“Terror Tropical”- William Hope Hodgson

(Imgem de capa: Diego Catto)

“A Tropical Terror” foi publicado pela primeira vez em Junho de 1905 na revista Grand Magazine. Foi o segundo conto de terror do autor, depois de “The Goddess of Death”, e continua sendo um de seus trabalhos mais populares.

Faz cento e trinta dias que deixamos Melbourne e esta calmaria sufocante já dura três semanas. É meia-noite, e nosso turno no convés vai até as quatro da manhã. Eu saio e sento na escotilha. Um minuto depois, Joky, nosso aprendiz mais jovem, junta-se a mim para jogar conversa fora. Costumamos conversar por horas e horas durante os turnos da noite , embora seja sempre Joky que fala mais. Eu me contento em fumar e ouvir, e faze algum barulho de vez em quando para mostrar que estou ouvindo.

Já faz um tempo que Joky está quieto, com a cabeça inclinada, pensativo. De repente, ele se volta, claramente com a intenção de falar alguma coisa. Quando ele faz isso, vejo sua expressão ficar tensa, cheia de um horror sem nome. Ele se agacha, olhando através de mim, como pudesse ver algum terror invisível. Então, ele abre a boca. Solta um grito sufocado e cai para trás da escotilha, batendo com a cabeça no convés. Com medo não sei de quê, me viro para olhar.

Deus do céu! Erguendo-se acima dos baluartes, claramente visível à luz da lua, vejo uma boca enorme, com a largura de uma braça, escancarada e babando. Dos enormes lábios gotejantes pendem grandes tentáculos. Diante dos meus olhos, a Coisa se aproxima da amurada do navio. Ela sobe, cada vez mais e mais alto. Não tem olhos visíveis; apenas aquela boca aterradora, salivante, acima de um tremendo pescoço grosso como um tronco, mas que, como posso ver, se curva com a rapidez furtiva de uma enorme enguia. Sobre o pescoço, há grandes guelras arfantes. Essa coisa não tem fim? O navio se move para estibordo, vagaroso e soturno, ao sentir seu peso. Então vem a cauda, uma massa larga e achatada que desliza sobre a amurada de madeira e cai com força sobre o convés.

Por alguns segundos, a criatura horrenda jaz, amontoada em em uma massa de dobras tortuosas e viscosas. Então, com movimentos rápidos e repentinos, a cabeça monstruosa percorre o convés. Perto do mastro principal estão os barris de arnês e, ao lado deles há um barril recém-aberto, cheio de carne seca, ainda com a tampa solta. O cheiro da carne parece atrair o monstro, e eu posso ouvi-lo farejando, com sua respiração funda e retumbante. Então aqueles lábios se abriram, exibindo quatro enormes presas; a cabeça se move para a frente, rápido, e com um ruído súbito e seco, tanto a carne quanto o barril desaparecem. O barulho atrai um dos marinheiros para fora do castelo de proa. Na escuridão da noite, ele não consegue ver nada logo de cara. Então, ao se aproximar, ele vê e, com gritos horrorizados, corre. Tarde demais! Na boca daquela Coisa brilha uma longa e larga fileira de dentes brancos, reluzentes e ferozes. Eu desvio meus olhos, mas não posso calar o mórbido “Glub Glub” que se segue.

O marujo que estava de vigia, atraído pelo alarido, vê a tragédia e foge em busca de refúgio no castelo de proa, fechando a pesada porta de ferro atrás de si.

O carpinteiro e o veleiro saem correndo do convés inferior. vestindo apenas as roupas de baixo. Mas ao ver aquela Coisa terrível, correm de volta para a cabine, berrando de pavor. O segundo oficial, depois de olhar o dano na popa, desce correndo pela escada do tombadilho, com o timoneiro logo atrás. Eu posso ouvi-los fechando a escotilha. Percebo que estou sozinho no convés principal.

