A Missa Fúnebre- Edith Nebitt

Imagen de capa: Nico Smit

“The Mass for the Dead” foi publicado na coletânea “Grim Tales” (“Histórias sombrias”) de 1893.


Eu estava acordado, cruelmente acordado. Passei a noite toda em claro; como poderia dormir quando a mulher que eu amava ia se casar na manhã seguinte, e não seria comigo?

Me recolhi mais cedo; a alegria da família na sala de visitas estava me enlouquecendo. Reunidos ao redor da mesa redonda coberta com uma macia toalha estampada, cada um estava ocupado com alguma atividade, um livro ou jornal, mas nenhum deles estava ocupado demais para deixar de apunhalar meu coração com conversas sobre o casamento.

Éramos vizinhos da família dela, então seria de se esperar que casamento dela fosse mencionado em meu círculo.

Eles não tinham a intenção de ser cruéis; não sabiam que eu a amava; mas ela sabia. Eu tinha-lhe confessado, mas ela sabia antes mesmo disso. Ela soube desde o momento em que voltei depois de três anos estudando música na Alemanha e a encontrei no bosque onde costumávamos colher castanhas quando éramos crianças.

Olhei nos olhos dela e toda a minha alma tremia de gratidão poder viver em um mundo no qual ela existia. Caminhei ao lado dela através da densa floresta verde, e conversamos sobre os velhos tempos, e fomos de “Você se esqueceu?” em “Você se lembra?” até chegarmos ao portão do jardim da casa dela. Então eu disse:

— Adeus não… auf wiedersehn1, e em pouco tempo, espero.

E ela respondeu:

— Adeus. A propósito, você ainda não me deu os parabéns.

— Parabéns?

— Sim, eu não contei que vou me casar com o Sr. Benoliel no mês que vem?

E se virou e entrou lentamente no jardim.

Perguntei a meus familiares, e eles confirmaram que era verdade. Kate, minha querida companheira de brincadeiras, se casaria com um espanhol, rico, obstinado, acostumado a vencer, polido em maneiras, mas ignóbil em caráter. Por que ela se casaria com ele?

— Ninguém sabe,— disse meu pai, — mas o pai dela está mal falado na cidade, e Benoliel, o espanhol, é rico. Talvez seja isso.

Era isso. Ela me confessou quando, depois de duas semanas passadas com ela, implorei que terminasse uma ligação tão vil e voltasse para mim, que a amava, a quem ela amava também.

— Você está certo.— disse ela tranquilamente. Estávamos sentados no banco da janela da sala de carvalho na velha e desolada casa de seu pai. — Eu te amo, e vou me casar com o Sr. Benoliel.

— Por quê?

— Olhe ao seu redor e me pergunte o porquê, se puder.

Olhei em volta: a sala era miserável e desadornada, com tapeçarias desbotadas de algodão verde sálvia, o tapete puído, o forro das cadeiras de chita remendado e desbotado. Através da janela de caxilhos, olhei para o gramado resscado e mal-cuidado, olhei também para o seu vestido pobre, que ela, porém, envergava com a elegância que rainhas almejavam ao vestir arminho. Então, entendi.

Kate é obstinada; é seu único defeito; eu sabia o quão fútil seria minha súplica, mas ainda assim a ofereci; sabia quão vazios seriam meus argumentos, mas os apresentei; sabia quão inúteis eran meu amor e minha tristeza, e no entanto os mostrei a ela.

— Não.— ela respondeu, mas jogou os braços em volta do meu pescoço enquanto falava, e me abraçou como quem abraça um tesouro. — Não, não; você é pobre, e ele é rico. Você quer que eu parta o coração do meu pai? Ele é tão orgulhoso, e se não conseguir algum dinheiro no próximo mês, estará arruinado. Não estou enganando ninguém. O Sr. Benoliel sabe que não gosto ele; mas se nos casarmos, ele vai adiantar ao meu pai uma grande quantia em dinheiro. Ah, eu lhe asseguro que tudo foi discutido e resolvido. Não há como escapar.

— Querida, pequena!— exclamei— Como pode dizer isso com tanta calma?! Não vê que está vendendo sua alma, e jogando fora a minha também?

— Padre Fabian diz que estou fazendo o certo.— ela respondeu, abrindo as mãos, mas ainda segurando as minhas, e olhando para mim com aqueles olhos claros e cinzentos. — Devemos ser altruístas em tudo, então como podemos no amor pensar apenas em nossa própria felicidade? Eu te amo, e vou me casar com ele. Você preferiria que fosse o contrário?

