja a expressão significa algo como “criança da sala” dando a ideia de um fantasma que assombra principalmente o ambiente doméstico). Alguns estudiosos acreditam que essa crença está associada com uma tradição um tanto macabra da região: enterrar fetos abortados ou recém-nascidos mortos em baixo do assoalho da casa.

Essa assombração geralmente não pode ser vista por adultos, e prefere interagir com crianças, o que serve como explicação para a existência de “amiguinhos imaginários”. Mas isso não quer dizer que elas sejam fantasminhas camaradas que só desejam encontrar um amigo como o Gasparzinho. Embora não sejam intencionalmente malévolos, o Zashiki-Warashi são conhecidos por serem fantasmas poderosos e que incomodam bastante, pois são teimosos e cheios de vontades, como seria uma criança birrenta. Eles são quase um tipo de poltergeist: somem com objetos da casa, derrubam coisas, fazem barulho, perturbam o quotidiano da família, e dificilmente conseguem ser exorcizados apenas com orações e oferendas; para pacificá-los é necessário um sacerdote e rituais apropriados, o que nem sempre funciona. Uma das “traquinagens” favoritas dos Zashiki-warashi era sentar sobre o peito de uma pessoa enquanto ela estava dormindo, causando pesadelos, falta de ar e outras sensações associadas com a paralisia do sono.

Um bom exemplo do tipo de comportamento deles é a história a seguir, que vem da prefeitura de Iwate, na região de Honshu:

Conta-se que o fantasma de uma criança morava nas vigas do telhado da família Yamashita. Os moradores do vilarejo se reuniram na casa para fazer a oração conhecida como Nenbutsu, dedicada ao Buda Amida, ou o Buda da luz e vida infinitas. Mas assim que as pessoas entoavam a oração, uma vozinha de criança vinda do teto repetia as suas palavras. Não importava o quanto a família e seus amigos e conhecidos orassem, o fantasma apenas repetia a oração, se recusando a ser exorcizado.

O povo do vilarejo ficou apavorado, e começaram a circular rumores de que o fantasma no teto era de uma criança que tinha sido morrido de maus tratos durante a era Tenmei. Alguns diziam que ela tinha roubado ou feito alguma outra diabrura, e como castigo tinha sido trancada em um quarto onde tinha morrido sufocada. Agora sua alma estava presa na casa, mas ao que tudo indica não tinha a intenção de assustar ninguém, e a família Yamashita acabou simplesmente convivendo com ela.

Há muitos exemplos de histórias de Zashiki-Warashi e outros fantasmas de crianças que morreram em razão de maus-tratos, que foram vítimas de infanticídio, que morreram de fome ou foram executadas por roubar. Para muitos estudiosos, essa repetição dos mesmo temas oferece um vislumbre da desestabilização social do Japão em períodos de fome, extrema pobreza e guerra civil.

Funa Yurei (Fantasmas do mar)

Na época da restauração Meiji, um navio pesqueiro encontrou uma tesmpestade na costa de Seto, em uma área bem conhecida por já ter sido cenário de diversos naufrágios. O capitão e sua tripulação lutaram com toda a sua força e habilidade para manter o barco flutuando e evitar um desastre. Já estavam perto do porto quando ouviram um enorme estrondo, seguido de gritos, como se tivessem colidido com outro barco. Como mal conseguiam manter o controle da própria embarcação, eles não conseguiram socorrer o outro barco. Enquanto lutavam desesperadamente para evitar ser engolidos pelas ondas, viram a cabeça de uma pessoa emergir da água. O homem à deriva se agarrou à amurada do barco, gritando por ajuda, mas os tripulantes não podiam ajudá-lo. Conforme seus gritos ficavam amis desesperados, o capitão ficou tão nervoso que bateu na cabeça do náufrago com um remo. O homem caiu na água e desapareceu.

O barco pesqueiro conseguiu escapar da tempestade e voltar ao porto. Mas nas semanas seguintes começou a correr um boato de que luzes estranhas estavam aparecendo no mar da região. O capitão do navio pesqueiro ficou tão apavorado que abandonou seu ofício. Mas como tinha que se sustentar de alguma maneira, resolveu trabalhar com os mergulhadores que coletavam mexilhões. Na mesma época, um outro mergulhador tinha encontrado um cadáver no fundo do mar, agarrado a uma rocha. Mas ele não contou sobre sua descoberta a ninguém.

Um dia, quando o capitão estava trabalhando com os mergulhadores ele percebeu que o mar parecia mais cheio de peixes e mexilhões do que de costume. Animado, ele esqueceu do seu medo e decidiu mergulhar também. Logo os pescadores que tinham ficado na superfície perceberam que ele estava demorando muito para dar o sinal combinado para puxá-lo de volta. Então mergulharam para procurar por ele, mas a corrente estava forte demais para nadar. Finalmente, depois de muito tentar, finalmente o encontraram. Seu cadáver estava no fundo do mar, exatamente no mesmo lugar em que o outro mergulhador tinha visto o cadáver, agarrado a uma pedra.

Depois da morte do capitão, as luzes estranhas nunca mais foram vistas.