Em momento algum pensei no perigo que corria. Os momentos que tinha acabado de viver pareciam fazer parte de um pesadelo. Agora, no entanto, percebendo minha situação, ignoro o horror que me domina, e tento procurar um lugar seguro. Só então meus olhos encontram Joky, deitado encolhido e apavorado, no mesmo lugar onde tinha caído. Eu não posso deixá-lo ali. Por perto, fica o convés inferior, vazio – um pequeno compartimento de aço com portas de ferro. O sotavento está aberto. Se conseguir entrar, estarei seguro.

A Coisa parece não ter percebido minha presença ainda. Agora, no entanto, a enorme cabeça abaulada se volta para a minha direção. Dela vem um urro abafado, e a grande língua entra e sai da bocarra quando o monstro se vira e avança, vindo ao meu encontro. Sei que não há um momento a perder e, agarrando o rapaz indefeso, corro para a porta aberta. Fica a apenas alguns metros de distância, mas aquela criatura horrível está deslizando e se contorcendo pelo convés logo atrás de mim. Eu alcanço o compartimento e caio para dentro, arrastando o rapaz junto comigo; saio para o convés novamente para destravar a porta e fechá-la. Quando faço isso, noto algo branco envolver o compartimento. Com um pulo, volto a entrar, e logo e a porta está fechada e aparafusada. Através do vidro grosso das janelas, vejo a Coisa passar em volta, procurando em vão por mim.

Joky ainda não se mexeu; então, ajoelhando-me, afrouxo o colarinho de sua camisa e borrifo um pouco da água do disjuntor no rosto dele. Enquanto estou fazendo isso, ouço Morgan gritar alguma coisa; depois ouço um grande grito, cheio de terror, e novamente aquele mórbido “Glub! Glub!”

Joky se agita desconfortavelmente, esfrega os olhos e se senta de repente.

—Aquele era o Morgan gritando?— E dá um berro.. — Onde estamos? Eu tive um sonho horrível!

Neste instante, ouvimos o som de passos correndo no convés e a voz de Morgan na porta.

—Tom, abre-!

Ele silencia abruptamente e dá um grito medonho de desespero. Então eu o ouço correr. Através da janela de vigia, vejo-o saltar para a frente e se mexer loucamente no ar. Algo parece segui-lo. Algo que parece branco sob o luar, e agarra o tornozelo direito de Morgan. Morgan fica imóvel, arranca sua faca da bainha, e esfaqueia ferozmente aquela Coisa diabólica. O monstro o solta, e em um segundo Morgan sai correndo desesperado e começa a subir nas cordas do mastaréu.

Um momento de silêncio se segue, e eu percebo que está amanhecendo. Não se ouve nenhum som, exceto pela pesada respiração ofegante da Coisa. Quando o sol nasce, a criatura se estica ao longo do convés e parece gostar do calor. Ainda não há nenhum som, nem dos marujos escondidos na frente do navio nem dos oficiais que estão atrás. Eu só posso imaginar que eles estão com medo de atrair a atenção do monstro. No entanto, depois de um tempo, ouço o tiro de uma pistola, de longe, e olhando para fora vejo a serpente erguer a cabeça enorme como se estivesse ouvindo. Quando ela se mexe, tenho uma boa visão da parte dianteira e, à luz do dia, posso ver o que a noite escondeu.

Lá, bem na boca, há um par de pequenos olhos de porco, que parecem brilhar com uma inteligência diabólica. Está balançando a cabeça lentamente de um lado para o outro; então, sem aviso, se volta rapidamente e olha bem para dentro da janela. Eu me escondo para ficar fora de vista; mas não sou rápido o bastante. Ele me viu, e encosta sua grande boca contra o vidro.

Eu prendo minha respiração. Meu Deus! E se ele quebrar o vidro!? Eu me encolho, horrorizado. Do lado de fora da janela, vem um som alto, dissonante e áspero. Eu tremo. Então me lembro de que há pequenas portas de ferro para fechar as portinholas em caso de mau tempo. Sem perder tempo, levanto-me e fecho a porta sobre a janela. Então faço o mesmo com todas as outras. Ficamos em completa escuridão, e eu digo a Joky em um sussurro para acender o lampião. Ele me obedece com alguma dificuldade.

