Lendo “A Maldição da Mansão Bly”: Obras de Henry James que inspiraram a série da Netflix. (Parte 1)

Atenção, esse artigo contém spoilers para “A Maldição da Mansão Bly”. Tentei evitar spoilers das obras literárias discutidas.

Saudações, leitor noturno!

Se você curte histórias de terror e de fantasmas, com certeza já deve ter assistido as séries “A maldição da residência Hill” e “A maldição da mansão Bly” (se não, pare de ler esse post e vá assistir! Eu espero.). As duas séries são produto da criatividade do diretor e roteirista Mike Flanagan, que é bem conhecido entre os fãs de terror por ter dirigido filmes como “Doutor Sono” (Doctor Sleep, baseado no romance de Stephen King), “Jogo Perigoso” (Gerald’s Game, baseado em um conto de Stephen King), “Hush- A morte ouve”(Hush, com roteiro original do próprio Flanagan e da esposa, a atriz Kate Siegel) e “Ouija: a Origem do Mal” (Ouija: Origin of Evil).

“A Maldição da Residência Hill” (The Haunting of Hill House), a primeira parte de “The Haunting Anthology” ou “Antologia A Maldição” foi um grande sucesso de público e crítica, e antes mesmo de ser confirmada a continuação, muitos fãs já estavam tentando adivinhar como seria uma possível segunda temporada. Quando veio a confirmação da Netflix, Flanagan também informou aos fãs que não seria exatamente uma continuação, mas uma nova série com um conceito similar (uma adaptação livre de uma obra literária clássica do terror) e muitos dos mesmos atores, mas uma história completamente nova. Ou seja, algo parecido com o conceito da antologia American Horror Story, na qual cada temporada conta uma história fechada usando o mesmo elenco interpretando personagens diferentes.

Logo todos começaram a ser perguntar qual seria a próxima obra literária que inspiraria a imaginação de Flanagan.

Watch THE HAUNTING OF HILL HOUSE (TV) - SEASON 01 | Prime Video

“A Maldição da Residência Hill” foi inspirada no romance de Shirley Jackson The Haunting of Hill house, lançado no Brasil com o título “A assombração da casa da colina” pela editora Companhia das Letras com tradução da excelente Débora Landsberg. Mas a verdade é que a série e o livro têm muito pouco em comum. Mike Flanagan praticamente criou uma história original usando alguns elementos da narrativa de Shirley Jackson como nomes de personagens, e um ou outro acontecimento, como a escrita misteriosa na parede, a história da ‘chuva de pedras’ contada por Olívia, o cachorro ‘invisível’ e a famosa cena em que uma das protagonistas segura a mão de alguém que não está ali (Nell no livro e Theo na série). “A Maldição da Residência Hill” foi pensada muito mais como uma homenagem ao livro de Shirley Jackson do que uma adaptação propriamente dita. Flanagan inclusive deu o nome da autora para a personagem Shirley, e usou o texto de abertura do livro como texto do livro escrito por Steven.

Quando as primeiras informações sobre “A Maldição de Bly Manor” começaram a pingar nos sites de entretenimento uma coisa ficou clara para os mais conhecedores de literatura: o nome “Bly” indicava que a inspiração da vez seria o livro “A outra volta do parafuso ”( The turn of the screw) de Henry James (“A volta do parafuso” em algumas traduções), um clássico da literatura de horror (para os que ainda não leram, indico a edição da Companhia das Letras, com tradução do legendário Paulo Henriques Britto. Não, este blog não é patrocinado pela Companhia das letras, eu juro!). Os fãs logo começaram a especular sobre quais aspectos do livro Flanagan usaria em sua nova criação, e se a série seria mais uma homenagem ao texto original como sua antecessora ou se dessa vez seria uma adaptação mais “fiel”.

Estreia de The Haunting Of Bly Manor da Netflix e o que saber sobre o  acompanhamento de The Hill House | Cibersistemas.pt

“A Maldição de Bly Manor” acabou não sendo nem uma coisa nem outra: seguiu um caminho diferente de “A Maldição da Residência Hill” em termos de como usou o material original, sem ser exatamente uma adaptação no sentido clássico. O que Flanagan fez foi “brincar” com elementos de temas da obra de Henry James. Enquanto “Residência Hill” foi baseada em um único livro, e usou alguns elementos dele como inspiração para criar uma narrativa praticamente original, “Bly Manor” tirou sua inspiração de diversas obras de Henry James, usando “A outra volta do parafuso” como “espinha dorsal” e o fez com diferentes níveis e fidelidade ao material original.