O Japão é um país profundamente ligado ao mar. Não poderia ser diferente, afinal se trata de um arquipélago com uma geografia que por vezes torna a agricultura difícil, o que significa que ao longo da história, a economia japonesa dependeu muito do mar tanto para alimentação quanto para transporte. E dado o tamanho do Japão e seu formato “quebrado” em milhares de ilhas, a maior parte da população simplesmente vive perto da costa por uma questão de espaço e conveniência. Então, como seria de esperar, a cultura japonesa está profundamente conectada com o mar. Não é a toa que a imagem artística mais frequentemente associada com o Japão seja a gravura “A Grande onda de Kanagawa” de Hokusai. No Japão, o mar aparece o tempo todo, na música, na arte, na literatura, nas lendas…e é claro, nas histórias de fantasmas. Tanto que há até uma categoria de fantasmas especificamente “marinhos”, chamada de Funa Yuurei.

O termo funa significa “barco”, ou seja funa yuurei é uma expressão que indica tanto os fantasmas de pessoas que morreram no mar quanto navios fantasmas e qualquer outro tipo de assombração marinha. E dada a convivência constante dos japoneses com o mar, o que não falta são mitos e lendas de barcos, pescadores e marinheiros fantasmas.

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Ilustração do mangaká Shigeru Mizuki

Um dos mitos mais comuns do folclore costeiro japonês é o de que os fantasmas daqueles que morreram em naufrágios aparecem em noites chuvosas, de lua cheia ou de lua nova a bordo de um tipo de embarcação fantasma. Se um barco cruzar o caminho de uma destas embarcações fantasmas, não seria, a princípio, possível identificá-lo como uma aparição sobrenatural. Mas se os dois aproximam, os tripulantes do barco-fantasma pedem aos tripulantes do outro barco que lhes dêem baldes. Pescadores experientes sabem que, caso isso aconteça, é preciso entregar apenas baldes sem fundo, pois no momento em que os fantasmas recebem os baldes, eles começam a usá-los para encher o barco dos vivos de água até afundá-lo, e arrastam os tripulantes para o fundo. Outra tradição avisa que não se deve navegar durante os dias do festival Obon, o festival em que os mortos retornam, pois os fantasmas do mar se agarrariam ao barco e o puxariam para o fundo ou o empurrariam contra rochas e recifes, onde naufragariam. Em diversas regiões do Japão acredita-se que funa yuurei podem causar pane nos instrumentos de navegação e até provocar alucinações nos tripulantes, levando-os a se suicidarem.

Há inúmeras variações regionais desta assombração: funa yurei podem aparecer como figuras humanas navegando barcos-fantasmas, como luzes na superfície da água (provavelmente uma explicação para a bioluminescência natural de várias espécies de algas e animais marinhos), ou como ondas de formato estranho, sombras, cabeças ou crânios boiando na água, e até na forma do umibosu (o monge da água) uma sombra tão grande que se eleva das águas e cobre o céu. Como a navegação comercial e a pescaria estão entre as principais atividades econômicas do país, todas as regiões tem uma verdadeira infinidade de histórias e crenças sobre funa yuurei.

Fantasma marinho-ilustração de Hoen Utagawa

É interessante notar que, muitas vezes, as vítimas deste tipo de assombração são completamente inocentes, e estão até tentando ajudar. Na tradição japonesa, fantasmas que causam algum dano aos vivos, geralmente atacam aqueles contra quem querem se vingar (vamos falar deles depois). Porém os fantasmas do mar atacam aleatoriamente. Ou seja, quem estiver no mar, sempre corre o risco de cruzar o caminho deles e se dar mal. A explicação seria que a morte no mar deixa para trás a energia residual da alma morta, que de certa forma se funde com o próprio mar, virando uma parte dele. E como sabemos, o mar, como a natureza em geral, não “escolhe” suas vítimas por “merecimento”. Por essa razão, funa yurei são considerados assombrações tão perigosas e imprevisíveis quanto o próprio oceano, como se sua morte os tornasse, de certa forma, espíritos da natureza. Uma análise mais profunda destas histórias revela que as narrativas sobre os fantasmas marinhos são uma forma de explicar naufrágios, afogamentos e outras tragédias marinhas e também reforçar a necessidade de tomar cuidados com a segurança e as regras de navegação.

Como a economia Japonesa continua muito atrelada ao mar, funa yurei seguem aparecendo em lendas urbanas, e as narrativas sobre essas assombrações se renovam constantemente, gerando diversas histórias modernas. Um bom exemplo é o navio cargueiro Toya Maru, que afundou durante o tufão Marie, em 1954, causando a morte da maior parte de sua tripulação. Quase imediatamente após a catástrofe, começaram a circular rumores associando o acidente com funa yurei. A comissão de investigação encontrou arranhões na hélice do navio, o que gerou a lenda de que o Toya Maru tinha sido arrastado para o fundo por fantasmas. Outras histórias começaram a circular em toda a região em torno do local do acidente, mais famosa das quais conta que os oficiais da marinha trabalhando na estação de Aomori, volta e meia ouvem o som de batidas no vidro das janelas, sempre à meia-noite. Quando alguém vai verificar a origem do barulho, é possível ver uma mulher completamente encharcada, gritando “A tripulação do Toya Maru precisa de ajuda!” antes de desaparecer.

