O Quarto Azul- Lettice Galbraith

Imagem de capa: Annie Spratt

“The Blue Room” foi publicado pela primeira vez na revista Macmillan em Outubro de 1897

….

Aconteceu duas vezes na minha época. Dizem que nunca mais voltará a acontecer, já que a Srta. Erristoun e o Sr. Calder-Maxwell descobriram, entre eles, o segredo do quarto assombrado, e exorcizaram o fantasma; pois era mesmo um fantasma, embora na época o Sr. Maxwell tenha lhe dado um outro nome, em latim, eu acho. Só lembro que era uma palavra que me fez pensar em uma criação de aves.

Eu sou governanta de Mertoun Towers, como minha tia foi antes de mim, e a tia de minha tia antes dela. A primeira foi minha bisavó, que era prima distante do dono das terras. Ela era casada com um capelão, mas acabou sem um centavo com a morte do marido, e ficou muito grata em aceitar o cargo que desde então é ocupado suas descendentes. Isso nos dá uma certa posição perante os criados, já que somos, por assim dizer, parentes da família; e Sir Archibald e minha senhora sempre reconheceram essa ligação, nos permitindo mais liberdade do que seria concedida aos empregados comuns.

Mertoun é meu lar desde meus dezoito anos. Foi quando me aconteceu algo que não tem nada a ver com esta história, então só preciso dizer que eliminou para sempre qualquer possibilidade de eu me casar, então vim para Mertoun Towers para ser treinada sob o olhar vigilante da minha tia para a posição na qual um dia eu a sucederia.

Claro que eu sabia que havia uma história sobre o quarto de tapeçaria azul. Todos sabiam disso, embora o Velho Senhor tivesse dado ordens estritas de que o assunto não fosse discutido entre os empregados, e que sempre se desencorajasse qualquer alusão ao tema tanto da parte de convidados quanto de familiares. Mas há um estranho fascínio em tudo o que tem a ver com o sobrenatural e, malgrado todas as ordens em contrário, as pessoas, nobres ou simples, sempre querem satisfazer a sua curiosidade. Assim, as conversas furtivas continuram tanto na sala de estar como na sala dos criados, e era raro o convidado que não visitava o quarto azul ou fazia perguntas sobre o fantasma. O estranho era que ninguém sabia quem seria esse fantasma, ou mesmo se havia algum fantasma de fato. Esforcei-me por convencer minha tia a me contar alguns pormenores da lenda, mas ela sempre me lembrava das ordens de Sir Archibald, e dizia que a história provavelmente começara com as fantasias supersticiosas de pessoas que viveram há muito tempo e eram muito ignorantes, só porque uma certa Lady Barbara Mertoun tinha morrido naquele quarto.

Lembrei-lhe que muitas pessoas devem ter morrido, em algum momento ou outro, em praticamente todos os quartos da casa, e ninguém tinha pensado em dizer que eram assombrados, ou insinuar que não era seguro dormir lá.

Ela respondeu que o próprio Sir Archibald tinha dormido no quarto azul, e um ou dois outros senhores tinham passado a noite lá por conta de uma aposta, e nenhum deles tinha visto nem ouvido nada de anormal. No que lhe dizia respeito, acrescentou, ela não se interessava em pessoas que perdiam o seu tempo a pensar em tal besteira quando era muito melhor que se dedicassem aos seus próprios assuntos.

De alguma forma, suas declarações de incredulidade não soavam verdadeiras, mas ainda que minha curiosidade não estivesse satisfeita, desisti de fazer perguntas. Porém, por mais que não dissesse nada, eu não parava de pensar naquela história. Muitas vezes, quando meus afazeres me levavam para o quarto azul, eu me perguntava por que razão, se nada tinha acontecido ali e se não havia um verdadeiro mistério, o quarto nunca era usado; não tinha sequer um colchão sobre o leito finamente esculpido, coberto apenas por um lençol para evitar a poeira. Então eu me esgueirava até a galeria de retratos para ver a grande efígie de Lady Bárbara, que tinha morrido em plena flor da juventude, e ninguém sabia por que, pois uma certa manhã ela foi simplesmente encontrada já rígida e fria, deitada naquela bela cama sob o dossel azul de tapeçaria.

Ela deve ter sido uma mulher bonita, com os seus grandes olhos negros e os seu esplêndido cabelo castanho-avermelhado, embora eu duvide que a sua beleza fosse só exterior, já que ela pertencera ao grupo mais cintilante da corte, o que não era muito respeitável naqueles dias, se metade das histórias que se ouvem são verdadeiras. De fato, uma senhora modesta dificilmente teria sido retratada com tal vestido, de ombros descobertos e tecido tão fino que era quase transparente. Também devia haver algo de errado com ela, pois dizia-se que seu sogro, que era conhecido como o perverso Lorde Mertoun, não a enterrara com o resto da família. Mas isso pode ter sido só por despeito, de raiva por ela não ter tido filhos, já que o marido de Lady Barbara, um homem de saúde frágil, morrera de tísica um mês depois dela, sem deixar nenhum herdeiro direto. Assim, com a morte do velho Lorde seu título foi extinto, e as propriedades passaram para o ramo protestante da família, do qual o atual Sir Archibald Mertoun é o herdeiro direto. Seja como for, Lady Bárbara jaz no adro da igreja, perto do portal, em um grande túmulo de mármore, mas sozinha, enquanto o caixão do marido tem o seu lugar ao lado dos irmãos que morreram antes dele, entre os seus antepassados no grande jazigo sob a capela-mor.

Muitas vezes, eu pensava nela e me perguntava por que ela morreu e como; e então o evento aconteceu e o mistério se tornou mais profundo do que nunca.

Houve uma reunião de família naquele Natal. Me lembro que foi primeiro Natal em muitos anos a ser celebrado em Mertoun, e estávamos assoberbados a organizar os quartos para os vários convidados, pois na véspera de Ano Novo haveria um baile na vizinhança, para o qual Lady Mertoun levaria um grande grupo, e naquela noite, pelo menos, a casa estava tão cheia de gente quanto podia acomodar.

Eu estava na lavanderia, ajudando a separar os lençóis e fronhas para as diferentes camas, quando a senhora entrou com uma carta aberta na mão.

Ela começou a conversar com minha tia em voz baixa, explicando algo que parecia tê-la incomodado, pois quando voltei depois de levar uma pilha de lençóis para a camareira, a ouvi dizer:

É muito desagradável desfazer todos os preparativos no último momento. Por que ela não poderia ter deixado a menina em casa e trazido outra empregada, que poderia ser alojada em algum lugar sem problemas?