Então, sem mais preâmbulos, vamos conhecer as obras de Henry James usadas para criar o universo de “A Maldição da Mansão Bly”. Hoje vamos falar de “A outra volta do parafuso” e dos contos que inspiraram os episódios 1 (“The great good place”/ “A Mansão”), 2(“The pupil”/ “As crianças”) , 3 e 7 (“The two Faces 1&2” / “Ecos do Passado” 1&2), e 4 (“The way it came” / “Perdas e culpa”).

“A outra volta do Parafuso.” (The Turn of the Screw)

A obra mais famosa de Henry James foi publicada primeiro em partes na revista Collier’s Weekly Magazine de Janeiro a Abril de 1898, e depois inteiramente na coletânea Two Magics em outubro do mesmo ano.

Primeira página de “The Turn of the Screw” na versão da Collier’s Weekly , com illustração de John LaFarge (fonte: Biblioteca Beinecke de livros raros e manuscritos- Universidade de Yale, via wikicommons)

“A outra volta do Parafuso” começa, assim como “A Maldição da Mansão Bly” com um grupo de personagens ouvindo uma história, reunidos em volta de uma lareira durante uma celebração. Mas em vez de um casamento, a cena se passa em uma reunião de amigos, na noite de Natal. Quem conta a história é Douglas, que a lê de um manuscrito que ele afirma ter recebido uma amiga, uma professora já falecida.

A professora (cujo nome não é revelado) é contratada por um rico cavalheiro para ser a governanta de seus dois sobrinhos, cujos pais morreram. O tio mora em Londres, mas as crianças, Miles e Flora, estão na casa de campo da família, Bly. A protagonista será auxiliada em sua tarefa pela Sra. Grose. Miles e Flora logo conquistam o coração da governanta e tudo parece ir bem até que a jovem começa a perceber certos aspectos estranhos do comportamento das crianças e a ver as figuras misteriosas de um homem e uma mulher que parecem estar vagando pela propriedade. Quando a Sra Grose lhe conta sobre o relacionamento trágico e escandaloso entre a governanta anterior, a Srta. Jessel e outro empregado da casa, Peter Quint, ambos já mortos, a protagonista fica convencida de que as aparições misteriosas são os fantasmas dos dois amantes, tentando possuir Miles e Flora.

“A outra volta do Parafuso” inspirou o framing device isto é a estrutura narrativa principal de “A Maldição da Mansão Bly”. A premissa da história é a mesma, mas uma vez lançado o alicerce narrativo (a governanta, a casa de campo, o tio distante, o comportamento estranho de Miles e Flora, o mistério sobre a Srta. Jessel e Peter Quint) a adaptação se fasta do original.

Capa da edição brasileira (Penguin-Compania das Letras)

No texto de Henry James há muito que fica sem revelar, e a maioria dos leitores concorda que é nisso que reside a força da história. O texto não nos dá respostas definitivas, mas nos oferece muitas pistas para que cheguemos à nossas próprias conclusões, e há várias conclusões possíveis. As perguntas que o autor nos propõe são muitas. O que realmente aconteceu entre Peter Quint e a Srta Jessel? As crianças estão possuídas ou foram traumatizadas por alguma coisa que os outros personagens não sabem (as teorias são muitas, alguns acham que Miles e Flora podem ter presenciado atos de violência de Peter contra a Srta. Jessel e outros acham até que as crianças, Miles em especial, mostram sinais de terem sido molestados por Peter)? Os fantasmas são reais ou apenas frutos da imaginação perturbada da governanta que está apegada demais às crianças? Aliás, o apego dela pelas crianças é saudável, ou ela também tem lá seus problemas emocionais? A Sra. Grose é confiável ou está alimentando a paranoia da protagonista?