Ikiryo (fantasmas vivos)

Nem todos os fantasmas das lendas japonesas estão mortos. Parece estranho, não é? A ideia de um fantasma vivo parece ir contra a própria definição da palavra, afinal o fantasma é a alma de alguém que morreu…certo? Bem, não necessariamente, pelo menos no caso do Japão. Ikiryo ou “fantasma vivo” é uma entidade de características únicas. Essa aparição ocorre quando a alma de uma pessoa deixa seu corpo temporariamente, sem que essa pessoa tenha morrido. É muito comum a crença de que pessoas que estão prestes a morrer aparecem como fantasmas para seus entes queridos. Essas aparições teriam o objetivo de permitir que amigos e familiares que recebem a visita do espírito se preparem para o falecimento. Ikiryo podem aparecer de forma inteiramente humana ou como hitodama, bolas de fogo flutuantes. No entanto, hitodama é uma forma de aparição associada a vários tipos de fantasmas, e no caso de fantasmas vivos essa forma tende a se manifestar imediatamente antes ou depois da morte, quando o morto já perdeu a consciência. Por isso nem sempre são classificadas como Ikiryo.

Mas nem todas as aparições de Ikiryo são projeções do espírito de pessoas a beira da morte. Existem outras situações nas quais a alma pode se separar do corpo. Durante o período Edo, a creditava-se que existia uma doença chamada de rikonbyo (doença da separação da alma) ou kage no yamai (doença da sombra), que fazia com que alma e corpo se separassem, formando um par de “gêmeos idênticos.”. Seria um fenômeno similar ao do doppelganger ocidental. Tanto no Japão como no ocidente, há muitas explicações possíveis para a aparição de uma versão duplicada de uma pessoas, que vão desde simples coincidência, isto é o duplo seria apenas uma pessoa muito parecida, até alucinações provocadas por doenças mentais. É possível que as alegações de uma “doença” que separa a alma do corpo fossem meramente uma maneira de explicar um tipo de alucinação conhecida como autoscopia, na qual o indivíduo percebe o ambiente ao seu redor como se estivesse fora do próprio corpo, um sintoma associado a esquizofrenia.

“Rikonbyo” – ilustração de Masasumi Ryukansaijin

Outra crença comum era a de que a alma podia deixar o corpo e se tornar Ikiryo em casos de extrema emoção ou com o objetivo expresso de atormentar alguém. Neste casos, uma pessoa que se sentisse afrontada ou injustiçada teria a capacidade de “criar” uma aparição fantasmagórica de si mesma para atacar aqueles que julgasse responsáveis. Nos casos de pessoas que estão doentes ou a beira da morte, a separação de corpo pode ser voluntária e controlável. Já quando o Ikiryo é produzido por um sentimento de raiva ou um desejo de vingança, ele opera de forma mais impulsiva. A história mais famosa e mais antiga de Ikiryo cabe nesta descição, e vem do “Conto de Genji” escrito pela dama da corte Lady Murasaki no século XI e considerado o primeiro romance da história mundial. Trata-se da história de Lady Rokujo

Genji, o protagonista do romance, é o segundo filho do imperador. No entanto, ele vive como um alto funcionário da corte, sem a perspectiva de ascender ao trono, pois sua falecida mãe era uma concubina. Apesar de não viver como um príncipe nem gozar de todos os privilégios de um filho legítimo do imperador, devido a sua grande beleza e carisma, Genji conquista o amor de diversas mulheres, entre as quais Lady Rokujo, uma mulher mais velha, viúva do Príncipe Zembo. Genji, jovem e mulherengo, divide seu tempo entre Lady Rokujo, sua esposa e uma segunda amante, Yugao. Isso faz com que Lady Rokujo sinta um ciúme tão incontrolável que seu espírito sai involuntáriamente de seu corpo diversas vezes, e assombra tas rivais.

No entanto, Lady Aoi, a esposa de Genji, está grávida, e as aparições a atormentam tanto, que o estresse faz com que ela morra logo após dar a luz ao filho do casal. Lady Rokujo incapaz de controlar seu ciúme e suas consequencias sobrenaturais, sente-se culpada e envergonhada e se preocupa com oi pode acontecer caso a verdadeira razão da morte de Lady Aoi venha à tona. Para expiar suas ações ela decide se retirar junto com sua filha Akikonomu no templo de Ise, onde a jovem se tornará sacerdotisa,e passar o resto da vida em oração.

Lady Rokujō - Wikipedia
O espírito de Lady Rokujo, ilustração de Hokusai.

Jibakurei e Fuyuyurei (Fantasmas “presos” e fantasmas “flutuantes”)

Há muito tempo, havia uma bela serva chamada Okiku. Ela trabalhava na casa do samurai Tesan Aoyama, que era apaixonado pela jovem. Aoyama se declarou diversas vezes, mas Okiku não correspondia seus sentimentos. Decidido que se ficaria com ela a qualquer custo, Aoyama pensou em um plano para chantageá-la e forçá-la a aceitar seus avanços.

