De onde vem a má fama da Sexta-feira 13?

Saudações leitor noturno!

Hoje é Sexta-feira 13. No ocidente esta data está cercada de uma mística sombria. Desde a famosa lenda ds templários, até a franquia de filmes de terror “Sexta-feira 13”, estamos cercados de histórias, crenças e tradições que sempre nos ensinam a mesma lição: a sexta-feira 13 é um dia ruim, de mau agouro. Mas de onde vem essa má fama?

Triscaidecafobia: o medo do número 13

Sim, existe um nome específico para o medo do número 13: “Triscaidecafobia”, uma palavra que aparece pela primeira vez em 1910 no livro “Abnormal Psychology” do psiquiatra e neurologista Isador Coriat. Esse ‘palavrão’ denota um fenômeno real e até bem comum. Muita gente tem medo, desconfiança ou pelo meno um pouquinho de má vontade com o número 13 (a não ser que você seja torcedor do Botafogo do Rio de Janeiro ou do Treze da Paraíba, mas superstições futebolíticas já são outro departamento).

Para entender porque o número 13 ganhou tantas associações negativas, primeiro precisamos falar de seu antecessor: o número 12. Já reparou como esse número está frequentemente conectado com coisas posítivas ou místicas? Vejamos: O Zodíaco tradicional tem 12 signos. Jesus Cristo tinha 12 apóstolos. Os deuses olímpicos da mitologia grega eram 12. Na mitologia Viking, Odin tem 12 filhos. Em muitas versões da lenda do Rei Artur os cavaleiros da Távola redonda eram 12 (provavelmente para criar uma associação com os apóstolo). São 12 as tribos de Israel. O calendário tem 12 meses e um dia tem 24 horas, ou seja duas vezes 12.

Relógio astronômico em Praga, mostrando os doze signos zodiacais.

O número 12 costuma ser associado com o equilíbrio e a perfeição, provavelmente por razões que podem ser explicadas pela matemática. Ele é considerado um número sublime, isto é um inteiro positivo que tem um número perfeito de divisores positivos (incluindo o próprio), e cuja soma dos divisores positivos é outro número perfeito. Só são conhecidos dois numeros sublimes, o 12 e o 608655567023837898967037173424316962265783077335188597052832486051279 (não, isso não foi erro de digitação, é esse número enorme aí mesmo)

De acordo com Jean Chevalier, em seu Dicionário de símbolos:

o doze é o número das divisões espaço-temporais. É o produto dos quatro pontos cardeais pelos três planos do mundo (…) O 12 simboliza o universo no seu curso cíclico espaço-temporal. Doze simboliza também o universo na sua complexidade interna

Logo, fica claro como o 13 ganhou conotações negativas: ele “quebraria” a perfeição representada pelo número 12. Essa ideia é bem ilustrada pela crença muito comum durante o período medieval de que Judas teria sido o décimo-terceiro a se sentar à mesa durante a última ceia, depois de Jesus e dos demais apóstolos, o sinal de que seria ele o traidor. Para Tomas Fernsler, pesquisador do Centro de Recursos para Educação em Matemática e Ciências da Universidade de Delaware, a associação entre o número 13 e a má sorte reside no fato de que esse número “está ligeiramente além da perfeição. Isso torna o número inquieto, desconfortável” . Voltando ao Dicionário de símbolos de Jean Chevalier, o 13 é o “elemento excêntrico, marginal, errático que foge à ordem e aos ritmos normais do universo.”