Cerca de uma hora antes da meia-noite, adormeço. Sou despertado repentinamente algumas horas depois por um grito de agonia e um borborejar de água. Percebo um som vago de luta; então novamente vem aquele mórbido “Glub! Glub!”

Eu tento imaginar o que aconteceu. Um dos homens que se esconderam na parte da frente, saiu do castelo de proa para tentar pegar um pouco de água. Com certeza ele confiou na escuridão para esconder seus movimentos. Pobre coitado! Ele pagou por sua decisão com a vida!

Depois disso, não consigo mais dormir, embora o resto da noite passe silenciosamente. Pela manhã eu cochilo um pouco, mas acordo repetidamente, sobressaltado. Joky está dormindo tranquilamente; na verdade, ele parece esgotado pela terrível tensão das últimas vinte e quatro horas. São quase oito da manhã. Eu o chamo e tomamos um café da manhã rápido com biscoito seco e água, felizes por ter um bom suprimento. Joky parece ter voltado a si, e começa a falar um pouco – possivelmente um pouco mais alto do que seria seguro. Enquanto ele tagarelava, perguntando-se como tudo terminaria, vem um tremendo golpe contra a lateral do compartimento, fazendo-o ranger de novo. Depois disso, o Joky fica quieto. Enquanto estamos ali, não posso deixar de me perguntar o que os outros estão fazendo, e como os pobres coitados no castelo de proa estão passando, isolados e aparentemente sem água, a julgar a tragédia da noite anterior.

Ao meio-dia, ouço um forte estrondo, seguido por um tremendo berro. Depois, um estardalhaço de madeira se partindo e gritos de dor. Em vão, me pergunto o que aconteceu. Começo a raciocinar. Pelo som do tiro, devia ser algo muito mais pesado que um fuzil ou uma pistola, e a julgar pelo rugido louco da Coisa, o tiro deve ter tido algum efeito. Quanto mais penso nisso, mais me convenço de que, de alguma forma, os homens lá fora que se apossaram do pequeno canhão de sinal que carregamos, e embora eu saiba que alguns foram feridos, talvez mortos, ainda assim um sentimento de alegria toma conta de mim quando ouço os rugidos da Coisa e percebo que ela está gravemente, talvez mortalmente ferida. Depois de um tempo, no entanto, o gemido se esvai, e só consigo discernir um rugido ocasional, mais de raiva do que qualquer outra coisa.

Logo me dou conta que o navio estava inclinando-se para estibordo, e imaginei que a criatura tinha se movido. Uma grande esperança surge dentro de mim. Penso que talvez ela já tenha perdido o interesse em nós e estivesse subindo pela amurada para voltar ao mar. Por um tempo tudo fica em silêncio e minha esperança se fortalece. Me inclino e cutuco Joky, que está dormindo com a cabeça apoiada na mesa. Ele se assusta e dá um grito.

—Quieto!— sussurro com voz rouca. —Não tenho certeza, mas acho que acabou.

O rosto de Joky se ilumina de alegria, e ele me enche de perguntas, ansioso. Esperamos mais uma hora, cada vez mais esperançosos. Nossa confiança vai voltando rapidamente. Não ouvimos nenhum som, nem mesmo a respiração da Besta. Pego alguns biscoitos e Joky, depois de remexer no armário, arruma um pedacinho de carne de porco e uma garrafa de cidra. Atacamos tudo com gosto. Depois de nossa longa abstinência de comida, a refeição nos entorpece, Joky cisma de querer abrir a porta, para ter certeza de que a Coisa se foi. Não posso permitir, e lhe digo é mais seguro abrir as tampas da portinholas primeiro e dar uma olhada. Joky discorda, mas eu não cedo. Ele fica nervoso. Começo a achar que o garoto está desorientado. Então, quando me viro para desatarrachar uma das tampas, Joky investe sobre a porta. Antes que ele possa destrancar a fechadura, eu o agarro, e depois de uma curta resistência consigo levá-lo de volta até a mesa. Enquanto me esforço para acalmá-lo, percebo, vindo da direção da porta de estibordo – a mesma que Joky tentou abrir -, um ruído alto e ríspido de alguma coisa farejando, seguido imediatamente por um grunhido estrondoso e um cheiro fétido, uma baforada putrefata entra por sob a porta. Um grande tremor toma meu corpo, e se não me apoiasse no baú de ferramentas do carpinteiro, eu teria caído; Joky fica pálido e e parece violentamente afetado, tomado por um ataque desesperado de choro.