Percebi que uma das visitantes, Lady Grayburn, tinha avisado que ia trazer sua dama de companhia e, como tinha deixado a sua empregada, que estava doente, em casa, queria que a jovem tivesse um quarto adjacente ao seu, para que pudesse estar à disposição para qualquer necessidade. O pedido parecia uma questão insignificante em si, mas realmente não havia espaço para acomodá-lo. Todos os quartos do primeiro corredor estavam ocupados, com excepção do quarto azul, que, por puro azar, ficava justamente ao lado do quarto designado para Lady Grayburn.

A minha tia fez várias sugestões, mas nenhuma delas parecia praticável até que, finalmente, minha senhora exclamou:

Bem, se não há o que se fazer, vamos ter que colocar a Srta. Wood no quarto azul. É só por uma noite, e ela não saberá nada sobre essa história tola.

Oh, minha senhora!— minha tia gemeu, e eu logo soube pelo seu tom que ela não tinha falado a verdade quando disse que não levava o fantasma a sério.

Não há o que fazer. — respondeu sua senhoria Além disso, não acredito que haja algo realmente errado com o quarto. Sir Archibald já dormiu lá e não encontrou qualquer motivo para queixa.

Mas uma mulher, uma jovem! — insistiu a minha tia Eu realmente não correria esse risco, minha Senhora; permita-me colocar um dos cavalheiros lá, e a Srta. Wood pode ficar com o primeiro quarto no corredor oeste.

E que utilidade teria ela para Lady Grayburn tão longe?— retrucou a Senhora. Não seja tola, querida Marris. Destranque a porta entre os dois quartos; a Srta. Wood pode deixá-la aberta se se sentir nervosa; mas não direi uma palavra sobre essa superstição tola, e ficarei muito aborrecida se alguém o fizer.

Ela falou como se isso resolvesse a questão, mas a minha tia era teimosa.

O Senhor,— murmurou ela o que ele vai dizer se colocarmos uma dama para dormir lá?

Sir Archibald não interfere nos arranjos domésticos. Prepare imediatamente o quarto azul para a Srta. Wood. Assumirei a responsabilidade se acontecer algo.

Com isso a Senhora se retirou, e não havia nada a se fazer senão cumprir suas ordens. O quarto azul foi preparado, a grande lareira foi acesa, e quando dei a volta pela última vez para ver se tudo estava em ordem para a chegada da hóspede, não pude deixar de notar como era bonito e confortável. Havia velas queimando brilhantemente na mesa de toilette e um belo fogo ardia na ampla lareira. Vi que nada tinha sido esquecido e estava prestes a fechar a porta quando os meus olhos recaíram sobre a cama. As cobertas estavam amassadas como se alguém tivesse se jogado sobre a cama, e fiquei aborrecida com as empregadas por terem sido tão descuidadas, especialmente com a fina colcha de cama. Dei a volta, ajeitei o forro de penas e alisei as cobertas, enquanto as carruagens passavam sob a janela.

Lady Grayburn e Miss Wood vinham subindo as escadas e, sabendo que não tinham trazido nenhuma empregada, fui ajudá-las a se acomodar. Fiquei muito tempo no quarto da senhora e, quando a acomodei, bati na porta ao lado e me ofereci para ajudar a Srta. Wood. Lady Grayburn me seguiu quase imediatamente para perguntar sobre o paradeiro de algumas chaves. Notei que ela falou muito rispidamente com sua acompanhante que parecia uma coisinha tímida e delicada em nada notável, exceto por seu cabelo, que era lindo, de um dourado pálido, amontoado em cachos largos ao redor de sua pequena cabeça.

Certamente se atrasará.— disse Lady Grayburn. Demorou tanto e ainda não terminou de desfazer as malas.

A jovem murmurou alguma coisa sobre haver tão pouco tempo.

Você teve tempo de se espalhar na cama em vez de se preparar. foi a réplica, e enquanto a Srta. Wood timidamente negava a acusação, olhei por cima do ombro para a cama e vi ali a mesma marca de amassado que havia notado antes. Isso fez o meu coração bater mais rápido, pois, sem qualquer razão, tive a certeza de que aquilo tinha que ter algo a ver com Lady Barbara.

A Srta Wood não foi ao baile. Ela jantou na sala de aula com a preceptora das meninas, e como ouvi de uma das empregadas que ela deveria esperar por Lady Grayburn, levei-lhe um pouco de vinho e uns sanduíches por volta de meia-noite. Ela ficou na sala de aula lendo um livro, até que o primeiro grupo de convidados chegou em casa, depois das duas da manhã. Eu estava vistoriando os quartos com a camareira para ver se as lareiras estavam acesas, e não fiquei surpresa ao encontrar aquele amassado estranho na cama novamente; na verdade, eu quase que esperava encontrá-lo. Eu não disse nada à camareira, que não pareceu ter notado nada fora do normal, mas contei à minha tia. Ela me respondeu bruscamente que eu estava falando bobagens, mas ficou bastante pálida, e eu a ouvi murmurar algo que soava como ‘Deus a ajude!’

Dormi mal naquela noite pois nada me fazia parar de pensar naquela pobre jovem sozinha no quarto azul, o que me manteve acordada e inquieta. Eu estava nervosa, suponho, e quando estava começando a cair no sono, tive um sobressalto, e imaginei ter ouvido um grito. Abri a porta e escutei, mas não ouvi nenhum som, e depois de esperar um pouco, voltei para a cama e fiquei lá tremendo até adormecer.

A casa não acordou tão cedo como de costume. Todos estavam cansados depois da noite longa, e o chá só seria servido para as senhoras às nove e meia. Minha tia não disse nada sobre o fantasma, mas notei que ela estava inquieta e a primeira coisa que me perguntou foi se alguém tinha ido ao quarto da Srta. Wood. Estava prestes a dizer que Martha, uma das empregadas, tinha acabado de levar a bandeja do chá, quando a menina entrou correndo com uma cara branca e apavorada.

Misericórdia, Sra. Marris!— ela gritou Venha para o quarto azul; algo terrível aconteceu!

A minha tia não perguntou nada, só correu escada cima e, enquanto eu seguia, a ouvi murmurar para si mesma: ‘Eu sabia, eu sabia. Oh Senhor! Como minha senhora vai se sentir agora?’