— Sim, — respondi — pois se fosse esse o caso, eu faria você me amar.

— Talvez ele faça isso. — disse ela, amargamente. Até naquele momento, sua boca tremia com o fantasma de um sorriso. Ela sempre gostou de me provocar. Ela passa por mais mudanças de humor em um dia do que a maioria das outras mulheres em um ano. Afogando o sorriso, vieram as lágrimas, mas ela as controlou, e disse:

— Adeus, você entende que estou certa, não? Oh, Jasper, preferia não ter dito que te amo. Só vou fazer você mais infeliz.

— Essa é minha única felicidade, e nada pode tirar isso de mim. E essa felicidade ele nunca terá. Diga de novo que me ama!

— Eu te amo. Eu te amo! Eu te amo!

Com mais uma torrente de lágrimas e palavras amorosas e loucas nos separamos, e eu levei comigo meu coração partido, deixando que ela levasse o seu rumo a uma nova vida.

E agora ela estava para se casar no dia seguinte, e eu não conseguia dormir.

Quando a escuridão se tornou insuportável, acendi uma vela e fiquei encarando as rosas no papel de parede, ou seguindo com os olhos as linhas e curvas dos móveis pesados de mogno.

A solidez ao meu redor me oprimia. À luz mortiça, o guarda-roupa parecia uma carruagem fúnebre, e a caixa do meu violino, um caixão de criança.

Peguei um livro e li até meus olhos doerem e as letras começarem a dançar um pas fastastique2 para cima e para baixo na página.

Levantei-me e pratiquei uns dez minutos com os halteres. Lavei meu rosto e mãos com água fria e tentei dormir novamente, mas em vão. Fiquei deitado, miseravelmente acordado.

Tentei declamar poesia, uma lição meio esquecida dos meus dias de escola, mas o refrão que se repetia era:

“Kate vai se casar amanhã, e não será comigo, não comigo!”

Tentei contar até mil. Tentei imaginar ovelhas em uma estrada e contá-las enquanto saltavam por uma brecha em uma cerca imaginária, todos os truques consagrados pela tradição com os quais o sono é cortejado, em vão.

Então os vieram cantores de canções natalinas, e a tortura dos nervos somou-se à tortura do coração. Após quinze minutos de música, cada fibra do meu ser parecia vibrar em a agonia de um sofrimento físico.

Para banir o eco de “The Mistletoe Bough” 3, cantarolei suavemente para mim mesmo uma melodia de Palestrina4, e me senti mais acordado do que nunca.

Então aconteceu uma coisa para a qual jamais encontrarei uma explicação. Enquanto estava deitado, ouvi, interrompendo e gradualmente abafando minha própria canção, uma harmonia que nunca tinha ouvido antes, indescritivelmente bela, e tão clara e distinta como ouvidos humanos jamais ouviram.

Minha primeira e apressada reação foi, “mais cantores!”, mas era uma música coral, autêntica e doce; com ela se misturavam as notas de um órgão, e a cada nota a música crescia em volume. É absurdo sugerir que sonhei, pois, ainda ouvindo a música, pulei da cama e abri a janela. A música ficou mais fraca. Não havia ninguém lá em baixo, no jardim coberto de neve. Tremendo, fechei a janela. A música ficou mais distinta, e então percebi que estava ouvindo uma missa, uma missa fúnebre que eu nunca tinha ouvido antes. Deitei na cama e acompanhei todos os sons da cerimônia.

A música parou.

Eu estava sentado na cama, com uma vela acesa, mais acordado do que nunca, e mais do que nunca possuído pela lembrança dela.

Mas havia uma diferença … Antes, eu só lamentava perdê-la; agora, à minha tristeza se misturava um pavor indescritível. A sensação de morte e definhamento que acompanhou aquela estranha e bela música, invadiu todos os meus pensamentos. Minha cabeça se encheu de imagens de casas silenciosas, roupas negras e quartos nos quais flores brancas e linho branco jaziam em uma quietude mortal. Eu ouvi ecos de lágrimas e a voz suave de sinos badalando monotonamente. Tremi como se estivesse prestes a sofrer alguma tragédia irreparável, e em tal contemplação assisti o amanhecer desvanecido que lentamente ofuscava a chama pálida da minha vela, já queimada até o fim.