“A Maldição da Mansão Bly” resolve dar suas próprias respostas para essas perguntas. Dani Clayton, a protagonista da série, ganha uma história pregressa, ao contrário da professora do livro cujo passado e o nome não são revelados. Aliás o sobrenome “Clayton” é uma homenagem a Jack Clayton, diretor do filme “Os Inocentes” (The Innocents), de 1961, até hoje considerado a melhor adaptação cinematográfica do livro (quem assistiu o filme logo reconheceu a música tema dele, “Willow Wally”, que é cantada por vários personagens em “Mansão Bly”). A série imagina em maior detalhe o relacionamento tóxico entre Peter Quint e a Srta Jessel, que recebe o nome de Rebecca (pode ser uma homenagem à autora Rebecca West, que escreveu uma biografia de Henry James). Os elementos sobrenaturais, como fantasmas e a possessão das crianças, são confirmados (o que derruba a tese de que as crianças agem de forma inadequada por terem sofrido algum tipo de abuso). O papel da Sra. Grose é muito maior e ela perde a ambiguidade moral do livro: Hannah, a Sra. Grose da série, é uma mulher leal e bondosa, enquanto a versão do livro que pode ou não ser confiável dependendo de como o leitor interpreta suas ações. O tio, que recebe o nome de Henry, em homenagem ao autor, também ganha sua própria história e deixa de ser uma figura distante e desinteressada, se tornando um homem traumatizado que ama os sobrinhos mas não sabe como cuidar deles. A série também acrescenta outros personagens com os quais a protagonista interage: o gentil Owen, o cozinheiro da mansão, e a durona Jamie, a jardineira. Finalmente, ao contrário do livro que é uma história de fantasma clássica, a série tem um forte viés romântico, que aparece em quatro histórias de história de amor diferentes: o romance não realizado de Hannah e Owen, o romance proibido de Henry e Charlotte, o romance tóxico de Rebecca e Peter e o romance trágico de Dani e Jamie. De um certo modo, “A Maldição da Mansão Bly” é quase uma fanfiction do livro de Henry James: Mike Flanagan e os roteiristas que trabalharam na série simplesmente preencheram as lacunas deixadas por Henry James e criaram uma nova história usando a estrutura do original como base para expandir a narrativa.

Então. de onde vieram as ideias que inspiraram essa expansão? Cada episódio da série tem o título de uma obra de Henry James, e cada um pega emprestado elementos dessa obra em maior ou menor medida.

File:Jacques-Emile Blanche - Henry James - Google Art Project.jpg
Henry James- Jacques Emile Blanche (1908)

Episódio 1:

“The great good Place”/ “A Mansão”

Inspirado em: “The great good place”

No primeiro episódio, Dani Clayton, uma americana que vive em Londres há seis meses, faz uma entrevista de emprego com o rico advogado Henry Wingrave, para a posição de tutora dos dois sobrinhos dele, na casa de campo da família em Bly. Os pais das crianças morreram dois anos antes, e a tutora anterior se suicidou. Por isso Henry tem muita dificuldade de encontrar alguém interessado em ocupar o cargo. Dani tem suas próprias razões para aceitar o emprego, razões que parecem ter a ver com a misteriosa aparição que a segue por todo lugar, surgindo sempre em espelhos ou outras superfícies reflexivas: a silhueta de um homem alto usando óculos que parecem brilhar. Ao chegar em Bly, Dani se encanta com as crianças e conhece os outros empregados: a governanta, Sra. Grose, o cozinheiro Owen e a jardineira, Jamie. Tudo parece “simplesmente esplêndido”, até que as crianças começam a agir de forma estranha.

Assim como Dani, o protagonista de “The great good place” quer escapar.

O protagonista do conto escrito em 1900 e publicado na revista Scribner’s Magazine, é George Dane, um escritor. Sua existência é atribulada: sua vida profissional é muito movimentada e cansativa e seus relacionamentos estão cada vez mais complicados. Tudo o que ele deseja é poder escapar para algum lugar onde possa descansar e se recuperar antes de voltar à rotina exaustiva. Depois de uma longa noite de trabalho, Dane acaba tendo seu desejo realizado: ao receber uma visita inesperada para o café da manhã, ele é transportado para o “great good place” do título, um “ótimo lugar”. Dane descreve esse lugar como uma espécie de clube ou hotel de luxo, mas a narrativa sugere que tudo pode ser um sonho ou o produto de uma experiência sobrenatural.

O que a série pegou emprestado do texto: O primeiro episódio não tira muitos detalhes do texto original, mas usa o seu tema principal: um protagonista que busca refúgio em lugar distante de sua realidade normal. Assim como George Dane, Dani (talvez a semelhança entre “Dani” e “Dane” não seja coincidência) quer escapar de seus problemas indo para um lugar no qual tudo é, aparentemente, tranquilo e confortável. A mansão Bly é descrita por Henry Wingrave como um “ótimo lugar” e ao chegar Dani encontra uma linda casa, com um belo jardim e pessoas gentis. Mas assim como no conto de Henry James, essa aparência agradável pode ser apenas uma ilusão. É importante observar no entanto, que “The Great Good Place” não é um conto de terror. A ilusão e escapismo estão relacionados com o tema do estresse do trabalho e a necessidade de descanso.

