Com botões e sem botões- Mary Butts

Imagem de capa: Ekaterina Grosheva

“With and without buttons” foi publicado pela primeira vez em 1938, na coletânea “Last Stories”

Não é apenas verdade, é reconfortante dizer que incredulidade geralmente não é nada mais que a superstição virada do avesso. Mas a fé no ceticismo pode ser tão inadequada quanto o excesso de fé em si e, de certa forma, mais tentadora, pois as respostas certas a ela ainda não foram pensadas. Tudo o que aconteceu só se realizou porque Trenchard disse, durante um almoço, que a Missa não passava de uma dramatização de desejos frustrados. Pelo menos eu gostaria que não tivéssemos pensado assim. Já era difícil sair, mas se ele não tivesse nos irritado e nos feito querer nos exibir, nós não teríamos feito o que fizemos. Não foi algo que nos fez mal, mas para ele? Ele não conseguiu deixar aquilo para trás. Quando tudo aconteceu, ele agiu tão bem, mas não foi o bastante para protegê-lo. Agora ele não consegue mais pensar do mesmo jeito costumava pensar antes, e nem sabe mais o que pensar.

Posso até vê-lo nesse momento, mais claramente do que gostaria. Ele era nosso vizinho de porta em uma aldeia remota em Kent. Um ninho de vespas dividia sua atenção entre nossas residências, e nós sempre nos encontramos após o pôr do sol para retribuir essa atenção com veneno e bombinhas.

Ele era um homem otimista, positivo, saudável, e bastante emotivo. Tinha visto e feito muitas coisas, mas quando alguém pedia que ele contasse, tudo o que ele tinha a dizer era um monte de pseudo racionalizações e questionamentos, em linguagem incorreta, sobre Deus, as artes, a imaginação, as emoções. Isso nem está mais na moda para os intelectuais de hoje. Nós sempre dizíamos que ele podia pensar essas coisas o quanto quisesse, mas não havia razão nenhuma para tentar nos convencer das idéias dele, assim em um dia tão adorável, quente e azul de verão bem no meio de um jardim em Kent. Era só para nos perturbar, nos incomodar até que concordássemos com ele. Até a noite eu pedia que ele parasse de nos aborrecer com suas fantasias, pois não acreditávamos nelas, e via sua pele saudável começar a suar e seus olhos ficarem escancarados. Isso deveria ter sido um alerta para mim, como foi para minha irmã, de quem às vezes eu tenho medo. Foi um aviso, mas também nos incentivou.

Fomos para casa passando pomar à luz das estrelas e sentamos no andar térreo, cercadas de velas acesas, convidando toda aquela noite de verão a entrar: os gritos dos caçadores noturnos e os aromas das coisas que crescem e amadurecem no frescor do fluxo estelar. Um mundo visível, mas não em termos de cor. Com cada porta e janela aberta, a velha casa já não era mais do que um quadro, um conjunto de telas para exibir a noite, o verão, o perfume, a quietude bordada de estrelas enlaçadas, cujas lanças de luz vigiavam e penetravam uma terra que respirava silenciosamente, um poder feminino adormecido.

—Tudo o que ele é capaz de ouvir é a natureza roncando. —disse minha irmã. —Vamos lhe dar um pesadelo.

Era uma boa ideia.

—Como? — perguntei.

—Vamos descobrir amanhã. Eu já tenho uma ideia.

Levantei para fechar as portas antes de subirmos com nossas velas. Através das paredes e dos vidros, através das portas abertas ou fechadas, uma maré se derramava, não de ar, nem de luz ou escuridão, nem cheiro ou som, nem calor nem frio. Uma maré. Sem distinção de norte ou sul, fora ou dentro, sem fluxo nem refluxo, um tornar-se, sem agitação, sem partida nem permanência, sem brilho nem ritmo. Uma maré de estrelas. A ciência não tinha descoberto ventos e raios que vinham do espaço interestelar?

Não há má ação tão fascinante quanto aquela que tem um objetivo moral, um resultado em vista que justifique os meios sem, no entanto, privá-los da diversão. Tudo o que está implícito quando se diz vamos dar a alguém uma razão para chorar. Foi essa linha que adotamos no café da manhã.

—Vamos testar a fé simplória dele— decidimos —Vamos dar um susto nele, e ver como ele suporta a tensão. Vamos assombrá-lo— e nos perguntamos se haveria algum vampiro praticante ou alguma vaca-lobisomem na vizinhança.