A Última Ceia- Leonardo DaVinci- 1495-1498

A desconfiança do 13 é um fenômeno mais forte no imaginário europeu e Cristão do que em outras religiões e culturas. Por exemplo, em diversas culturas pagãs, o número estava associado ao feminino pois correspondia ao número de ciclos lunares em um ano, e o ciclo lunar tem a mesma duração do ciclo menstrual (28 dias; então 28 x 13 =364), o que torna fácil de entender porque a Lua geralmente está associada a diversas divindades femininas nas religiões pré-cristãs. Até hoje muitos praticantes de Wicca acreditam que 13 é número ideal de pessoas em uma congregação de bruxos. (Isso pode ter levado à disseminação de superstições no período medival e moderno segundo as quais as bruxas se reuniam durante a lua cheia em grupos de 12, sendo o décimo-terceiro participante o próprio demônio). Já na cultura judaica, o 13 também tem conotações positivas. Segundo a tradição judaica os meninos atigem a maioridade aos 13 anos idade em que passam pela cerimônia de bar-mitzvá (as meninas ganham uma celebração similar chamada de bat-mitzvá, mas ao 12 anos). Segundo o filósofo e rabino Maimonides, figura central do pensamento judaico medieval, são 13 os princípios da Fé judaica e pela tradição rabínica, Deus teria 13 atributos de Piedade. Nas culturas Maia e Asteca o número 13 também tem grande importância. No livro sagrado maia Popol Vuh, são treze divindades que criaram a humanidade e no calendário asteca, o treze representa o tempo e o fim de um ciclo. Então dá para imaginar que o folclore cristão pode ter assimilado o número 13 como algo negativo, dado a sua importância para grupos religiosos que o Cristianismo via como “hereges” ou inimigos.

Hécate, deusa grega da Lua, da noite e da magia, Maximilian Pirner, 1901

Mas é claro que isso é tudo superstição religiosa do passado, né? Bem, na verdade…não. A triscaidecafobia é mais comum do que se imagina. Por exemplo, ainda que isso não aconteça com tanta frequencia no Brasil, em vários países não é raro que prédios seram planejados para não ter um décimo terceiro andar: muitas vezes esse andar é chamado de andar 12A, “pulado” (ou seja, depois do 12º, o próximo é designado como 14º) ou é usado como andar “vazio”, em geral contendo apenas equipamento ou servindo para propósitos de manutenção predial. De acordo com registros da fabricante de elevadores americana Otis, cerca de 85% dos elevadores que a empresa instalou até o ano de 2002 não tinham o décimo terceiro andar. Essa prática também é comum em países asiáticos, como na China onde muitos prédios não tem o nem o décimo-terceiro, nem o quarto andar (na Ásia o 4 também é considerado “azarado”). Outro exemplo interessante vem da Irlanda: neste país as placas dos carros geralmente contém os dois últimos dígitos do ano de emplacamento, por essa razão, no ano de 2013, o governo irlandês substituiu o 13 por 31 ou 32, por receio de que as vendas de automóveis caíssem.

Ou seja, muita gente realmente tem triscaidecafobia, inclusive gente famosa como, por exemplo, ninguém menos que Stephen King, o meste do terror. King já declarou:

O número 13 sempre encosta seus dedos gelados na minha espinha. Quando estou escrevendo, nunca paro de trabalhar se estiver na página 13 ou em algum múltiplo de 13. Eu continuo digitando até chegar em um número seguro. Eu sempre pulo os dois últimos degraus da escada dos fundos como se fossem um, para que o 13 vire 12. Afinal, até mais ou menos 1900 os cadafalsos ingleses tinham 13 degraus. Quando estou lendo, eu nunca paro nas páginas 94, 193 ou 382, pois a soma dos dígitos destes número dá 13.”

Aliás, um dos mais famosos contos de Stephen King, se chama “1408”. 1+4+0+8=13. Este conto se passa dentro de um quarto de hotel “possuído”, cujo número é 1408, e que fica…no décimo terceiro andar.

Adaptação cinematográfica de 1408, direção de Mikael Håfström

E o que tem a Sexta-feira a ver com isso?

Não sabemos ao certo quantas pessoas sofrem de triscaidecafobia, mas segundo o Centro de Controle de Estresse e Instituto de Fobias de Asheville, na Carolina do Norte, entre 17 e 21 milhões de Norte-americanos sofrem de frigatriscaidecafobia, isto é, o medo da Sexta-feira 13. Então, onde foi que a sexta-feira entrou nessa história?