A família de Aoyama tinha uma coleção de dez pratos de porcelana azul muito delicados e preciosos. Ele escondeu um dos pratos, levando Okiku a acreditar que o perdera. Naquela época, um servo que perdesse, roubasse ou danificasse um objeto de valor de seu senhor poderia ser até condenado a morte, por isso Okiku ficou desesperada. Depois de procurar o prato perdido por todo canto, Okiku, apavorada e em prantos, foi até Aoyama explicar o acontecido e implorar por seu perdão. Aoyama disse que só a pouparia se ela aceitasse se tornar sua amante. Okiku, novamente, se recusou. Enfurecido, Aoyama jogou a jovem dentro um poço que ficava no jardim dos fundos da casa, onde ela se afogou.

Depois da morte de Okiku, Aoyama e seus servos começaram a ouvir uma voz saindo do poço todas as noites. A voz sempre contava até nove, depois soltava um grito horrendo, e recomeçava a contar. Logo, Aoyama percebeu que a voz era de Okiku, ou melhor, de seu espírito, ainda desesperadamente contanto os pratos, em busca do prato perdido, sem jamais encontrá-lo. A voz continuou a atormentar Aoyama, que já não dormia mais, nem tinha um segundo de paz. Exorcismos e orações não adiantavam, e o samurai já não sabia o que fazer. O tormento só terminou quando um vizinho, ao ouvir a voz contando de um até nove, gritou “DEZ!”, convencendo o espírito de Okiku de que o décimo prato tinha sido encontrado. Só assim ela pode, finalmente, descansar em paz.

Bansho Sarayashiki, ou “A mansão dos pratos de Bansho”, mais conhecida como a lenda de Okiku é uma das mais populares do Japão, perdendo apenas para Oytsuya Kaidan (da qual vamos falar mais a frente). A tragédia de Okiku já foi representada em incontáveis obras de Ukiyo-E, peças de teatro, filmes e até animes. A narrativa acima é a versão folclórica mais antiga, mas a lenda ganhou popularidade mesmo com o Kabuki. As peças de Kabuki inspiradas na história de Okiku geralmente expandem a narrativa original, acrescentando uma punição adequada para o vilão e transformando Okiku em uma personagem mais dinâmica, que busca vingança e atormenta seu assassino, literalmente saindo do poço para assombrar o samurai. Aliás, o filme “O Chamado” pegou emprestada a imagem de Okiku saindo do poço justamente por ser um tema extremamente familiar para o público japonês, o que garantia que qualquer um que visse o filme imediatamente ‘pegasse’ a referência.

Okiku, ilustração de Yoshitoshi

Okiku é um exemplo clássico do tipo de assombração conhecido como Jibakurei.

É um termo difícil de traduzir, pois a partícula jibaku significa “autodestruição”. Jibakurei são espíritos que estão presos em uma localidade específica (as vezes a um objeto específico), geralmente por terem sofrido uma morte tão traumática, súbita ou violenta que o espírito fica confuso e preso em uma espécie de “loop” autodestrutivo e obsessivo. Por essa razão jibakurei são fantasmas que repetem lamentos, palavras ou ações ou vagam perdidos no lugar em que morreram como se estivessem aprisionados, sempre “reencenando” a própria morte. Um bom exemplo de Jibakurei na cultura popular está no filme “O Grito”, no qual o fantasma de uma mulher assombra a casa onde morreu, repetindo movimentos e fazendo sons que revelam detalhes de sua morte.

Vários outros tipos de assombração podem ser considerados jibakurei (um bom exemplo são as assombrações do mar de que falamos acima), pois apesar do conceito de assombração presa a uma localidade ser muito antigo, a palavra jibakurei só começou a ser usada nos anos 70. O termo aparece pela primeira vez no mangá Ushiro no Hyakutaro (1973), e foi inventado pelo mangaká Jiro Tsunoda para dar um nome a vários fantasmas parecidos que ele encontrou em suas pesquisas sobre o folclore que inspiraram a obra. A palavra entrou no imaginário popular, justamente por oferecer uma definição a uma figura fantasmagórica muito comum em lendas, livros e peças teatrais.

Jiro Tsunoda também é reponsável por denominar outro tipo de assombração que é quase oposta a Jibakurei: Fuyuyurei (espiritos “flutuantes” ou “errantes”).

Enquanto Jibakurei são espíritos presos a uma localidade, Fuyuyurei são espiritos que vagam sem destino. Trata-se de pessoas que sofreram algum tipo de morte inesperada, como vítimas de acidentes e soldados ou civis que tenham falecido em guerras modernas, já que nesses conflitos as pessoas podem morrer repentinamente graças a bombardeios, minas terrestres e outras tecnologias bélicas recentes. Nestes casos, a morte súbita faz com que o espírito não consiga desenvolver a consciência de que está morto, tornando-se assim um fantasma “perdido”. Estes fantasmas são bastante comuns em lendas urbanas.