Passaram-se dias até que encontramos o método adequado, depois de examinar e rejeitar todos os tipos conhecidos de aparição, percebendo que o plano tinha que ser simples, pois quando a trama fosse analisada, seria melhor haver pouco a analisar. Na verdade, o que queríamos fazer era sugerir-lhe uma experiência -quanto pior, melhor- totalmente incompatível com a incredulidade de sua fé. Que seria fácil, nós sabíamos; que seria perigoso, bem, no calor do momento, isso nos parecia parte da diversão. Não porque não gostássemos dele, mas porque queríamos ter poder sobre ele, o poder que as mulheres às vezes querem ter sobre os homens, um poder puro, não erótico, cujo objetivo é justamente não ter nada a ver com sexo. Poderíamos tê-lo feito se apaixonar por qualquer uma de nós na hora em que quiséssemos.

Eis o que planejamos, sabendo que, como uma obra de arte, uma vez iniciado, seu desenvolvimento se daria por si mesmo.

—Imagine—disse minha irmã—que nós ouvimos uma história ridícula no vilarejo, de que há algo de errado com a casa. Nós vamos dizer isso a ele, e depois que ele fizer seus exercícios de racionalização, o que vai levar um dia ou dois, dependendo de nossas sugestões, se fossem acertadas, a batalha está ganha: ele vai nos perguntar o que história é essa.

—O que vai ser? — perguntei, tentando adivinhar o que a mente de minha irmã tramava.

—Isso não importa. Porque antes de começarmos, nós vamos fazer alguma coisa. Qualquer coisa. Uma folha velha para começar, desde que haja mais de uma; vamos colocá-la na agenda dele ou junto ao seu travesseiro. Nós sempre estamos entrando e saindo da casa dele. Vamos colocá-la lá ele vai nos chamar à noite. É aí que começa a história que ouvimos na aldeia. Só precisamos dizer a ele que uma história, e que folhas velhas ou seja lá o que escolhermos, tem a ver com essa história. Sinais, sabe como é. Ele pode não ficar intrigado na primeira noite, mas vai encontrar aquela folha quando for para a cama. Depende de quão bem nós vamos fazer tudo.

Reconheci a direção de mestre, mas tudo parecia depender de nossa escolha de estímulos. As folhas mortas, com delicadas articulações úmidas em meio a seixos coloridos, moscas mortas, pedaços de papel rasgado com poucas palavras decifráveis… Uma mistura de tudo ou uma seleção?

—Algo tangível, —disse minha irmã — esse é o caminho. Nossa única dificuldade será posicionar o objeto.

—O que vai onde?— perguntei

Parecia necessário para o plano determinar que razão tornaria cada objeto sinistro. Mas não consegui que a minha irmã esperasse.

—Não é assim.— disse ela, pensativa — Abelhas mortas, penas, pedaços de vela? Luvas velhas? Luvas com botões e sem botões. Isso serviria.

Me senti um pouco estranha.

—Bem, — disse eu —acho que isso seria bom, sum homem nunca tem dessas luvas em casa, mas mulheres, sim. Não é o tipo de luvas que usamos, mas ele não saberia disso. E como vamos conseguir tudo isso?

—Tem uma caixa de sapato cheia de luvas, junto da porta que dava para a casa dele, quando as duas casas eram uma só.

Nossas casas eram muito antigas, lado a lado e dividas por uma parede compartilhada, com os pomares separados por uma cerca. Alugávamos a nossa de um amigo que tinha comprado de porta fechada recentemente, de uma família cujos membros foram morrendo, e de quem pouco se sabia. Minha irmã disse:

—Couro preto e marrom bem lustroso, com botõezinhos de vidro branco, costura cruzada e trançada. Todas do mesmo tamanho e, suponho do mesmo par de mãos. Algumas ainda tem todos os botões, outras tem alguns e outras não tem mais nenhum.

Eu ouvi essa ladainha até já não saber quantas vezes minha irmã a repetira.

—Com botões e sem botões— repeti, sem conseguir lembrar quantas vezes eu tinha dito isso.

Depois disso, não falamos mais sobre o assunto, e foi só três dias depois que ele nos convidou para jantar. Ainda era dia claro quando passamos por uma abertura na cerca viva e nos sentamos na sua varanda, cujas colunas de madeira se abriam em ripas verdes ao encontrar o telhado. Ela fazia um quadro elegante, com os janelões por trás e paredes grossas de pedra britada. Roseiras se enrolavam nos pilares. Era uma casinha bem arrumada, mas não se podia esquecer que era assustadoramente antiga.