Você provavelmente já deve ter ouvido a história de que a fama da Sexta-Feira 13 vem da “Perseguição aos cavaleiros Templários”. Seria isso verdade? Sim e não. Sim, é verdade que o Rei Felipe IV da França ordenou a prisão, tortura e execução dos Cavaleiros Templários em uma Sexta-feira 13 de Outubro de 1307, mas não é verdade que foi esse evento que originou a mística deste dia. Essa história em particular tende a mostrar os Templários como um grupo de “mártires”, perseguidos por um rei malvadão, mas quem sabe o mínimo de história, sabe que ela não tem mocinhos nem bandidos. Há uma aura em torno dos Templários que os mostra como “cavaleiros de Deus”, quase santos, mas eles eram apenas um grupo de militares que também constituiam uma ordem religiosa, e acabaram ficando tão ricos e poderosos (politica e militarmente) que se tornaram uma ameaça para outras forças políticas que tinham interesse tanto em sua riqueza quanto em diminuir sua influência. O declínio dos Templários foi um conflito político, e a ideia de que ele teria alguma coisa a ver com a maldição da sexta-feira 13 só apareceu no século XX, junto com várias teorias da conspiração que inspiraram livros como o “Código DaVinci”.

Selo dos Cavaleiros Templários

O mito da sexta-feira 13 como um dia maldito é bem mais recente.

Até o século XIX em várias culturas ocidentais, a sexta-feira foi tradicionalmente considerada um dia de má sorte, independente da data do calendário por ser o dia da morte de Cristo. Jesus Cristo foi cruxificado na véspera do dia de descanso da semana judaica, o sábado, e teria ressucitado no domingo. Por isso no Cristianismo o dia sagrado de descanso e oração é o domingo, e não o sábado, como deveria ser se o Velho Testamento fosse seguido à risca: Deus criou o mundo em seis dias e no sétimo, descansou: o sétimo dia da semana é o sábado, não o domingo. Aliás, a sexta-feira teria sido o dia em que Deus criou o homem à sua imagem e semelhança (o sexto dia), portanto, simbolicamente, Deus teria oferecido seu filho em sacrifício pela humanidade no mesmo dia em que, originalmente, criou o primeiro homem. Isto significa que no imaginário Cristão a sexta-feira é um dia bem, digamos, “carregado” simbolicamente.

Cristo crucificado, Diego Velazquez, c. 1632

No entanto, embora haja evidência histórica de que tanto o 13 quanto a sexta-feira tinham conotações negativas no imaginário cristão, não há nenhum registro confiável de que existia alguma superstição específica sobre a sexta-feira 13 até o século XIX. Uma citação interessante vem da biografia do compositor Giochino Rossini, escrita por H.S Edwards:

Rossini morreu cercado por amigos que o admiravam, e se é verdade que ele, como muitos italianos, considerava a sexta-feira um dia de azar e o 13 um número de azar, então é impressionante que ele tenha falecido em uma sexta-feira 13”.

Ao ler essa passagem podemos verificar que o autor, que era inglês, menciona a crença no azar da sexta e do 13 como surpestições italianas, o que dá a entender que não eram necessariamente comuns na Inglaterra, e ele também não menciona nenhuma crença específica sobre a sexta-feira 13, apenas parece achar curioso que Rossini tenha morrido neste dia. Isso nos dá a entender que na época em que o compositor morreu, em Novembro de 1868, esta superstição não devia ser muito comum.

Gioachino Rossini, foto de Etiènne Carjat, 1865

Aliás, até hoje a sexta-feira 13 não é uma “unanimidade”. Por exemplo na Espanha e na Grécia o dia considerado agourento é a Terça-feira 13. Há algumas teorias que tentam explicar a razão. No caso da Espanha o nome do dia seria a justificativa: em espanhol este dia da semana se chama “Martes”, em homenagem ao deus romano Marte, deus da guerra e da discórdia (curiosamente, em espanhol, sexta-feira é “Viernes” em homenagem à Vênus, a deusa romana do amor e da sexualidade, ou seja ela é a padroeira do “sextou”). Segundo outra teoria, tanto espanhóis quanto gregos consideram a terça-feira 13 azarada pois a queda de Constantinopla na Quarta Cruzada aconteceu em uma terça, 13 de Abril de 1204. Já na Itália essa “honra” também é compartilhada pela sexta-feira 17. A crença vem dos numerais romanos: 17 é XVII. Embaralhando as letras de XVII, é possível formar a palavra VIXI, em Latim “eu vivi”, o que implica a morte (“eu vivi” no passado indica que a pessoa que fala já não vive mais), tornando o 17 também um número azarado.