Episódio 2:

“The Pupil”/ “As crianças”

Inspirado em: “The Pupil”

No episódio 2, descobrimos porque Miles foi expulso do internato religioso onde estudava. Um flashback revela que, depois de receber uma carta da irmã, Miles começou a agir de forma estranha: primeiro se joga de uma árvore, depois agride um colega e finalmente mata o pássaro de estimação de um dos professores. O professor em questão, o padre Stack, tenta de todas as maneiras entender o que há de errado com Miles, mas não consegue fazer o garoto se abrir nem evitar que ele seja expulso. De volta ao presente, Dani decide que as crianças precisam de mais disciplina e as coloca para cuidar do jardim. Ela também começa a ficar mais próxima de Jamie. Miles, no entanto, exibe um comportamento estranhamente adulto, o que deixa Dani desconfortável. Para piorar as coisas, uma aparição misteriosa ronda a casa.

“The Pupil”, conto publicado em 1901 na revista Longman’s magazine é sobre o relacionamento entre um tutor e seu pupilo. O tutor, Pemberton, é um jovem professor recém-formado que é contratado para dar aulas particulares para um menino de onze anos chamado Morgan Moreen. O menino é inteligente, mas seus pais são um par de golpistas que se recusam a pagar Pemberton por seus serviços e vivem de dar pequenos golpes, os outros filhos do casal não são muito melhores que os pais. Pemberton logo começa a detestar a família toda menos o jovem Morgan, que não tem as tendências desonestas dos pais. Os dois ficam amigos e Morgan aconselha o professor a se afastar de sua família, mas Pemberton se recusar a deixar Morgan à mercê dos pais. Quando finalmente encontra outro emprego, Pemberton recebe um telegrama avisando que Morgan está doente.

O que a série pegou emprestado do texto: O episódio 2 pega muito pouco emprestado do texto de Henry James além do título. Talvez o principal elemento em comum seja relacionamento entre uma criança e um adulto que tenta ajudá-la. Nesse episódio, Dani começa a perceber que há algo de errado com Miles. Miles, assim como Morgan, é um menino inteligente e bom, preso em uma situação criada pelo egoísmo dos adultos ao seu redor. Pemberton é o único adulto que se importa com Morgan, e tenta ficar ao seu lado, por mais que Morgan tente fazer com que ele se afaste. Assim como Dani, o padre Stack, o professor de Miles, tenta de todas as maneiras possíveis entender qual é o problema do garoto para conseguir ajudá-lo, mas Miles rejeita a ajuda. De resto, as duas narrativas são completamente diferentes. Dani vai acabar sendo tão importante para Miles e Flora quanto Pemberton é para Morgan, mas nesse episódio ela ainda está começando a se apegar às crianças e, ao contrário de Pemberton, não tem ideia da gravidade da situação de Miles. Quanto ao padre Stack, ele é um personagem secundário que aparece em apenas algumas cenas, e só serve como ferramenta narrativa para que a audiência saiba o que aconteceu com Miles no internato (uma pergunta que “A outra volta do parafuso não responde). Ele acaba não tendo nenhuma influência na história, e some da narrativa assim que Miles é expulso. Pemberton, ao contrário, se torna uma quase o centro da vida de Morgan, tanto que alguns críticos e leitores de “The Pupil” acreditam que a história tenha um subtexto sexual (o que não é confirmado por nenhum indício óbvio do texto).

Episódios 3 e 7:

“The Two Faces 1 & 2” / “Ecos do Passado 1 & 2”

Inspirado em: “The Two Faces”

Os episódios 3 e 7 da série tem como foco o relacionamento entre Peter e Rebecca. O episódio 3 revela, por meio de flashbacks, como Rebecca Jessel, uma jovem brilhante, formada em direito, foi contratada para trabalhar em Bly. Henry, deprimido e bebendo sem parar, deixa a contratação a cargo de seu assistente, Peter Quint, que contrata a moça mais por estar interessado nela do que pelas suas qualificações. Rebecca se sente frustrada pois sua condição de mulher a impede de avançar em sua carreira na advocacia: seu plano é conseguir o emprego de governanta em Bly e assim mostrar sua competência a Henry Wingrave, e talvez conseguir a ajuda profissional dele. Peter e Rebecca se sentem atraídos um pelo outro imediatamente, mas o que os une realmente é a frustração de saberem que na sociedade profundamente classista e elitista da Inglaterra nenhum dos dois é visto por suas competências e talentos. No entanto, o relacionamento dos dois logo vai se tornando abusivo devido ao caráter manipulador e possessivo de Peter. No presente, Dani e os demais ocupantes de Bly começam a suspeitar que Peter (que roubou muito dinheiro de Henry e sumiu, fazendo com que Rebecca se suicidasse) é o homem que anda se esgueirando pela propriedade, e se perguntam se ele sabe que Rebecca está morta.