—Aliás,—disse Trenchard. (Seu nome era Trenchard e, como eu já disse, ele tinha voltado à Inglaterra para descansar, depois de passar muito tempo cuidando de alguns negócios na África Oriental). — alguma de vocês, por acaso, perdeu uma luva?

Então ela já tinha começado o plano sem me falar nada, pensei.

—Não, —respondemos—mas alguém pode ter perdido. Que tipo de luva é?

—Uma luvinha engraçada de couro marrom e sem botões. Não achei mesmo que fosse de vocês. Encontrei no topo da escada do sótão. Do lado de fora da porta. Aqui está.

Ele entrou em casa e voltou para a varanda onde estávamos jantando, um momento depois, com ar confuso.

—Aqui está a luva.—disse ele. —Eu guardei na escrivaninha, mas o estranho é que, quando fui pegar, encontrei outra. Não é o par dela. Essa outra é preta.

Eram duas pequenas luvas femininas lustrosas, do tipo que nossas tias costumavam usar quando éramos crianças. Eu ainda não tinha visto nossa coleção. A preta tinha três botões faltando. Dissemos a ele que não eram do tipo de luva que as mulheres usavam atualmente.

—Minha senhoria comprou a casa sem mobília—ele explicou —Devem ter ficado no meio das coisas que os antigos donos deixaram para trás quando morreram.

Minha irmã se arrepiou de leve, fez uma pequena careta e mordeu o lábio. Eu balancei a cabeça para ela.

—O que foi? —ele perguntou, calmamente

—Nada. Não quero que você ria de mim. — Minha irmã respondeu.

—Eu não vou fazer isso.— ele irradiava boa-vontade, parecia pronto para ser até tolerante.

—Oh, mas você teria o direito de rir…

Depois disso, ele queria saber logo de uma vez.

—Não devia confiar em você, mas… Você não sabe que a sua metade da casa é o lugar mais assombrado da aldeia? E que tem a ver com essas luvas? Com botões e sem botões?

Foi ridiculamente fácil. Ele não ficou irritado, mas sim, intrigado com a história dela. Eu ainda estava ofendida porque ela não tinha ensaiado tudo comigo antes. Ela começou a contar a ele uma história sobre a Velha Srta. Blacken, que morava na casa com seu irmão, e era uma velha solteirona decrépita com roupas horríveis, mas muito caprichosa com as mãos; e que havia algo – não, não um fantasma – mas algo que acontecia que sempre era precedido por luvas sendo encontradas. Nós contamos essa história e ele se comportou muito bem, sem nos passar nenhum sermão.

—Mas não é justo—ele comentou —Não posso ser egoísta. Ela deve deixar algumas em sua casa. Lembre-se que na época da Srta. Blacken, as duas casas eram uma só.

Então conversamos sobre outras coisas, mas quando voltamos para casa percebi que minha irmã estava um pouco pensativa. Comecei a minha queixa.

—Por que você não me disse que já tinha começado? Por que não me ensaiou?

Então ela confessou:

—Para dizer a verdade, eu ainda não tinha intenção de começar. Eu inventei na hora tudo o que eu disse. Tudo o que fiz foi que, pouco antes de sair, corri para o sótão e peguei uma luva da caixa e a deixei na escrivaninha dele. Mas essa foi a segunda luva que ele encontrou.

—E a primeira? A que ele encontrou junto da porta do sótão?

—Isso que é estranho. É por isso que ele nunca pensou que fomos nós. Eu não tive a chance de chegar naquela parte da casa. Eu não coloquei aquela luva lá.

***

Bem, agora que a intriga tinha sido lançada, sentimos que era melhor continuar. Embora eu não tenha certeza se ainda estávamos tão animadas. Era como se, e já sabíamos que isso era possível, a coisa tivesse começado por si mesma. Às vezes parece que foi isso que aconteceu. De qualquer forma, uns dois dias depois, achei que era minha vez de colocar uma luva na casa dele, então subi até o nosso sótão e tirei uma da caixa. Não havia nada nela além de luvas. Peguei uma branca, meio rasgada, com apenas dois botões e, quando tive certeza que ele tinha saído, me esgueirei pelo buraco da cerca viva e a coloquei no pé da escada. Ele me deu um tremendo susto quando voltou exatamente naquele momento. Eu disse que tinha vindo pegar um livro. Ele viu a luva.

—Ora, mais uma. Está começando. Com essa são quatro.

—Quatro? — exclamei. —Mas eram só duas naquela noite.