Nem que eu viva até os cem anos, nunca esquecerei o rosto daquela pobre moça. Ela parecia estar congelada de terror. Seus olhos estavam arregalados e fixos, e suas mãozinhas agarradas na colcha de cada lado do corpo. Ela estava deitada na cama no mesmo lugar onde o cobertor estava amassado.

É claro que toda a casa despertou. Sir Archibald mandou um dos criados buscar um médico às pressas, mas não havia nada que ele pudesse fazer quando chegou; a Srta. Wood estava morta havia pelo menos cinco horas.

Foi uma situação triste. Todos os hóspedes foram embora o mais rápido possível, exceto Lady Grayburn, que foi obrigada a ficar para o inquérito.

Em seu relatório, o médico afirmou que a morte foi devido a um ataque do coração, ocasionado possivelmente por algum choque repentino; e embora o júri não tenha dito isso em seu veredito, era um segredo aberto que todos culpavam a dona da casa por permitir que a Srta. Wood dormisse no quarto assombrado. Ninguém poderia tê-la repreendido mais amargamente do que ela mesma, pobre senhora; e se ela cometeu um erro, certamente sofreu as consequencias, pois nunca se recuperou do choque daquela manhã terrível, e tornou-se quase inválida até sua morte cinco anos depois.

Tudo isso aconteceu em 184–. Passaram-se cinquenta anos até que outra mulher dormisse no quarto azul, e cinquenta anos trouxeram consigo muitas mudanças. O Velho Lorde foi para junto de seus falecidos pais, e seu filho, o atual Sir Archibald, assumiu em seu lugar; seus filhos já eram homens adultos, e o Sr. Charles, o mais velho, já casado, era pai de um belo menino. A minha tia tinha morrido havia muitos anos, e eu era uma mulher idosa, embora ativa e capaz como sempre de manter as empregadas à altura do seu trabalho. Elas precisam de mais atenção agora do que antigamente, quando não se falava tanto de educação e as mocinhas que prestavam serviço pensavam menos em vestidos e mais em trabalhar. Acontece que a educação é uma coisa boa em seu devido lugar, isto é, para pessoas aristocráticas. Ora, se a Srta. Erristoun, não fosse a jovem inteligente e obstinada que é, nunca teria libertado o quarto azul do seu terrível mistério e vivido para fazer do Sr. Arthur o homem mais feliz do mundo.

Ele começou a prestar muita atenção nela quando a moça veio no verão para visitar a Sra. Charles, e não ficou surpreso ao descobrir que ela era uma das convidadas para a abertura da temporada de caça. Não era uma festa normal em casa (pois Sir Archibald e Lady Mertoun estavam fora), apenas meia dúzia de jovens damas, amigas da Sra Charles, que era ainda muito jovenzinha, e os cavalheiros que o Sr. Charles e o Sr. Arthur tinham convidado. E como eram animados, fazendo almoços à sombra, jogos de tênis e organizando pequenos bailes com apenas algumas horas de antecedência, e às vezes de noite eles brincavam de esconde-esconde por toda a casa, como se fossem um monte de crianças.

Surpreendeu-me, a princípio, ver a Srta. Erristoun, que tinha fama de ser tão erudita que conversava com os cavalheiros em Cambridge de igual para igual, brincando como qualquer jovem comum; ela parecia gostar da diversão tanto quanto os demais, e era sempre a primeira a se apresentar para qualquer atividade sugerida. Não estranhei que o Sr. Arthur estivesse interessado nela, pois era uma menina bonita, alta e bem feita, e portava-se como uma princesa. Ela tinha um cabelo maravilhoso também, tão comprido, segundo sua criada pessoal, que tocava o chão quando ela se sentava em uma cadeira para escová-lo. Parecia que todos gostavam dela, mas logo percebi que ela preferia companhia do Sr. Arthur ou do Sr. Calder-Maxwell.

Hoje, o Sr. Maxwell é um Professor, um grande acadêmico na Universidade de Oxford; mas na época ele era apenas um estudante de graduação assim como o Sr. Arthur, embora mais estudioso, pois passava horas na biblioteca debruçado sobre aqueles livros antigos cheios de estranhos caracteres negros, que o perverso Lord Mertoun colecionava na época do rei Carlos II. De vez em quando, a Srta. Erristoun ficava em casa para ajudá-lo, e foi algo que descobriram naqueles estudos que lhes deu uma pista sobre o segredo do quarto azul.

Por muito tempo após a morte da Srta. Wood, qualquer menção ao fantasma era estritamente proibida. Nem o Senhor nem a Senhora suportavam a menor referência ao assunto, e o quarto azul era mantido trancado, exceto quando precisava ser limpo e arejado. Mas, com o passar dos anos, a tragédia foi sendo esquecida e, aos poucos, tornou-se só uma história sobre a qual as pessoas falavam da mesma forma que falavam quando cheguei à Towers. Ainda que muitos acreditassem no mistério e especulassem sobre o que o fantasma poderia ser, havia outros que não hesitavam em declarar que a morte da Srta. Wood naquele quarto tinha sido uma mera coincidência e sem qualquer ligação com a atuação do sobrenatural. A Srta.Erristoun era uma das que mais defendia esta teoria. Ela não acreditava nem um pouco em fantasmas, e dizia abertamente que não havia nenhuma história sobre casas mal-assombradas que não pudesse se explicada por causas naturais, se as pessoas tivessem coragem e ciência suficientes para investigar minuciosamente.

Aquele tinha sido um dia muito úmido, os cavalheiros tinham ficado em casa, e nada agradava à Sra. Charles, mas todos decidiram tomar um chá à moda antiga em meus aposentos1, e “discutir fantasmas’, como ela dizia. Fizeram-me contar-lhes tudo o que sabia sobre o quarto azul, e foi então, quando todos estavam debatendo a história e especulando sobre o que o fantasma poderia ser que a Srta. Erristoun disse.

A pobre moça tinha problemas de coração— e concluiu Ela teria morrido da mesma maneira em qualquer outro quarto.

Mas e as outras pessoas que dormiram lá? — alguém argumentou

Eles não morreram. O velho Sir Archibald não sofreu nada, nem o Sr. Hawksworth, nem o outro homem. Eles eram saudáveis e corajosos, por isso não viram nada.

Não eram mulheres, — sugeriu a Sra. Charles veja bem, o fantasma só aparece para o sexo frágil.