Hora após hora o tempo passa e, morto de cansaço, deito-me sobre baú sobre no qual estava sentado para tentar descansar.

Devem ser mais ou menos as duas e meia da madrugada quando, depois de um cochilo um tanto mais longo, sou repentinamente despertado por um tremendo alvoroço do lado de fora. Vozes de homens gritando, xingando, rezando. Apesar do terror evidente, as vozes parecem cada vez mais fracas; e em meio a elas ouço novamente aquele infernal “Glub! Glub!” e o urro sobrenatural da Coisa. O medo encarnado se apossa de mim e só consigo cair de joelhos e rezar. Sei exatamente o que está acontecendo.

Joky continua dormindo, pelo que sou grato.

Agora entra uma fina listra de luz sob a porta, e percebo que o dia amanheceu, e é a segunda manhã que estamos presos aqui. Deixo Joky dormir. Vou deixá-lo ter paz enquanto puder. O tempo passa, mas quase não percebo. A Coisa está quieta, provavelmente dormindo. Por volta do meio-dia eu como um biscoito e bebo um pouco da água. Joky ainda dorme. É melhor assim.

Um som quebra a quietude. O navio dá uma ligeira balançada, e sei que mais uma vez a Coisa está acordada. Se move em volta do convés, fazendo com que o navio se mexa perceptivelmente. Volta a se mover para a frente, acredito que para explorar novamente o o castelo de proa. É claro que não encontra nada, pois volta quase que imediatamente. Para por um momento perto de nosso compartimento, depois se afasta. Lá em cima, em algum lugar no cordame frontal, soa uma gargalhada selvagem e distante. O monstro para de repente. Escuto atentamente, mas não ouço nada a não ser um rangido agudo longe do compartimento, como se houvesse uma tensão no cordame.

Um minuto depois, ouço um grito encher o ar, seguido quase instantaneamente por um estrondo no convés que parece sacudir o navio. Eu espero, presa de um medo ansioso. O que está acontecendo? Os minutos passam devagar. Então vem outro grito assustado. Cessa de repente. O suspense tornou-se terrível e não posso mais suportá-lo. Com muita cautela, abro uma das tampas das escotilhas e espio. O que vejo é assustador. Lá, com sua cauda no convés e seu vasto corpo enrolado em volta do mastro principal, está o monstro, sua cabeça acima da cruzeta do mastro principal e seu grande tentáculo armado de garras balançando no ar. É a primeira visão clara que tenho da Coisa. Deus do céu! Deve pesar cem toneladas! Sabendo que terei tempo, abro a portinhola, levanto a cabeça e olho para cima. Lá, no extremo da cruzeta inferior, vejo um dos marinheiros que ainda não foram incapacitados. Mesmo daqui debaixo, posso ver o horror no rosto dele. No momento que ele me vê e dá um berro fraco e rouco, pedindo ajuda. Eu não posso fazer nada por ele. Quando olho, a grande língua do monstro sai da boca e o agarra, do mesmo modo que um cachorro pegaria um inseto da janela.

Mais alto ainda, mas felizmente fora de alcance, estão mais dois homens. Pelo que posso ver, estão amarrados ao mastro acima da vela grande. A Coisa tenta alcançá-los, mas depois de um esforço inútil para e começa a deslizar para baixo, enrolando-se no convés. É então que vejo uma grande ferida aberta em seu corpo a cerca de seis metros acima da cauda.