Jikininki e Gaki (Fantasmas famintos)

Estas duas categorias de assombração formam um grupo bem específico, já que são fantasmas exclusivos da tradição budista e ambos são considerados fantasmas “famintos”. O conceito de fantasma faminto existe em todas as cultura asiáticas nas quais o Budismo é praticado, e basicamente se refere ao fantasma de alguém que foi excessivamente avarento ou ganancioso em vida, especialmente se estes defeitos tiverem levado o falecido a cometer crimes, atos imorais ou a prejudicar outras pessoas. Aliás, em diversas tradições, como é o caso da China, ladrões, assassinos e estupradores também são condenados a virar fantasmas famintos, pois estes crimes seriam o resultado de desejos que não se deveria ter, o que é visto como uma forma de “ganância”. Acredita-se que este apego, seja aos bens materiais ou aos desejos mais impuros, impede a evolução espiritual do falecido, fazendo com que, depois da morte, ele continue “faminto”, isto é desejando aquilo que não pode (ou não deve) ter ou fazer. Em vários países asiáticos, as oferendas das celebrações dos mortos incluem comida e dinheiro para apaziguar estes espíritos em particular.

Uma das ilustrações do Gaki-Zoshi, ou “Pergaminho dos fantasmas famintos”, autor desconhecido (atualmente no Museu Nacional de Kyoto)

A figura do “fantasma faminto” está profundamente conectada com as origens budistas do festival Obon, já que está vinculada com a dança tradicional bon-odori. Segundo a lenda, esta dança tradicional teria surgido quando um discípulo de Buda teve uma visão horripilante: ele viu o espírito da própria mãe, já falecida, preso no submundo, transformado em um fantasma faminto. Em sua visão, o filho vê a mãe, incapaz de se desapegar da vida material, comendo constantemente sem nunca se sentir saciada. Horrorizado, o discipulo vai até o Buda e pergunta como ajudar o espírito da mãe a se libertar. Buda o aconselha a fazer muitas obras de caridade em nome da mãe. O discípulo segue o conselho diligentemente, e tem uma nova visão. Mas agora ele vê o espírito da mãe liberto e iluminado, e vê também todos os sacrifícios que ela tinha feito em vida para criá-lo, e viu que foram essas provações que tinham feito com que ela ficasse apegada a coisas materiais, pois tinha passado muitas necessidades para que ele pudesse crescer bem-cuidado. Emocionado, o discípulo agradeceu ao espírito da mãe por todo seu amor e generosidade, e seu coração se encheu de tanta alegria que ele começou a dançar. Foi dessa dança, nascida do amor e gratidão do filho por sua mãe e a libertação do espírito dela graças à fé e boas ações dele, que surgiu a dança bon-odori.

No Japão, o tema budista do “fantasma faminto” assume a forma do Gaki, que tem um elemento macabro a mais: acredita-se que essas assombrações são tomadas pela compulsão de consumir substâncias repugnantes. Um espécie de “sub-categoria” deste fantasma, o Jikininki, que se alimenta especificamente de cadáveres. Esta assombração aparece em uma das histórias compiladas por Lafcadio Hearn. Nesta história podemos identificar como os fantasmas famintos servem para ilustrar o conceito budista de compaixão. Segundo o Budismo, a verdadeira compaixão só existe quando se deixa de lado o nojo, a repulsa e o julgamento.

Certa vez, um monge budista chamado Musou Kokushi se perdeu nas montanhas durante uma peregrinação. Um pouco antes do pôr do sol ele se deparou com uma cabana no alto de uma colina. Ao se aproximar, percebeu que se tratava de um anjitsu, um monastério para uma pessoa, um tipo de construção destinada a religiosos que desejavam se isolar em contemplação. Ao se aproximar, viu que o anjitsu já estava ocupado por um sacerdote muito idoso. Musou perguntou se podia passar a noite ali, mas o sacerdote rispidamente recusou o seu pedido. No entanto, ele explicou a Musou como chegar em um vilarejo no vale.

Seguindo as instruções, Musou chegou a um povoado minúsculo de meia dúzia de casinhas, onde recebeu comida e alojamento. Exausto, ele foi para a cama bem cedo, mas antes da meia-noite, acordou com o som de choro. Ao se levantar viu um rapaz junto da porta, com uma lanterna na mão. O jovem era o filho mais velho da família que abrigara Musou, e informou ao monge que seu pai acabara de falecer. Segundo o costume do vilarejo, o corpo tinha que passar a noite dentro de casa à espera do funeral no dia seguinte, mas a família tinha que sair e só podia voltar de manhã, pois coisas estranhas podiam acontecer em uma casa na qual há um cadáver. Musou, que não tinha medo de espíritos, resolveu ficar e passar a noite orando pelo falecido e fazendo os rituais fúnebres adequados, como forma de agradecer a hospitalidade da família.

A família saiu e Musou começou os rituais. Na calada da noite, o monge viu alguma coisa se mexer. Estranhamente, ele não ouviu nenhum barulho, e percebeu que, o quer que fosse,a coisa parecia uma sombra sem forma. A sombra se esgueirou para dentro do cômodo, e começou a engolir o corpo do falecido, inteirinho, com suas vestes funerárias e tudo o mais. A sombra também devorou as oferendas deixadas pela família, e depois desapareceu silenciosamente.