Isso prova que a história é uma mera lenda. — disse a Srta Erristoun, decidida. Primeiro, foi relatado que todos os que dormiram no quarto morreram. Então um ou dois homens dormiram lá e permaneceram vivos; então o conto teve que ser modificado, e como se podia provar que uma mulher morreu repentinamente lá, a fatalidade foi representada como ligada apenas às mulheres. Se uma moça corajosa e de constituição sólida passasse a noite naquele quarto, seu encantador espectro familiar ficaria desacreditado para sempre.

Houve um coro de perfeita discordância. Nenhuma das damas concordava, e a maioria dos cavalheiros duvidava que a coragem de qualquer mulher resistisse à prova. Quanto mais discutiam, tanto mais a Srta. Erristoun persistia na sua opinião, até que, finalmente, a Sra Charles ficou irritada e exclamou:

Bem, uma coisa é falar e outra é fazer. Confesse, Edith, que não se atreveria a dormir naquele quarto.

Não só me atrevo como é exatamente o que farei— respondeu ela, direta. Não acredito em fantasmas e estou pronta para passar no teste. Vou dormir no quarto azul hoje à noite, se quiserem, e amanhã de manhã terão de admitir que seja lá o que houver na câmara assombrada, não é um fantasma.

Penso que, naquela altura, a Sra. Charles já tinha se arrependido de ter falado pois todos levaram a Srta. Erristoun a sério, e os cavalheiros começaram a apostar se ela veria alguma coisa ou não. Quando ficou claro que era tarde demais, ela tentou fazer pouco do desafio, tratando-o como absurdo, mas a Srta. Erristoun estava convicta. Ela disse que pretendia cumprir o prometido, e se não tivesse permissão para arrumar uma cama, ‘levaria seus próprios cobertores e travesseiros e acamparia no chão’.

Os outros riam e debatiam, mas vi o Sr. Maxwell olhar para ela com muita curiosidade. Em seguida, ele chamou o Sr. Arthur de lado e começou a falar em voz baixa. Eu não consegui ouvir o que ele disse, Mas o Sr. Arthur respondeu bastante ríspido:

É a ideia mais louca que já ouvi, e não vou absolutamente permitir!

Talvez ela não peça a sua autorização.— respondeu Sr. Maxwell. Em seguida, dirigiu-se à Sra. Charles e perguntou-lhe quanto tempo fazia desde que o quarto azul tinha sido limpo e arejado Eu podia responder a essa pergunta, e quando ele soube que não havia roupa de cama lá, mas que a lareira era mantida regularmente, disse que pretendia ter o primeiro a colocar o fantasma à prova, e se ele não visse nada, haveria tempo suficiente para a Srta. Erristoun tentar.

O Sr. Maxwell tinha uma espécie de talento para resolver as coisas e, de alguma forma, com a sua maneira tranquila, parecia sempre conseguir o que queria. Pouco antes do jantar, ele veio ter comigo e com a Sra. Charles, e disse que estava tudo bem, e que eu deveria preparar o quarto em segredo, para que os outros criados não soubessem, e ele ia dormir lá.

Soube na manhã seguinte que ele desceu para o café da manhã, como de costume, e disse que tinha passado uma noite excelente e que nunca tinha dormido tão bem.

Aquela foi outra manhã chuvosa, mas o Sr. Arthur saiu mesmo assim. Quase discutiu com a Srta. Erristoun e ficou furioso com o Sr. Maxwell por ter encorajado a ideia de testar “a teoria do fantasma”, como a chamavam. Os dois cavalheiros passaram a maior parte do dia na biblioteca e a Sra. Charles ficou azucrinando a Srta. Erristoun enquanto subiam as escadas para se trocar, perguntando se ela achava demônios interessantes. Sim, respondeu ela, mas faltava uma página na parte mais emocionante do livro. Durante algum tempo, não conseguiram entender nada do contexto mas logo o Sr. Maxwell descobriu que uma folha tinha sido cortada. O mordomo me contou que eles não falaram de outro assunto durante todo o jantar, e a Srta. Erristoun parecia tão interessada nos estudos, que eu esperava que ela tivesse esquecido o quarto assombrado.

Mas ela não era do tipo que esquecia. Mais tarde, à noite, a encontrei conversando com o Sr. Arthur no corredor. Ele falava muito sinceramente, e eu a vi dar de ombros; só olhava para ele e sorria, de uma forma que deixava claro que não iria ceder. Eu ia saindo de mansinho para não incomodá-los, quando o Sr. Maxwell saiu do salão de bilhar.

É nossa vez, ele disse por que não volta para jogar o desempate?

Estou pronta”— Erristoun respondeu, e estava se afastando, quando o Sr. Arthur colocou a mão em seu braço.

—Prometa primeiro.— insistiu —Me prometa isso, pelo menos.

—Como você é cansativo! ela retrucou com uma certa mesquinhez. Muito bem, então, eu prometo; e agora, por favor, não me apoquente mais.

O Sr. Arthur a observou voltar para a sala de bilhar com o seu amigo e deu um suspiro. Então ele me avistou e se aproximou.

—Ela não vai desistir.—ele lamentou, e vi que seu seu rosto estava bem pálido. Fiz tudo o que pude; teria telegrafado meu pai, mas não sei onde vão se hospedar em Paris e, de qualquer forma, a resposta não chegaria a tempo. Sra. Marris, ela vai dormir naquele quarto maldito e se acontecer alguma coisa com ela-eu…

Ele se calou e jogou-se no assento da janela, escondendo o rosto em seus braços cruzados.

Estava tão preocupado que eu quase chorei de pena dele. O Sr. Arthur sempre foi um dos meus favoritos, e fiquei muito zangada com a Srta.Erristoun por deixá-lo tão infeliz só por causa de uma bravata boba.

—Acho que estão todos loucos. ele prosseguiu. Charley deveria ter posto um fim naquilo de uma vez, mas Kate e os outros o convenceram. Ele diz que não acredita que há perigo, e Maxwell está com a cabeça cheia das besteiras que encontrou naqueles livros bestiais sobre Demonologia, e ele a está apoiando. Ela não dá ouvidos a uma palavra do que eu diga. Ela me disse até que nunca mais falaria comigo se eu interferisse. Ela não se importa comigo; agora sei disso, mas não posso fazer nada: eu daria a minha vida por ela.