Em seu livro 13: The Story of the World’s Most Notorious Superstition, Nathaniel Lachenmeyer oferece a teoria de que a popularização da sexta-feira 13 como dia de azar teria sido disseminada nos Estados Unidos pelo romance Friday, the Thirteenth de Thomas W. Lawson, publicado em 1907 e muito popular na época. Lawson era um homem de negócios extremamente supersticioso, que fez fortuna usando de métodos digamos, pouco ortodoxos, mas também era defensor de reformas no sistema que regia o mercado de ações. Em Friday, the Thirteenth ele usa sua própria superstição e ideias reformistas como inspiração para narrar uma história na qual o protagonista causa intencionalmente um crash na bolsa de valores, justamente em uma sexta-feira 13.

Seja essa teoria verdadeira ou não, é inegável que a mística da sexta-feira 13 se tornou muito mais forte a partir do século XX e em grande parte isso se deve ao cinema. Com o lançamento do filme Sexta-feira 13, em 1980, o que era uma só superstição virou puro terror. O título original do filme seria “Long Night at Camp Blood” (algo como “Uma longa noite no campo sangrento”), até o que o diretor Sean Cunningham propôs o título que entraria para a história do cinema de terror. Mas logo houve uma preocupação a respeito do título: o diretor temiaque já houvesse algum outro filme com o mesmo nome, o que poderia resultar em processo. Curiosamente, só foi encontrado um outro filme com título similar: Friday the 13th: The Orphan, o que não foi um empecilho para a produção. Prestando bastante atenção nos diálogos do filme, dá para perceber quer o título foi uma mudança “de última hora” já que a sexta-feira 13 não é muito mencionada, e há uma referência meio “jogada” à data como aniversário de Jason.

Foi a partir do lançamento de “Sexta-Feira 13” que a cultura popular norte-americana abraçou completamente esta data como não apenas agourenta, mas como sinônimo de horror. E como o mundo inteiro consome a cultura pop norte-americana, a sexta-feira 13 virou dia de azar até em culturas que não tinham essa superstição. Antes da entrada de Jason Vorhees em cena, a sexta-feira 13 era mais vista mais como um dia no qual as coisas davam errado ou quando eventos esquisitos aconteciam (como no romance de T. W. Lawson), mas nem sempre evocava a ideia de medo ou de morte.

Claro que “Sexta-feira 13” não fez isso sozinho, mas foi a produção de maior sucesso dentre os filmes, livros, histórias em e produtos culturais que usaram a mística da sexta-feira e do número 13 para criar narrativas de terror. Sob a ótica da cultura popular e do entretenimento, eventos históricos anteriores como o declínio dos Templários ou os acidentes e tragédias que, por acaso, caíram nesta data, assim como todas as lendas em torno do número 13 e da sexta foram, de certa forma “revisados” pelo nosso imaginário coletivo, e encaixados em um molde sinistro etiquetado como “Sexta-feira 13”. Afinal, se tem uma coisa que a mente humana adora fazer é e criar conexões e padrões onde eles não necessariamente existem. E foi assim que Sexta-Feira 13 ficou, para sempre, amaldiçoada.

Material consultado

Livros:

H.S. Edwards. The life of Rossini. Hansebooks, 2020

Jean Chevalier, Dicionário de símbolos. Editora José Olympio, 1998

Nathaniel Lachenmeyer. 13:The Story of the World’s Most Notorious Superstition

Peter Bracke. Crystal Lake Memories. 2006

Raymond Buckland. Buckland’s Complete Book of Witchcraft. Llewellyn Publications, 2002

Artigos:

20 things you probably didn’t know about Stephen King

Bottom line conjures up realty’s fear of 13

Friday the 13th Superstitions Rooted in Bible and More

Maimonides- Stanford Encyclopedia of Philosophy

Menstrual cycles and lunar cycles: Is there a link?

My jewish learning: The 13 attributes of Mercy

What Is Friggatriskaidekaphobia, or How Did Friday the 13th Get So Scary?

Why is Friday the 13th Considered Unlucky?

Venerdì 13 porta (s)fortuna? Non in Italia

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