No dia seguinte, Musou contou tudo o que tinha testemunhado, mas nenhum dos moradores do vilarejo pareceu surpreso. Eles contaram ao monge que aquilo acontecia há anos, Musou perguntou porque eles não pediam ao velho sacerdote que fizesse os ritos funerários. Certamente, isso resolveria o problema.

Que sacerdote?” perguntaram os moradores

Aquele que vive no anjitsu na colina.”

Não há anjitsu algum na colina, e nenhum monge vive por aqui há anos.”

Musou imediatamente entendeu o que estava acontecendo e voltou até o anjitsu na colina. Lá, o velho sacerdote o recebeu se desculpou profusamente.

Não precisa se desculpar.” respondeu Musou “Eu encontrei o vilarejo, e eles me trataram muito bem.”

Estou me desculpando por ter aparecido na sua frente sob minha forma verdadeira. Eu não sou um sacerdote, ou melhor não sou mais…já fui, há muito tempo. Antigamente, eu era o único sacerdote nessa região. Estava sempre muito ocupado cuidando dos rituais, mas não os fazia de coração. Eu só pensava na comida e nas roupas que receberia em troca. Quando morri, renasci como um fantasma faminto…aquilo que você viu ontem à noite. Eu imploro a você que ore por mim, para que eu possa me libertar desta existência.

Musou prometeu que assim faria. Subitamente, o anjitsu desapareceu junto com o velho sacerdote, e Musou se vê diante de um túmulo.

Onryo e Goryo (Fantasmas Vingativos)

Finalmente chegamos a categoria mais conhecida, mais popular, o crème de la crème das histórias de fantasma japonesas: os fantasmas vingativos. Se você já assistiu algum filme de J-Horror de temática sobrenatural, já leu um mangá de terror ou teve contato com qualquer forma de entretenimento prouduzida no Japão cujo tema fosse fantasmas, então com certeza sabe como essa assombração opera. Alguém, muitas vezes uma mulher, sofre uma grande injustiça ou crueldade que acaba causando sua morte. A vítima pode ter sido assassinada ou pode ter se suicidado, ou morrido em decorrência de algum trauma, pode ter sido vítima de um acidente ou de negligência…enfim, a sua morte é culpa de alguém. E como sabemos, a tradição japonesa dita que a alma de quem morre em sofrimento não consegue descansar, e precisa que sua situação seja corrigida de alguma forma. Mas se fantasmas “comuns” só precisam que os vivos façam orações e caridade para que seu sofrimento acabe, um fantasma cuja morte foi provocada pelas ações de outra pessoa não descansa enquanto o culpado não for punido.

O fantasma de Menoto Igarashi, ilustração de Kunisada

O termo “goryo” surgiu durante o período Heian (794-1185), quando havia a crença de que nobres e outros membros da elite tinham a capacidade de voltar dos mortos para se vingar caso tivessem morrido violentamente ou como mártires. O Período Heian foi considerado o auge do Império Japonês, quando a corte imperial deteve um poder mais centralizado, especialmente o clã Fujiwara, cujos membros frequentemente se casavam com membros da família real. A aristocracia era vista como um grupo especial, uma elite tão poderosa que até os seus fantasmas tinham mais poder que fantasmas comuns. Por isso surgiu o termo “goryo”, a junção dos kanjis “go” que significa “honorável” e “ryo”, ou “espírito”. Essas assombrações eram chamadas de “espíritos honoráveis” por serem almas de aristocratas e membros da elite, e também por, muitas vezes, serem considerados mártires dependendo das inclinações políticas de quem contava a história. Também há outra razão para esse nome: usar um nome respeitoso era uma maneira de evitar a ira do morto.

Com o passar do tempo, o poder da corte foi se esfacelando nas mãos de diversos clãs, o que culminou na desestabilização do Período Sengoku. Como já vimos no artigo anterior, essa época da história do Japão foi marcada por inúmeras guerras civis e conflitos entre diferentes facções políticas da aristocracia. Como seria de se esperar mortes em combate e assassinatos politicos eram abundantes, o que gerou diversos mitos e lendas sobre guerreiros e nobres assassinados voltando dos mortos em busca de vingança, fazendo com que goryo se tornassem um tema comum para histórias de fantasmas.

No entanto, com o fim do Período Sengoku e o início da era Edo, os fantasmas vingativos foram mudando de característica. Já não eram os guerreiros mortos em batalha, ou aristocratas assassinados por seus inimigos. Agora, qualquer pessoa podia se tornar um fantasma poderoso. Estas assombrações são chamadas de Onryo, que literalmente significa “espírito vingativo”, ainda que o termo goryo continuasse a ser usado em sinal de respeito. Ao contrário dos antigos goryo, que tem um forte componente político e costumam estar associados com conflitos e disputas de poder, a categoria onryo é mais “democrática”: estas assombrações não só podem pertencer a qualquer categoria social, como podem ter qualquer origem: mulheres assassinadas por seus maridos ou amantes, homens mortos em brigas, pessoas falecidas em acidentes, suicidas. Ou seja, se perde o caráter de “mártir político” associado com goryo, e ganha-se um caráter mais quotidiano. O fantasma Onryo pode estar em qualquer lugar.