No episódio 7 descobrimos o que realmente aconteceu com Rebecca. Ela não se suicidou: o fantasma de Peter a manipulou para concordar com um plano que deveria fazer com que os dois ficassem juntos: ela deveria morrer também, e os dois possuiriam os corpos de Miles e Flora. Nesse episódio descobrimos que Peter e Rebecca vinham possuindo Miles e Flora há algum tempo, e que agora pretendem ocupar os corpos das crianças em definitivo.

O conto “The two faces” também tem como protagonistas um homem e uma mulher envolvidos em uma relação tóxica, complicada pelos códigos e regras da alta classe Inglesa.

“The Two Faces” foi publicado pela primeira vez em 1900, na revista Harper’s Bazar. A história começa com a Sra. Grantham, uma charmosa socialite, recebendo um admirador, o Sr. Sutton. O encontro é interrompido pela visita de Lord Gwynther, com quem a Sra Grantham teve um relacionamento no passado. Lord Gwynter veio anunciar seu recente casamento com uma jovem de origem russa, Valda, e pedir à Sra. Grantham que a apresente à alta sociedade de Londres. A Sra. Grantham desconfia dos motivos de Lord Gwynter, mas, para a surpresa de todos, concorda. O arranjo acaba se tornando a portunidade perfeita para que a ela se vingue do ex.

O que a série pegou emprestado do texto: As narrativas são completamente diferentes, mas tem dois temas em comum: a reflexão sobre a questão de classe na Inglaterra e a narrativa de um relacionamento obsessivo. Na série, apesar de ficarem atraídos um pelo outro quase a primeira vista, Rebecca e Peter só começam a se envolver quando percebem que tem algo em comum: se sentem rejeitados pela elite na qual tentam ingressar. Rebecca é uma jovem mulher negra, e por mais brilhante e capacitada que seja não consegue ser levada à sério como advogada e sofre constantes assédios. Já Peter, é um escocês de origem humilde, que trabalha como assistente de Henry Wingrave, mas não vê perspectivas de vir a ser mais do que isso, já que a alta sociedade londrina tende a favorecer seus próprios membros. O relacionamento de Peter e Rebecca é abusivo e tóxico em parte porque os dois deixam que as suas frustrações o amarrem um ao outro: Peter é possessivo com Rebecca pois se sente inseguro e desvalorizado pelo mundo ao seu redor e Rebecca é emocionalmente dependente de Peter pois acha que ele é o único que a entende e valoriza.

Em “The Two Faces” os personagens principais são justamente membros da alta sociedade inglesa fechada e classista dos anos de 1900s, que não mudou muito nos anos 1980 quando segue negando acesso a qualquer pessoa de fora, como Peter e Rebecca. A Sra. Grantham é uma socialite vingativa, que usa sua influência e seu domínio sobre assuntos relacionados à moda e etiqueta como armas para atacar uma pessoa que nunca lhe fez mal, apenas para atingir Lord Gwynter. Gwynter, por sua vez, parece sentir prazer em provocar a ex: depois de abandoná-la, ele não vê nada de errado em pedir a ajuda dela para apresentar a nova esposa à alta sociedade londrina. Grantham e Gwynter claramente tem assuntos não resolvidos, mas a verdadeira vítima do relacionamento dos dois é Valda, a esposa de Gwynter, uma moça inocente que não faz parte deste círculo da alta sociedade e não domina suas regras. O Sr. Sutton, que começa a história como um admirador da Sra. Grantham logo percebe, para o seu desgosto, que a mulher por quem está atraído tem “duas faces”, isto é, por fora ela é uma bela e charmosa socialite, mas por dentro é uma pessoa mesquinha e vingativa. Assim como a Sra Grantham, Peter Quint tem duas faces: ele se apresenta como um homem charmoso, inteligente e compreensivo para conquistar o coração de Rebecca, mas que na verdade é ressentido, violento e desonesto.