Senti que tinha que ver Kate mais uma vez, antes que ela se entregasse. Antes das dez da manhã, já estava em sua sala de carvalho. Ela veio até mim. Quando ela entrou na sala, sua palidez, suas pálpebras inchadas e a tristeza em seu olhar apertaram meu coração muito mais que a agonia da noite anterior. Eu literalmente não conseguia falar. Estendi-lhe as mãos.

Será que ela me repreenderia por procurá-la novamente, por forçá-la a passar pela dorada separação uma segunda vez?

Ela não fez isso. Pousando suas mãos sobre as minhas, disse:

— Eu lhe agradeço por ter vindo. Você sabe que eu acho que estou enlouquecendo? Não me deixe enlouquecer, Jasper.

A expressão em seus olhos confirmava suas palavras.

Gaguejei alguma coisa e beijei suas mãos. Estava com ela de novo, e mais uma vez alegria e tristeza entravam em conflito.

— Tenho que contar para alguém. Se eu estiver louca, não me interne. Só cuide de mim, por favor!

— Como eu não faria isso?

— Quero que entenda— continuou ela — que não foi um sonho. Eu estava bem acordada, pensando em você. Fazia pouco tempo que os cantores tinham ido embora, e eu estava olhando para um retrato seu. Eu não estava dormindo.

Eu estremeci enquanto a abraçava com força.

— Com Deus por testemunha, eu não sonhei. Eu ouvi uma missa cantada e, Jasper, era uma missa fúnebre. Eu acompanhei toda a cerimônia. Você não é católico, mas eu pensei, eu tive medo que… não sei nem o que estava pensando. Fico feliz por não ter acontecido nada com você.

Senti uma súbita certeza e uma completa sensação de poder me possuir. Agora, naquele seu momento de fraqueza, enquanto ela estava tão completamente sob a influência de tão forte emoção, eu podia e iria salvá-la de Benoliel, e salvaria também a mim mesmo de toda aquela dor.

— Kate, — eu disse — acredito que isso é um aviso. Você não pode se casar com este homem. Você deve se casar comigo, e nenhum outro.

Ela apoiou a cabeça sobre meu ombro e pareceu esquecer de seu pai e de todas as razões para o casamento com Benoliel.

— Você não acha que eu estou louca, acha? Então cuide de mim; leve-me embora; eu só me sinto segura com você.

Então, todos os obstáculos desapareceram com a celeridade do beijo de um amante. Eu não ousei parar para considerar a coincidência do aviso sobrenatural, nem o que ele poderia significar. Cara a cara com a esperança coroada, tenho orgulho de dizer que o bom senso prevaleceu. A sala em que estávamos tinha uma porta de vidro. Peguei o chapéu de jardim dela e um xale pendurado no corredor, e saímos pelo jardim branco e silencioso. Não encontramos viva alma. Quando chegamos ao jardim da casa de meu pai, eu a levei pelos fundos, para a casa de verão5, e a deixei ali, embora eu estivesse com um certo medo de deixá-la sozinha, enquanto entrei em casa. Peguei meu violino, o talão de cheques, todo meu dinheiro guardado, rabisquei um bilhete para meu pai e voltei para encontrá-la.

Ninguém nos viu.

Caminhamos até uma estação a oito quilômetros de distância; e na hora em que Benoliel chegava à igreja, eu saía da associação de advogados com uma licença especial no bolso. Duas horas depois, Kate era minha esposa, e estávamos silenciosa e tranquilamente tomando nosso café da manhã de casamento na sala de jantar do Grand Hotel.

— Para onde vamos?— Perguntei.

— Não sei. — ela respondeu sorrindo. — Você não tem muito dinheiro, tem?

— Oh, meu Deus, sim. Eu não sou rico, mas também não vamos passar nenhuma necessidade.

— Podemos ir para Devonshire?— ela perguntou, girando a nova aliança em seu dedo.

— Devonshire? Mas não é lá que…

— Sim, eu sei: Benoliel planejou viajar para lá. Jasper, eu tenho medo do Benoliel.

— Então por quê Devonshire?

— Não seja bobo. Você acha que Benoliel iria para Devonshire agora?