Eu volto meu olhar para a frente do navio. A porta da cabine foi arrancada de suas dobradiças e a antepara – que, ao contrário do convés inferior, é de madeira- está parcialmente quebrada. Com um estremecimento, compreendo qual foi a causa daqueles gritos que ouvi após o tiro de canhão. Virando, eu dou meia volta e tento ver o mastro, mas não consigo. O sol, percebo, está baixo no horizonte e a noite se aproxima. Então coloco a cabeça de volta para dentro e fecho a portinhola e a tampa.

Como isso vai terminar? Aonde é que isso vai parar?

Depois de um tempo, Joky acorda. Ele está muito inquieto, mas apesar de não ter comido nada durante o dia, não consigo fazer com que ele coma nada.

A noite vai caindo. Estamos muito cansados – muito desanimados para conversar. Eu me deito, mas não para dormir …. O tempo passa.

* * * *

Um ventilador balança violentamente em algum lugar no convés principal, e soa constantemente aquele ruído estridente e arrastado. Mais tarde, ouço o uivo agoniado de um gato, e depois tudo fica quieto. Algum tempo depois um som de esguicho. Então, por algumas horas, tudo fica tão silencioso como uma sepultura. De vez em quando, me sento no baú e presto atenção, mas nenhum ruído, por menor que seja, chega aos meus ouvidos. O silêncio é absoluto. Até o ronco monótono da engrenagem desapareceu completamente e, finalmente, uma esperança mais concreta começa a surgir dentro de mim. Aquele som de água, esse silêncio – tenho certeza que minha esperança tem fundamento. Eu não acordo o Joky dessa vez. Eu vou verificar primeiro por mim mesmo que tudo está seguro. Espero mais um pouco. Não pretendo correr riscos desnecessários. Depois de um tempo eu me esgueiro até a portinhola e escuto, mas não há som. Levanto minha mão e toco a fechadura, e novamente hesito, mas não por muito tempo. Silenciosamente, começo a desparafusar a a tranca da cobertura da portinhola. Ela se solta na dobradiça, eu abro e espio. Meu coração dispara. Tudo parece estranhamente escuro lá fora. Talvez a lua tenha se escondido atrás de uma nuvem. De repente, um raio de luar entra pela portinhola, mas logo some. Olho para fora. Algo se mexe. Novamente a luz entra, e agora sinto estar olhando para dentro uma grande caverna, no fundo da qual algo palidamente branco treme e se enrola.

Meu coração parece ter parado! É o Monstro! Apavorado, agarro a porta de ferro para fechá-la. Quando faço isso, algo atinge o vidro como um aríete, quebrando-o em pedaços, passando rapidamente por mim e entrando no compartimento. Eu grito e me afasto. Está por todos o lados. O lampião só revela seus contornos vagos. Está se enrolando e se torcendo por todo lugar. É da espessura de uma árvore e tem a pele lisa e viscosa. Na ponta há uma grande garra, como a de uma lagosta, só que mil vezes maior. Me encolho no canto, o mais longe possível.

A Coisa quebrou a caixa de ferramentas em pedaços com um clique daquela garra assustadora. Joky rasteja para debaixo de um dos beliches. A coisa vem na minha direção. Sinto uma gota de suor escorrer lentamente pelo meu rosto – tem gosto de sal. Uma morte terrível parece cada vez mais próxima… Crash! Eu caio, rolando para trás. A coisa esmaga o reservatório de água potável contra o qual eu estava apoiado e escorrego na água que se espalha pelo chão. A garra sobe, depois desce, com movimentos rápidos e incertos, atingindo o convés com um golpe seco e pesado, bem perto da minha cabeça. Joky arqueja de horror. Lentamente, a Coisa se ergue e começa a se movimentar em volta do contêiner. Ele mergulha em um dos beliches e agarra uma almofada, rasga-a ao meio e solta, seguindo em frente. Está investigando. Ao fazer isso, encontra o pedaço de almofada rasgada. Parece brincar com ele, então o agarra e o puxa pela escotilha.