Fiz o possível para confortá-lo, dizendo que não aconteceria nada com a Srta. Erristoun; mas não adiantou, pois eu mesma não acreditava nas minhas garantias. Senti que nada de bom poderia vir de um tal atentado à providência, e me parecia ver de novo a terrível imagem do rosto daquela pobre menina quando a encontramos morta naquele quarto perverso. No entanto, é uma verdade que “uma mulher voluntariosa sempre consegue o que quer”, e não podíamos fazer nada para impedir a Srta. Erristoun de arriscar sua vida. Mas tomei uma decisão: não me importava o que os outros fariam, eu não dormiria aquela noite.

Estava arrumando as cortinas de Inverno, e a estofadora tinha usado o pequeno boudoir no final do longo corredor para seu trabalho. Acendi o fogo, trouxe uma lâmparina nova, e quando a casa estava quieta, me esgueirei e me instalei lá para vigiar. Não estava a dez metros da porta do quarto azul, e podia caminhar sobre tapete grosso sem fazer nenhum barulho, e ouvir no buraco da fechadura. A senhorita Erristoun tinha prometido ao Sr. Arthur que não trancaria a porta; foi a única concessão que ele tinha conseguido obter dela. As damas foram para os seus quartos por volta das onze, mas a Srta. Erristoun ficou conversando com a Sra. Charles por quase uma hora, enquanto a sua criada escovava seu cabelo. Eu a vi entrar no quarto azul, logo Louise a deixou sozinha, e tudo ficou quieto.

Devia ser por volta de uma e meia quando pensei ter ouvido algo se mexendo lá fora. Abri a porta e olhei para fora, e lá estava o Sr. Arthur no corredor. Ele se assustou quando me viu.

A senhora está acordada. disse ele, entrando na sala; Então acredita que algo de maligno vai acontecer hoje à noite? Os outros foram para a cama, mas eu não consigo descansar; não adianta tentar dormir. Eu queria ficar no salão de fumar, mas é muito longe. Eu não conseguiria ouvir nada de lá, mesmo que ela gritasse por ajuda. Escutei à porta, e não ouvi nada. A senhora não pode entrar e ver se está tudo bem? Oh, Sra. Marris, se ela…

Eu sabia o que ele queria dizer, mas não queria admitir que fosse possível… ainda.

—Não posso entrar no quarto de uma dama sem qualquer razão,— respondi —mas fui até a porta várias vezes durante a última hora. Não era nem meia noite e meia quando parei de ouvir a Srta. Erristoun se movimentando, e não creio, Sr. Arthur, que Deus permita que lhe aconteça algo de mal, sem avisar os que se preocupam dela. Vou continuar a vigiar, e se houver o mínimo indício de qualquer coisa errada, irei imediatamente até ela, e o Senhor fica por perto para ajudar.

Conversamos um pouco mais até que ele pareceu mais calmo, e então ficamos sentados esperando, quase sem falar uma palavra, exceto quando, às vezes eu saía para ver se ouvia algo. A casa estava mortalmente quieta; havia algo terrível, pensei, naquele silêncio; não havia sinal de vida lugar nenhum, exceto no pequeno boudoir, onde o Sr. Arthur andava para cima e para baixo, às vezes sentando-se com um olhar tenso em seu rosto, observando a porta.

Às três da manhã, saí de novo. Havia uma janela no corredor que fazia um ângulo com a porta do boudoir. Quando passei, alguém saiu de trás das cortinas e uma voz sussurrou:

Não se assuste, Sra. Marris; sou eu, Calder-Maxwell. O Sr. Arthur está lá, não está? Ele abriu a porta do boudoir.

—Posso entrar? ele disse baixinho. Imaginei que estaria por aqui, Mertoun. Eu mesmo não tenho medo, mas se há alguma coisa nessa historinha, também é bom que alguns de nós estejam presentes. Foi uma boa ideia pedir que a Sra. Marris o acompanhasse.

O Sr. Arthur olhou para ele com uma expressão mais fechada que um céu de tempestade.

—Se você não soubesse que havia algo de errado acusou não estaria aqui agora; e sabendo disso, você é nada menos do que um canalha por incitar aquela garota a arriscar sua vida para tentar provar suas teorias insanas. Não é mais meu amigo depois disto, e nunca mais voltarei a vê-lo com bons olhos ou a falar consigo.

Fiquei bastante assustada com aquelas palavras e com a forma como o Sr. Maxwell poderia reagir; mas ele apenas sorriu e acendeu um cigarro, bastante calmo e silencioso.

—Não vou brigar com você, velho amigo. Ele respondeu Você está um pouco tenso esta noite, e quando um homem está nervos, ele não deve ser responsabilizado por todas as suas palavras.

Então ele virou-se para mim.

—A senhora é uma mulher sensata, Sra. Marris, e uma mulher corajosa também, imagino. Se eu ficar aqui com o Sr. Arthur, pode ficar perto da porta da Srta. Erristoun? Ela pode falar durante o sono; isso não tem importância; mas se ela gritar, entre imediatamente, imediatamente, a senhora entende? Nós vmos ouvir e iremos imediatamente.

Nessa altura, o Sr. Arthur estava de pé.

—Você sabe mais do que está dizendo— exclmou.-Dormiu naquele quarto ontem à noite. Por Deus, se você planejou alguma brincadeira com ela, eu vou…

O Sr. Maxwell manteve a porta aberta.

—Pode ir, por favor, Senhora Marris?— ele pediu do seu jeito tranquilo.Mertoun, não seja idiota.

Fui como ele mandou, e dou a minha palavra de que era toda ouvidos, pois tinha a certeza de que o Sr Maxwell sabia mais do que nós e que esperava que algo acontecesse.

Parecia que tinham se passado horas, embora eu saiba agora que não pode ter sido mais de um quarto desse tempo, antes que eu tivesse certeza de que alguém estava se movendo atrás daquela porta fechada.

A princípio, pensei que fosse apenas o meu próprio coração, que batia contra as minhas costelas como um martelo; mas logo pude distinguir passos e uma espécie de murmúrio como alguém falando continuamente, mas muito baixo. Então uma voz (desta vez foi da Srta. Erristoun) disse:

—Não, é impossível; estou sonhando, devo estar sonhando.

Ouvi uma espécie de farfalhar, como se ela estivesse andando rapidamente. Meu dedos seguravam a maçaneta, mas parecia que tinha perdido a força para mexê-la, e só podia esperar pelo que viria a seguir.

De repente, ela começou a dizer algo em voz alta. Eu não conseguia entender as palavras, que não soavam como o inglês, mas quase imediatamente ela parou.

—Não me lembro mais! gritou ela em tom desesperado.

—O que devo fazer? Não posso … houve uma pausa. Então..