Fomos para Devonshire. Eu tinha recebido uma pequena herança alguns meses antes, e não permiti que preocupações com dinheiro perturbasse minha nova e bela felicidade. Meu único medo era que ela ficasse triste ao lembrar do pai; mas felizmente ela também estava feliz naqueles primeiros dias, tão feliz que parecia haver pouco espaço em sua mente para qualquer coisa além de mim. E a cada hora de cada dia eu dizia à minha alma…

“Senão fosse por aquele presságio, seja lá o que tenha sido, ela poderia não ser minha esposa, mas dele.”

Os primeiros quatro ou cinco dias do nosso casamento foram como flores que minha memória mantém sempre frescas. O rosto de Kate havia recuperado seu rubor de rosa selvagem, e ela ria, cantava e brincava, desfrutando de todas as nossas pequenas aventuras diárias com a alegria mais completa, de coração livre. Então eu cometi a imbecilidade suprema da minha vida, um daqueles atos de loucura que, ao olhar para trás nos inspira a pergunta irrespondível: “Como diabos eu posso ter sido tão tolo?”

Estávamos sentados em uma pequena sala de estar, horrível em decoração, mas redimida pelo fogo ardente na lareira e pelo fato de que estávamos juntos, sentados lado a lado, olhando para as chamas e falando sobre o futuro e nosso amor. Não havia nada para nos incomodar; ninguém havia descoberto nosso paradeiro, e o medo que minha esposa tinha da vingança de Benoliel parecia ter se dissolvido diante da chama de nossa felicidade.

E enquanto estávamos sentados ali, pacíficos e tranquilos, o capricho perverso sacudiu-me o cotovelo, infelizmente, como faz com tanta frequência, e fiquei comovido ao revelar à minha esposa que eu também tinha ouvido aquela música sobrenatural da meia-noite, que não tinha sido, como ela agora pensava, um mero pesadelo, um sonho estranho, mas sim algo mais misterioso, mais significativo. Contei a ela que ouvi a missa fúnebre, e toda a história daquela noite. Ela ouvia em silêncio, e eu a percebi estranhamente indiferente. Quando terminei, ela tirou a mão da minha e cobriu o rosto.

— Acredito que foi um aviso para fugirmos da tentação. Nunca deveríamos ter nos casado! Oh, meu pobre pai!

Nunca a tinha ouvido falar naquele tom antes. A tristeza desesperada de sua voz me chocou. E com razão. Não houve argumento, súplica ou carícia que pudessem devolver à minha esposa o humor de uma hora antes.

Ela tentou ficar alegre, mas sua alegria era forçada, e seu riso feriu meu coração.

Ela não falou mais sobre a música, e quando tentei argumentar, ela sorriu sombriamente e disse:

— Não posso ser feliz. Não serei feliz. Está errado. Tenho sido muito egoísta e perversa. Você me acha uma idiota, eu sei, mas acredito que há uma maldição sobre nós. Nunca mais seremos felizes.

— Você não me ama mais?— perguntei como um tolo

—Eu te amo.— Ela só repetiu minhas palavras, mas eu fiquei satisfeito com isso. Mas foram dias miseráveis. Nós nos amávamos apaixonadamente, mas nossas horas passavam como o tempo dos amantes na véspera da despedida. Longos silêncios ocuparam o lugar das pequenas piadas tolas e conversas infantis que só os amantes felizes conhecem. E mais de uma vez, acordei no meio da noite e ouvi minha esposa chorando e fingindo dormir, com a certeza amarga de que eu não podia confortá-la. Eu sabia que a lembrança de seu pai estava sempre com ela, e que sua preocupação com ele crescia dia após dia. Eu me cansei de tentar pensar em alguma maneira de distrair seus pensamentos. Eu não podia, de fato, pagar as dívidas dele, mas eu poderia trazê-lo para viver conosco, o que seria um sacrifício muito maior. Como tinha boas conexões, como músico e compositor, eu não duvidava que de poderia sustentar os dois com conforto.

Mas Kate havia decidido que a desgraça da falência partiria o coração de seu pai; e minha Kate não é fácil de convencer ou persuadir.

Em Torquay me ocorreu que talvez fosse bom para ela ver um padre. É verdade que o padre Fabian a aconselhou a se casar com Benoliel, mas eu não podia acreditar que a maioria dos sacerdotes aconselharia uma jovem a se casar com um homem cruel, a quem ela não amava, em troca de algum ganho mundano.