—Encontrei mais uma no meu quarto. Cinza. Será que nunca vamos conseguir fazer um par?

Me ocorreu que ele poderia ter descoberto nosso plano, e eram dele as luvas a mais. Peguei meu livro e voltei para falar com minha irmã.

—Não vai dar certo.— ela disse— Ele é esperto, mas não fomos nós que começamos. Ele encontrou uma antes.

—Estou começando a achar que seria uma boa ideia perguntar pelo vilarejo se alguém sabe alguma coisa sobre a Srta. Blacken e o irmão dela .

—Você vai.—ela sugeriu, ainda pensativa.

Eu fui ao pub assim que ele abriu, mas não consegui nada. Só ouvi sobre doenças de abelhas e galinhas e fofocas de vizinhos. No correio também não descobri nada. Estava voltando por um atalho, ao longo de uma estrada remota, quando uma voz me parou:

—É a senhorita que anda perguntando por aí sobre a Senhorita Blacken lá no Stone Cottages?

Era um caseiro que estava no pub, e apareceu de repente junto de uma porteira junto de um abeto frondoso.

—Como a senhorita está usando as coisas dela…—disse ele.

Fomos andando. Descobri que, depois que ela morou uns cinquenta anos naquele vilarejo, não havia nada de novo a descobrir a seu respeito, mas esperei que ele terminasse.

—Já o irmão dela, ele não era o que eu chamaria de ‘normal’— ele fez uma pausa.

—Ela era uma donzelona. Se é que era donzela mesmo. O irmão é que não dava para dizer fosse um sujeito normal, porque ele não era, se é que a senhorita me entende.

Eu entedi. Finalmente descobri, não sei bem como, certamente o homem não tinha dito isso com todas as letras, que a Srta. Blacken era uma criatura cinzenta, que nunca parecera, de sua natureza, estar bem vivendo nem morrendo, e cujas roupas eram, por assim dizer, farrapos. De qualquer forma, certa vez ela deixou cair algo na grama, “com seu perdão, Senhorita, uma anágua”, segundo a esposa dele lhe contara, e correu sem parar para pegá-la, falando sozinha. Foi então que tudo começou. Se é que se podia chamar aquilo de começo. Era sobre isso que andava perguntando? Ele disse que não podia explicar ao certo. Foram as mulheres que levaram a história a sério. O que aconteceu com a anágua? Aí estava o sentido de tudo. Não era, pensando bem, uma anágua de fato. Naquele dia não estava ventando, e quando a mulheres tentaram pegar, ela voou para longe como um vendaval a tivesse soprado para bem longe até o céu. E, num outro dia, ela apareceu pendurada nos galhos de um elmo, balançando ao vento; e as mulheres perceberam que havia buracos nela, que faziam o formato de um rosto. E não é de admirar, pois ela tinha passado meio inverno voando pelos topos das árvores. Não caiu no chão em momento algum? Não que elas tivessem visto. Nem a Velha Srta. Blacken foi procurá-la. Mas foi nessa época que as pessoas começaram a vê-la andando por aí à noite.

Já um pouco intrigada, perguntei sobre as luvas e ele só me contou que “dizem que ela deixou as luvas dela por aí”

Contei tudo para minha irmã e passamos a noite fazendo uma imitações da Srta. Blacken usando algumas velharias vitorianas. Foi muito divertido, mas nem um pouco convincente.

—Amanhã, vamos dar mais uma luva para ele? —sugeri. Foi então que percebemos com toda clareza que isso não era mais necessário. As luvas apareceriam por si mesmas.

—Eu sei o que fizemos. — minha irmã declarou — Nós demos corda.

—Demos corda no quê? No fantasma da velha excêntrica do vilarejo, que tinha tanto cuidado com as mãos?

—Oh, não—respondeu minha irmã. —Não sei. Oh, não.

***

Depois de mais três dias, eu disse:

—Não aconteceu mais nada por lá. Quer dizer, ele não encontrou mais luvas. Não é melhor nós darmos um empurrãozinho?

—Tinha uma no meu quarto ontem, desabotoada.—disse ela. —Não fui eu que levei para lá.

Fiquei muito aborrecida. Aquilo parecia estar indo longe demais. Mas, em que direção? O que se faz quando esse tipo de coisa acontece? Eu estava com aquela cara que se faz quando a sua melhor amiga não para de falar de si mesma, quando a sombra de um homem se projetou dentro de nossa casa. Era o Trenchard. Minha irmã olhou e disse rapidamente:

—Acabei de encontrar mais uma.