Episódio 4:

“The Way it Came”/ “Perdas e culpas”

Inspirado em: “The way it came” (depois re-intitulado: “The friends of friends”)

Neste episódio finalmente é revelada a origem da misteriosa aparição que assombra Dani. Em um flashback descobrimos que Dani já foi noiva de um amigo de infância, Edmund. Os preparativos para o casamento estão a todo vapor, mas Dani não está feliz. Ela tem muito carinho por Edmund, e se dá bem com a família dele, mas a verdade é que Dani é lésbica, e só concordou com o casamento por se sentir pressionada. Quando ela finalmente toma coragem para abrir o jogo com o noivo, Edmund fica tão transtornado que acaba atravessando a rua sem olhar e morre atropelado. De volta ao presente, é o dia do enterro da mãe de Owen. Dani, Jamie e Hannah se unem para apoiar o amigo e relembrar seus entes queridos que já partiram, ao redor de uma fogueira, bebendo vinho. Dani e Jamie ensaiam começar um relacionamento, enquanto Miles e Flora vigiam o fantasma que vaga pela casa à noite.

“The Way it came” foi publicado na revista Chapman’s Magazine of fiction em 1896, e teve o título mudado para “The friends of friends” em sua publicação posterior, em 1909. A história começa com o editor de uma revista avaliando a autenticidade de alguns documentos e um fragmento de um diário para possível publicação. O texto não tem data, nem menciona os nomes dos envolvidos. A autora do diário relata a correspondência com um amigo que lhe conta que teve uma visão da mãe no momento em que ela morreu. A mesma coisa aconteceu com uma amiga da autora: ela teve uma visão do próprio pai quando ele morreu. Mais curiosamente ainda, além de compartilharem experiências psíquicas similares, os dois também tem muito em comum, desde traços de personalidade e gostos parecidos até a mesma relutância em ser fotografados.

Depois de anos de amizade, a autora do diário aceita a proposta de casamento do amigo e insiste que ele se deixe fotografar. A amiga da autora (a mesma que teve a visão do pai falecido), ao ver a foto do noivo, fica interessada em conhecer o rapaz, já que ambos tiveram experiências sobrenaturais parecidas. A autora do diário marca um encontro com o noivo para apresentá-lo à amiga, mas acaba desmarcando por ciúmes. A história tem uma reviravolta quando a amiga da autora morre subitamente, e o noivo tem uma visão dela no meio da noite, sem que os dois tenham sequer chegado a se conhecer.

O que a série pegou emprestado do texto: Ao contrário dos contos que vimos até aqui, “The way it came” é uma história de fantasmas. O casal de protagonistas se une por diversas características em comum, entre as quais está um interesse pelo sobrenatural. O sobrenatural forma também a conexão entre dois personagens que não se conhecem, o noivo e a amiga da protagonista. Ambos tiveram visões de entes queridos mortos. Essa coincidência acaba sendo o catalisador para os problemas no relacionamento do casal, quando o noivo tem uma visão da amiga morta que nunca chegou a conhecer.

Na série, Dani também é assombrada por visões do noivo, Edmund. As aparições de Edmund o mostram como Dani o viu na hora de sua morte, com os óculos refletindo a luz dos faróis do caminhão que o atropelou. Da mesma forma, os personagens do conto também tem visões de seus entes queridos exatamente no momento em que eles morreram. O conflito principal do conto está na ideia de que na hora da morte, a alma visita alguém por uma razão. A autora do diário é assombrada não propriamente por um fantasma, mas por aquilo que a visão do fantasma pode representar. Muitos espectadores ficaram em dúvida se a aparição de Edmund é mesmo um fantasma ou apenas fruto da imaginação de Dani. A série parece insinuar que o espectro de Edmund é uma manifestação da culpa de Dani, que acredita ter contribuído com a morte do noivo. Aliás as visões se intensificam quando Dani começa a se envolver com Jamie, o que nos dá uma clara indicação de que o problema não é a assombração em si, mas a dificuldade de Dani de lidar com sua sexualidade e com a morte de Edmund. Ao se aceitar e aceitar o amor de Jamie, Dani faz aquilo que a protagonista do conto não consegue: ela impede que a aparição controle sua vida.

Esta foi a parte 1 de “Lendo A Maldição da Mansão Bly”. Na parte 2 vamos conhecer as obras que inspiraram os episódios 5 (“The Altar of the Dead”/ “O Altar dos Mortos”), 6 (Cantos Secretos/ The Jolly Corner), 8 (The Romance of Certain Old Clothes” / “Roupas e joias”) e 9 (“The Beast in the Jungle” / “A Fera na Selva”

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