Não, Não! ela gritou. Oh, Arthur, Arthur!

Com isso, minha força voltou e abri a porta.

Havia uma luminária acesa sobre a mesa, e o quarto estava bastante claro. A Srta. Erristoun estava de pé ao lado da cama e parecia estar apoiada nela; suas mãos estavam para baixo junto ao corpo, e os seus dedos agarrados à colcha. Seu rosto estava branco como um lençol, e os olhos arregalados de terror, como seria de se esperar pois, e sei que nunca tive tal choque em minha vida, juro pelo que há de mais sagrado, juro que havia um homem parado perto dela.

Ele virou-se e olhou para mim quando abri a porta, e vi o rosto dele tão claramente como o dela. Ele era jovem e muito bonito, mas seus olhos brilhavam como os de um animal quando você os vê no escuro.

—Arthur!A Srta. Erristoun chamou novamente e percebi que ela estava prestes a desmaiar. Corri e a agarrei pelos ombros quando ela já ia caindo na cama.

Tudo acabou num segundo. O Sr. Arthur a segurou em seus braços e, quando olhei para cima, só estávamos nós quatro na sala, pois o Sr. Maxwell tinha entrado logo atrás do Sr. Arthur e estava ajoelhado ao meu lado com os dedos no pulso da Srta. Erristoun.

—Foi apenas um desmaio, disse ele ela vai acordar logo É melhor tirá-la daqui imediatamente; aqui está um roupão.

Ele deu o roupão para o Sr. Arthur e ia ajudá-lo a levantá-la, mas o Sr. Arthur não precisava de ajuda. Ele carregou a Srta. Erristoun como se ela fosse um bebé, e levou-a diretamente para o boudoir. Ali, a deitou no sofá e ajoelhou-se ao lado dela, esfregando-lhe as mãos.

—Pegue o conhaque na sala de fumar, Maxwell.—ordenou Sra. Marris, a senhora teria seus sais à mão?

Eu sempre levo um vidrinho de sais no bolso, então o entreguei antes de correr atrás do Sr Maxwell, que tinha acendido uma vela, e ia buscar o conhaque.

—Devo acordar o Sr. Charles e os criados?perguntei.Ele deve estar escondido em algum lugar, mas ainda não deve ter tido tempo de fugir.

Ele pareceu pensar que eu tinha enlouquecido.

—Ele quem?

O homem. Tinha um homem no quarto da Srta.Erristoun. Vou chamar Soames e Robert.

A senhora não vai fazer nada disso ele disse bruscamente. Não havia homem nenhum naquele quarto.

—Havia, sim. retruquei —Eu vi; era um homem grande e forte. Alguém tem que chamar polícia antes que ele tenha tempo de fugir.

O Sr Maxwell sempre fora um cavalheiro um tanto estranho, mas eu não conseguia entender a forma como ele estava se comportando naquele momento. Ele apenas se encostou na parede e gargalhou até caírem lágrimas dos seus olhos.

—Não vejo razão para rir, eu insisti, ríspida, irritada com a maneira leviana com que ele tratou o assunto e considero que não é mais do que o meu dever informar o Sr. Charles de que há um invasor na casa.

Ele ficou sério de repente.

—Peço perdão, Sra Marris ele falou,sério mas não pude deixar de sorrir com a ideia de chamar a polícia. O vigário seria mais adequado, considerando as circunstâncias. Mas não devemos acordar a casa toda; isso poderia colocar a Srta. Erristoun em uma situação delicada, e em todo caso, não seria de utilidade alguma. Não entende? Não foi um homem que a senhora viu, foi um..bem, foi a entidade que assombra o quarto azul.

Então ele desceu correndo, me deixando muito atordoada, pois eu tinha tanta certeza de que o que eu tinha visto era um homem de verdade, que tinha até esquecido da história do fantasma.

A Srta. Erristoun não demorou a recobrar a consciência. Ela engoliu o conhaque que lhe demos, mansa como um cordeiro, e sentou-se tentando parecer corajosa, embora com qualquer barulho a assustasse, e não ela largasse a mão do Sr. Arthur, como uma criança assustada. Era curioso, depois da maneira altiva e distante com que ela o tratara antes agora ela parecia muito doce. Era como se eles tivessem chegado a um entendimento sem palavras; e, de fato, ele deve ter percebido que ela gostava dele quando, em um momento de tanto terror, foi seu nome que ela chamou.

Assim que ela se recuperou um pouco, o Sr. Maxwell começou a fazer perguntas. O Sr. Arthur fez menção de impedi-lo, mas ele insistiu que era da maior importância ouvir tudo enquanto a lembrança ainda estava fresca; e quando ela superou o primeiro esforço, a Srta.Erristoun pareceu sentir alívio em poder contar a sua experiência. Ela sentou-se, ainda segurando a mão do Sr. Arthur, enquanto falava, e o Sr. Maxwell ia registrando tudo o que ela dizia em seu bloco de notas.

Ela nos contou que foi para a cama muito tranquila, pois não apenas estava muito calma mas também estava cansada, e assim adormeceu logo. Então ela teve uma espécie de sonho, suponho, pois lhe pareceu estar no mesmo quarto, apenas mobiliado de forma diferente, exceto pela a cama. Ela descreveu exatamente a disposição de todos os objetos. Ela também tinha uma sensação muito estranha, de que não era ela mesma, mas sim outra pessoa, e de que ia fazer alguma coisa – algo que tinha de ser feito, embora estivesse sempre morrendo de medo e parasse para ouvir à porta interior, esperando que alguém a ouvisse, e a chamasse. Isso em si era estranho, pois não havia ninguém dormindo no quarto adjacente. No seu sonho, ela viu um curioso braseiro de prata que se encontra num armário na galeria de retratos (acho que ouvi a minha senhora chamá-lo de ‘um belo exemplo do trabalho do cinquecento2), e lembrou-se de segurá-lo nas mãos por muito tempo, antes de colocá-lo sobre uma mesinha ao lado da cama. Pois bem, a cama no quarto azul é muito bonita, com a cabeceira e o dossel ricamente esculpidos, e especialmente as colunas, que tem um pé quadrado na base e são cobertas com um relevo de frutas e flores. A Srta. Erristoun disse que chegou perto da coluna esquerda ao pé da cama, e depois de passar a mão sobre a o relevo, pareceu tocar uma mola em uma das flores centrais, e o painel caiu para fora como uma tampa, revelando um compartimento secreto do qual ela tirou alguns papéis e uma caixa. Ela parecia saber o que fazer com os papéis, embora não pudesse nos dizer o que estava escrito neles; e lembrava claramente de pegar uma pastilha da caixa e acendê-la no braseiro de prata. A fumaça subiu e pareceu encher todo o ambiente com um perfume forte, e então ela só lembrava de ter acordado parada no meio do quarto, e … a criatura que eu vi quando abri a porta estava lá.