—Encontrou? — ele respondeu, hesitante. —Eu também.

Havia algo de muito direto e de alguma forma reconfortante na maneira como ele estava levando a coisa, peça por peça, sem presumir que tudo significava o que ele pensava que devia significar. Foi então que começamos a sentir vergonha de nós mesmas. Ele continuou:

—Você conhece minha gata. Ela estava escondida no sótão com os filhotes, e eu resolvi subir para dar uma olhada neles. Eu subi devagar, para não assustá-la. Vocês sabem que é bem escuro no topo da escada. Eu cheguei lá, e então ouvi alguma coisa pequena caindo de um degrau. Pensei que fosse um gatinho tentando explorar. Eu espiei, estiquei a mão, e peguei uma luva.

Então, ele a tirou do bolso e a segurou por um dedo, com um leve desconforto. Desta vez era marrom.

—Um botão.—ele disse. Os gatinhos não são grandes o suficiente para brincar com isso, e a gata não estava por perto. Nem passa vento ali. Engraçado, não é? Me lembrou de um daqueles brinquedos humpty-dumpty que tínhamos antigamente, um bonequinho de seda com braços e pernas e um rosto pintado, e um mármore solto dentro dele para fazê-lo virar e cair.

Minha irmã disse:

—Encontramos uma caixa de luvas soltas em nosso sótão perto da porta que dava para o seu lado, que agora está murada.

Ele respondeu que a porta estava, sim, murada com tijolos e perguntou se tínhamos contado os tijolos, para ver se não era alguma das empregadas fazendo molecagens, por conta das histórias do vilarejo Não tínhamos, mas percebi que ele desconfiava de nossas empregadas tão pouco quanto nós. Também vi que seu comportamento era tão razoável porque ele ainda não havia pensado que havia qualquer motivo para suspeita.

—Vamos fazer isso agora.— ele propôs —Vamos colocar as luvas todas de volta, as minhas e as suas. Depois contamos quantas são e trancamos sua porta.

Ele voltou para casa, pegou suas cinco luvas, e juntos subimos as escadas. Eles se sentaram no chão e esvaziaram a caixa.

Vinte e sete. Onze pares ao todo e uma faltando. Eu as coloquei de volta na caixa de papelão, amarelada pelo tempo e a poeira. Olhei para o nariz largo e reto dele e o nariz pequenino e arrebitado da minha irmã. Ambos estavam farejando.

—Há um cheiro aqui—disseram eles. Havia. Não era aquele cheiro de pó, cânfora, ratos e maçãs adequado para um sótão.

—Eu sei o que é. — disse Trenchard — Já senti esse cheiro na África, em um lugar úmido. Pele podre.

O sótão ficou escuro de repente. Nós olhamos para cima. Não havia janelas, mas alguém abrira o telhado para fazer uma claraboia. Ela estava coberta com alguma coisa, apesar de não estar ventando lá fora. Peguei a alça de ferro com orifícios, encaixei o pino na moldura e empurrei para cima. O objeto deslizou sobre o telhado. Eu coloquei meu braço para fora, a agarrei e puxei para dentro. Era um pedaço de chita com uma superfície encerada e rígida, do tipo que antigamente se usava para fazer forros. Parecia não ter forma, mas havia buracos nela. Buracos, não rasgos.

—Trapo nojento—exclamei —Devia estar preso no telhado.

Nosso telhado era velho e cheio de flores. Aquela coisa combinava mais com uma lata de lixo. Um dos lados estava colado. Uma enorme aranha saiu dele. Deixei o pano cair no chão ao lado da caixa e das luvas. Fiquei surpresa ao ver Trenchard olhar para ele com nojo.

—Não gosto de ver as coisas se estragando. — ele explicou. Saímos do sótão, trancando a porta e descemos as escadas. Demos a chave para ele. Parecia a coisa decente a se fazer.

Durante um chá tardio e contemplativo, conversamos sobre outras coisas. Não achamos necessário revelar para ele o que o caseiro tinha me contado.