Um elemento interessante deste segundo tipo de assombração em particular é o fato de que a maioria dos fantasmas que se encaixam nesta categoria são mulheres. Muitos estudiosos teorizam que pode haver um elemento de catarse envolvido. A sociedade japonesa sempre foi profundamente machista. Aliás, continua a ser. Apesar de ser um país tecnologicamente moderno e economicamente desenvolvido, o Japão retém uma visão muito tradicional no que tange a questões sociais, em especial a igualdade de gêneros. Mulheres recebem salários em média 22% mais baixos que os homens, o assédio sexual é um problema sério, desde ambientes de trabalho até o transporte público e ainda existe uma forte expectativa de que mulheres se casem e abandonem a profissão para cuidar da casa e dos filhos, enquanto homens se dedicam exclusivamente ao trabalho. Aliás, a jornada de trabalho costuma ser tão longa que em famílias nas quais só o marido trabalha, homens não tem tempo livre para passar com os próprios filhos que ficam quase exclusivamente com as mães.Tópicos como divórcio e violência sexual e doméstica são pouco discutidos, e ainda há menos mulheres na política do que em outros países asiáticos.

A desigualdade de gênero e a expectativa de que mulheres sejam subservientes aos homens são uma constante na história do Japão, o que pode ser uma razão pela qual histórias de fantasma na qual uma mulher é maltratada, abandonada ou até morta por seu companheiro e retorna do além em busca de vingança são muito comuns. Basicamente, estas histórias tiram inspiração da situação de vulnerabilidade real das mulheres, e “viram o jogo”. É revelador que na cultura japonesa a mulher seja representada como uma entidade poderosa justamente quando morre, indicando a impossibilidade de deter qualquer poder em vida.

Embora nem todo fantasma vingativo seja necessariamente uma mulher, é perceptível que a associação destas assombrações com o feminino encontrou eco na cultura popular japonesa, já que as histórias mais populares sempre tem como protagonista (ou antagonista) um fantasma feminino. Aliás, a história de fantasma japonesa mais popular de todos os tempos, que já inspirou mais de 30 filmes além de peças de teatro, obras de arte, animes e músicas é praticamente o protótipo deste tipo de narrativa: Yotsuya Kaidan.

Yotsuya Kaidan (1959) dirigido por Nobuo Nakagawa

Yotsuya Kaidan representa uma interessante exceção à “regra” de que histórias de fantasma começam como mitos ou folclore, antes de serem assimiladas à literatura. A história em sua forma mais original é uma peça de kabuki escrita em 1825 por Tsuruya Nanboku IV, com o título de Tokaido Yotsuya Kaidan, ou A Estranha história de Yotsuya em Tokaido. Quando estreou, a peça era apresentada em conjunto com a já famosa peça Kanadehon Chunshigura (“A Vingança dos 47 Samurais” inspirada em eventos históricos), mas hoje em dia, graças a sua enorme popularidade, tende a ser encenada sozinha.

O autor se inspirou em dois crimes reais para escrever a história de Oiwa e seu cruel marido Iemon. O primeiro foi o caso de dois servos que assassinaram seus respectivos patrões e foram executados no mesmo dia, já o segundo foi o de um samurai que, ao descobrir que sua concubina o traía com um empregado, prendeu o casal em uma placa de madeira, e os jogou em um rio, onde se afogaram. A peça pinça elementos dos dois casos para tecer uma narrativa inteiramente original que acabou gerando diversas lendas, a tal ponto que a fronteira entre ficção e verdade foi ficando difusa. Até se acredita que a protagonista Oiwa realmente existiu e está enterrada no templo de Myogyoji, em Tóquio. Aliás, a tradição do Kabuki dita que qualquer ator que interprete o papel de Oiwa deve visitar o túmulo de Oiwa e apresentar seus respeitos a fim de evitar que aconteça alguma tragédia durante a apresentação. A tradição segue viva no Kabuki e também migrou para o cinema e a TV, já que equipes de filmagem, diretores e atores fazem o mesmo ritual quando trabalham em alguma adaptação da obra.

As inúmeras adaptações de Yotsuya Kaidan nem sempre seguiram exatamente a narrativa da peça original, e ao longo dos anos foram adicionados ou retirados elementos, e diversas releituras mudaram a interpretação dos temas abordados na história, mas o fio narrativo comum a maioria das adaptações é o seguinte:

Iemon Tamiya é um ronin, isto é um samurai sem senhor que pretende melhorar sua situação casando-se com a bela Oiwa, uma das filhas de Samon Yotsuya. O pai da jovem, obviamente não aprova o casamento, e os dois tem uma discussão acalorada, durante a qual Iemon mata Samon. Por acaso, um criminoso chamado Naosuke testemunha o assassinato e oferece um trato a Iemon. Naosuke está apaixonado pela irmã de Oiwa, Osode, que já está prometida a outro homem, Yomoshichi Sato. Então os dois jogam Yomoshichi do alto de uma cachoeira, depois convencem as irmãs que o pai e noivo foram assassinados por um grupo de bandidos e se casam com elas.