Ela ficou muito pálida quando chegou a essa parte da história e estremeceu.

—Eu não podia acreditar,disse ela tentei me convencer que ainda estava sonhando, mas não estava, não estava. Era real, e estava bem ali, e, oh, foi horrível!

E escondeu o rosto no ombro do Sr. Arthur. O Sr. Maxwell ficou sentando com o lápis na mão, olhando para ela.

—Eu estava certo, então. Tinha certeza de que estava; mas parecia inacreditável.

—É inacreditável, —confirmou a Srta. Erristoun mas é verdade, assustadoramente verdade. Quando percebi que estava acordada, que era mesmo real, tentei lembrar das palavras, lembrar do ritual de exorcismo, mas não consegui fazer. As palavras saíram da minha cabeça; senti minha força de vontade falhar; fiquei paralisada, como se não pudesse fazer nada para me salvar e depois, depois eu… ela olhou para o Sr. Arthur seu rosto e colo ficaram enrubeceram. Pensei em você e chamei… tive a sensação de que você me salvaria.

O Sr. Arthur não se dirigiu a nenhum de nós, como se nem existíssemos. Ele apenas colocou os braços em volta dela e a beijou, enquanto o Sr. Maxwell e eu olhamos para o outro lado.

Depois de um tempo, o Sr. Maxwell disse:

Mais uma pergunta, por favor; como ele era?

Ela respondeu depois de pensar por um minuto.

—Era como um homem, alto e muito bonito. Tenho a impressão de que os seus olhos eram azuis e muito brilhantes.

O Sr. Maxwell me olhou inquisitivamente e eu confirmei com a cabeça.

—E como estava vestido?

Ela começou a rir quase histericamente.

—Parece insano demais para descrever, mas acho, não, estou quase certa de que usava trajes formais.

—É impossível!— exclamou o Sr. Arthur. Você estava sonhando o tempo todo, aí está a prova.

—Não, discordou o Sr. Maxwell—eles geralmente aparecem vestidos com trajes atuais. Você vai encontrar essa informação particularmente em Scott e Glanvill; Sprenger3 dá um exemplo também. Além disso, a Sra. Marris achou que se tratava de um assaltante, o que demonstra que a manifestação era objetiva e não apresentava qualquer peculiaridade marcante no modo de vestir.

—O quê? a Srta. Erristoun exclamou. A senhora também viu?

Então, eu lhe contei exatamente o que tinha visto. Minha descrição coincidia a dela em tudo, exceto pela camisa branca e a gravata, que da minha posição à porta, naturalmente, eu não pude ver.

O Sr. Maxwell passou a fita à volta do seu caderno. Ele ficou sentado em silêncio olhando para o fogo por um longo tempo.

—É uma crença do passado, disse ele finalmente, de si para si que tal coisa possa acontecer no final do século XIX, nestes tempos racionalistas e científicos quando pensamos tanto, nós, que, do alto de nossa superioridade intelectual, olhamos com desprezo para as superstições ignorantes da Idade Média.

Ele deu uma risada estranha.

—Gostaria investigar esse assunto a fundo Tenho uma teoria e, no interesse da investigação psíquica e da humanidade como um todo, gostaria de testá-la. Sei que a Srta. Erristoun deveria descansar e ficar sossegada, e já é quase de manhã; mas conceda-me um pedido. Antes que seja sobrecarregada com perguntas, antes de ter que relatar sua experiência até que a a lembrança dos eventos de hoje à noite percam a clareza, poderia vir comigo e Mertoun para o quarto azul e tentar encontrar o painel secreto?

—Ela nunca mais colocará os pés naquele quarto! —exclamou o Sr. Arthur, irritado, mas a Srta. Erristoun colocou a mão no seu braço para acalmá-lo.

—Espere um momento, querido—ela disse gentilmente vamos ouvir os argumentos do Sr Maxwell. Acha que o meu sonho tinha algum fundamento de fato; que algo relacionado com essa entidade terrível está realmente escondida no quarto?

—Eu achorespondeu ele que a senhorita tem a chave do mistério, e acredito que, se repetir a ação do seu sonho e abrir o painel secreto, poderá remover para sempre o legado da loucura imprudente de uma mulher. E se for fazê-lo, deve ser logo, antes que a lembrança tenha tempo de desaparecer.

—O farei agora mesmo, já estou de posse de meus sentidos novamente. Sinto o meu pulso; meus nervos estão perfeitamente estáveis.

O Sr. Arthur começou a protestar furiosamente. Ela passou por mais do que o suficiente por uma noite, insistiu, e ele não permitiria que sua saúde fosse sacrificada pelos caprichos de Maxwell.

Sempre achei a Srta. Erristoun bonita, mas nunca, nem mesmo no dia do seu casamento, ela me pareceu tão linda quanto no momento em que se levantou, deixando cair seu pesado roupão branco, com seus esplêndidos cabelos soltos, caindo sobre os ombros.

—Escute disse ela—se Deus nos dá uma missão clara a cumprir, temos que cumpri-la a qualquer custo. Ontem à noite eu não acreditava em nada que não pudesse compreender. Tinha tanto orgulho de minha própria coragem e bom senso que não tive medo de dormir naquele quarto para provar que o fantasma era um absurdo supersticioso. Aprendi que há forças sobre as quais nada sei e contra as quais a minha força não é nada mais que uma fraqueza absoluta. Deus me protegeu e me enviou ajuda a tempo; e se Ele abriu um caminho pelo qual eu posso salvar outras mulheres do perigo do qual escapei, eu seria mais muito ingrata se me esquivasse a tarefa. Traga a lamparina, Sr. Maxwell, e vamos fazer o que pudermos.

Então ela colocou as duas mãos nos ombros do Sr. Arthur.

—Por que está preocupado? perguntou docemente. Você está comigo, como posso ter medo?