***

A noite foi maravilhosa, assim como o dia seguinte e a noite seguinte. Os dias eram aquecidos por um sol constante, e refrescados por garoas noturnas que faziam as fragrancias durarem mais. A rotina do mundo era como orvalho secando na asa de uma mariposa, na pele de uma uva ou na pétala de uma rosa. E nada mais aconteceu. Na noite seguinte, Trenchard pretendia dar uma pequena festa para o seu aniversário, para alguns amigos que chegariam de automóvel; minha irmã e eu estávamos vendo se tudo estava em ordem, as flores, as frutas e o vinho, e todas as deliciosas comidas frias. Tínhamos coisas agradáveis e delicadas para fazer, fatiar os pepinos, colocar ramos de borragem1 e cânfora nas bebidas. As amêndoas não chegaram, então nós mesmas salgamos algumas e as tostamos no jardim, já que a cozinha estava muito quente com todas as panelas.

Por volta das seis horas, voltamos para casa, para nos arrumar. Tentando, como seria apropriado, imitar as modas de Paris, não só em honra de Trenchard, mas principalmente do jardim, do tempo agradável e da natureza. Acima de nossas cabeças, soou um barulho no sótão.

— O que foi isso? — perguntou minha irmã, enquanto se maquiava.

—Eu deixei a claraboia aberta. —respondi. —Dever ter batido. Deixe isso para lá. Por acaso eu estou vestida para subir no sótão?

Ela ficou pronta antes de mim, e disse que ia até a casa de Trenchard para ver se estava tudo em ordem. Metade do trabalho do nosso dia tinha sido mantê-lo fora do caminho. Tínhamos acabado de mandá-lo para o vilarejo para comprar mais morangos e esperávamos que ele voltasse a tempo de se arrumar, pois ainda estava bem cedo. Quando ela foi, ouvi seus passos na porta da frente da casa dele, e alguns momentos depois, quando terminei de me vestir, desci as escadas e saí do outro lado do pomar para me juntar a eles. Ele tinha subido para se trocar, mas assim que cheguei à varanda, ouvi um pequeno grito que parecia ser dele. Entrei correndo com minha irmã, que também estava do lado de fora, construindo uma última pirâmide de morangos em um prato em forma de folha verde. Ele saiu da sala de jantar.

—Quem fez isso? —ele disse.

A mesa de jantar estava posta para que os convidados se servissem. Havia pequenas tigelas de vidro decorado cheias de doces e amêndoas. Uma delas estava cheia de botões; botõezinhos brancos arrancados, ainda enroscados com linhas vermelhas e marrons.

—Eu enchi essa travessa com rosas de açúcar, com uma rosa de verdade de decoração. — minha irmã disse, com uma voz pequenina e fraca.

—O que a sua empregada… —eu comecei a perguntar, quando ele gritou de novo.

—O que essa luva está fazendo atrás do seu vestido?

Eu estava usando um casaquinho prateado. Eu o tirei, e do colarinho caiu no chão outra luva, uma luva preta. Ela não tinha botões e estava aberta como uma mão. Trenchard a pegou, e eu pensei tê-la visto desfazer-se um pouco.

—Não há tempo para contá-las esta noite—disse ele, olhando em volta. Estava muito quente para acender a lareira, mas as acendemos em todos os quartos. Ele largou a luva e acendeu um fósforo. A enorme chaminé costumava rugir assim que era acesa, mas o fogo não pegava. Ele saiu para o banheiro com a luva e o prato.

—Suba e vista-se—dissemos quando ele voltou; mas em vez disso ele cheirava algo.

—É o cheiro que sentimos naquele dia. No sótão. Pele morta.

Do lado de fora, o ar estava quente e adocicado, tingido de frescor, mas percebemos que dentro da casa fazia frio, um frio rançoso.

—Vá se trocar—insistimos, com instinto feminino de manter as minúcias das coisas estáveis e em sequência.

—Os convidados não vão chegar antes das oito, ainda temos muito tempo. — ele disse, sem medo, sem curiosidade, mas não era adequado nos deixar sozinhas naquela situação desagradável e sem explicação.

—A sua empregada..— comecei de novo.

—Minha empregada está bem. Saiam e esperem na varanda. Eu já vou descer.

Então ele subiu. Pegamos duas cadeiras e sentamos cada uma de um lado das portas de vidro abertas, de onde podíamos ver dentro da casa. Lembramos que a empregada dele, assim como a nossa, tinha voltado para sua casa para se arrumar. Portanto, não havia ninguém em nenhuma das duas casas.

—Ele está levando tudo bem — concordamos— mas osque é tudo isso?

O que queria dizer: “o que foi que nós fizemos?” e (como eu e minha irmã nunca mentíamos uma para a outra) “Não foi você que fez aquilo com os botões na travessa?” “Meu Deus, claro que não!”

—Uma velha suja—disse minha irmã —mas muito caprichosa com suas mãos.