Uma lufada de ar podre enche o contêiner. Com um som esganiçado, algo entra de novo pela porta – algo branco, afilado e com dentes. Para lá e para cá, ele se enrola, raspando os beliches, o teto e o convés, com um ruído como o de uma grande serra trabalhando. Duas vezes aquilo passa por acima da minha cabeça. Fecho os olhos. Então, sai novamente. O barulho agora está do lado oposto do contêiner, mais perto de Joky. De repente, o ruído áspero e rouco torna-se abafado, como se os dentes estivessem passando por alguma substância macia. Joky solta um grito horrorizado que se transforma em um som borbulhante e estridente. Abro os olhos. A ponta da grande língua está enrolada em volta de algo que escorre, depois é rapidamente retirada, permitindo que os raios da lua voltem a invadir o compartimento. Me levanto. Olhando em volta, observo de forma automática o estado destruído do compartimento- os baús e os beliches despedaçados, e …

—Joky!—grito, sentindo meu corpo formigar.

Aquela Coisa terrível se aproxima da portinhola de novo. Eu procuro por algo que possa usar como arma. Eu vou me vingar pelo Joky. Ah! Lá, logo abaixo do lampião, onde os pedaços do baú do carpinteiro estão espalhados pelo chão, há um pequeno machado. Eu pulo para frente e o agarro. É pequeno, mas tão afiado- tão afiado! Eu testo o fio de corte amorosamente. Então, volto para junto da portinhola, giro de lado e levanto minha arma. A língua enorme tateia, buscando os restos mortais. Os encontra. Então, gritando “Joky! “Joky!” eu ataco selvagemente…e de novo e de novo e de novo, ofegando enquanto golpeio; mais um golpe e a massa monstruosa cai no convés, contorcendo-se como uma enguia hedionda. Uma inundação vasta e quente entra pela vigia. Um som de aço se partindo e um enorme urro. Um canto vem aos meus ouvidos e vai ficando mais alto – mais alto. Então o contêiner fica embaçado e de repente tudo está escuro.

* * * *

Trecho do diário de bordo do vapor Hispaniola.

24 de junho. – Lat.: Long.: 11h – Barca de quatro mastros avistada a cerca de 45 graus a bombordo, emitindo sinal de alerta. Alcançada, barco enviado a bordo. Verificamos ser o Glen Doon, voltando de Melbourne para Londres. Tudo foi encontrado em péssimo estado. Convés coberto de sangue e lodo. Cabine de aço do deque afundada. Ao arrombar a porta, encontramos um jovem de cerca de dezenove anos, nos últimos estágios de inanição, e também parte do corpo de um menino de cerca de quatorze anos de idade. Havia uma grande quantidade de sangue no local e uma enorme massa enrolada de carne esbranquiçada, pesando cerca de meia tonelada, cuja extremidade parecia ter sido cortada com um instrumento afiado. A porta do castelo de proa estava aberta e pendurada em uma das dobradiças. A porta foi aberta como se algo tivesse sido forçado a passagem. Adentramos. Terrível estado de coisas, sangue em todo lugar, baús quebrados, beliches esmagados, mas nenhum homem, nem restos mortais. Ao voltar percebemos que o jovem mostrava sinais de recuperação. Quando acordou, se identificou como Thompson. Relatou que haviam sido atacados por uma enorme serpente – acreditava ser uma serpente marinha. Ele estava fraco demais para falar muito, mas nos disse que havia alguns homens no mastro principal. Mandamos um imediato subir, e ele relatou ter encontrado os homens presos no mastro principal, mortos. Passamos para a cabine. Ali, encontramos a antepara em pedaços e a porta da cabine jogada no convés perto da escotilha. O corpo do capitão estava dentro de um armário de equipamentos, mas não encontramos nenhum dos oficiais. Percebemos que havia um pequeno canhão e pedaços de sua plataforma entre os destroços . Voltamos a bordo.

O segundo imediato e mais seis homens ficaram encarregados de levar o navio de volta ao porto. Thompson está conosco. Ele escreveu sua versão do caso. Acreditamos que o estado do navio, como o encontramos, confirma em sua história todos os aspectos.

Assinado:

William Norton (Mestre). Tom Briggs (1º imediato).

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