8 Livros assustadores para ler no Mês da Mulher !

Imagem de capa: Aliis Sinisalu

Saudações, leitor noturno!

No ano passado fizemos duas compilações de autoras de terror e horror para celebrar o mês da mulher, então é claro que esse ano também temos mais uma lista de leitura especial!

Já falamos bastante aqui no blog sobre a importância da voz feminina na literatura de terror, e eu já traduzi vários contos de autoras não tão famosas, mas que absolutamente merecem um lugar em qualquer biblioteca de terror, horror ou literatura fantástica que se preze. O terror feminino tem suas características bem específicas, muito do medo e do horror evocado por esta perspectiva tem a ver com o corpo feminino e os mecanismos de controle social que agem sobre ele, a necessidade de conquista um lugar no mundo e a vulnerabilidade do eu feminino em um mundo dominado pelo masculino. A voz feminina vai desde o horror visceral até o psicológico e o sobrenatural, sempre passando pelas inquietudes e desconfortos do ser mulher. Por isso escolhi para essa lista livros escritos por mulheres, nos quais são abordados temas vinculados ao gênero e à identidade feminina.

O Papel de Parede Amarelo e Outras Histórias- Chalotte Perkins Gilman (Tradução:: Martha Argel)

Sim, eu já recomendei “O Papel de Parede Amarelo” na nossa primeira lista de autoras, mas nenhuma lista de livros de terror femininos está completa sem este clássico. O feminismo de Charlote Perkins Gilman está no âmago desta narrativa, escrita em resposta à prática, comum na época, da cura pelo “descanso”. Essa “cura” partia do princípio de que mulheres teriam uma tendência “natural” ao descontrole emocional, e que portanto tinham que ser impedidas de pensar, escrever, ou criar. Em suma, mulheres tinham que ser cabecinhas vazias de pensamentos complexos, dedicadas apenas aos interesses “naturais” da maternidade e da vida doméstica. Charlotte Perkins Gilman foi submetida a esse “tratamento” quando sofreu de depressão pós parto e, em suas próprias palavras, “quase enlouqueceu. Em o “O Papel de Parede Amarelo” ela usa essa experiência para narrar o brutal colapso mental sofrido pela protagonista, causado pela cura pelo “descanso”, aplicada pelo marido.

O Corpo Dela e Outras Farras-Carmen Maria Machado. (Tradução: Gabriel Oliva Brum)

O ser mulher está intrinsecamente ligado ao corpo, ao lugar que o corpo ocupa e também às exigências feitas sobre o corpo. O corpo feminino é socialmente controlado em todos os seus detalhes: depilar ou não depilar, parto normal ou cesariana, legalizar o aborto ou não, qual é o peso ideal, o cabelo adequado, a maquiagem correta etc. Mais cruel ainda, quando é violentado, seja pela violência doméstica ou sexual, o corpo feminino continua a ser ‘interrogado’: como estava vestida, por onde estava andando, o que estava fazendo para “merecer” o que aconteceu? A sociedade debate, escrutiniza, controla e legisla sobre o corpo feminino de uma maneira que não faz sobre o masculino. Em “O Corpo dela e outras farras” Carmen Maria Machado explora justamente estes horrores corporais, viscerais aos quais a a mulher se encontra exposta: violência obstétrica, estupro, a dificuldade de aceitação do próprio corpo. Mas a autora o faz de uma maneira onírica, quase surreal e, por isso mesmo, profundamente inquietante.

O Silêncio da Casa Fria- Laura Purcell (Tradução: Camila Fernandes)

Apesar de a Literatura Gótica, por definição técnica, ser um movimento literário da virada do século XVIII até meados do século XIX, o estilo de Laura Purcell não pode ser definido de outra maneira senão: Gótico, no sentido mais puro da palavra. Com uma prosa elegante e intimista ela conta a história de Elsie: viúva e grávida, que se vê sozinha na casa de campo da família do falecido marido, cercada de pessoas estranhas e separada de seu único parente, o irmão, que ficou em Londres para cuidar dos negócios da família. Sozinha com a cunhada e os empregados, a sanidade de Elsie parece ameaçada pelos segredos contidos em um antigo diário e em misteriosas pinturas em madeira que parecem ter vida própria. Purcell usa elementos clássicos de uma narrativa gótica, uma casa isolada, uma protagonista vulnerável e eventos sobrenaturais intimamente conectados com segredos familiares, mas sua história também tem temas que, com certeza, são familiares para qualquer mulher moderna: conciliar a maternidade com o desejo de independência, lutar para se ouvida e respeitada, e ser forçada a um papel de coadjuvante da própria vida, enquanto outros tomam as decisões.

O Historiador- Elizabeth Kostova (Tradução: Maria Luiza Newlands)

O título original de “O Historiador” não se presta a uma tradução que faça juz ao conteúdo. “The Historian” é um título sem gênero, que poderia ser traduzido tanto como “O Historiador” quanto “A HistoriadorA”. Isso porque o romance de Elizabeth Kostova segue os passos não de um, mas de três historiadores diferentes. A narradora do fio principal é uma historiadora que, na infância encontra um livro antigo com uma gravura de dragão, associada a Vlad Tepes, a inspiração histórica do Conde Drácula. Este livro foi encontrado por seu pai, Paul, também historiador, quando investigava o misterioso desaparecimento de seu professor, Rossi. Em busca dos segredos que seu pai parece esconder, a protagonista vai aos poucos, descobrindo uma trama sinistra que se desenrola ao logo de anos, passando por diversos países, enquanto três gerações de historiadores, suas famílias e amores são envolvidos em um mesmo mistério: a identidade do verdadeiro Drácula.