—Coisas sujas feitas de uma maneira delicada. Aquele pedaço de pano.

A casa e o pequeno pomar eram circundados por árvores altas. Havia já uma pitada de anoitecer, e os galhos altos pareciam negros contra um céu profundamente dourado. O que era quilo pendurado no alto, bem no alto da árvore, aquilo que parecia um quadrado de pano com buracos?

Lá em cima, Trenchard devia ter ido primeiro ao banheiro. Então o ouvimos, andando em seu quarto, logo acima do telhado da varanda. Então o ouvimos gritar novamente, um grito que ele tentou abafar. Nós corremos pela grama e chamamos em baixo da janela dele. Ele respondeu:

—Não, Não subam!

É claro que corremos para dentro e passamos pela sala de estar para subir as escadas. A porta da sala de jantar ainda estava aberta, e com o canto do olho eu vi uma vela, derretendo e pingando horrivelmente para o lado do castiçal, ainda que na sala não houvesse vento.

—Nos deixe entrar! — chamamos na porta dele.

—De todos absurdos imundos! –ele repetia: – Olhem a minha camisa.

No topo da cômoda da qual ele a havia tirado, estava sua camisa; sobre o linho branco e engomado estava o que parecia um pedaço de geleia cinzenta. Só que tinha se espalhado de um único coágulo em cinco fitas, como uma mão ou os dedos de uma luva.

—Bela traquinagem! —ele resmungou— Não me deixar me trocar para o jantar.

Eu ouvi minha própria voz dizer:

—Todas as suas camisas estão assim?

—Não,— ele respondeu, mal humorado—se não se importam de esperar aqui, eu vou descer e ver o que está acontecendo.

Ele pegou outra camisa e terminou de se vestir, estremecendo a cada vez que encostava em alguma coisa. Para nós parecia haver lesmas por toda parte (lesmas eram a coisa de que mais tínhamos medo), e seguramos as saias de nossos vestidos bem junto ao corpo.

Descemos todos juntos para a sala de jantar e lá minha irmã deu um grito. No topo da pirâmide de morangos no centro da mesa, jogada sobre as frutas, parecendo um amontoado de lesmas, estava uma luva gorda, de couro amarelo alaranjado. Uma cor que não tínhamos visto na caixa. O pulso e os dedos abertos pareciam inchados. Sem botões.

—Que truque das Bruxas é esse? — ele berrou, nos encarando, pois éramos mulheres. E como uma onda vindo em nossa direção, veio a consciência de que nós éramos mesmo responsáveis por tudo aquilo. Nossa ganância e vaidade ao elaborar o plano tinha causado tudo. E agora, tínhamos que ter a coragem, a coragem e a inteligência, de colocar um fim naquilo. E não tínhamos ideia de como fazer isso.

—O fogo deve queimar tudo— eu disse. —Um fogo grande.

Ele se virou para o banheiro externo.

—Que perfume você está usando? — ele perguntou à minha irmã. —Deixe-me cheirar esse perfume. Vá pegá-lo!

Ela correu, e eu fiquei ali parada, sentindo minhas omoplatas e da parte de trás do meu pescoço, e de todo o meu corpo que eu não conseguia ver. As portas não se abriam. Eu o ouvi xingando e tropeçando, ouvi o barulho dele chutando um balde para longe no quintal. Minha irmã voltou correndo com um frasco de perfume na mão, berrando:

—Não é mais perfume! Eu cheirei! Tem o mesmo cheiro do sótão!

Ela apertava o vidro, borrifando todos nós violentamente. Eu não conseguia sentir o cheiro morto do sótão, mas apenas a fragrância doce das luvas de couro, como o cheiro um animal feminino.

Lá fora, a deliciosa noite transbordava para dentro, se misturando ao cheiro original da casa; cheiro de flores e tabaco, de móveis polidos e fumaça de madeira e coisas gostosas de comer. Trenchard trouxe um galão de parafina. Ele o virou e jogou tudo na lareira da sala de estar.

—Peguem todas as luvas! — ordenou, mas olhou para nossos longos vestidos, e mudou de ideia —Eu vou. Eu tenho a chave do sótão.

Nós espiamos novamente a sala de jantar, que dava para a cozinha. A vela estava eviscerada, caída de lado em dobras de cera derretida; uma aranha correu por cima de um prato. Minha irmã disse:

—Só tem cinco pernas. Como uma luva.

Esperamos.