Ela recebeu a sugestão com anuência, mas sem entusiasmo, e procuramos uma igreja católica para fazer nossos questionamentos. Quando abrimos a porta externa da igreja, ouvimos música e, ao parar na entrada, coloquei uma mão sobre a pesada porta interna enquanto Kate segurava a outra.

— Jasper, ela sussurrou — é a mesma música!

Alguém abriu a porta externa e nos obrigou a seguir em frente. Logo nos vimos dentro da igreja escura, de mãos dadas sob a fraca luz do dia, ouvindo a mesma música que ambos ouviram naquela noite solitária, na véspera do nosso casamento.

Coloquei meu braço em volta da minha esposa e a puxei para perto.

— Vamos, querida, — sussurrei — é um funeral.

Ela voltou seu olhar para mim.

Tenho que ver, preciso que saber quem é. Vou enlouquecer se você me levar embora agora. Eu não posso suportar mais.

Subimos o corredor e nos colocamos o mais próximo possível do local onde o caixão jazia, coberto de flores e cercado de velas acesas. E ouvimos aquela música de novo, cada nota exatamente igual àquelas que tínhamos ouvido antes. Quando a cerimônia acabou, cochichei ao sacristão:

— De quem é essa música?

— Do nosso organista.— ele respondeu— É a primeira vez que tocamos. Bonita, não?

— Quem é o… quem foi… Quem está sendo velado?

— Um cavalheiro estrangeiro, senhor. Dizem que a noiva dele fugiu bem no dia do casamento, e depois que ele já tinha dado muito dinheiro ao pai dela; pelo menos é o que se diz por aí.

— Mas o que ele estava fazendo aqui?

— Bem, essa é a parte curiosa, senhor. Para mostrar que não se importava, o que ele faz? Justamente a mesma viagem que planejou para sua lua de mel. Então houve um acidente de trem, e ele e todos em sua carruagem morreram num piscar de olhos, por assim dizer. Sorte da jovem que fugiu com outro homem.

O sacristão riu baixinho para si mesmo.

Os dedos de Kate apertaram meu braço.

— Qual era o nome dele?— ela perguntou.

Eu não teria perguntado, eu não queria ouvir a resposta.

— Benoliel.— disse o sacristão. — Nome estranho, tanto quanto a história. Todo mundo está comentando.

E todos tiveram mais ainda o que comentar quando se descobriu que o orgulho de Benoliel, que lhe permitira comprar uma esposa, tinha sido demais para exigir de volta o dinheiro da compra quando perdeu o negócio. E para o homem que estava disposto a vender a própria filha pareceu perfeitamente natural ficar com o dinheiro.

No momento em que ouviu o nome de Benoliel dos lábios do sacristão, toda a alegria e felicidade de Kate retornaram. Ela me amava e odiava Benoliel. Ela era casada comigo, e ele estava morto; e sua morte foi um choque maior para mim do que para ela. As mulheres são curiosamente gentis e curiosamente cruéis. Ela nunca viu problema algum em seu pai ter ficado com o dinheiro. Vale ressaltar que as mulheres, mesmo as mais inteligentes e as melhores dentre elas, não têm percepção do que os homens entendem por honra.

Como posso explicar a missa fúnebre? Meu bom crítico, meu negócio é contar minha história, não explicá-la.

Se tenho pena de Benoliel? Sim. Posso me dar ao luxo, agora, de ter pena da maioria dos homens, vivos ou mortos.

Notas da Tradutora:

1“Até logo”, em alemão. Em uma tradução literal “até ver você de novo”

2O termo francês “pas” faz referência à passo ou coreografia, como vemos em “pas de deux” (“passo de dois” ou seja um dueto). Aqui, “pas fantastique” dá a idéia de uma coreografia estranha ou “fantástica”

3“The Mistletoe Bough” (“Ramo de visgo”) é uma canção natalina inspirada em uma lenda popular associada com diversas casas e mansões assombradas na Inglaterra, sobre uma noiva que se esconde em um baú durante a festa de casamento (por brincadeira ou para se afastar da festa por alguma outra razão) e acaba ficando presa e morrendo de fome e sede.

4Giovanni Pierluigi da Palestrina foi um compositor renascentista italiano, cujo trabalho foi influente no desenvolvimento da polifonia herdada da Idade Média e da música sacra.

5“Casa de verão”, or. “Summerhouse”, uma pequena estrura presente no jardim de residências abastadas, na qual os moradores podiam relaxar quando o tempo estava muito quente ou abafado.

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