Cantigas no Escuro- Laura Pohl (org.)

Existe algo de vagamente sombrio em contos e cantigas infantis. Provavelmente porque muitos deles são frutos de períodos históricos em que a infância era mais curta, mais difícil e menos protegida, mais exposta a realidades duras da vida como a doença, a morte e a violência. Não é a toa que as versões originais dos contos de fadas mais populares são muitas vezes bem tenebrosas. Mas nesta coletânea escrita por diversas autoras brasileiras e organizada por Laura Pohl, o interesse não está em buscar as origens obscuras das cantigas populares, e sim ressignificá-las através de um olhar feminino. Cantigas de roda e de ninar ganham, nas mãos dessas talentosas escritoras, versões arrepiantes. Mistérios enterrados, obsessões amorosas, violência, assombrações, casas mal-assombradas, e muitos outros assombros aparecem página após página, dando roupagem nova a canções que sempre nos pareceram tão inocentes. Com ilustrações do talentosíssimo Dante Luiz

Ânsia Eterna-Júlia Lopes de Almeida

Júlia Lopes de Almeida foi um dos maiores nomes da literatura brasileira mas infelizmente não tem o reconhecimento que merece. Escritora, cronista, teatróloga abolicionista e uma das mentes idealizadoras da Academia Brasileira de Letras (onde nunca teve uma cadeira, por ser mulher), Júlia Lopes de Almeida foi um gigante da cultura brasileira não só como escritora, mas como figura histórica. Sua carreira já seria um desafio às convenções sociais arcaicas do Brasil de fins do século XIX e início do século XX apenas pelo fato de ela ter sido uma mulher que ousou escrever. Mas Julia Lopes de Almeida ousou mais ainda, adotando um estilo realista, direto que colocava o dedo na ferida das desigualdades sociais, da psicologia dos personagens, da dita “realidade nua e crua”. “Ânsia Eterna”, inspirada na obra do francês Guy de Maupassant, outro mestre do horror, é uma coletânea de contos na qual a autora se aproxima do fantástico, tecendo narrativas insólitas e grotescas, mas sempre com o fio condutor de um realismo mordaz, no qual transparece a inquietude da condição feminina em sua época. Leia a edição da Biblioteca do Senado gratuitamente AQUI

Contos Completos (Coleção Mulheres Modernistas)- Flannery O´Connor (Tradução: Leonardo Froés)

Flannery O’Connor é um dos maiores nomes de um gênero literário tão específico quanto aterrorizante: o Southern Gothic (algo como “Gótico Sulista”). Esse gênero nascido, como o nome indica, no Sul dos EUA, tira inspiração de elementos sócio históricos específicos da região, como as consequências sociais da escravidão rural e das leis de segregação racial, do colapso econômico decorrido da guerra civil, do conservadorismo religioso cristão e do folclore e crendices populares. O trabalho de Flannery O’Connor é Southern Gothic por excelência: cheio de cidadezinhas interioranas sinistras, paisagens decadentes personagens grotescos, situações tensas ou absurdas, marcadas pela desigualdade, violência e racismo. Flannery O´Connor também era católica, uma minoria religiosa no Sul majoritariamente protestante, e sua identidade ‘outsider‘ transparece em sua literatura seca, sarcástica, na qual temas delicados como racismo, sexualidade e preconceito são explorados sem floreios.

The Five: A História não-contada da mulheres assassinadas por Jack, o estripador.(Tradução: Carolina Caires Coelho)

Quando pensamos em serial killers, sempre há alguns nomes que vem à mente imediatamente. Ted Bundy, Ed Gein, Jeffrey Dahmer, o Maníaco do Parque, Jack o Estripador. Mas quase nunca nos lembramos dos nomes de suas vítimas. Em parte isso é por causa do fascínio que a figura do assassino em série exerce em nossa curiosidade; queremos saber por que fazem o que fazem, queremos entender. Mas outra razão é mais simples: as vítimas são pessoas comuns, ligadas entre si que por uma razão aleatória (estavam no lugar errado, tinham uma característica física em comum,) acabaram mortas, enquanto, geralmente, o assassino está vivo e é ele o elo que as liga. Assassinos em série também tem a tendência a escolher vítimas com as quais a sociedade não se importa muito, vítimas invisíveis: prostitutas, moradores de rua, minorias. Na biografia “Five” Hallie Rubenhold volta sua atenção para as vítimas, dando-lhes uma voz e uma história. Cada uma das mulheres mortas por Jack o Estripador era uma pessoa, com amigos, família, sonhos, desejos, nomes e personalidades. Com delicadeza e respeito, este livro devolve a individualidade a estas mulheres que a crônica criminal reduziu apenas a “prostitutas” e “vítimas”.

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