—Vamos acender o fogo— decidimos, e eu peguei uma lata de fluido e cambaleei com ela, segurando-a longe do corpo até a lareira da sala de estar e encharquei a lenha empilhada. O cheiro desagradável nos pareceu doce e tranquilizador. Minha irmã jogou um fósforo. Um rugido calou o crepitar das toras de lenha.

—Agora, vamos. — procuramos mais luvas na gaveta da escrivaninha. Eu subi correndo para pegar a camisa de Trenchard, e ao voltar encontrei minha irmã com as mãos cheias de morangos. Ela os jogou junto com a luva amarela dentro da pilha flamejante. Eu arranquei a vela do castiçal, minha irmã tirou a tampa do vidro de perfume e o esvaziou de seu liquido precioso, que fez chamas azuis e brancas acenarem para nós de dentro da feroz fogueira amarela.

—Acabou. — eu disse

—Onde ele está? — perguntou minha irmã. Olhamos uma para a outra.

—É culpa nossa. Temos que ir até lá. Se começar aqui de novo quando estivermos lá, Deus sabe o que devemos fazer.

Então ela disse:

— O sótão. Foi lá que tudo começou.

Lá fora, o pomar estava repleto das conversas dos pássaros. Dentro, em meia hora, íamos dar uma festa de aniversário. Entramos pelo buraco na cerca viva de volta para o nosso lado da casa, que tinha se tornado, novamente, parte de uma casa só.

Lá, esperávamos encontrar um homem grande e nervoso, andando no andar de cima coletando coisas. Em vez disso, encontramos só silêncio, uma espécie de silêncio morto que veio ao nosso encontro pela escada íngreme.

A porta do sótão estava aberta.

Ele estava no lance de escada que levava até ela, caído com os pés para baixo, a cabeça na soleira; a cabeça invisível, envolta no que parecia um pedaço de algodão verde escuro, sujo e rasgado. Nós arrancamos o pano.

—Queime! Queime! —disse minha irmã.

Havia um pedaço de pano dentro da boca dele. Nós tiramos. Sua língua e boca estavam manchadas. Nós o arrastamos até o pé da escada e pegamos água.

—Pegue água fresca.— ela mandou —E segure isso com força.

Eu só queria soltar o pano, jogá-lo para longe; parecia que ele estava tentando se enrolar em mim, se agarrar no meu corpo.

Jogamos água nele. (“Com essa já são duas camisas, que noite!” pensei comigo mesma.) A essa altura, eu segurava o pano com a força, pois ele estava se mexendo, parecia puxado por um vento que não existia.

—As luvas. — disse Trenchard.

Fomos até o sótão. A clarabóia estava aberta e a caixa de papelão estava aberta e cheia. Ela tampou a caixa e a colocou debaixo do braço. Deixamos Trenchard deitado na escada e corremos através do pomar, de volta para a fogueira. Estava quase se apagando. O quarto estava abafado, e a madeira toda encharcada com um óleo preto. Minha irmã jogou a caixa, encharcou-a com óleo, e uma fumaça densa e cinza nos engoliu. Ela atirou um fósforo aceso sobre a caixa; ouvimos o grunhido de uma explosão e, assim que demos um passo para trás, as chamas irromperam. Senti minha mão pinicar, como se o pano queimasse entre os meus dedos.

—Não deixe o pano voar pela chaminé! —ela disse. — Se ele sair, vai voltar de novo.

Havia uma caixa de charutos sobre a mesa. Nós esvaziamos a caixa e enfiamos o pano dentro dela e fechamos. A jogamos tudo dentro o fogo e seguramos. A caixa de charutos subiu uma ou duas vezes, balançando enquanto a segurávamos com uma pá e um atiçador de chamas.

Então voltamos para onde estava Trenchard. Ele tinha acordado e estava sentado ao pé da escada que ia para o sótão,

—Está tudo queimado. — dissemos. —O que aconteceu com você?

—Só Deus sabe. — ele respondeu — Estava me abaixando para pegar a caixa, e alguma coisa bateu na claraboia. O vento a soprou para dentro, e quando eu vi estava enrolada na minha cabeça e eu não conseguia tirar. Eu tentei tirar, tentei rasgar. Até que já não aguentava mais. Estava se enrolando muito apertado. Eu devo ter desmaiado. Mas, meu Deus, aquele cheiro…

Notas da Tradutora:

1Planta usada com fins medicinais e na culinária de vários países europeus. Por ter um sabor parecido com o do pepino e considerado refrescante, ela é usada na Inglaterra para dar sabor a refrescos, drinks a base de gin e outras bebidas

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