Agora já não me surpreende que assaltos e outras coisas possam acontecer numa casa grande à noite, sem que viva alma perceba. Havia cinco pessoas dormindo nos quartos daquele corredor, enquanto andávamos para cima e para baixo e não incomodamos nenhuma sequer. Mas é verdade que agimos tão silenciosamente quanto possível, pois o Sr. Maxwell deixou claro que quanto menos se soubesse dos fatos, melhor. Ele foi primeiro, levando a lamparina, e nós seguimos. A srta. Erristoun estremeceu quando seus olhos viu a cama, na qual se podia ver aquele mesmo, terrível amassado. Eu sabia que ela estava pensando no que poderia ter acontecido se o socorro não estivesse perto.

Por um momento ela vacilou, então avançou corajosamente, e começou tatear sobre a madeira esculpida, procurando o mecanismo do painel secreto. O Sr. Maxwell manteve a luz perto, mas não havia nada que indicasse qualquer diferença entre aquele pedaço de escultura e as outras três colunas. Durante dez minutos ela tentou, e os cavalheiros também, e parecia que o sonho, afinal, não passava de uma ilusão, quando de repente a Srta. Erristoun gritou:

Encontrei!

Com um empurrãozinho, o quadrado de madeira caiu e lá estava o compartimento exatamente como ela o havia descrito.

Foi o Sr. Maxwell quem tirou as coisas, pois o Sr. Arthur não deixou que a Srta. Erristoun as tocasse. Havia um rolo de papéis e uma caixinha de prata. Ao ver a caixa, ela deu um gritinho e cobriu o rosto com as mãos.

É isso!

O Sr. Maxwell levantou a tampa e tirou da caixa duas ou três pastilhas. Então ele desdobrou os papéis, e antes de sequer olhar direito para a folha de pergaminho coberta com estranhos caracteres negros, exclamou:

—Eu sabia, eu sabia! É a folha que falta. Ele parecia tomado de uma excitação selvagem Venha e aproxime a luz, Mertoun, eu sempre disse que não era um fantasma, e agora tudo está claro como a luz do dia.

—Veja, ele prosseguiu, quando nós nos reunimos ao redor da mesa no boudoir, muito dependia de haver um herdeiro. Essa foi a principal causa das intermináveis discussões entre o Velho Lorde Mertoun e Lady Bárbara. Ele nunca tinha aprovado o casamento, sempre repreendeu a pobre mulher por ter falhado no principal dever da esposa de um filho único. Seu testamento mostra que ele não lhe deixaria um centavo no caso de seu marido morrer sem filhos. Naquela época a rixa com o ramo protestante da família estava muito acirrada, e o primeiro Sir Archibald tinha três meninos, e tinha se casado (quase ao mesmo tempo que o primo) com Lady Mary Sarum, que tinha sido rival de Bárbara na corte e a quem Bárbara odiava, naturalmente. Então, quando os médicos declararam que Dennis Mertoun estava morrendo de tuberculose, sua esposa ficou desesperada e recorreu à magia negra. É sabido que a coleção sobre Demonologia do velho Lorde era a mais completa da Europa. Lady Barbara deve ter tido acesso aos livros, e foi ela quem cortou esta página. Lord Mertoun deve ter descoberto o roubo e tirado suas próprias conclusões. Isso explicaria a sua recusa em admitir o enterro dela no mausoléu da família. Os Mertouns eram católicos convictos, e é um dos pecados capitais, como sabem, mexer com feitiçaria. Bem, Bárbara conseguiu adquirir as pastilhas, e fez o feitiço de acordo com as instruções dadas aqui, e então…Meu Deus! Mertoun, o que você fez?

Antes que alguém pudesse interferir, o Sr. Arthur tinha pegado os papéis, caixas, pastilhas e tudo da mesa e atirado no fogo. O pergaminho espesso enrolou-se e se desmanchou nas brasas, e um cheiro estranho e sutil de incenso espalhou-se, pesado, pela sala. O Sr. Arthur aproximou-se da janela e a abriu. O dia estava amanhecendo, e um vento doce e fresco soprava do leste todo rosado com o brilho do sol nascente.

—É uma história horrenda disse ele—e se há alguma verdade nela, para a proteção da família e do bom nome de uma mulher falecida, deixe-a descansar para sempre. Guardaremos segredo sobre os eventos desta noite. É suficiente que outros saibam que o feitiço do quarto azul foi quebrado, pois que uma jovem corajosa e de mente pura ousou enfrentar seu mistério desconhecido e exorcizou o fantasma.

O Sr. Calder-Maxwell pensou por um momento.

Acho que tem razão—admintiu, com um ar de resignação. Concordo com a sua proposta, e renuncio a minha oportunidade de alcançar a celebridade mundial entre os devotos da investigação psíquica; mas gostaria, Mertoun, que chamasse as coisas pelos seus nomes próprios. Não era um fantasma. Era um —

Mas, como eu disse, tudo o que me lembro agora da palavra que ele usou é que, de alguma forma, me lembrou de uma criação de galinhas.

Nota – o leitor observará que a digna Sra. Marris, embora não fosse estudiosa de Sprenger, discerniu inconscientemente a raiz da palavra em comum entre a incubadora do galinheiro e do incubo mencionado no tratado MALLEUS MALEFICARUM.

Notas da tradutora

1O chá servido nos aposentos da governanta da casa era um privilégio da família, raramente estendido a convidados, a não ser que fossem amigos íntimos. Os aposentos da governanta em uma casa vitoriana não correspondiam apenas ao seu quarto de dormir, mas também incluíam uma sala na qual podiam ser servidas refeições, e onde também eram guardados objetos usados para a administração da casa (chaves, notas de compras, livros de contabilidade, listas de encomendas etc), por isso era aberto aos membros da família, mas não a convidados. Obviamente só a própria governanta tinha acesso ao quarto pessoal.

2Cinquecento se refere ao século XVI na Itália, em especial em referência à arte do período, que corresponde ao auge do Renascimento

3Sprenger: Jacob (ou James) Sprenger foi um inquisidor e sacerdote dominicano do século XV, mais conhecido por ter colaborado com o texto da versão inglesa do Malleus Maleficarum, ou O Martelo das Bruxas. Glanvill: Joseph Glanvill filósofo e clérigo anglicano do século XVII, cujas teorias teológicas incluíam estudos sobre demonologia e bruxaria como o livro Saducismus Triumphatus. Scott: Sir Walter Scott, escritor e folclorista, escreveu em 1830 o estudo “Letters on Demonology and Witchcraft” sobre crenças sobrenaturais, demonologia e bruxaria que exerceu grande influência sobre os autores da literatura gótica de meados do século XIX.

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