Adaptação de Yotsuya Kaidan para o anime Ayakashi/Samurai horror tales

Algum tempo depois, Iemon a Oiwa tem um filho, mas os dois casais estão vivendo na pobreza, já que Iemon e Naosuke são preguiçosos e interesseiros. Osode se vê forçada a se prostituir para tentar sustentar a família. É nesse momento que, Oume, a filha do rico Kei Ito, se apaixona por Iemon. A família de Oume (ou Naosuke em algumas versões) presenteia a mulher de Iemon com uma substancia tóxica disfarçada de creme facial. O veneno acaba deformando o rosto de Oiwa, que depois morre. A morte de Oiwa varia de versão para versão algumas vezes o veneno é a causa da morte tanto de Oiwa quanto de seu bebê, mas Iemon que mata Oiwa ou provoca sua morte ou suicídio acidental ao acusá-la de adultério.

Iemon joga o corpo de Oiwa no rio (em algumas versões ele prende o corpo em uma tábua de madeira, às vezes junto com o corpo do homem que ele falsamente acusou de ser amante dela.) e fica livre para se casar com Oume.

Na noite de núpcias, no entanto, o fantasma de Oiwa aparece no quarto do casal e mata a noiva. É apenas o começo da vingança. Aos poucos vários membros da família Ito morrem em ciscunstâncias estranhas. Iemon começa a ser constantemente assombrado pelo fantasma de Oiwa, cujo rosto deformamado aparece em todo o lugar. Quanto mais ele a vê, mais desgraças acontecem, e mais Iemon afunda na insanidade. Seu temperamento já violente começa a ficar inteiramente fora de controle, até que num rompante de fúria ele mata a sogra. Conforme perde o controle de si, Iemon começa a colecionar crimes, e as almas de suas vítimas também o assombram. O fantasma de Oiwa também aparece diversas vezes para Naosuke e Osode. Graças a aparição da irmã, Osode finalmente descobre todas as armações de Iemon e Naosuke, que se suicida.

Iemon, desesperado, foge para um mosteiro nas montanhas, esperando que o retiro e a oração possam dar um fim em seu sofrimento. Mas as alucinações só pioram. Isolado, ele vê o espírito de Oiwa e de suas demais vítimas em todo o lugar, o tempo todo. Ele já não consegue separar alucinação de realidade, nem sabe mais quando está dormindo ou acordado. Sua existência se torna um constante pesadelo.

o fantasma de Oiwa atormenta Iemon, ilustração de Kunioshi

O sofrimento de Iemon só chega ao fim quando, Yomoshichi o noivo de Osode, que miraculosamente sobreviveu à queda da cachoeira, retorna. Osode conta a ele tudo o que aconteceu, e o rapaz vai atrás de Iemon para se vingar e vingar também a família Yotsuya. Porém, ao encontrar o samurai completamente fora de si, Yomoshichi desiste da ideia de desafiá-lo para um duelo, e, por piedade, lhe dá uma execução rápida.

E com esta história chegamos ao fim de nosso passeio pelo mundo dos fantasmas japoneses. Claro que ainda existem incontáveis histórias e mitos, e esta lista é só a ponta do iceberg, mas espero que ela seja um bom começo para você leitor se aventurar no mundo do horror japonês para além do J-Horror.

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Fantasma escondido por mosquiteiro, ilustração de Hiresaki Heimei

Materiais consultados:

Artigos:

Jon Wilks. “Ghoul Power” SeekJapan.jp

Michael Lambe . “Season of Ghosts: The Japanese Tradition of Scary Summer Stories”. WorkInJapan.com

Noriko T. Reider. “The Appeal of Kaidan, Tales of the Strange”. Asian Folklore Studies, Vol 59. Nº2. Nazan University

Scott David Foutz “Kaidan: Traditional Japanese Ghost Tales and Japanese Horror Film”. Sarudama.com

Livros:

Akinari Ueda, Leon M. Zolbrod. Ugetsu Monogatari or Tales of Moonlight and Rain: A Complete English Version of the Eighteenth-Century Japanese Collection of Tales of the Supernatural. Routledge, 2011.

Brett Walker: A Concise History of Japan. Montana State University. 2015

Daigan Matsunaga, Alicia Matsunaga, Foundation of Japanese Buddhism, Los Angeles; Tokyo: Buddhist Books International, 1996

Haga, Tooru. Juliet Winters Carpenter(trad.) Pax Tokugawa: The Cultural Flowering of Japan, 1603–1853 JPIC, 2021.

Lafcadio Hearn. Kwaidan:Asssombrações. Editora Claridade. 2007

Lafcadio Hearn, Andrei Codrescu(ed.), Jack Zipes (intro). Japanese Tales of Lafcadio Hearn. Princeton Press, 2019

Michiko Iwasaka, Michiko; Barre Toelken. Ghosts And The Japanese: Cultural Experience in Japanese Death Legends. Utah: Utah State University Press. 1994

Nobutaka Inoue et al. Shinto, a Short History. Routledge Curzon, 2003

Patrick Drazen. A Gathering of Spirits Japan’s Ghost Story Tradition: From Folklore and Kabuki to Anime and Manga. Iuniverse Publishing, 2007

2 comentários em “Kaidan, Hyaku Monogatari, J-Horror e outras tradições arrepiantes do Japão- PARTE 2: Um Longo Catálogo de Assombrações

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